Não
me atrapalhei. Minha mãe de certeza cozia a galinha na panela de pressão, via-a
a toda a hora sobre o fogão a resfolegar caracóis de nuvens e em digna fervura
interior. Tirei-a do armário, parti a galinha com uma dificuldade emérita e
merecedora de filme e ajeitei-a no recipiente. A impar de orgulho palerma por
ter conseguido. Deitei água sem saber até onde. Neste ponto, julguei
conveniente ouvir opinião abalizada e chamei a minha irmã de nove anos – o mais
abalizado que existia. À vista do que conseguira perguntei, “o que é que a mãe
põe na canja?”. E ela bem mais atenta que eu, “parece que primeiro a mãe coze a
galinha e depois tira-a e faz a canja com a água”. Dei graças aos céus pela
mana sorrateira e tão observadora. Quinze anos de canjas e fui ultrapassada à
campeão. Levei tudo a lume e, desconfiada de mim, cirandei incertezas pelas
imediações da panela ainda assim não silvasse como de costume, a recear
rebentamentos, imaginando um vesúvio a atirar com os bocados do bicho para o
espaço. Ou qualquer outro inesperado drama. Minha irmã, que se entretinha na
rua com a mais nova, ia-me espreitando a preocupação. Entrementes, o bebé caía,
enchia a boca de terra, chorava e clamava por colo. Um arraial. Enfim, a panela
começou a encaracolar vapor e respirei. Tudo normal. As manas brincavam também
com mais descanso. E podia dar colo ao garoto.
Não sei bem como, mas cozi a galinha. Retirei
a carne e chamei a conselheira, “e agora?” Ela, “agora pões a massa, mas não
sei quanta”. E eu deitei a massa sem ideia de quantidades e voltei, “a mãe põe
mais alguma coisa?” Ela a pensar, “acho que põe cebola”. E eu, “vai lá buscar
uma cebola”. E ela ainda, “se calhar também põe salsa”. Eu, “vai apanhar um
raminho de salsa”. Como não lembrasse mais nada (felizmente para a
canja), liguei de novo o fogão. Enquanto cozia, provei-a e provei-a. Acredite-se ou não, saiu normal. Foi, metafórica
e literalmente, muito suada.
E, por via de uma canja, me exilei da doçura fofa que me existia no suave país dos bolos.