Neste preciso momento penso nos posts que li versando o tema do gosto. Não o bom ou mau gosto, mas aquilo que cada um aprecia na vida. Lembro-me que, ao lê-los, e li vários, avaliava ser boa matéria para eu mesma postar. Mas nunca me debrucei sobre os vectores do meu agrado, aquilo que a minha sensibilidade prefere, me torna melhor, me dá prazer e me pacifica. Esclareço que nenhuma dessas preferências resolve os meus problemas ou sequer me encaminha para a resolução. O que sinto em relação a elas é a criação de um espaço outro onde os ditos nós da corda da vida não têm entrada. Hão-de regressar. Mas esses momentos elidem-nos. Portanto, vou deitar-me a pensar sobre essa espécie de analgésico que me faz efeito nas dores de viver, os meus balões de oxigénio. Ou, se se quiser, de forma mais litúrgica, é o tempo do sagrado.
Confesso que gosto das primeiras chuvas, do perfume de algumas flores, da visão dos malmequeres que também podem ser margaridas (silvestres ou não), dos campos alentejanos na primavera, de beber água se tenho sede, de mergulhar em águas marítimas, o sol a aquecer-me o corpo. Mas são momentos tão breves que duram o tempo de um sorriso grato, são simpatia emergente mas quebradiça. Nenhum deles chega a ser respiração. Porém, se me apresento num bom dia de praia, com um livro, vários banhos de sol e mar, olhares a contento sobre serra e água, a poesia a roçar-me a pele aquecida, os pés beirando ondas que os lambem de leve, então sim, estou real e mentalmente longe de tudo. Só ou acompanhada, pouco importa. Sou sempre eu e o mar, eu e o sol, eu e quem chamo e é em pensamento só meu. E nesse estar só me sinto mais unida ao universo, mais parte dele, mais elo de uma cadeia sem fim. Descrito este gosto, dou-me conta de que todas as minhas preferências têm idênticas características: exigem tempo - são vagarosas e demoradas -, pedem silêncios que, tanta vez, só o imaginário constrói a fim de poder pensar. Dou-me conta da maravilha que é pensar, da liberdade mental sempre ao dispor e que permite o estar e não estar, ou estar na totalidade – uma entrega física e mental que não sendo perfeita dá de si o máximo.
Bom. A leitura também preenche vazios, me leva ao continente de autores que me retêm a atenção, me requerem a mente passeando pelas frases sempre a imaginar o descrito. Nunca saberei o que aprendi com as leituras não escolares. Ao invés da maioria dos leitores, parece-me sempre o mesmo: não aprendo nada. Mas sei com segurança que me esqueço de mim para seguir a vida de personagens que outros desenharam para prazer próprio e de gente como eu. E dizer que isto me basta é insuficiente porque o exacto é afirmar que a leitura me afasta de tudo, eu e as palavras bastamo-nos umas às outras. Talvez seja uma paixão fria como dizia do ensino António Gedeão. Discordo. Em mim, ensinar é uma paixão a quente, entusiasmante, dá-me vida, não é apenas um contacto mental, há qualquer coisa de físico numa aula, os olhares, os sorrisos, a tristeza. Ensinar é também aprender o outro e aprendermo-nos nele. Como costumava usar um professor meu, “Em tudo, o que importa é a relação.”.
Depois desta arenga está a parecer-me que ficaram preferências por citar. Talvez inaugure um novo item:).
Eu também gosto de uma boa leitura e uns passeios ao pé do mar. Pena que aqui pelo norte é sempre muito vento ao pé do mar.
ResponderEliminarIsabel Sá
Brilhos da Moda
As praias do norte são cá uma coisa! Mas têm um mar bonito, embora também raramente faça o meu gosto. A calma alentejana não se dá com ondulações alterosas.
EliminarBoa tarde, Isa
... dou-me conta de que todas as minhas preferências têm idênticas características: exigem tempo - são vagarosas e demoradas -, pedem silêncios que, tanta vez, só o imaginário constrói a fim de poder pensar. Dou-me conta da maravilha que é pensar, da liberdade mental sempre ao dispor e que permite o estar e não estar, ou estar na totalidade – uma entrega física e mental que não sendo perfeita dá de si o máximo... (também eu!)... 🙏
ResponderEliminarBoa semana Bea
Bem haja, Gracinha
EliminarE boa semana:)
Normalmente também me afasto de tudo, quando leio. Se eu gostar do livro, sou absorvida pelo mesmo e sinto nervos ao lê-los, porque me considero a personagem principal.
ResponderEliminarHouve um livro que li que tive medo de virar a página, tal era a minha junção com a história e senti-me tão lá, na descrição do livro, brutal...
Ai e ver aqui escrito sobre o mar, sol... que saudades da praia! Mas agora com o pequeno, não sei, não.
Boa semana
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Cláudia, não há pediatra que não recomende praia aos bebés:). Não será o dia todo, mas, no verão, as manhãs são longas. Além disso, pelo que aqui tem contado, os seus dias de praia são duas ou três horas. Está no ponto.
ResponderEliminarNão me considero a personagem do livro, mas o imaginário trabalha enquanto leio. E também tenho algum pejo se adivinho que na página seguinte o mal humano faz das suas:). Gosto de silèncio para ler seja o que for. Não consigo concentração num café; por exemplo.
Boa semana
A mulher de um antigo sócio de má memória (brasileiro) costumava dizer que “gosto é feito traseiro (com u). Cada pessoa tem um.”
ResponderEliminarDeve ter sido uma das poucas coisas com sentido que a ouvi dizer.
Nem sequer concordo totalmente com a senhora:). Embora o gosto seja subjectivo há muito subjectivo idêntico. Nota-se sobretudo na arte, mas também na vida em geral. A subjectividade permite a comunidade.
ResponderEliminarQue haja saúde e disponibilidade para o que se gosta e nos enche a alma...e também para o que não se gosta mas é necessário fazer!
ResponderEliminarGosto de me encobrir num comentário para saber coisas de si, como quando se está perante um escritor famoso em sessão de apresentação de um novo livro. Saber as coisas mais mesquinhas, tipo quantas horas dorme, onde passa férias, quais os pratos favoritos. Enfim, coisa mesma de fã...
ResponderEliminarTambém gosto de banhos de mar na tranquilidade de Setembro com um livro, cadeira e chapéu de sol.
A Bea contou bem.
Gosto de me fazer à estrada de preferência sem destino certo.
Gosto de andar de bicicleta pelos campos, embora a minha próstata reclame.
E também gosto de Pessoa, Eça, Vergílio Ferreira, Aquilino, Rentes, Simenon e Stefan Zweig e que me perdoem os que omiti e que são muitos.
Há anos atrás gostava de jogar dinheiro na bolsa até me cansar de tanta especulação e dar uns trambolhões valentes.
Gosto de futebol.
E de cinema.
Tenho pena de ver pouquíssimo teatro.
Gosto de música - quero ver antes de morrer um concerto de Rui Veloso e de Abrunhosa. Para a Gulbenkian nunca consigo bilhetes, já desisti.
Gosto de estar vivo e com saúde e saber que os mais próximos estão bem, mas acima de tudo quero estar em forma para poder ajudar os que venham a precisar de mim.
É engraçado saber dos seus gostos. Gosto de vários escritores e também dos que citou. E de poetas vários. Andar de bicicleta e nadar são, talvez, de entre as actividades que exigem movimento, as que me dão maior prazer, mas falta-me condição para ambas. Uma bicicleta eléctrica é que era. Terei de ver preços e fazer opções difíceis.
ResponderEliminarA sorte veio-me sempre do lado do coração, no resto sou uma azarada do mais autêntico. Já disse que não sei jogar a nada senão à macaca, lencinho de botica quem lá vai lá fica, mamãzinha dá licença e ao senhor barqueiro deixe-me passar tenho filhos pequeninos não os posso sustentar. Imagino que jogar na bolsa me desse uma bruta dor de cabeça como tudo que com dinheiro se relaciona. Não me interessa. Já gostei de futebol; neste momento estou farta de tanto comentador, dos brutais ordenados dos jogadores, dos empresários, dos dirigentes e treinadores. O jogo pelo jogo deixou de existir. Deixei de ver. Como deixei de ver TV. Gosto de teatro mas não vejo quase nada porque sou esquisita.
Já desisti de concertos. Nem Chico Buarque já me convence, é demasiado caro para tão pouco tempo.
Gosto de estar viva, isso sim. preferia que com saúde, pois claro; preocupo-me imenso com a saúde das pessoas que gosto, mas não acredito que possa ajudar alguém, a não ser assegurando que não dou trabalho, mas nem disso posso ter certeza. Estou a esforçar-me por tratar de mim, não para ajudar alguém, mas para poder continuar independente. E nem isso é fácil.
Boa noite, Joaquim