quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        As opções de vida acerca de haver ou não filhos merecem respeito. Entendo quem, por opção, não queira tê-los, tenho amigos que escolheram essa via e suponho que sejam tão felizes quanto um homem e uma mulher que se gostam podem sê-lo. Mas também lamento os que desejam descendência, têm um jeito todo especial para crianças e, por qualquer razão física ou de outra natureza não conseguem chegar ao porto. E casos existem em que se entra em litígio porque um diz sim e outro diz não. É certo que, por amor ao outro, por vezes um dos elementos cede. Mas não pode ficar contente com a cedência. Afinal, um dos seus sonhos é negado pela pessoa que se desejava colaborasse na sua realização. E não é um sonho qualquer - não é aquela viagem especial, o veículo xpto, a subida profissional, a casa ideada. Um filho é o desejo de colaborar, em geral com muito prazer à mistura, no milagre de um novo ser humano, pensando que só miraculosamente duas pessoas que se gostam (ou não, mas gostando é tudo qualitativamente diverso e melhor), depois de um acto de união sexual participam nesse milagre de dar vida. Lamento as cedências quando são coacção - o desacordo sobre o nascimento de um filho pode desfazer a vida conjunta e cada um procura o que deseja com outra pessoa. Mas há casos em que um dos elementos resolve o dilema deixando prevalecer o desejo do outro. A consciência de uma decisão de comum acordo, o sim ou o nada de bebés, é factor de união, mas, no segundo caso, a falta de igualdade entre os dois elementos – aceitemos que um vence e outro é vencido -, pese embora o constituir uma opção, não consigo discernir até que ponto essa é uma união saudável. Que pode ser, talvez haja factores de substituição e a mágoa vá desaparecendo. Enfim.

        Por variadas razões tardei em casar e ter filhos, não me julgava talhada para tais trabalhos. Mas, como a grande maioria das mães, mal nasceu o primeiro, aprofundei o sentimento amoroso. Foi isso. Tenho filhos adultos e independentes em toda a linha. Não me julgo uma mãe chata: não telefono senão por motivo inadiável, sei da vida deles o que querem contar e tento respeitar os seus gostos e carácter. Nunca lhes espiolhei o telemóvel nem o portátil, visitam-me se lhes apetece e quando.

    Ora, nas arrumações que já conhecem, uma das preciosidades que descobri (guardada por mim, claro), foi uma carta de Natal de um dos meus filhos. Pela letra ainda muito redondinha e escolar (não está datada e nem assinada) suponho que andaria entre a antiga 4ª classe e o 5º ano. Não vou reproduzi-la, sei que ele não gosta que mostre o que me escrevia. Uma folha de caderno e a sua letrinha redonda enchendo-a de ponta a ponta. Mas não resisto a um parágrafo menos íntimo e ainda assim tão de maravilha. E lógico, em tema a que a lógica escapa. Escreve ele:


Sei que se costuma dizer que o amor de mãe é inexplicável e inimaginável, mas nunca nada disseram sobre o amor de filho. Não sei como é o amor de uma mãe, nem nunca vou saber, mas duvido que seja maior que o de um filho. Sim, eu sei como é, mas não consigo explicá-lo. Porém sei que é forte, que o sinto todos os dias (…)


    Esta folhinha de caderno deu sentido ao tudo que fiz – desejo que nunca saibam até onde, perderia valor


16 comentários:

  1. Bea... essa carta é um testemunho de um grande amor! Por vezes, não conseguimos explicar "esse amor" que nos faz sentir felizes, agradecidos e capazes de tudo!!!
    Bom fim-de-semana 😘

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  2. Bea, só 5 ano e tão bem escrita? Os meus estudantes não usam palavras como inexplicável ou inimaginável...tem aí um poeta além de um amoroso filho. E eu que queria ser mãe e só tive uma filha, queria mais mas intensamente grata pelo que a vida me deu. Bom fds

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    1. Sonhava ter três filhos, queria adoptar o terceiro, mas não houve receptividade do outro lado.
      Este meu filho aos cinco seis anos, não dizia por exemplo, "olha o rabo do gato" como todos os de casa, mas sim, "repara na cauda do gato". A sua linguagem foi sempre diferente e não por ser praticada em família. Mas não é poeta. Tem bom coração, como por certo sua filha:).

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  3. Agora explique-me como é que uma mãe (Biologia) consegue abandonar dois filhos.

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    1. E isso tem explicação?!
      Mas o certo é que as pessoas são assim. Serão aberrações da natureza humana? Não são de agora (quantas mães são tristemente célebres por matarem os próprios filhos?). Hoje a notícia não as larga, divulga, discorre. São mais porque a humanidade é um conjunto muito mais amplo.

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  4. Que linda declaração de amor, do teu filho!... Muito bem escrita também! Os abraços , os beijos, os olhares também revelam sentimentos dessa ordem, mas por escrito é admirável num miúdo tão jovem! Boa semana Bea!

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  5. Escrevia muito bem, sim; não coloquei nada que não estivesse na folha; nem uma vírgula. E toda a carta é de uma ternura tão genuína...

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  6. Em boa hora aqui vim, Bea, tenho de levar para ler o resto.
    Em casais com divergências sobre esse assunto, é bom que se resolvam enquanto é tempo, caso contrário pode ser irreparável, embora exista sempre a adoção.
    E, diz-me a experiência, que o arrependimento é terrível no caso do "não" prevalecer.
    Um abraço e um bom fim de semana.

    PS: esse seu filho prometia muita sensibilidade. Agora, adulto, cumpriu?
    Muito interessante como o menino impunha os seus ditos aos ditos mais tradicionais.

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  7. Acho que sim, que finalmente se encontrou um tanto consigo mesmo. Continua a conversar de modo diferente:). Mas a faculdade retirou-lhe muito sonho e até o poder da escrita criativa.
    Pois...hoje lembrei-me de si, já não sei a que propósito. Mas lembrei, isso é certo.

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  8. Pois é, ele há coisas...
    Estive ausente mas reparo que tem estado inspirada.
    Já comentei os seus posts do dia 17, 16 e 13 e não, não é por obrigação, é por gosto. Se se dignar voltar atrás e responder a este seu comentador, agradeço.

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  9. :) Claro que vou voltar atrás, Joaquim. Isso nem se pergunta.

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  10. Fiz um acrescento ao dia 13 e deixei os de 10 e 3 "ab initio".

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  11. Eu era dessas pessoas que não queriam filhos. Nunca pensei que fosse ter tanto jeito e adorar sê-lo. Agora chamam-me mãe galinha :P

    Adorei as palavras do pequeno, na altura, lindas mesmo.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  12. A Cláudia vai tê-las também. Não as mesmas, mas com igual sentido. E serão para si como em mim são: as mais lindas que existem.

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