terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Carrossel


Tua mãe naquela casa comprida  em companhia da empregada diurna. O quarto da criada, livre da função, adormecido há anos num desconcerto amontoado até ao tecto sobre a pouca mobília. E o peremptório de dona Micaela, não mexa, são “as coisas do senhor”. Que “o senhor”, se regressasse do além, tinha um fanico; do zelo extremo com os seus pertences, sobrou zero. Aquela babilónia de marcas e valores atirados a trouxe-mouxe lembra displicências de lixeira. A empregada a desculpar-se, a senhora faz questão, ninguém toca neste quarto. E acrescenta confusa, não sei bem, mas tudo me parece que lhe vem certa alegria de ver isto assim desalmado.
 O que foi novo e de estirpe é reino de ácaros e aranhas pernilongas. Passeiam-se nas abotoaduras de teu pai, desovam no incalculável de gravatas de seda, fazem teia nas armas de caça. E as infatigáveis traças abrem clareiras nas lapelas, esburacam mangas, passam a ponto de crivo golas e chapéus. Acolá, estorcegados, as raquetas  e o saco de ténis. Ali, os sapatos outrora brilhantes que encorrilharam e levantam a biqueira empoeirada; em monte, as pastas cobertas de fungos e bolores; e nos rayban entornados fora da caixa grudou uma baba de verdete e ferrugem. Os frascos de perfume evaporado misturam com as echarpes e lenços de pescoço, finíssima lã que foi suave, seda natural que esboroa. Sobre o banco singelo da cabeceira, a caixa antiga dos preservativos acompanha o cachimbo das noites longas no Clube. E os abafos de estilo inglês, orgulho de teu pai, jazem decadentes e amarrotados, pisados por pés de cadeira. Há um jeito de vingança encrespada na indisposição das coisas que se entornam e entortam umas sobre as outras, sentença severa que o tempo auxilia. A tua mãe, delicada senhora que aplicou muita vida na ilusão, apetece de quando em vez banhar-se na verdade do que sem ignorar sempre mascarou.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Carrossel


Tua mãe inábil viúva a quem a casa da avó foi caindo em cima num lento desmoronar de tudo. Ainda hoje, quando a lucidez uma trégua luminosa, a minha avó era senhora de têmpera, ninguém me tira da cabeça, foi ela que arranjou tudo para o cónego sair, nunca mais o vimos, evaporou. Depois queda meditativa e submerge no lá atrás da infância, muda-se em criança de novo. Daí a um bocadinho oiço-a cantarolar, “olha a triste viuvinha que anda na roda a chorar” e logo desata o pranto silencioso que lhe conheço; e para mim, o senhor desculpe, é feio chorar em público, mas esta cantiga provoca-me. E eu, qual senhor D. Micá, então não se lembra de mim. O corpo retrai, olhar desconfiado. E a fazer beicinho alerta em vozinha tremeliques que não consegue alturas, está aqui um homem que eu nunca vi a dizer que me conhece, ponham na rua o aldrabão. Rua, rua, rua. E, dedo de juíz em riste, vai avisando,  é muito feio mentir, pimenta na língua, pimenta na língua, e desata o riso. Esqueceu o choro e a mim, a mente a desaparafusar, rrr...rr...rrrr....
Antes, fazíamos a viagem em silêncio, tu olhando a paisagem, desconfio que sem a ver. Eu, em estrada bucólica, falsamente atento à condução. Mirava-te de soslaio e disparavas, não olhes para mim. Punha a mão sobre a tua tentando acalmar-te e a tua mão inerte sob a minha, sem dedos aflitos a gritar no silêncio, não me deixes; sem o entrelaçado demonstrativo, ninguém nos verga. Chegávamos  e suspiravas como quem vai para exame difícil. Tomava-te o braço e sentia o teu corpo resistir, pés e pernas travando à proximidade da porta.  E pensava que te entendia.
Por  vezes, D. Micá não te reconhecia, desconfiava do teu corpo jovem, doía-se do teu beijo, quem é?, inquiria a afastar o rosto;  olhava-te em atenta e perfurante demência e soltava num repente de descoberta, cónego. E tu intrigada, a aproximar sobrancelhas, duas rugas pequeninas a nascer entre elas e aliciar-me os dedos, uma comichão de desvincá-las, passá-las ao ferro da ternura. Mas tu estranhíssima na surpresa de, cónego?, nunca tal lhe ouvi, de onde retira ela estas ridicularias. Tu a desejares o sonoro de antes no abrir da porta, filha, e logo os móveis arvoravam ar mais doce, a carpete ganhava cor, um zunido de mosca cessava. Tu imaginando, chego lá e conhece-me, pergunta pelo neto, quer saber dos passeios, da vida no emprego. E D. Micaela Tovar demorava os olhos em ti; reparavas nas pérolas do colar, no traço de baton e animavas.  Mas a foice das palavras vinha cercear-te a ilusão e lançar-te ao tapete, a senhora também vive aqui?. Saías devastada. Amorfa. Deixaste de visitá-la, não aguento, é demais para mim; vai tu. E ia eu.  Vou eu. Ainda.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Carrossel


E se tu de viva voz, têm cheiro e rabo de padre, logo ela, armada de autoridade, ameaçava pimenta na língua, um raiozito contente a brincar nos olhos que te fugiam acompanhando o pescoço, muito interessados nas pregas de cortinas  confidentes do remoque, esta garota tem umas ideias tão certeiras que me baralha. E ficaria olhando pela janela  na lembrança olfactiva do cardeal x, do bispo de, do arcebispo tal, de um cónego simples perdido nos tempos da infância e sempre tão presente, a sentá-la nos joelhos, vem cá minha linda, e ela aos saltinhos, a estender os braços para a ajudar a subir. E depois ele quedo, a mirá-la com devoção, como se ela uma nossa senhora de igreja. Passava-lhe a mão nos cabelos, elogiava-lhe o vestido, beijava-lhe a face. E a avó na porta da sacristia, um polícia sem sombra de sorriso, empertigada e senhora de seus anafados, mãos cruzadas na frente, a malinha pendendo sobre o volume  da barriga. O pescoço curto ufanava-lhe entre folhinhos de ternura inútil que a voz lhe saía em aviso de arame farpado e no tom de comando  dedicado às  serviçais, tenha tento senhor cónego. E a alegria infantil estilhaçada no incómodo. O cónego, senhor de tanta palavra, embatucado e, todo delicadezas, a devolvê-la ao chão. Num passe de mágica, a mão desaparecida na batina trazia em ressurreição um resplendente caramelo vaquinha que não havia em lugar nenhum, senão naquela santa algibeira. A avó sem pedir desculpas, encrespada de súbita pressa, a puxá-la da sacristia, levando-a a reboque a todo o comprimento da igreja, os passos  martelando no lajedo. E ela desentendida da pressa, a embeber no gosto cremoso do caramelo que derretia, mistura de açúcar caramelizado  e leite gordo a lembrar-lhe os olhos do padre. Quem sabe, tua mãe procurou a vida toda esse gosto no olhar de alguém, que a gente arrasta a infância por todo o lado, a infância é a fralda velha e gasta que alguns garotos abraçam confiantes e exigem por companhia. E teu pai, bem o sabes tu, com olhos sem correspondência. Mas como é que se encontra um gosto no olhar, diz-mo se fores capaz, tu, tão longe de mim agora. Que ainda hoje não sei que foi que viste em olhos meus. Mas voltemos a tua mãe, que não se abandona assim um parentesco de avó ríspida e neta única. Já em casa, a avó lavava com sabonete a bochecha beijada e, num murmúrio que se diria lacrimoso e odiento desabafava, peste, peste, peste, enquanto uma roseta vermelha alastrava no rosto da garota, a pele abespinhada, que foi isto, até parece que me esfolam. E a garota doída e doce que tua mãe era, a perguntar ainda em peganhice de caramelo, o que é peste. A tua bisa caindo em si, um carinho na bochecha afogueada, não faças caso meu amor, a tua avó está tonta.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Carrossel


Da cidade, conhecia a nossa igreja e os crentes. Na primeira vez que entrei no lugar de culto parei emudecido, desconfiei de uma partida, afinal eu era “o novo”. Uma vez por outra, tinha acompanhado tia Emília à igreja, sabia como era. Esperava um largo, a torre sineira, portas pesadas, e, no interior, a estontear-nos na penumbra, o odor a cera agoniada que o manso bruxuleio  das velas alimentava. Estranhei a localização quando o carro parou em rua lateral, numa correnteza de habitações. Nada a distingui-la da casa de A ou B, portas e janelas idênticas. Entrámos. No que devia ser a sala, havia filas de cadeiras dispostas com um corredor a meio e viradas para um estrado sem altar, cruz ou velas e flores. Apenas forrado a alcatifa e com uma mesa onde pontuava, aberto, um livro que me pareceu espesso. Toquei no ombro de Esparguete, isto não é uma igreja. E ele assentiu convicto, é a nossa igreja. Lembrei-me da escola desarrumada. Era domingo e as carteiras empilhadas lá atrás, o padre ajudado pelos mais velhos, num vaivém constante, um roçagar de batina que nos fazia rir à socapa, rosto vermelho e brilho de suor na pele, hoje digo missa na escola. Tão bonita, a secretária da professora vestida de altar, toalha branca, duas velas acesas a ladear a cruz.  E nós todos bem na frente, observando nos movimentos do padre os mistérios da religião que desconhecíamos, mas contentes da novidade, a sentirmo-nos gente. Lá atrás, em magote, as mulheres chamadas à pressa, ainda a cobrirem a cabeça e esquecidas de desatar os aventais, restos de caldo verde e migado para os galináceos nas unhas e no redondo da pele entre o indicador e o polegar, uma negrura de lume de chão nos dedos habituados aos tições, certo cheiro a fumo e pobreza encardidos na roupa. À vista dos preparos, benziam-se às três pancadas murmurando, ora o raio do padre, não podia ter avisado mais cedo. E na homilia, uma garotinha pequena e quase bebé a escapar-se da mão da mãe e a vir cá à frente distrair-nos ainda mais do sermão. Nós em sintonia, dentes à vista e olhos gaiteiros, a vê-la rodar muito divertida em volta do padre que pregava inflamado. Cutuquei Esparguete, isto é uma escola a fazer de igreja?, e ele a olhar-me impaciente, és parvo ou quê, isto é mesmo a igreja, a escola é outra coisa. Calei-me. Eu sabia contar histórias, mas Esparguete sabia de religião. Li-o nos olhos sérios e na resposta pronta, sem uma fraqueza.
Tia Emília, como é sabido, não era mulher de igreja, ia se tinha de ir, respeitava sem alarde e não fizera questão de me ensinar. A verdade é que entrei quase virgem noutra religião, julgando ser a mesma. Comparecer na igreja era a nossa distracção de domingo, íamos à cidade. A carrinha, essa sim, assinalada a toda a volta, trazia e levava os Rapazes do Lar. Logo a seguir ao almoço de domingo, era o que todos desejávamos, ir à cidade de carro. E sonhávamos com o dia em que a Casa da Boa Semente tivesse carrinha sua, guiada por Octávio que bem a merecia. Não assisti a tal.
Entretanto, tu vivias a beijar a frieza dos anéis de prelados e assistias missas e cerimónias adultas, presididas por bispos conhecidos que te puxavam os laços da cabeça e te repelavam, doías-te deles, das suas mãos repentinas, talvez desabituadas da suavidade da ternura. E tu desagradada, cheiram a quê, os padres têm um cheiro. Tua mamã admoestava mansamente, filha, é impressão tua. E dubitativa, ou será da água benta. E tu em pensamento, a recuares involuntária à lembrança de proximidade indesejada,  têm cheiro e rabo de padre.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Cai o Pano


Os enfeites natalícios emprestam à casa um ar de festa. São as luzes, as bagas vermelhas do azevinho, os brilhos refulgentes onde a árvore pontua, as mesas que condizem em toalhas e outros adereços, o presépio se existe. Tudo para que seja uma noite acolhedora e em família. A casa fica tão linda que, trabalho feito, apetece passear de um lado a outro. Mas cada coisa tem o seu tempo. Nos Reis, o azevinho definha, perdida a luxúria verde que parecia enraizada nas folhas que nos repelem agulha a agulha;  e a sedução elegante das bagas carrega agora o vermelho entristecido de mortalha precoce. A casa virou costas ao Natal, está saudosa, quer o aconchego de objectos triviais, fartou-se de brilhos.
Então as mulheres armam-se de paciência e escadote, sobem e descem, apeiam laços, desmancham árvore e presépio, tiram luzes e brinquedos, lavam as toalhas e os panos de cozinha, engomam de novo os cortinados a uso, voltam a subir e descer, acondicionam todos os pertences de natal em caixas etiquetadas – árvore de natal, presépio, laços e fitas, panos de cozinha, etc -;  carregam-nas para o sótão, fecham num armário, põem na prateleira de cima da despensa, escondem debaixo de camas, sabe-se lá até onde vai a imaginação na falta de espaço de um T1 ou T2.
E, fora a fúria de agulha dos azevinhos moribundos, os enfeites de natal agradecem as mãos que os tocam e amorosamente os embrulham e deitam no lugar como quem ajeita a dobra de lençol ao filho. E adormecem por mais um ano. Mataram a saudade de viver.  Reviram as crianças a crescer, os avós que vão envelhecendo, os ocupados pais das crianças, sem tempo para cuidar do tempo. Ou notaram a falta de alguém. Alguém que não pertence mais a esta família, ou  alguém que,  apesar da pertença sentida, partiu definitivo. Há famílias com gente nova, bebés, namorados, amigos que são ou serão namorados; laços humanos que se desmancham e refazem. Nas caixas arrumadas passeia certa melancolia, um frio de futuro incógnito que interpela as mulheres, até quando serei eu a desembrulhá-los. Mas a essa incerteza de 358 dias, ou motivado por ela, junta-se o desejo. O desejo simples de vivê-los e saber como são.

Nota: e se não for um trabalho de mulheres...bem haja quem o fez.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O meu Pé Esquerdo


O portátil começou o ano com o pé esquerdo. Não há o que não lhe aconteça. Tarda em abrir, o desobediente. De quando em quando tinha umas birras, amuava. E nem para a frente nem para trás. Portanto, desligava-o (ainda o desligo) daquela forma que a sua lapidar e científica consciência me faz notar  “o computador não foi correctamente encerrado”, mas eu bem gostava de saber como agir diferente quando só o botão de ligar e desligar funciona. São muito espertos os senhores computadores. Bom, o certo é que o animal parece não gostar de 2020. De todos os meus utensílios, é o que melhor zelo. Temo a sua avaria mais que uma gripe na minha pessoa (uma gripe em mim é doença grave; podem dizer que sou piegas, não me interessa nada). Não se faz. Tanto cuidado, levo-o para todo o lado português ou estrangeiro. E é assim que o ingrato me paga. Se acaso estou mais tempo sem lhe tocar, embirra e demora ainda mais tempo a pensar.  É um perigo entregarmos a bichos destes  tanta letra, frases e frases, parágrafo atrás de parágrafo. Portanto, se eu fique uns tempos sem pio, já sabem, é que pifou de vez. Cada início é uma odisseia. Ora bolas.
Continuando o rol de desgraças, coisas de vil morte em alguidar plástico, e logo sem pedigree, hoje perdi no Metro um vestido, um cinto e um conjunto de cachecol e gorro. Não sei se se chama perder a deixar esquecido ao lado do banco onde me sentei à espera do comboio. Tal qual. O gorro e o cachecol não eram novos, mas eram meus, mesmo, mesmo. A bem dizer tive muito mais pena deles. O cachecol era meu há tantos anos...já vivemos muita coisa juntos. E íntima, que ao meu pescoço já de si um bocadinho maltratado, não chega qualquer. Sinto-me culpada pois claro, abandonei-os. Oxalá quem os achou tenha uma filha a quem fiquem lindamente (eram vermelhos e o gorro tem aquele pompom fofinho que apetece); e já agora, a quem o meu vestidinho barato, sirva. Faz de conta que foi uma prenda de Natal ao acaso, tirada à sorte.  Adiante.
Pois nem vou falar de eu a correr para a porta do Metro (lembrei-me do saco) e ela a fechar-se comigo dentro. Nem de ver o meu querido saco sozinho lá fora. Nem de ir até à próxima estação, virar e voltar – feita parva, bem entendido – ao local onde, depois de uns dois Metros terem passado, é claro que não estava nadica de nada. E depois fiz o caminho como aqueles cães sovados, de rabinho entre as pernas, a moer-me (precisavas era de levar uma sova, depois das alarvidades de gastos no Natal ainda perdes o pouco que compraste – foram só dezoito euros, mas tive que me despir e vestir e repetir tudo - ó que burra, mulher mais parva não há de certeza. E mais nomes que me chamei, mas não digo que são muito feios e até acho que os não mereço, mas estava neura por perder o que já era meu. E liguei para o número que me indicou a net e a senhora, que ninguém entregou nada naquela estação, mas ligue amanhã.
E como todos os portugueses, tive sorte no meio da desgraça (oxalá o portátil se aguente que hoje embirrou por tudo quanto é sítio): os livros que troquei estavam na mochila; e a prendinha que comprei com o cheque prenda também. Quem sabe a esta hora – hoje está frio -  há uma menina de gorro e cachecol vermelho a pensar que tem um vestido novo. E eis que dei a primeira prenda de Ano Novo:)

sábado, 4 de janeiro de 2020

Lamento


2020 parece-me um bom número.  Facto alheio à sorte, boa ou má, que possa acompanhar-nos ao longo dos próximos 366 dias. Palpites  guarda-chuva, garanto, não tenho. Possuo assim uns pressentimentos, às vezes uns sonhos premonitórios e até angústias inexplicáveis que posteriormente descubro coincidentes com momentos dolorosos em pessoas queridas. O correio dos astros diverte-se a enviar-me presságios incompletos, espécie de puzzle que não sei montar, mensagens sem remetente ou endereço. Cartas na mesa, sou apanhada pela desgraça como qualquer.
Hoje, em mim, é despropósito fazer propósitos. Os fogos na Austrália fazem-nos parecer quase ignomínia ou escárnio. Tanta área ardida, fauna e flora destruídas, vidas humanas ceifadas e em perigo. E se um bater de asas de borboleta tem impacto no outro lado do planeta, o que virá ao mundo deste flagelo que grassa nos antípodas. Porque a Terra nos vem dizendo, de há muitos anos a esta parte, que está tudo ligado. Fechados na bolha de lerdo optimismo, não concebíamos um  fogo incontrolável. Temos  meios de combate modernos, aviões e helicópteros, bombeiros bem equipados, gente avisada e experiente, cientistas e produtos químicos do nosso lado. Mas assistimos sentados à devassa voragem do fogo que galga sobre a ineficácia de todas as armas. Por vezes - triste ironia -,  enquanto jantamos ou almoçamos. Fogo que não pára e antes se alimenta do que consome. A cada quilómetro a besta ganha força. Às mãos do monstro, o nosso mundo morre há semanas. Mas não de morte natural. Contudo, não nos dá susto, vivemos o dia a dia e vamos vendo a Austrália arder. O fogo tomou  o freio nos dentes. Mas é tudo longe, parece filme.
Que razão existe para não estar o mundo inteiro empenhado e a combater rijamente o estrondoso desastre. Esta calamidade é mais um aviso. E de cada vez eles são mais rigorosos e mais vida sugam. Será que, nem agora,  à vista do futuro feito presente, nos mexemos?!