sexta-feira, 18 de junho de 2021

Indelével

 

 

Olha, filho, talvez eu ainda não to tenha dito. Ou terei, mas por outras vias. A gente diz tão pouco o que nos arredonda o gosto. Também não és de muito verbo. Mas dedicas-me um amor atento. E ages em consonância. As tuas pequenas atenções alegram o meu coração desabituado e enchem-me de orgulho. Contente, noto a genuína preocupação, o cuidado que pões a meu serviço. E estremeço-te orgulhosa. Não por gostares de mim, os filhos, em geral, gostam das mães. O que me fascina é a forma como o fazes, em simultâneo delicada e muito presente. O jeito que tens para saberes dos meus gostos, a selecção que me fazes de filmes e séries onde apontas as que mais me agradam e as que não me fazem o género.

 Visitar-te, torna-me outra pessoa. Também tua mãe. Não adormeço a pensar nas refeições do dia seguinte, na roupa, nas flores que tenho de regar, nas compras, nos pequenos enleios que atam e encarreiram a vida. Em tua casa não suspiro.  Gosto quando fico para dormir. Não porque durma extraordinariamente, os meus sonos perderam todo o glamour, mas porque jantamos, conversamos, vemos tv, por vezes revês comigo o primeiro episódio de uma série que recomendas. E, num quarto de outra casa, repito, sou outra pessoa, uma mulher incógnita que no dia seguinte ainda não pensa em compromissos.  Depois, em tua casa há música e, tanta vez, ma dás a conhecer, julgas que goste. Aprecio ouvir-te contar o que visitaste, que filme viste, o que pensas da exposição x ou y que prometo ver e tanta vez falho. E depois tens aquele humor terno e natural de me troçares por dormir cedo (como é que podíamos ver um filme?), de me dizeres o nome da banda ou de um músico em jeito meio divertido, não entendes para que pergunto, sabes que nunca ouvi falar e não vou fixá-lo.

Ainda assim, a minha pena continuaria muda, não fora a última ida a tua casa. Arrumaste-a a preceito (para não desatar a fazer coisas); compraste alimentos fora do cardápio (a meu gosto); deste-te ao trabalho de queimar incenso  (detesto o cheiro da casa); emprestaste-me o guarda chuva (que por acaso esqueci); paraste o trabalho para me dares boas vindas (e depois trabalhaste fora de horas).  Deslumbras-me. É um doce mistério eu ter-te tal qual és.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Sombra Chinesa

 

Afonso Formosinho teve sorte com a natureza dos solos e o clima deu-lhe uma mão, que nisto de agricultura há muito em jogo e a roleta pára onde pára. Expedito, fez apostas inteligentes e, com a ajuda da mulher, em poucos anos comprou ao antigo patrão parte das terras da Malagueira e investiu em vinha nova. Foi um falatório na aldeia e muitos lhe negrejavam o  futuro. A inveja atardava os homens que se entretinham em concílios avinhados, profetizando desgraças à luz do petromax da taberna. E era vê-los  pesando os contras um a um, razões que eram achas para fogo temerário. Que a vinha come tempo e dinheiro até começar a dar lucro, e o Formosinho não tinha estaleca nem bolsa cheia, o trambolhão faria estrondo; que investira tudo o que tinha na compra das terras e andava a latir. E disfarçavam de compungidos chamando os velhos pais ao assunto, de certeza às voltas na campa por via do esbanjamento. O casal fez orelhas moucas à maledicência entretecida com dor de cotovelo e algum raro fio de genuíno cuidado. Gastos, só com o querubim. Mourejavam unidos no desejo de livrar o rebento do tormento da enxada que, diziam, lhe levaria a pouca saúde. Mas, quando a vida desanuviou, empregaram gente que se deitara a  adivinhar-lhes moedas e notas.

Corria que Jaime tinha doença esquisita, os pais viviam com o credo na boca. Mas o povo não encontrava  motivo, o rapaz desenvolvia, rosto redondo. Portanto, no juízo comum ficou assente que a doença era mania dos progenitores, desculpa para o fazerem estudante.

Minha avó recordava a tarde invernosa em que Verdiana-parteira começou o seu exercício, já o Jaime andava na escola. Era hábito chamar  tia América para acompanhar os partos e  assim fez Maria da Assunção quando viu chegada a sua hora. A curiosa chegou embiocada no lenço, xaile traçado. Mandou-a deitar e abrir as pernas e baixou-se a observar o portal do nascimento. Logo se ergueu sem tocar na mulher e sentenciou, isto está muito atrasado, ela que ande para desenvolver e ajudar a abrir; depois do jantar passo cá a medir o avanço. Maria da Assunção fartou-se de andar. A casa  regurgitava de mulheres e era-lhe difícil passar entre elas que se encostavam às paredes mais direitas que soldado na formatura. Chico, sentado num canto da chaminé, observava-lhe o sofrimento e condoía. Levantava-se e amparava-a por um bocado, os dois cá e lá, do corredor à cozinha e dela ao corredor. A jovem ensonava de cansaço e, no intervalo das dores, desfalecia no apetite de encostar-se um bocadinho. Mas a casa mudara-se em colmeia familiar, havia sempre uma prima, a avó, uma tia, a segurá-la e contar a sua história, eu também, eu assim, eu assado, e diz que é bom isto e mais aquilo. E a lengalenga sem descanso, tens de andar, tens de andar.

Tia América, cumpriu o prometido e voltou após o jantar. Examinou a evolução e reiterou, está muito atrasado. E foi dormir, avisando, se as dores vierem muito juntas chamem-me que venho logo, tenho sono leve, é só baterem ao postigo. Passou a noite e, manhãzinha, a velha franziu o nariz. Chegou o meio dia de dores ininterruptas. Foram de novo por tia América e ela em observação séria e desiludida, não me avenho com isto, a cria não deu a volta, está de rabo.  E, vergada e inútil, rumou a casa. Maria da Assunção desatou num pranto sofrido, e agora, e agora, ai que não aguento tanta dor. O mulherio impotente, lágrima no olho e explícito semblante, e se morre, e se lá vão os dois.

domingo, 13 de junho de 2021

Os teus Passos nas Escadas

 

“Os teus passos nas escadas” é obra que me incentivou desde a foto da contracapa. Não tenho memória de autor a puxar-me tanto ao livro como a foto de António Molina. Deve ser empatia da mais forte. Depois, bem, depois é obra que nos fala de Lisboa com olhos estrangeiros.  Do Tejo e do Hudson. Do nosso mundo pequeno e da efervescência dos Estados Unidos. E já isso bastaria para me fazer comprá-lo. Mas há muito mais. O que ressalta é o amor profundo de um homem de meia idade - adopta o termo português, reformado que prefere a retired - por uma mulher. O livro é a história desse amor que aguarda, um contar da ansiosa espera enquanto nos desvela a figura feminina, lhe mobila a casa a gosto e tentando replicar - os mesmos objectos em idênticos lugares - a que tinham do outro lado do Atlântico. A espera serve para contar Cecília. Ficamos cientes dos seus gostos, palavras e ideias pessoais e profissionais, do que fizeram juntos, do muito que ainda os aguarda quando, de novo, se juntarem. Até à presença concreta da mulher, o mundo alia-se à espera e suspende. Atravessada nele, Cecília é estrela.

Se alguém coteja a leitura com o que tem em casa, sente-se em défice. Ali. Ali é que está o amor que cada ser humano deseja. Há na explanação amorosa daquele homem qualquer coisa de comoção e santidade, uma terna adoração. Aqui e ali, pormenor a pormenor, vamos entrevendo sintomas incompreensíveis. Mas somos enfeitiçados pela fundura do amor, ternura sem nome que nos percorre. E acompanhamos a espera. Estamos com ele à janela, sentados no cadeirão de leitura. Aguardamos. Desejamos a chegada, atentos aos motores dos carros que se aproximam, a táxis que param, viaturas que abrandam. Talvez se dê o caso de estacionarem e, in the flesh, Cecília desça e erga os olhos até à janela onde é esperada. E depois os passos nas escadas, o som cada vez mais distinto até cessar frente à porta, a Luria pronta a recebê-la…

Não acrescento, mas é obra que merece ser lida e não apenas pela trama. Tem escrita depurada e muito sugestiva.   Depois, a vida é tão imperfeita que parece vantajoso destacar os sonhos que os livros nos apresentam.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Sombra Chinesa

 

Foi por altura do parto que a calhandrice das vizinhas destapou Verdiana. E isto ouvi contar a minha avó quando, muitos anos depois, as contas de Formosinho e Verdiana voltaram à berlinda. Enquanto a rapariga dava à luz, de uma penada, tudo o povo esqueceu. Que era jovem simples e bem falante. Que o corpo estava afeito ao trabalho. Que os sogros lhe gabavam asseio e prontidão em atendê-los. Que o Formosinho nem parecia o mesmo, do moço não-te-rales nascera agricultor empenhado. Que os dois conjugavam como anjos no céu. A desfaçatez auto suficiente do parto insurgiu almas e inflamou os ânimos sempre prontos à novidade e a tomar partido em realidade binária. As opiniões inverteram. Foi como se uma borracha de apagar qualidades tivesse eclipsado as da jovem. Que era bruxa. Que não tinha querido a assistência da sogra, se fechara no quarto e parira praticamente sozinha, Formosinho pouco contava, tinha lá arte para o assunto, era homem e chegava, um sem préstimo como os outros. Homens. Nas horas aflitas, mais estorvam que ajudam.  E seguiam-se exemplos encadeados uns nos outros comprovando a masculina inépcia, talvez património genético, está-lhes na massa do sangue, reconheciam conformadas. Resumindo, era uma pouca-vergonha assistir a mulher em assunto estrito a fêmeas. Não existia homem que, por sua vontade, se aprontasse a fazê-lo. E deduziam que fora ela, a doida, a coagi-lo. Culpa sua, portanto. Algumas cabeças dadas ao desastre anteviam catástrofe, quisesse Deus que mais tarde não pagasse a teimosia, homem que vê a mulher parir desasa na cama e diz que é para sempre. Não contente com a desgraça na relação marital, o povoléu firmava o dente no assunto e desdizia do rebento. Que a criança era um ninguénzinho enrugado quem nem velho a dar as últimas.  Que o pobre anjinho não sobrevivia. Que era castigo de Deus pela soberba materna de se bastar. Que a remelosa não pensara no enfezado que nascia com prejuízo por via da sua doideira. Que o leite com certeza nem lhe subia. E porque torna, e porque deixa.

Mas os humanos vaticinam e a vida é alheia, faz o que quer. A Verdiana subiu-lhe o leite e, se por recato disso não falava, não consta nos anais truculentos da má língua que a intimidade com o seu Afonso tenha sofrido revés. Do bebé se soube que era um Jaime, nome de muita crítica e imposto à madrinha como condição. Ignorava-se a origem, não tinha raiz na terra e qualquer parente morto ou vivo que assim fosse nomeado.  Um desacostumado baptismo. Fora deste laréu, minha avó contava que era certo,  a criança nascera enfermiça, mas cedo desencardira e crescera como qualquer. Tenho ideia vaga de um rapazito espigado e bem arriado, ainda eu muito criança. Quando entrei para a escola deixei de vê-lo. E a aldeia borbulhando que estudava longe, em colégio interno, feito um senhor. 

 

terça-feira, 8 de junho de 2021

Sombra Chinesa

 

Nos lugarejos, aldeias e pequenos povoados, há muito fio cosendo as pessoas entre si.  Todos – ou grande parte – são aparentados por laços de sangue, tios, primos, avôs, tios-avôs, e etc. Estica-se o parentesco à exaustão. Parentes de segundo, terceiro e mais graus são família afastada que, sendo necessário, se protege como próxima. Mas há ainda a parentela que se procura e não exige consanguinidade, como o democrático compadrio que floresce mercê de parcos motivos. Surgem compadres e comadres por razões de vizinhança, casamento de filhos, baptismo, apadrinhamento de casório, crisma, comunhão, curso. E tudo o mais que lembre aos homens e sirva para alargar o seu patamar de segurança num mundo sem complacência. Quanto às crianças, era vulgo terem duas madrinhas, a escolhida pelos progenitores e a curiosa que fez o parto. Em cada aldeia e aglomerado de casas havia uma madrinha-velha comum a quase todos, pessoa muito respeitada por pais e crianças e que, bastas vezes, era convidada para as festinhas familiares. E havia a outra, a madrinha verdadeira e que dava o nome ao afilhado. Era de regra ser o nome de pai ou mãe se calhava ser solteira ou, se os tivesse, de namorado ou marido. Daí que os nomes se perpetuassem.  

A procura de tais elos agregava as pessoas entre si, todos pertenciam a todos. Mesmo se alguns se subtraíam à comunidade do fluxo sanguíneo, restavam eternos compadres, seres que se entreajudavam e por vezes se zangavam de morte quando as voltas da vida viravam uns contra outros e a relação transtornava. Se a amizade derramava, todo o bem que mutuamente se desejavam virava genuíno ódio que deflagrava em pragas agoirentas. Os compadres e comadres  cortavam falas e azedavam mais que leite talhado por calor.

Com excepção de madrinha Felícia que me acudira ao nascer, a maioria das parturientes da aldeia fora assistida pela experiência de menina Verdiana, mulher sábia criada no Monte do Cortiço que, desde criança, assistira a própria mãe em vários partos. Tinha chegado à aldeia trazida por mão de Formosinho que se encantara da garota quando uma vez fora na charrete do patrão buscar a menina ao Monte. Dizia-se na aldeia que o Monte do Cortiço tinha segredo e as noites eram medonhas; que as almas penadas se passeavam nocturnas sobre os telhados quebrando telhas, fazendo estalar vigamento e tresloucando o sono dos justos. Por mor deste desconcerto, poucos eram os que aceitavam tomar casa por lá, em sítio tão ermo e de má companha. Que as casas tinham chão de madeira, janelas vidradas e paredes de cal. Mas os que ali se acoitavam maravilhados com o luxo da casa desistiam no final da primeira semana de trabalho e rumavam às antigas moradas, envergonhados e insones, cacarecos ao ombro, mulher e filhos de pé descalço ajudando como podiam. Nesse tempo de grandes medos e misérias, só uma pessoa viveu no Monte: a mãe de Verdiana. Sem homem nem dinheiro, mas com muito filho criança, tratou com o patrão do que podia cuidar no Monte se a casa lhe coubesse e partiu destemida para aquela solidão de mau andar. Verdiana não contava um alfinete do que por lá passara. Mas era jovem e lesta, vendia saúde e conhecia as ervas milagrosas  como ninguém. Formosinho ficara preso na trança comprida, nos redondos do corpo, no olhar recto e com direcção. Trouxera-a  consigo aproveitando a carrada de lenha que o patrão ordenara por via de alimentar os fogões da cozinha grande na casa da Malagueira. E, no passo vagaroso da mula, se foram acertando de corpo que para o espírito havia tempo. Os pais rabiaram, mas pouco lhes durou a zanga. Lamentavam que a nora não tivesse de seu, mas o rapaz tinha de casar com alguém e estava no tempo de tomar conta da quintarola. Cansados da terra, passaram-lhe o encargo. Portanto, no final da semana, o Formosinho, a quem a singularidade de Verdiana chamava Afonso, acertou contas com o patrão e ficou a cuidar do que lhe pertencia.

domingo, 6 de junho de 2021

Sombra Chinesa

 

         As mudanças a que a vida me sujeitou trouxeram novos temores e depressa desalojaram preocupações e prazeres antigos. A vida na aldeia  era desejo nevoento e só a incessante noite desabava em mistério e a recapitulava como oásis familiar onde sabia os lugares de cada coisa e confiava em cheiros e costumes. A princípio, à vista das peças de lingerie, impava de gratidão pela mãe de Teresa. Mas logo a memória era invadida pelas peripécias que originara e me despertavam uma confusão de sentimentos.  Porém, rodeada de dificuldades e incógnitos, depressa a devolvia ao anonimato. Contudo, os saiotes deixaram má lembrança.  Na estreia, o embonecado da saia foi motivo de troça, olha a bebé, que pascácia, queres a chupeta; e mais dichotes que me esfanicaram a vaidade e rasaram os olhos. Num ápice, mudei o gosto e reneguei os malditos e entesados saiotes. O gosto também se educa, por vezes com dor.

Aos domingos deitava um soslaio à vizinhança, mas nem sinal de vida por aquelas bandas, a porta sempre fechada. Inquirida, Liu contou que, por sua sugestão, a mãe de Teresa acompanhava o caixeiro-viajante na venda. Corriam montes e herdades, lugares solitários e longe de tudo onde havia sempre alguma falta. Eu imaginava o calor que entrava pelos vidros descidos do carro que marchava dificultoso por caminhos de terra pisoteados de burros e mulas, o rodado das carroças fazendo cama aos pneus. O cheiro a terra suada e palhas secas invadia o automóvel e o pó dos caminhos entranhava no suor que lhes descia pelo rosto corado, uma desordem fotográfica a bailar nos cabelos dela que escapavam dos ganchos. Vendiam muito. A mulher tinha lábia e queda para o negócio, era a única família que não devia ao merceeiro. 

Teresa ficava por casa sem ordem de brincar na rua. Na posse destas informações, punhamo-nos diante da porta e gritávamos por ela. Ouvíamos um banco a arrastar e, logo, logo, o rosto amarelento e tristinho da garota enchia o postigo. Acenávamos as três. Seguindo a recomendação materna, e sem que tivéssemos aberto a boca - suponho que por medo de deixar-se convencer -, desfechava, não posso ir brincar nem abrir a porta. Enquanto ela desaparecia e repetia o arrastar do banco, Liu contava-me cheia de má vontade contra a filha do Pelinhos que a garota fazia a limpeza enquanto mãe e padrinho estavam fora. E repontava séria, cuspindo as palavras, é criada deles, estás a ver. Era também A Liu que ficava de atalaia, atenta a desacatos; a filha do Pelinhos continuava mão leve e molhava a sopa na panela, mas o aviso de ti Casimira talvez a moderasse, não abusava. Em compensação, mesmo ao lado, Zefa do Prado lacrimejava crocodilos, coitadinha, todo o dia presa em casa e ai dela se não fizer o que a mãe quer e como quer. Onde é que já se viu, a criança nem sai à rua. E acrescentava atezanando curiosidades, eu é que sei o que oiço, é que nem durmo. E então com ele, nem é bom falar. Mas desta boca não sai nada. Cala-te boca - comandava  peremptória.

Entretanto, eu ia e vinha. Semana atrás de semana. Nas férias, o prazer  de curtir a aldeia invadia-me. Estar com minha avó que ia encurvando, mas se mantinha uma velha rija; rever amigos que tinham crescido tanto ou mais que eu; conversar com a Liu, brincarmos a atirar o ringue que madrinha Felícia me oferecera, olharmos para os rapazes e eles para nós, mirarmos o corpo uma da outra, cheias de risinhos palermas que mal  disfarçavam o desconcerto da mudança, e avaliando qual de nós se adiantava na puberdade e início de adolescência.

 Encarreirei nos estudos e Liu saiu da escola e tornou-se aprendiz na costura de dona Felisberta. Teresa cresceu quase repentina e deveio uma menina-senhora de quem minha avó comentara toda sorrisos com tia Dorinda, já pinta, e eu atónita e pensando que nunca lhe vira jeito para o desenho. Entretanto, e para minha surpresa, a garota abandonou a aldeia e foi viver com o pai que, dizia-se, casara bem e de papel passado, estabelecendo-se por conta própria. A filha do Pelinhos garantia a quem a quisesse ouvir que Teresa estudava por lá, o pai não tinha mais filhos e fazia gosto em educá-la. O padrinho, sempre carinhoso, visitava-a amiúde nas suas viagens e trazia boas novas, estava mais crescida, enformara, nem parecia a mesma. 

Com o rodar das estações, Teresa e o casal que aos domingos rumava por todo o montareco, percorrendo quilómetros para mostrar as novidades e arrecadar uns cobres, deixaram de ser assunto. Pacificada, a aldeia pôs em suspenso as diferenças da filha do Pelinhos e as mulheres, magnânimas, começaram mesmo a comprar pequenos nadas ao caixeiro viajante que nessa altura já tinha sido adoptado e respondia por "o Chico da carrinha".

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Breves

 

Já não viajava há tanto tempo que esquecêramos os caminhos (eu e o carro). De modos que me enganei algumas vezes, coisa pouca. Infelizmente não deu tempo para andar feita parola a olhar as montras. Fui só num saltinho comprar dois livritos, companhia de horas mortas e que, por assim estarem ausentes de si, só estorvam. E pode que os livros as componham, sejam remédio.

Adquiri – finalmente – “O Infinito num Junco”. Li apenas duas páginas e, portanto, não palpito. Mas é obra capaz para oferecer a uma amiga que as prefere sobre figuras da História. Não que seja monárquica, mas as prateleiras ajoujam de rainhas e príncipes consortes (e sem sorte por vezes), princesas nem sempre felizes, damas que ficaram na memória dos tempos por vincadas qualidades e não menores defeitos. Já lhe disse que é uma bisbilhoteira imparável, mas não me faz caso e continua na senda da realeza a devorar o fausto e os podres de certas cabeças coroadas ou com tiara. Em prol da minha escolha, e de acordo com o que ouvi numa entrevista a Irene Vallejo a autora (sugestão da Maria), a personagem é o livro e a utilização do artigo não é casual. Resumindo, não é um romance, a obra conta a história do livro ao longo dos tempos. Não esclarece o carácter de reis e rainhas, mas tem o mérito de tratar de um objecto real e necessário, ser fruto de pesquisa e aturado trabalho, exalando – imagino -  certa liberdade criativa na abordagem dos assuntos. Ó  miga tens que gostar. Só podes.

E porque muita estupidez grassa pelo mundo e  nada de novo sob o sol além das desgraças em que os telejornais são pródigos, vou ali agarrar a minha bóia a ver se reanimo horas que, mortas, nada me adiantam.

Durmam com os anjos e acordem bem dispostos. É sexta.