As mudanças a que a vida me sujeitou trouxeram
novos temores e depressa desalojaram preocupações e prazeres antigos. A vida na
aldeia era desejo nevoento e só a incessante
noite desabava em mistério e a recapitulava como oásis familiar onde sabia os
lugares de cada coisa e confiava em cheiros e costumes. A princípio, à vista
das peças de lingerie, impava de gratidão pela mãe de Teresa. Mas logo a memória era invadida pelas peripécias que originara e me despertavam uma confusão de sentimentos. Porém, rodeada de dificuldades e incógnitos,
depressa a devolvia ao anonimato. Contudo, os saiotes deixaram má lembrança. Na estreia, o embonecado da saia foi
motivo de troça, olha a bebé, que pascácia, queres a chupeta; e mais dichotes que
me esfanicaram a vaidade e rasaram os olhos. Num ápice, mudei o gosto e
reneguei os malditos e entesados saiotes. O gosto também se educa, por vezes com
dor.
Aos
domingos deitava um soslaio à vizinhança, mas nem sinal de vida por aquelas
bandas, a porta sempre fechada. Inquirida, Liu contou que, por sua sugestão, a
mãe de Teresa acompanhava o caixeiro-viajante na venda. Corriam montes e herdades,
lugares solitários e longe de tudo onde havia sempre alguma falta. Eu imaginava o calor que entrava pelos vidros descidos do carro que marchava dificultoso por caminhos de terra pisoteados de burros e mulas, o rodado das carroças fazendo cama aos pneus. O cheiro a terra suada e palhas secas invadia o automóvel e o pó dos caminhos entranhava no suor que lhes descia pelo rosto corado, uma desordem fotográfica a bailar nos cabelos dela que escapavam dos ganchos. Vendiam
muito. A mulher tinha lábia e queda para o negócio, era a única família que não
devia ao merceeiro.
Teresa ficava por casa sem ordem de brincar na rua. Na
posse destas informações, punhamo-nos diante da porta e gritávamos por ela. Ouvíamos
um banco a arrastar e, logo, logo, o rosto amarelento e tristinho da garota enchia
o postigo. Acenávamos as três. Seguindo a recomendação materna, e sem que
tivéssemos aberto a boca - suponho que por medo de deixar-se convencer -, desfechava,
não posso ir brincar nem abrir a porta. Enquanto ela desaparecia e repetia o
arrastar do banco, Liu contava-me cheia de má vontade contra a filha do
Pelinhos que a garota fazia a limpeza enquanto mãe e padrinho estavam fora. E
repontava séria, cuspindo as palavras, é criada deles, estás a ver. Era também A
Liu que ficava de atalaia, atenta a desacatos; a filha do Pelinhos continuava mão leve e
molhava a sopa na panela, mas o aviso de ti Casimira talvez a moderasse, não
abusava. Em compensação, mesmo ao lado, Zefa do Prado lacrimejava crocodilos,
coitadinha, todo o dia presa em casa e ai dela se não fizer o que a mãe quer
e como quer. Onde é que já se viu, a criança nem sai à rua. E acrescentava atezanando
curiosidades, eu é que sei o que oiço, é que nem durmo. E então com ele, nem é bom falar. Mas desta boca não sai nada.
Cala-te boca - comandava peremptória.
Entretanto,
eu ia e vinha. Semana atrás de semana. Nas férias, o prazer de curtir a aldeia invadia-me. Estar com
minha avó que ia encurvando, mas se mantinha uma velha rija; rever amigos que
tinham crescido tanto ou mais que eu; conversar com a Liu, brincarmos a atirar
o ringue que madrinha Felícia me oferecera, olharmos para os rapazes e eles para nós,
mirarmos o corpo uma da outra, cheias de risinhos palermas que mal disfarçavam o desconcerto da mudança, e avaliando
qual de nós se adiantava na puberdade e início de adolescência.
Encarreirei nos estudos e Liu saiu da escola e
tornou-se aprendiz na costura de dona Felisberta. Teresa cresceu quase repentina e deveio uma menina-senhora
de quem minha avó comentara toda sorrisos com tia Dorinda, já pinta, e eu atónita
e pensando que nunca lhe vira jeito para o desenho. Entretanto, e para minha surpresa, a garota abandonou a
aldeia e foi viver com o pai que, dizia-se, casara bem e de
papel passado, estabelecendo-se por conta própria. A filha do Pelinhos garantia
a quem a quisesse ouvir que Teresa estudava por lá, o pai não tinha mais filhos
e fazia gosto em educá-la. O padrinho, sempre carinhoso, visitava-a amiúde nas
suas viagens e trazia boas novas, estava mais crescida, enformara, nem parecia a mesma.
Com o rodar das estações, Teresa e o
casal que aos domingos rumava por todo o montareco, percorrendo quilómetros
para mostrar as novidades e arrecadar uns cobres, deixaram de ser assunto. Pacificada,
a aldeia pôs em suspenso as diferenças da filha do Pelinhos e as mulheres,
magnânimas, começaram mesmo a comprar pequenos nadas ao caixeiro viajante que
nessa altura já tinha sido adoptado e respondia por "o Chico da carrinha".