O que me faz gostar de Lisboa não é ser capital do país, ou ser a mais linda cidade que já vi. Ignoro qual seja a cidade de eleição, não visitei assim tantas e gostava de voltar a todas, que em cada uma encontrei espírito e beleza. Contudo, admito: as cidades italianas estão bem posicionadas. Cheguei à conclusão que Lisboa me agrada sobretudo pela surpresa do seu quotidiano tão diverso do que observo na minha cidade só de nome. Gosto-a desde o comboio ou automóvel que me levam – é um tempo só meu, uma muda de pele. Se sigo de carro, breve me farto do rádio e da música e fico-me a percorrer quilómetros pensando em coisas como esta que ora escrevo. E penso com tanta intensidade que absorvo e passo pelos radares sem dar por tal e depois as multas e assim. E agora acho que vão ser pontos na carta. Mas isso não interessa nada e até enfeita.
Em termos de beleza, Lisboa parece-me sempre mais bela vista da ponte. Penso nas ruas e no formigueiro de gente, mas não os vislumbro. Ao longe, a cidade é paisagem a gosto: tem o verde semeado aqui e ali, a água do Tejo que parece descansar serenamente no enleio doce de quem não quer partir, e as casas prédios, mamarrachos altíssimos, surgem bonitos na lonjura que tudo branqueia. É idílica a cidade vista da ponte, como se habitada por duendes e feitiços de boa índole. E penso: vou entrar dentro dela, corrê-la na superfície das veias que a tatuam; vista daqui de onde a penso, é um aglomerado de edifícios que não vejo verdadeiramente, resume-se a manchas claras pintalgadas pelo verde intermitente colinas acima. Se desço para a Segunda Circular esvai-se o sonho, são apenas ruas, automóveis apressados que afrouxam no radar (deste acho que nunca me esqueci) para acelerar de seguida, um montão de trânsito que nos chega do aeroporto, dos lados do Oriente e sei lá mais de onde. E depois vêm os semáforos e o para-arranca que permite olhar melhor os outros condutores – uns fumam, janela aberta, cotovelo de fora; outros seguem concentrados, sozinhos no mundo, negando o ao redor; outros concentram-se em furar as filas, fazem ziguezague de uma a outra e breve evaporam – apressam-se, sabe Deus porquê –. Prefiro pensar em motivos quotidianos, por alguém que os espera e a hora vai adiantada; porque lhes nasceu um filho e vivem a ânsia de ver esse pedaço de gente que tanto lhes pertence; porque se atrasaram num almoço demorado; porque são visita ou trabalham em hospital onde se cumpre escrupuloso horário; porque o patrão os quer a horas não sei onde; porque lhes deu forte dor de barriga. Mas também pode que sejam apenas palermas dos que têm raiva às filas e não aprenderam a espera. Há gente assim.
No Metro as surpresas nunca são demais nem as mesmas. Há quem me dê lugar e já disse que são africanos ou brasileiros, os portugueses estão o tempo todo a olhar o telemóvel. Entra um rapaz com cabelo rapado e com uma lista vermelha a meio do couro cabeludo. Na estação seguinte sobe uma rapariga com um corte modernaço, cabelo castanho natural e abaixo das orelhas louro quase branco. E que bem lhe fica! E uma brasileira com seu bebé ao peito, a chupeta pendurada do babete e ele a abocanhar o pescoço da mãe e depois tentando, sem êxito, chegar à chupeta pendurada, o desejo na boquita que abria e fechava talvez imaginando a chucha (deu-me ganas de ir lá satisfazê-lo). Minutos volvidos, a mãe deu-se conta dos esforços da criança, puxou a chupeta e foi lindo ver a avidez do pimpolho. Que bom ser bebé e sentir assim pertinho o calor e o cheiro da mãe. O garoto estava numa de contentamento inegável e adormeceu tranquilo. E entraram aquelas duas garotas de mão dada, olhos de bem querer, ciciando e sorrindo. E achei tão bonito ver assim um amor de comunhão.
As gentes de telemóvel em punho são deveras desengraçadas e não dão conta de nada. Sou a favor do adereço, julgo-o mesmo necessário em certos casos. não rejeito a tecnologia, mas o uso excessivo, o desmedido tempo gasto em coisa que espremida dá zero. Esta peça, parece-me, retira-nos dos outros. Anda toda a gente a ouvir música, a jogar, a ver filmes, a ler e ver comentários de futebol (eles nem dão por tal, mas, subreptícia, lanço um soslaio ao conteúdo de quem se senta a meu lado de telemóvel em punho). Não dão lugar a velhos, grávidas, mães com filhos pequenos. É mais fácil não os ver. Tal qual o ditado popular.
O movimentoa acaba por distrair as pessoas.
ResponderEliminarDevíamos se rmais atentos e empáticos com o nosso semelhante.
Abraço de amizade.
Juvenal Nunes
Por exemplo, a baixa de Lisboa neste momento cansa-me e irrita-me: porque lojas a que ia normalmente estão todas a desaparecer... porque não se ouve falar português...porque os hoteis e afins crescem como cogumelos, etc, etc e etc. Irrita-me e entristece-me. Por ali já nem consigo achar piada a detalhes, algo que sempre aprecio.
ResponderEliminarAinda gosto de deambular por zonas da cidade que conheço mal pois há sempre uma curiosidade ou um recanto. E ouve-se falar português!
E os telemóveis nos transportes públicos são mesmo uma praga, uma verdadeira pandemia digital!
Ainda há poucos dias pedi a um viajante que ia ao meu lado o favor de baixar o som. Acedeu e agradeci. Tive sorte.