sábado, 16 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        Pronto, é verdade que fiquei agarrada às palavras desde que aprendi a juntar as letras. Os livros e os filmes acompanham-me os tempos livres, são peças de que sinto falta. No lugar onde vivo não existe um cinema e contento-me com as fitas exibidas nas plataformas. Não é a mesma coisa, mas ver no portátil é muito melhor que não as ver. Enquanto professora, pugnei pelos livros – mais tarde, também por filmes –. Tive momentos de leitura diária de livros escolhidos por mim e que, sobretudo na primária, encantavam os ouvintes sempre contrariados quando interrompia a leitura; e tempos houve, já na secundária, em que cada aluno escolhia um filme para comentar. Se a matéria era propícia, acompanhava com  um filme. Não me lembrei de perguntar se gostavam dessas variações, mas delas faziam relatórios, por vezes subordinados a questões.

        Acabamos sempre a influenciar alguém com as preferências próprias. É nisso que espero. Este ano, na Academia Senior, uma avó de gémeos  confessou-me emocionada que cada garoto lhe tinha oferecido um livro dos recomendados. Foi um passo, mas à pergunta, “e já os leu?”, respondeu negativamente. Mas a oferta diz que a avó falou neles. Não sei como se cria em alguém o interesse pela leitura, mas vou tentando. O exemplo vivo, por vezes, pega. Mas nem sempre é bom sinal. Senão vejamos.

        Tive em tempos por aluno um garoto inquieto e magrinho, débeis anéis aloirados, olho entre o castanho e o verde. Durante o primeiro e segundo ciclo fora colega de um dos meus filhos e conhecia-o dos aniversários. Um galito metediço e brigão que tínhamos de vigiar. Por ser o mais miúdo da turma, ganhou desde logo uma alcunha meio terna que nunca desdenhou e até aproveitou quando criou o mail. No décimo ano notava-lhe algumas observações interessantes (era participativo), embora quase nunca usasse cadernos. Havia gente com igual hábito, o que me preocupava; negociámos, entretanto, um dossier com determinado número de itens comuns de todos e que contaria na avaliação (demos-lhe mesmo um peso). Ele chegava sobre a hora, um caderno dobrado em óculo, pedia uma caneta e rabiscava o que lhe parecia de interesse (ele e os outros). Não era grande aluno, mas, talvez por nos conhecermos há anos - conheci-o com pouco mais de meio metro -, procurava e conseguia nota positiva e afirmava gostar da disciplina.

(cont.)

9 comentários:

  1. Ah, estou a ver que essas aulas eram interessantes! Juntar a matéria a filmes ou livros, excelente ideia!

    E também tive colegas desses.... eu nunca fui aluna de um caderno dobrado, mas com o passar dos anos, fui diminuindo de dossiers para 1 caderno só, sim. E já ficava na escola :P

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. Não sei se eram interessantes, mas é método que inda hoje uso, embora sobretudo com documentários que ache interessantes sobre os autores falados em aula.
      Boa noite, Cláudia

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  2. Também como tu "fiquei agarrada às palavras desde que comecei a juntar as letras" E os livros, primeiro de histórinhas pequenas e depois todos os outros foram uma das minhas perdições sobrepondo-se muitas vezes aos obrigatórios. Agora vou gerindo melhor, Mas um livro ou vários ao mesmo tempo, são para mim companhia amada . Também gosto de filmes, mas nunca desisti de um livro ao passo que de filmes já me aconteceu...

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    1. Desistir não é não gostar da actividade, é, em casos pontuais, exigir mais dela do que nos está a dar. Já desisti de livros e de filmes e são actividades que têm sempre cabimento no meu ser.

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  3. Alunos para a vida... na nossa e na deles! Gosto de me cruzar com eles e saber que uns seguiram os sonhos e outros abraçaram a vida! Bj

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    1. Se há coisa que agrada é que alguém na rua me chame professora. Mas a maioria dos alunos chama-me hoje pelo nome:).

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  4. EU gosto deste garoto, mas sempre me preocupou. Continuo preocupada com ele. Mas sim, tal como a Gracinha amo revê-los, eles são o mais extenso amor da minha vida.

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  5. Como já lhe contei, a minha filha não gosta de ler. Infelizmente e para desgosto meu. Já lhe tenho comprado livros, de várias temáticas e nada. Desisti. Eu que tenho centenas de livros em casa, de vez em quando sentia-os fora do lugar e ficava satisfeito. Puro engano, era para fazer um trabalhinho no secundário.
    Contudo, e aqui é que eu pasmo, ela, que ainda vive connosco nos seus trinta e dois anos tem uma oratória, quer com os pais, amigos e profissionalmente (trabalha no quarto 4 dias por semana e eu ouço quando passo), bem estruturada, com capacidade discursiva e até eloquente. Como é possível? Ninguém diria que não lê. Tendo tirado ciências, comento abundantemente com ela que se tivesse ido para letras teria feito melhor...

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  6. Talvez a sua filha seja como o meu filho mais novo, tenha certo dom para encadear as palavras. Mas o meu filho lê muito. Lê na net (sempre leu) e agora que casou com uma leitora compulsiva, compra mais livros que antes.

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