É muito fácil simpatizar com Nuno Markl. Gosto do Markl. Como diriam os meus filhos, “o Markl é boa onda”, querendo significar pessoa bem formada, portadora de ingenuidade própria que dá o tom e o faz mais genuíno. Aviso: não o conheço senão da Mixórdia de Temáticas que, embora seja de tempos idos, me dispõe; também ouvi um ou outro diálogo da Comercial em rádio alheio; nunca escutei “O homem que mordeu o cão”; não assisti a nenhum dos espectáculos ao vivo em que participou. Ainda assim, digo que é fácil estimar o Markl e “ver” que é um bom profissional (se não for, olhem, falhou-me a intuição). Um bocado ao acaso – modo em que vejo TV – vi-o claramente visto, numa entrevista; disseram-me que no programa “Alta definição”. A entrevista já ia a meio, mas agradeço o facto de contar a sua experiência sem lamechices e também sem esconder o drama. Viver com dois AVC é obra. Markl cumpre o calendário na íntegra: medicação, fisioterapia, tudo que lhe vai sendo prescrito. Está ciente de que o tempo de recuperação é variável, sempre lento, pode nunca recuperar totalmente. E vai somando cada pequena vitória – a recuperação do AVC é o seu Everest pessoal.
Este menino grande trabalhava em excesso e tocava muitos burros; “comia só porcarias”(disse ele); dormia pouco devido ao número de actividades em que se metia e a ser o tal bom profissional bem preparado; e “não sabia dizer não” aos pedidos. Nos últimos tempos, se acaso se encontrava com alguém fora de pressas, perguntava-se a quem estaria a falhar naquela hora. O rapaz vivia em stress. Espero que tenha aprendido a dizer sim ao que o corpo pede – farto de pedir e não ser atendido, esse que vive com ele colapsou pelo lado mais evidente. A canção de Variações não inventa, o corpo é que paga. Não precisa dizer que não, basta-lhe dizer sim, como se vê. É que o corpo não lhe pregou um raspanete, sovou-o sem dó e fez greve de um dos lados. Sorte, os danos não atingiram a mente. Ao longo do programa Nuno riu, gracejou, disse que o seu objectivo agora é servir de exemplo e acompanhar os que como ele sofreram e sofrem as consequências de um AVC com danos colaterais; acrescentou que, talvez daqui a um ano faça um espectáculo bem humorado a contar a totalidade da sua experiência. Li naquele “talvez” o irremissível assimilado: a vida pode apagar-se num repente. Ouvi-o dizer que repetia chavões, frases mais que batidas, mas verdadeiras: o importante é o amor e a amizade. E, caso curioso, dentro do amor está, além das pessoas que ama e lhe retribuem amor e amizade (as que lhe valem nesta fase), está, dizia eu, o amor a fazer rádio.
Gente como o Markl não é vaidosa, não se acha importante, trabalha por gosto. O jovem disse mesmo que se perguntava muita vez se deixaria de si alguma coisa em alguém, ou tudo se perdia destituído de grandeza no corre-corre da vida.
Quem nos dera muitos como tu, Markl! Apesar de algumas maldades parvas, recebes diariamente inúmeros incentivos de quem gosta de te ouvir na rádio e aproveitou o balanço para te dizer porquê - foi preciso haver a doença para entenderes que a tua presença e voz fazem falta no país e que o humor “muito Markl” ajuda quem o ouve, as tuas conversas são o alka-seltzer no indigesto dos dias.
Nota que não tem a ver: Hoje nem vinte pessoas assistiram às comemorações do dia em que a República Portuguesa faz anos. Claro que houve convidados, mas refiro-me a todos os que chegam sem convite e este ano não chegaram. Não interessa se os portugueses estão zangados, com quem. O aniversário da república portuguesa é um lado positivo do País. Que é isso de não irem apagar as velas?!
Viva a Res pública!
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