Tua
mãe naquela casa comprida em companhia
da empregada diurna. O quarto da criada, livre da função, adormecido há anos num
desconcerto amontoado até ao tecto sobre a pouca mobília. E o peremptório de dona
Micaela, não mexa, são “as coisas do senhor”. Que “o senhor”, se regressasse do
além, tinha um fanico; do zelo extremo com os seus pertences, sobrou zero. Aquela
babilónia de marcas e valores atirados a trouxe-mouxe lembra
displicências de lixeira. A empregada a desculpar-se, a senhora faz questão,
ninguém toca neste quarto. E acrescenta confusa, não sei bem, mas tudo me
parece que lhe vem certa alegria de ver isto assim desalmado.
O que foi novo e de estirpe é reino de ácaros
e aranhas pernilongas. Passeiam-se nas abotoaduras de teu pai, desovam no
incalculável de gravatas de seda, fazem teia nas armas de caça. E as infatigáveis
traças abrem clareiras nas lapelas, esburacam mangas, passam a ponto de crivo
golas e chapéus. Acolá, estorcegados, as raquetas e o saco de ténis. Ali, os sapatos outrora
brilhantes que encorrilharam e levantam a biqueira empoeirada; em monte, as
pastas cobertas de fungos e bolores; e nos rayban entornados fora da caixa
grudou uma baba de verdete e ferrugem. Os frascos de perfume evaporado misturam
com as echarpes e lenços de pescoço, finíssima lã que foi suave, seda natural
que esboroa. Sobre o banco singelo da cabeceira, a caixa antiga dos preservativos
acompanha o cachimbo das noites longas no Clube. E os abafos de estilo inglês,
orgulho de teu pai, jazem decadentes e amarrotados, pisados por pés de cadeira.
Há um jeito de vingança encrespada na indisposição das coisas que se entornam e
entortam umas sobre as outras, sentença severa que o tempo auxilia. A tua mãe, delicada senhora que aplicou muita vida na ilusão, apetece de
quando em vez banhar-se na verdade do que sem ignorar sempre mascarou.