Comecei as arrumações de primavera. Está visto que podem pensar muito razoavelmente, “e eu com isso?”. Pois. Nada com isso. Nem sequer para darem a necessária mãozinha (adiante, Beatriz, não te ponhas com conversa de chacha).
Talvez por ter começado pelo escritório, os achados foram extraordinários. Embora reconheça ter sido parcialmente desalojada - a secretária, comprada com verba de solteira, sofreu ocupação total e prescindo de arrumar gavetas que me não pertencem. Por outro lado, a estante, prateleiras repletas de livros bem como a parte central dos arrumos que ficam abaixo, são de minha lavra. Há anos que não desalojava todo o conteúdo das curtas prateleiras que duas portas de madeira protegem (alienei as laterais). Ali guardei sentimentos e emoções, razões mais que suficientes para a minha demora na organização. Passo a explicar: ignoro o momento preciso de encontrá-las, mas saliento três inexplicáveis cartas (envelope e folha), completamente virgens, atadas com um laço em tecido de quadrículas verdes e bege onde perpassa um fio dourado (é uma fita mesmo bonitinha) que não ousei desatar porque sou uma inábil em laços e está tão perfeito que não pode ser meu, as pontas recortadas abraçando com exacta suavidade os sobrescritos e acordando-me para o tempo de primaveras distantes, fitas desse quilate a atar o rabo de cavalo - aquisição que implicava a funcionária recortá-las desse modo e a pedido. Portanto, a fita virá desse tempo, mas que mão feminina as terá enlaçado?! E que uso queria eu dar àqueles envelopes encorpados e de bom papel, com uma folha de carta que não é de carta, mas é por si só uma beleza de folha enrugada e recortada, veios esverdeados a alindar o conjunto, e que nem apetece manchar com palavras. Terá sido esse o meu pensamento?! É verdade que gosto bastante de papel e tenho memória de entrar na antiga Papelaria Fernandes e o comprar só porque sim. Primeiro escolhia-o num álbum de mostras e comprava duas ou três folhas. Pode ter sido o caso. Se houve destinatário pensado… não chegaram a partir. Nada vulgares, talvez as tenha comprado para escrever em datas específicas: festas de aniversário, nascimentos… cheiram um bocadinho a mofo, mas continuam lindos invólucros docemente envolvidos por laço de fita. Em delicadeza de dedos e inscrições de ternura, tentativas de não importunar aquela íntima limpidez, voltei a guardá-las.
As coisas que encontramos. Que guardámos a mando do coração. Mas essas alinho amanhã. Ou.
Preciso urgentemente de fazer essas limpezas, mas provavelmente, só para Agosto.
ResponderEliminarE fazê-las com o pequeno em casa, vai ser giro :P
O ano passado ele era muito pequenino, não deu, mas este ano, tem mesmo que ser.
Mas por acaso, como de vez em quando gosto de ir dando um olhos a essas prateleiras e gavetas, já fui deitando muita coisa fora. Acho que já não tenho sentimentos guardados na gaveta :)
Tenho ali coisas que me trazem memórias, essas não deito fora. Como, por exemplo, um código Morse escrito pela mão do meu avô.
Cláudia - eutambemtenhoumblog
Guardo o que me impressiona sentidos ou mente. Colados aos objectos há sentimentos e emoções que então vivi e revivo. E, no caso, dúvidas acerca da finalidade de cartas sem uma letra, mas guardadas tão amorosamente. Não me perco em recordações, mas Agrada-me ter memórias, são uma ligação ao mundo que, em algum momento, me tocou.
ResponderEliminarRecordar não é viver, mas ajuda à sustentação.
Cartas?? Escritas à mão?? O que é isso??
ResponderEliminarEssa seria a pergunta da geração Z.
Bfds
Mas eu não pertenço à geração Z; estou para aí no princípio do abecedário:)
EliminarSempre que remexemos nas nossas coisas aparece algo que nos surpreende bem como à nossa memória.
ResponderEliminarPor isso é importante proceder a essa pesquisa.
Bom fim de semana.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
Bom, tratar uma arrumação mais que necessária de "pesquisa", é quase uma honra, Juvenal. O pretendido era mesmo arejar, limpar pó e deitar fora o inútil. Tudo para ganhar algum espaço. Mas encontramos sempre coisas que nos surpreendem:).
EliminarBea, as cartas que escrevi...as rasguei sem saudade ou emoção! Agora, guardo as da filha que usa a "escrita" para me orgulhar de ser mãe 💞
ResponderEliminarQuanto às limpezas...a cada estação renovo, com fácil desapego e doar é palavra de ordem!
Bom fim-de-semana 😘
Não rasgo cartas sem emoção:). As minhas não as tenho, ficaram por mãos alheias e o seu destino deixou de me pertencer logo que as deitei à caixa do correio que avermelhava na cal da parede. Rasgo, por vezes, projectos de cartas e por variados motivos; parece-me ser invasiva, demasiado íntima qd o que escrevo só a mim respeita e é perda de tempo e aborrecimento de outrém (esta não tem mais a quem chatear), ou apenas por saber que não terei resposta). Isso não tem nome de carta, é escritura destituída de valor, o lixo é o bom lugar.
ResponderEliminarGuardo cartas das minhas amigas de quando elas gostavam de escrever. Tenho várias de cada uma. Guardo as de gente que me fez bem por anos e anos e já desapareceu da vista que não do coração; acudiram-me com cartas, visitas, ajuda bem real, abraços e sorrisos à mistura; pessoas que só esqueço se a memória me falte e vivem comigo, são eu; ajudam-me a seguir caminho, mesmo se e quando nada apetece.
Sou bastante pegada a objectos que me acompanhem a vida e até aos carros que tive; Também a roupas se acaso estão ligadas a alguém que passou e me deu lugar. De resto, alieno com falcilidade. Sou secreta recolectora de tempos únicos.
A isso é o que eu chamo coragem, ir arrumar as memórias que já estavam arrumadas. Tenho essa tarefa para fazer mas... vou adiando.
ResponderEliminarUm abraço.
Estavam arrumadas, mas esquecidas. Digamos que lhes limpei o pó com muito carinho, as reli ou apenas vi, e, com desvelo as guardei conjuntamente.
ResponderEliminarFoi muito compensador:)
Um abraço
Sonho com essa possibilidade de arrumação...escritos sei que não vou encontrar, perdi-os todos numa mudança entre casas. Mas deitar fora gavetas de exames e prescrições...sonho...boas arrumações Bea, com surpresas bonitas como essa.
ResponderEliminar:))
ResponderEliminarUi , que tema, arrumações!...Só de pensar fico com brotoeja... e normalmente quando começo as arrumações tudo acaba mais desarrumado do que antes, pois paro muitas vezes a rever e a reviver certos objectos, ou cadernos, ou mesmo papeis...
ResponderEliminarpor isso adio as arrumações!...
Não desgosto de arrumar gavetas e livros. Sinto-me no meu elemento. É tudo palavras, lápis, borrachas e afins:).
ResponderEliminarA outra arrumação, lavar cortinados, tirar e pôr, encerar, lavar tectos, foi muito mais aborrecida, morosa e deixou-me sem fôlego. Agora tenho de faze um intervalo para recuperar. Depois dos setenta é tudo mais lento:).
Já sabia que tinha requintes de escritor, estou a referir-me à sua Montblanc, mas essa de papel especial de carta ultrapassa tudo.
ResponderEliminarAntes tinha vaidade na minha caligrafia, entretanto acho que desaprendi por falta de uso, ao invés, dactilografo no computador e no telemóvel cada vez mais depressa.
Há pouco tempo, por mor de umas mudanças, tive de esvaziar o móvel biblioteca de quatro prateleiras aí para metro e meio cada.
Fui chamado à atenção pelo tempo que demorei a limpar tudo, pois foi inevitável folheá-los e ler um pouco durante o manuseio e já pus três ou quatro de parte para os ler ou reler.
É um conjunto Montblanc - caneta, esferográfica e lápis; uma boa oferta. O correio azul acabou-me com os requintes. Ainda assim, se um amigo vai a Florença o que lhe peço é um conjunto de cartas florentinas, são tão bonitinhas!
ResponderEliminarAndo a procurar nos meus livros um título que sirva para os alunos lerem nas férias. Inda não encontrei. A maioria é difícil de entender para quem lê pouco; O Leitor, que deu origem a um bom filme, está escrito em letra minúscula. Tanto livro que já li e nem lembro! Algum deve preencher as condições:).
Com tradução de Jorge de Sena, acabei de ler "Trabalho sem esperança" da indiana Kamala Markandaya.
ResponderEliminarFala-nos de uma aldeia na Índia rural e do sofrimento dos seus habitantes em miséria extrema.
Esta é a história muito comovente de uma mulher cuja vida inteira foi uma batalha corajosa e persistente para cuidar daqueles que amava.
Nunca vi tanta miséria junta, contada com tanta suavidade.
Adquiri este livro, com alguma dificuldade, num alfarrabista. Uma preciosidade. Se morássemos perto emprestava-lhe.
Recomendo.
Mas se o encontrou num alfarrabista como é que poderia encontrá-lo eu, não me diz?! Eu que não distingo um segurança de um polícia.
ResponderEliminarE nem sequer consegui encontrar o livro de Roland Barthes que está esgotado. Tenho de verificar se a biblioteca de Évora o tem, caso o protocolo entre a nossa e a biblioteca eborense ainda exista. Existindo, requisito e quando o carro da Câmara vá a Évora, traz-mo. A biblioteca de Arraiolos enviou-me mesmo uma obra, já não sei qual, Foram uns queridos (acho que foi um livro de Camilo Castelo Branco que não existia aqui (só tinham A queda de um Anjo).
O Joaquim pode vir morar para Cabrela por exemplo:). Parece que em Junho vai haver um programa muito bom a que tenho pena de não assistir. Além disso, o David está apostado em pôr Cabrela no mapa. E parece que ali se fixaram umas pessoas conhecidas (nunca as vi, não vão às compras ao meu supermercado, nem andam pelas poucas ruas que conheço da terra). São três quilómetros de distância (ou serão seis?); encontrávamo-nos nos limites dos concelhos, a parte da estrada que pertence a Montemor está péssima, é a forma de os montemorenses evitarem que a gente de Cabrela se desloque para a minha terra. Palermas. Não sabem que a gente pobre escolhe sempre o caminho mais curto e logo mais barato?! Bom, o Joaquim ficava com o percurso maior e maltratado que eu chegava do alcatrão lisinho que nem fita de seda. E ali no limite de um concelho e outro, emprestávamos livros um ao outro. Atente que Cabrela foi vila de pergaminhos (para mim é uma aldeia desimportante que me serve momentos culturais e de caminho para a minha praia.
Perdem-se umas leituras, ganham-se outras.
Ó senhora...hoje em dia está tudo na internet!!
ResponderEliminarVai ao site do "OLX" ou do "Custo Justo" ou do "Trade Stories" por exemplo, pesquisa pela obra em questão ou pelo seu autor, se existir entra em contato com o seu vendedor por mensagem no próprio aplicativo, paga por transferência bancária ou MBWay (eu pago sempre por transf.bancária) incluindo os portes em correio editorial (ou registado que é mais caro - eu mando vir sempre em editorial e nunca falhou), indica a sua morada e passado uns dias recebe o livro em casa.
PS: mas se não encontrar dá-me a sua morada que eu envio ou o seu e-mail que eu contacto-a.
Pronto! Não quer vir morar para Cabrela!:)). Brincava, claro.
ResponderEliminarVou tentar seguir as suas indicações porque gosto de ter livros meus onde eu escreva, sublinhe, coisas assim; a segunda mão satisfaz-me plenamente. Mas, em último recurso, digo-lhe alguma coisa, ok?
Sou uma velhota do século XX que se adapta mal às tecnologias do séc XXI. Também não tento com muita força, é verdade. São coisas que podem ser necessárias, mas desinteressam-me e acho mal empregue o tempo que levo a tentar acertar com aquilo. Para mim, quando finalmente sei funcionar com alguma, sinto a perda de tempo que foi aprendê-la - ainda que me seja útil. Um papalagui português. Mais ou menos.
Boa noite
Obrigada por sugestões e oferta.