segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

À Luz

A caminhada virou moda. Há a caminhada do coração, do cancro da mama e do corpo todo, dos deficientes, dos jovens, dos idosos e sei lá que mais. São para todos os gostos, diurnas, nocturnas, só de tarde  e só de manhã. E há as caminheiras não oficiais: assíduas, entrosadas em grupos infatigáveis, repetem-se diárias e são ponteiros de relógio à minha janela infalível. Emprestam movimento e conversedo a caminhos e bermas de rua usualmente desertos, que no século XXI desaprendemos de andar a pé e imagino mesmo que ninguém gaste as solas dos sapatos o que a bem dizer nem é mal, já que nenhum sapateiro tem umas meias solas de jeito para oferecer. A única coisa que podem fazer se algum andarilho maluco lhes pede meias solas é sorrir complacentes enquanto puxam do arremedo plástico comprado em série e pronto à colagem.

O panorama de andarilhos em grupo não me motiva. E por qualquer razão de saúde que abandono ao secreto discernimento médico, também não me convém andar muito. Por vezes, que não são muitas vezes, dou uma volta pequena e sempre a mesma. Não é um percurso bonito, é apenas útil e serve os intuitos. Cada um escolhe a diversidade que deseja dentro do tempo que tudo muda. Eu prefiro calibrar as mudanças das estações nas mesmas coisas e pessoas, assinalar o que o homem transformou aqui e ali, absorver as mudanças de luz em objectos e paisagens de hábito. E enquanto isto, o pensamento é folha na brisa, ondula sem rumo fixo. Gosto de ignorar nomes e apelidos, mas conhecer a gente que me cruza e saber a que casa pertence, antecipar quantos cães correm soltos em cada quinta e me acompanham ao longo do muro em alegre ladrido (não tão contentes como eu deles, só que não ladro). É bom pensar com o ar fresco a fazer viva a pele do corpo e nós deliciados, olha, afinal ainda a sinto como dantes. Coisas deste teor não se fazem em companhia. E talvez nem haja palavras para descrever o meu  barro poroso e aberto à frescura da água. 

3 comentários:

  1. Bea a questão é que caminhar é mesmo salutar por isso que cada um caminhe no seu jeito ... no seu tempo e no seu gosto!
    bj e gostei da pertinência da escolha

    ResponderEliminar
  2. Bea a questão é que caminhar é mesmo salutar por isso que cada um caminhe no seu jeito ... no seu tempo e no seu gosto!
    bj e gostei da pertinência da escolha

    ResponderEliminar