Um dia destes fui a Lisboa e, por sobrar tempo, passeei um bocadinho pelo jardim da Gulbenkian. Antes, por desuso de condução no caminho para a cita cidade, tinha aproveitado para me perder. Bom, não interessa. Optimista, fazia tenção de visitar o Centro de Arte Moderna. Mas eterniza-se a concretização do projecto. Portanto, vagueei sem destino fixo em lugar a gosto. Torneei a obra e notei, no sol da tarde, a relva coalhada de pequenos grupos de jovens, braços nus, mochilas e casacos a trouxe-mouxe, a pobre relva, ai ai, ai, que isto pesa. Os restantes sentados e de pé eram mães e avós dando aso à liberdade de suas crianças. Como o mundo da infância tudo agiganta! Os garotos que por ali brincam, hão-de lembrar um relvado sem fim e que vai encolhendo à medida que os anos correm. Fui saber o horário da última entrada no museu que aquele Filipe que é visita e nem por isso é grande coisa, não me escapa. E saí. À minha frente seguiam três turistas estrangeiros (não lhes ouvi a fala, seguiam em conversação discreta), mochila às costas, de chinelos em tudo semelhantes a vulgares chinelos de quarto. Não recordo senão outro pormenor que me fez sorrir, não só usavam meias, hábito bastante inglês, como um deles as calçava desirmanadas, um pé enfiado numa meia preta com flores vermelhas e o outro numa de riscas azuis e cinza. Gostei de vê-los.
Cheguei à conferência um bocadinho cedo e escondi-me num lugar que acho cómodo e discreto (animal de hábitos). Em casa tinha puxado de um caderno ao acaso (tenho um monte deles, todos de oferta e a maioria em branco) e só quando me preparei para a escrita, antes dos conferencistas, reparei que tinha algumas folhas preenchidas. E porque iniciou com atraso, estive a ler aquela espécie de diário. Diz respeito ao início da prisão domiciliária a que o covid nos conduziu. Curiosamente, não me senti tão sozinha quanto isso. Embora dos apontamentos conste a solidão inevitável, o tópico principal são os pesadelos, a falta de sono e de liberdade. Que o covid arda num inferno qualquer é o que lhe desejo.
A conferência versava o 25 de Abril, o dia inicial inteiro e limpo que Sophia cantou. Jaime Nogueira Pinto não é a pessoa mais entusiasta a falar do tema (foi para a Suíça em visita a amigos). Podia não me ter deslocado para o ouvir. Mas acontece que, para além da visão política que tem e repudio, é pessoa que sabe entrelaçar os assuntos, sabe ser objectivo em relação a vários temas de política internacional. Pensava eu que saberia sê-lo também no tema em análise. Desilusão. Tanta que estive quase. quase, a intervir no momento em que, para falar da fraca disparidade salarial no tempo do salazarismo, começou nos bancários e terminou nos banqueiros, achando que a discrepância nem era assaz grande. Assombra-me que esta gente que se diz remediada e é mais que isso, que tanto lê e sabe, esqueça o povo. É como se não exista para a história. Mas na história do 25 de Abril ele foi essencial, como é que uma mente esclarecida esquece isso?! Só me apetecia perguntar, e o povo, pá?! Mas este é apenas um exemplo. Não se ouviu falar dos pobres, dos que não tinham dinheiro para pôr nos bancos porque lhes faltava para comer e que eram a esmagadora maioria. Todas as belas têm um senão. Bati de frente com ele.