domingo, 31 de março de 2019

Gatil Vitalício


A minha princesa de quatro patas tem olho azul e uma ternura mansa a correr nas veias. Chama-se gata e não tem arte para brigas com os congéneres, antes foge deles num arrufo de cauda, buscando abrigo seguro; nessa inépcia de esgadanhar e morder, ganhou marcas de guerra sem medalha. É caçadora mediana e diverte-se a desrabar lagartixas. Isenta do vício da posse, lança a pata brincalhona ao réptil e revira intrigada o pequeno s que se contorce no chão enquanto o animal some fugaz. Raro procura colo e falta-lhe o seguidismo de me acompanhar as pernas constantes. Também não inveja o teclado do portátil. Em suma, o mundo dos homens pouco lhe interessa. Mas é feita de silêncio presencial e caseira como nenhum outro gato; acresce que passeia no exterior usando cautelas que os anteriores desprezaram. Foi assim que se prolongou no tempo. Quase velha, a felicidade suprema acontece-lhe se giro pelo quintal. Sobe e desce no tronco de árvores e arbustos, cabriola na minha frente, corre súbita para estacar de seguida. Uma doideira de contentamento que deixa o Fox de olho arregalado às quatro patas. Fox é o guardião, ladra avisos aos gatos quesilentos e a mim, deixa-a comer do seu prato e esparvece de estranheza se ela surge com filhotes.
A maternidade é a supremacia da gata. Este ano, por falta da pílula e mercê de instinto inadiável, emprenhou. Com os típicos sintomas femininos: vómitos, magreza, falta de apetite, sono em demasia e um quê de doença. Até os bigodes lhe descaíam. Mas breve se retomou e, quando dei por ela, comia desalmada, barriga a crescer. Às portas do parto, isolou-se no quintal. Mas, sendo duas para tanta vida, somos as mesmas nos momentos difíceis. Encontrei-lhe uma cama a jeito, pu-la em casa no lugar que prefere e depois de forrada depus a gatita, toda atenção e respeito pela hora. Os três filhos nasceram por entre o seu silêncio que semearam de miados finos como hóstias. No segundo dia, reparei que punha um deles para as costas. Por duas ou três vezes corrigi a posição. Quando o busquei da última vez, estava morto. Terá a mãe pressentido a morte ou o instinto lhe ditou que não sobrevivia; ou, como diz o povo, enjeitou-o.
Contudo, às duas gatitas sobrantes dedicou desvelo exemplar no asseio e na disponibilidade, mãe a todo o pano. Quando a primeira se foi a novo poiso, procurou e voltou a procurar pelos lugares comuns. E logo a esqueceu. A segunda está de partida e tudo se repete. O instinto é força de momento que não deixa marca ou lembrança, existe na hora certa e passa. A minha gata é só gata, não é pessoa. Nem lá perto.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Gatil Vitalício


É certo e sabido que gosto de gatos. Em casa de meus avós havia vários, mas só a Bibi colou à memória. Era a mansidão em forma de gata preta e tinha um amor perdido por meu avô, seguindo-o por tudo que era canto. Os gatos dos meus avós, como mais tarde os de minha mãe, eram seres livres e passeavam-se por onde lhes dava na veneta desde que não passassem da cozinha. Ou seja, eram animais de rua. Nesse tempo, as crianças não andavam com os gatos ao colo, apenas se habituavam à sua companhia. A Bibi, aninhada aos pés de meu avô, fazia-me o favor de comer os elementos da sopa que me nauseavam e eu lhe atirava por debaixo da mesa sem a minha avó aperceber, lambendo prestamente os vestígios. No fim, prato quase vazio, ela em resmungo agreste, não gosta de tomate, não gosta de tomate, aqui come tudo, a mãe é que não aperta com ela. E o sorriso cúmplice de meu avô, olhos no prato.
Tenho várias histórias com gatos, algumas com marcas de alma. Os gatos de minha mãe, pretos por condição e gosto, de tão à vontade que andavam, breve se tornavam selvagens. Com frequência emigravam para os confins do mundo não civilizado, todo sobreiros e cobras, regressando apenas por fome de comidinha caseira e desfastio de saudade. Faziam aparições esporádicas até perderem memória de nós e desaparecerem de vez. Chegavam arredios e a olhar-me num assanhamento vingativo que não consentia mão. A insistência incrédula da minha ternura de saudade curava-se a mercurocromo e tempo feito de lágrimas desapontadas. Os gatos deram-me a primeira lição sobre a reciprocidade afectiva: a chama não é eterna nem é de lei que apague em simultâneo. No entanto, apesar dos anos terem confirmado a verdade gátil, ainda hoje os arranhões e olhares rancorosos dos meus bichos de estimação purulentam na memória.
Portanto, quando criei a minha própria casa, frequentada apenas por lagartixas renitentes e aranhiços provincianos, julguei-me a salvo da selvajaria das garras e adoptei um gato adulto que não me largava a porta. Foi o recomeço dos gatos na minha vida. Que me inibo de contar. Ao caso, interessa apenas o felino que ora me acompanha: uma doce gata de olho azul que foi abandonada bebé – talvez por ser fêmea – quase na soleira da porta. Indubitável presente divino que, felizmente, aceitei.
(cont)

quarta-feira, 27 de março de 2019

Tolentino


 Ignoro se muito te ocupa o Vaticano e seus livros velhos e novos, mas, e já que estás aí, vê tu se velas pelo senhor Papa Francisco, pessoa que te contratou e me parece precisar de amigos a sério. Mas acredito que saibas o que fazer mesmo que não cheguem à fala. Os poetas às vezes não são apenas poetas, são também almas com dimensão.
Pois digo-te que na última sessão a tua igreja estava composta sem demasias. Não sei se foi a primavera, se a poética de Daniel Faria. Lá estivemos. A oradora, Teresa Furtado de seu nome, teceu a apologia do autor. Sabes, cativa-me a reserva dos frades, os conventos sigilosos, a vida monástica intramuros. Pois, Daniel, o poeta de estranha voz, vivia no mosteiro beneditino de Singeverga. Não foi há centenas de anos, antes quase agora mesmo. Nasceu nos inícios da década de setenta e morreu em Junho de 1999. Vinte e oito anos extraordinários. Há quem lhe dê voz rural e telúrica, Sophia disse dos seus versos que “põem o mistério a ressoar em redor de nós” e eu o senti na primeira leitura com o penetrante sabor da verdade não imediata, uma cintilação que, à superfície, encandeia. E olha, andei pela net a ler os seus versos e o mais que sobre ele existe. E que não vou repetir aqui. Porque não.
A perspicácia da oradora foi, de quando em quando, dar a ler um poema, objecto da sua conversação no antes ou no depois. Confesso que não lhe sustive o discurso e antes suspendi da poesia de Daniel. Palavras em clarabóia. A claridade poética ressoou na abóbada da  tua igreja e, no entusiasmo da luz, até o anjo - sabes, aquele de perfil traquinas e apressadinho -, quase se virou de frente. Verdade. Poesia e música sintonizam com igrejas e belos lugares de devoção. É assim. Que mais podes querer do que uma capela onde os versos palpitam etéreos, ou engastam, ou são tinido de cristal no teu interior, beleza que estremece a cada sílaba.
Do que li me ficou a ideia de o poeta ser pessoa serena, silenciosa e de muita e boa leitura. Que coleccionava pedras e, curiosamente, muito dado ao agir. Do que ouvi, recolhi acrescentos: poeta original e que o seria com ou sem Deus; nele, a força da poesia era maior. Dava aos seus poemas nomes diferentes, “homens que são lugares mal situados” ou “Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões”. 
E eu que teimo em sentir-lhe um tormento qualquer e julgo ser tortura mansa que, tanta vez, assanha e sangra, “existia no entanto um poema a recuar/ uma espécie de anjo mutilado na raiz”. E onde outros vêem o etéreo, o espiritual que todo se move  pela saudade de Deus, eu distingo travos de impotência, a consciência da humanidade rasa que o faz homem mal situado mas ao contrário, “escrevo do lado mais invisível das imagens”. E no entanto,
“prometo-te a palma da minha mão para a escrita
cerca-a de magnólias, cerca-me. Podes fechar a escrita
no interior da mão ou na boca dos livros.
........
dou-te, como desde sempre, o poder 
de escreveres na pele da minha mão
as promessas que te fiz”
Pronto, Tolentino, há versos mais expressivos. Mas as magnólias. Tu sabes.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Dia da Árvore


            Hoje queria plantar uma árvore, aninhá-la na ternura das mãos,  a terra das raízes fugindo por entre os dedos e eu a segurá-la em concha, desvelo de mãe a amparar o recém nascido. Uma árvore qualquer. Crescendo frondosa enquanto eu minguava. Sombra a que me sentaria meditabunda e arfante, nas soalheiras do verão. Que olharia da janela quando despida, nuzinha, tiritasse os rigores da invernia. Que alegrasse as primaveras do meu outono e, no declínio do verão, mostrasse ao mundo um rumor de chão colorido. À minha árvore eu fazia cama bem funda, as raízes espreguiçando langor à vista de ementa refinada. Fazia-lhe a cama com lençóis a gosto, carregados em carro de mão. Depois, plantava com cuidado o seu corpinho verde, não fosse deslocar um braço, torcer um pé, constipar-se com a aragem. E ficava a vê-la, direita como fuso, talvez amparada a bengala de árvore bebé, arreada de lençóis e aconchegos. E vigiava a mangueira, não fosse ela engasgar-se e vomitar tudo. Que, bem sei, árvores semelham bebés, bolsam. Preferia que ela crescesse como um desenho animado, uma explosão de vida a engrandecer e criar folhas, flores e frutos; tudo em segundos. Mas a vida não é animação, é só vida.  E, quem sabe, gostava ainda mais de a descobrir menina. Depois, amorosamente, embastecia como adolescente precoce e provocava atrofios e descaradas invejas. Mais tarde, num movimento de anos e centímetros, quando tudo nela fosse grande, maduro e pronto, daria frutos suculentos, doces, nascidos para lavar e dentar. Então, eu sentava-me sob a sombra verde e copada do enrameado. Trazia no regaço alguns frutos ainda com gotículas de água escorrente e, sem magoar, ia dando dentadinhas pequeninas, mordendo levemente a sua pele lisa e apetecida, e a vontade do sumo escorregava do interior; e era bom por ser doce e ter um travo ligeiro que não se sabe se é seiva ou sol líquido, ou apenas o sabor do cheiro que têm os frutos que apetecem.
             Porém, não plantei a minha árvore de frutos de mel. Gastei-me, de tesoura em punho, a poemar trepadeiras. Ora, numa redacção acaba tudo em bem: o que eu gosto de árvores não tem limite ou figura.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Tolentino


Esta semana o panorama da tua igreja agradava-te. Cheia. Ou quase.  Ninguém arredou pé, nada de se porem a andar. Filomena Molder, três réis de gente, falou sentada, vozinha quase a esfarelar. E deu-nos um momento alto. Falou de Etty Hillesum, figura que apesar de admirável podia descambar para o discurso fácil e compassivo. Etty Hillesum uma holandesa judia e fascinante, morta como tanto judeu em Auschwitz e que deixou o seu testemunho em cartas e diário. Contudo, a dimensão e a luz a que se analisem os testemunhos podem comprometer-lhe o brilho. Filomena Molder tratou-a como merece. Com objectividade aparente, a isenção religiosa que se exige e a empatia que a garota merece. Porque merece. Ponto.
Mea culpa, Tolentino, pela primeira vez frequentei uma sessão sem ter informação, notícia, ou sequer uma espreitadela ao google que deu em me pedir dinheiro de cada vez que o consulto. É universal, pede-se nos blogues, no google... já reparaste nisto, tu? Bom, sigamos com a Etty, ou chateias-te e não lês mais. Sorry. Em tudo há um lado positivo, ainda que ínfimo. Quem sabe se não foi a descoberta que me fez ouvir Filomena Molder com inteira atenção, como se ela pitonisa em transe; que não é, a senhora é calma e de vozinha a partir-se. Digo-te, é mulher que  faz o meu estilo. Pareceu-me simples e despretenciosa (pode não ser; mas que parece, parece), sábia qb, não se muniu de axiomático esquema (foi falando e pescando nas suas notas de quando em vez), e confessou que desde pequena perde tudo por ser muito distraída e aprendeu com Etty que não precisamos procurar, as coisas perdidas hão-de vir ao nosso encontro.  Este desabafo deu-me algum ânimo. Mas consta que ela não achou os muitos objectos que perdeu...
A discreta professora Filomena referiu o namoro e amizade entre Etty e Julius Spier e a importância dele no percurso de Etty, seja na escrita dos diários e cartas, seja no interesse adulto que criou pela psicologia e pela religião. E não acrescentou. Ora bem, quem quiser que procure. Para aqui, não é importante. No entanto, acentuou que a família era disfuncional, nenhum dos pais sabia sê-lo pelo que os três filhos sofriam de problemas psicológicos. Com a ajuda de Julius, Etty tratou-se a si mesma através da escrita e da ligação a Deus. Judia actuante na ajuda ao seu povo, foi datilógrafa no conselho judaico, órgão burocrático que fazia a ponte entre os alemães e a comunidade judaica. decorrido um ano saiu (afirmava que no conselho judaico estava em permanente litígio consigo mesma) e foi fazer voluntariado no campo de Westerbork lugar de trânsito dos judeus que aguardavam ser deportados para os campos de concentração e ali viviam miseravelmente. Parece que as suas descrições são muito objectivas e que ela se firmou em descrever sem julgar. Quis mostrar. Mas mostrar, neste caso, é igual a julgar. E mesmo melhor. Digo eu que ainda não li. Não será leitura fácil. Como não é fácil percorrer Auschwitz e Birkenau. E adesivo ao pensamento de Filomena Molder: a linguagem é uma potência e não uma impotência. Mesmo quando a dimensão da dor ultrapassa a capacidade de a comunicar, há o esforço para, há o dar a conhecer. Para que se evite a repetição do mal radical,  o inaceitável.
E portanto, encontrando os diários ou as cartas,  vamos todos ler Etty Hillesum a quem chamavam “o coração que pensa”. Nome mais bonito que o povo lhe pôs!

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia do Pai


Festa dos pais. Dia de S. José. Aquele senhor carpinteiro dono da minha admiração. Não temos dele uma só palavra afirmativa. Tão apagado e tudo nele foi acção. É preciso ser pai de uma criança concebida por milagre e que só pode ser um Deus, seja; faz falta ir visitar a prima Isabel, vamos já tratar disso; Temos de nos recensear para que se cumpra o destino do Menino, aparelhemos o gado; há que fugir de Herodes, arrumemos a sovela no estojo que em todo o lugar  precisam de carpinteiros. E até, quando Jesus se prolonga no templo a falar com os doutores e responde à aflição dos pais, “estava em casa de meu Pai”,  não consta que José se tenha irritado. Mas, entretanto, José extingue-se. Não há José nas bodas de Canan, no milagre dos pães e dos peixes, na paixão. Para o evangelho que conheço, morreu. Que difícil ser José entre Maria e Jesus.
         Lembrar hoje os laços que nos ligam aos pais desde o princípio. Porque brincaram connosco em crianças, nos contaram histórias antes de dormir ou em qualquer outra boa altura, nos trouxeram às cavalitas e ao colo, nos ensinaram a andar de triciclo e depois de bicicleta. Os pais que eram tão altos e de que só abraçávamos os joelhos. Os pais com pés enormes onde, rindo, andávamos à boleia. Sem eles não concebíamos a vida. Eram os nossos pais. Eternos. Omnipotentes. Seguros. Fortes.  Os pais ensaboavam a cara e punham-nos um bigode de espuma, depois davam-nos um lápis e fazíamos a barba a imitar gestos. O nosso pai cheirava a ele e o riso enchia a casa. E que prazer se nos ia buscar à escola e nos dava a mão.
Quem sabe há no coração da gente um lugar onde não se cresce e os pais continuam enormes.

domingo, 17 de março de 2019

Tolentino


Tolentino
Desculpa o atraso, mas nem sempre podemos fazer o que desejamos quando o desejamos. E escrever-te, desta vez, ficou para o fim. Foram demasiadas coisas em poucos dias. E, portanto, vamos falar do que aqui me trouxe. Antes, devo informar-te que continuamos em modo de primavera.
Pois a tua igreja mantém-se acima do meio gás e sem a afluência que lhe notei ano passado em que até o coro inflava de gente. Também é verdade que a escolha das obras foi menos feliz. É a minha perspectiva, vale o que vale. Desta vez falou-se sobre Gabriela Llansol e a sua última obra “Os cantores de leitura”. Advirto que já tinha lido um livro da autora e não é escrita que encontre prazeirosa. Contudo, gostei da prelecção, João Barrento foi competente a informar e ajudou a descodificar a autora que se autodefinia, “alguém que  escreve nas margens da literatura”. Pois gostei de saber mais acerca de Gabriela Llansol. Usa escrita poética e de beleza depurada. Apresenta-se em pequenos quadros ou fragmentos aparentemente sem qualquer ligação e que são como clareiras – Barrento chamou-lhes cenas de fulgor - de onde podem nascer caminhos, cabe ao leitor escolher o seu e andar. Inaugurá-lo. Do que li – sem entender grande coisa, diga-se –, apercebi a diferença no papel do leitor que, segundo João Barrento, é antes um “legente”, ou seja, um leitor transformador, nada de ser apenas leitor. Ora, tu conheces-me, Tolentino. Tenho grande prazer em ser apenas leitora, sujeito passivo que vai lendo e só move o imaginário, tudo o mais repousa. Leio para descansar. E Gabriela não nos dá descanso. Ele é a estranheza da obra fora de qualquer representação do mundo; ou os muitos nomes que encontra para nomear o mesmo ser de outra forma - e aqui, desculpa , mas penso que se divertia – repara que ao Baruch Espinosa que conhecemos e de que gostava em excesso, gosta de chamar a rena   benedita e trá-lo para os livros de forma pessoal e como bem lhe apraz sem se ater às suas verdades filosóficas, ou atendo-se a elas mas para as modificar e tratar a gosto; e encontras nomes humanos tão estranhos, como poéticos são os fragmentos. Por outro lado, designar o mundo de “jardim devastado” é um acto de justiça mais que de diversão. Ao acto da escrita chama “o rio da escrita”, rio que os livros fragmentam; talvez por isso as personagens transitem de uns livros a outros.
Não conseguiria nestas linhas sintetizar a indefinível e avessa escrita de Gabriela Llansol. Também por ignorância. Mas olha, atenta nas tuas ovelhas porque até eu estava envergonhada daquele final. É que foram debandando às claras e com ousadia, umas atrás das outras que nem formigas no carreiro. E o Barrento falando para uns gatos pingados. Pareceu-me pouco delicado.
Fica bem. E não trabalhes demais. “Olha os lírios do campo...”


Discreta Indiscrição


(a carta)
Foros de Vale Figueira, 4 de Setembro de 1966


Carlos

Nem tu imaginas quanto me alegra que andes já a empacotar pertences e com o regresso no pensamento. Dois anos em África é martírio e perigo que se não deseja aos inimigos, muito deves ter padecido em lugar que não nos pertence. Velo a lamparina que te acendi e tremeluz dia e noite e estou crente que, por ela, um anjo te guarda da morte e protege de perigos que nem sonho.
Sempre quis ser madrinha de guerra, escrever a um soldado que luta lá longe por terras que mesmo depois de as ter estudado e me dizerem que são nossas, continuo a sentir estrangeiras. Que nenhum soldado merece tal sorte ou tem culpas no conflito que todos aflige. Apesar das tuas queixas, acredito ter cumprido. Dei-te o ânimo de que fui capaz, atentei nos poucos lamentos de aerograma, procurei que a minha escrita te fosse calmo refrigério. E fui-te contando os pequenos nadas da minha vida de aldeia.
É verdade que neste tempo te pertenço mais do que a qualquer outra pessoa, andar contigo no pensamento não pesa nem quer passaporte ou salvo conduto. Que escrever-te e pensar em ti é tudo que nos une e posso fazer. Não sou uma madrinha de guerra comum, apesar da aldeia, das preocupações comezinhas, do meu espírito simples que deixa tanto mundo fora da compreensão e me reduz os esquemas mentais. Foi com eles que te entendi nos quilómetros de palavras escritas e por escrever. A tua vida é toda para fora; a minha, toda para dentro. Encontrámo-nos no limite e cada um volta a quem é. Não meças o que não foi dado, não te apouques em comparações, um caminho de aerogramas é por necessidade leve. Mas toda a leveza é arte. E isso conseguiste e é mérito teu.
Vai, guarda-me dentro dos dias de inferno, apenas uma névoa de palavras, rasto breve de poeira que terminou a função. Reduz-me ao que sou, um montão de ideias que se fizeram companhia. Vai e procura, ou encontra sem procurar, quem converta em gestos e actos todo o bem que se escreve. É rotundo o meu não. Quando chegues, não me procures, deixa Pandora dentro da caixa.
Que no caminho de volta navegues em mar de calmaria e chegues são e salvo ao teu destino. Não sei nomear o bem que de ti me veio ou o quanto gostei de te ler. Obrigada.
Isa



sexta-feira, 15 de março de 2019

Discreta Indiscrição


Quando fiz treze anos, numas férias grandes de descontrolado calor, minha mãe salvou-me do marasmo com a ideia da escola paga. Metemos mãos à obra: limpámos e caiámos uma arrecadação a que chamávamos “a casinha”, falou com meu pai que, ponderadas a minha falta de habilidade e a fraca morfologia, assentiu a resmungar renitências. A autorização do deus caseiro potenciou minha mãe ao anúncio, eu podia ensinar os filhos de qualquer que me pagasse uma ridicularia que nem nomeio, mas me deixava nas nuvens. No final da primeira semana, “a casinha” estava repleta, eu estava feliz até não poder mais, fazia recreios de horas onde brincava e me divertia tanto ou mais que os alunos, e ensinava como me dava na telha e me parecia melhor. Eu, que na ginástica era nulidade reconhecida, ali me tornei um ás no jogo do mata. Tudo maravilhas.
Nessa época, as crianças faziam cama a pratinhas de chocolate e papéis de rebuçado nas páginas do livro de leitura e com eles esgrimiam, a provocar inveja acrescentada  pela ideia, tantas vezes falsa, de que o recheio do embrulho tinha sido comido pelo dono da prata ou papel. Certo dia, chegou-me um aluno que deitou por terra pratas e demais invólucros. Era um garotinho franzino, risca ao lado, algo aturdido com tanta gente a observá-lo. Quando o chamei para verificar o estado da leitura, abriu o livro   e qualquer coisa em tons de pêssego se escapou. Apanhei-a e era um postal ilustrado, um recorte de serra todo à volta. No centro, em tons sépia, uma garota  num sorriso de mona lisa, rosto ligeiramente inclinado, a bochecha esquerda a encostar nas mãos postas. Abaixo do peito a figura perdia-se num esfumado que desembocava numa grinalda de rosas.  Pasmei na sugestão da imagem e o miúdo, tenho muitos, esse deu-me a minha mãe. Não foi preciso mais. No dia seguinte, todos me trouxeram postais, dos tios, das mães, das avós, vizinhas, e etc. Foi assim que comecei a colecção: sem querer. Passei as férias com o maço de postais a engordar. Atava-o com um elástico que tirei da cesta da costura de minha mãe e que subtraí ao seu destino de cueca. Na escola “da casinha”, quem terminava primeiro a função tinha ordem de ir buscá-lo e se distrair a mirar os postais um a um, voltando depois a atá-los. Eram postais escritos e bastante variados. Por eles, apercebi pequenos segredos de pessoas que conhecia, notei alguns amores, li dissabores, queixas e maleitas, muito arrastar de asa em postais de boas festas e aniversário, entrevi laços e relações que nem sonhava em gente desconhecida.
Ora, um dia destes, meu pai arrumou o sótão, achou o que resta do meu maço de postais e trouxe-mos a trouxe-mouxe e sem elástico. Antes de deitar fora tanto beijo e abraço, tanto recado e desejo de boa saúde a esvanecer, resolvi dar uma última vista de olhos.   Há sempre surpresas nas janelas de passado. Por entre cartões desbotados e cheios de pó, um imprevisível envelope. Dentro, quatro postais antigos e em recorte, e uma carta de letra cerrada. Terá sido entregue por um garoto e eu, na pressa, nem os retirei do envelope. Não sei quem tenham sido a Helena ou a Isilda a quem os postais se dirigiam. E a carta, que li no meio remorso de violação de intimidade, letra esquinada e feminina em escrita de tinta permanente, é endereçada a alguém que militava no ultramar. Não faço ideia da razão por que me veio parar às mãos nem me lembro de a ter visto antes. Talvez a criança que a trouxe nem saiba que trouxe, terá vindo agarrada aos postais, quem sabe... mas merece transcrição.
(cont)  

quinta-feira, 14 de março de 2019

Flor Sem Tempo


Não te vi morto. Prescindi de espreitar-te a lividez de restos tão desabitados de ti como casa a que arrancassem portas e janelas. Faltou-me a vontade.  A possessiva morte varreu-te. Com ela veio o desgosto artístico das flores  acopladas em coroa e coração, olha para o que nascemos. E eu, indicador no nariz e boca de assobio, pssss, mais respeito. E logo elas obedientes, corola baixa, vamos murchar devagarinho, prometemos. Mas, em mim existes tu alegre e jovem, o filho mais novo ao colo, vamos apagar as velas os dois. E  um ano e outro no nosso aniversário, tu a erguer o copo e fazer saúdes que rimavam.  Tu jovem e cheio de força, ainda com o casaco azul do emprego. Ou metido na brancura de uma camisola de alças a cavar o quintal. Eu a observar-te a mecânica dos gestos no mover da enxada que as tuas mãos faziam dançarina, escorrimentos de suor a fazer caminho pelo rosto. E o que ficou na memória de nós todos, a descoberta da tua agenda que tanto gozo deu a filhos e primos. Nessas folhas datadas, apontavas gastos e semeaduras, memórias que adendavas uma vez ou outra de coloquialismo ingénuo. Escrevias, “hoje semeei as batatas” e acrescentavas, “venham elas cá para o Manuel”. E a risota curiosa dos garotos a espiolhar outros àpartes. Mas nunca enjeitaste um filho na barriga. À vista das lágrimas da minha madrinha, enfrentaste a última de peito feito, sempre a animá-la, “deixa lá, é para a nossa velhice”, uma frase tão simples e corriqueira, mas foi bálsamo nas minhas feridas. E o carinho com que olhavas o teu éden. Doente e debilitado, a morte já a chamar-te, mas usando ainda a sem idade do amor. Enlevo de oitenta e cinco anos para oitenta e nove, “tu és muito querida e também és bonita”.
Mas para mim, padrinho, continuamos todos sentados à mesa e tu de pé, copo erguido, a saudar.
Vou beber este copinho
E não me custa mesmo nada
Viva eu que faço anos
E viva a minha afilhada.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Flor Sem Tempo


Não entendo a curiosidade mórbida. Chegam e destapam-te o rosto. E a mim me parece que te violam o recato do sono. A morte é feita de silêncio. Gente que te vai ver morto e outro, mas não te procurou vivo, que não te auscultou o sofrimento, não te aparou a baba e nem soube dos teus passos pequeninos atravessados de andarilho, dos teus pulsos tão finos como se de bebé, dos teus olhos a perderem o brilho, a tua voz trémula e pedinte, contínuo tentear de palavras sílaba a sílaba, treino da nossa e tua paciência. E vontade de os enxotar como Cristo aos vendilhões do templo. Recordo-te em mil passos e cenas que são tu. Como eras. Como és. Como em mim serás sempre. Vejo-te desde o casaco azul de trevira sobre a cal da camisa engomada, pés entusiasmados no pedal,  faíscando alegria. O entusiasmo do amor jovem, as agruras felizes da proximidade, o enlevo do rosto amado. Os teus sorrisos desse tempo, ó surpresa, ilustravam o éden masculino. O teu éden. Que vivia em casa de meus avós e namoravas em casa pela primeira vez. Ora, no átrio da minha infância, não havia rapazes felizes, havia só rapazes. Distantes. Altos. Trocistas. Mas chegavas tão convictamente satisfeito que tomei a parte pelo todo, cataloguei-te de “rapaz feliz” e desde essa tarde iniciática te chamei padrinho como sugeriste dando costas ao “Manuel” tímido de minha madrinha.  Na tarde benévola em que te esperámos em ânsias e de mão dada, a sorte bafejou-me. Encontrara um padrinho sorridente, que dava colo aos meus quatro anos e com quem apetecia conversar. É certo, havia outro. Que foi outro a vida toda. Ninguém. Tão triste ser ninguém. Mas os ninguéns deste mundo não apercebem que se apresentam faltando. A gente vai por eles e só há um buraco. Tu, não.
 Sentavas-me no quadro da bicicleta e seguravas-me com a mão do guiador enquanto com a outra enlaçavas a minha madrinha e subíamos em tríade até aos eucaliptos. Uma vez disseste, faz de conta que é a nossa filha. Rejubilei. Nos eucaliptos, descias-me e namoravam no lusco-fusco. E eu cantarolando saltitava por ali, catando o que houvesse debaixo do aroma das árvores. Talvez a beijasses. De certeza a abraçavas, porque a levavas assim o caminho inteiro. Não me lembro. Depois, levantavas a perna sobre a bicicleta ágil e desaparecias a virar-te para trás e acenar. E quando, lá bem na frente, te perdias, nós duas voltávamos conversando sobre ti, eu sempre perguntando e perguntando.
Casaste e foi tudo muito depressa por excesso de novidade. E disseste-me, hoje é que é, fico teu padrinho de verdade. Mas eu assoberbava a segurar e mirar a armação dos saiotes de empréstimo, apostados em me escorregar da cintura que não tinha. 
Tomei-te por certo. Não me enganei.
(cont.)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Beber desta Água


Há quanto tempo não escrevo uma página e me sento tecla a tecla, sem dar pelas horas. Vicissitudes do corpo retiram-me a vontade da escrita. Ou será amarfanhado meu, deplorável ser que esmorece a investidas mínimas. Mas pronto, hoje é sexta e comecei o dia como sempre. Que, normal, só o início. Enfim, fui encontrar-te na cidade grande.
A primeira surpresa viajou comigo na carruagem. Ainda mal me sentara e já apercebia um magote de mulheres, alentejanas de jeito e maneira, entre os trinta e os cinquenta. Palravam musicais e dolentes e iam-se  fotografando, “tira-me lá um retrato”. Impossível ignorá-las. Extravasavam o notório contentamento das andorinhas de primavera e quase as senti esvoaçar apesar da fixidez dos lugares. O assunto que tanto as divertia era um dia exclusivo e feminino. Oito alentejanitas retintas – Évora ou Beja - de peito feito e a comemorar – talvez – o Dia da Mulher. Para onde se dirigiam não o sei, mas ouvi a palavra Oriente e Pavilhão do Conhecimento. Deduzi que fariam uma incursão no Centro comercial, talvez até lá almoçassem,  e depois se aprestariam a outras esferas: pavilhão do conhecimento, oceanário, talvez o teleférico todas riso e gritinhos. Do que tenho certeza é que seguiram como os reis magos, para Oriente. E também sei que não voltaram no comboio da tarde. Eram oito mulheres normais,  figura e rosto sem um sobressalto de beleza. E valeu-me mais vê-las assim unidas no projecto de um dia todo seu, que mirar ecológicas e juvenis modelos da Casa Chanel.
E depois foi a serena beleza do rio a acordar, quase sem sulco de barco, todo em espelho de sol. E ver-te. Sentir que envelhecemos mantendo a juventude de um sentimento tão bonito como longo e que a intimidade e confiança não se explicam, são de sentir. E demo-nos prendas, trocámos confidências e pesares, contámo-nos ínfimos segredos que apenas se tornam palavra se estamos as duas. E os livros que lemos, e as roupas que experimentámos tão contentes como dantes, colegiais indecisas a solicitar aprovação.
Como a vida parece fácil quando estamos as duas. Mas a impiedade do relógio. E o rio agora sulcado de velas e barcos de carreira, o rio que entardece e ensombra, o rio separação.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Causa e Consequência


Sob o efeito da cafeína mexo-me demais. Devia talvez dançar, sacudir os ossos suavemente e com balanço. Mas não é dança o que pratico. De tanta prática, quando enfim aqui chego, se é já noite, saem-me palavras cansadas e sem o espevitado matinal.
 Logo cedo, mal me escorrega uma meia de leite escurinha, ainda nem bem cheguei a meio e já me apetece escrever cartas irreparáveis e impantes de poesia lamecha, todas queixinhas de ausências e faltas que agigantam como buracos em meias mal a gente lhes mete a mão. Mas são, neste unívoco caso, note-se a diferença, acompanhadas da ternura mais saliente que imaginar se possa. Marinam em doçura amorosa. Decerto é mola que se me solta cá dentro sem apêlo nem mas. Destravo. E é assim destravada que me julgo de beijos e abraços a selar esses quiprocuós epistolares que não dou à cena, mas me existem na mesma. Que isto é como diz o outro, nem todo o real é factível. 
Posto isto, gasto um montão de horas a encher-me de pó, costas dadas às luvas de latex, fortes retardadoras de velocidade e que mando pentear macacos, quero lá saber de mãos de fada e o camandro. Portanto. Nesta demasia de ballerina caseira, amarelo e anoiteço, passam-me venalidades de escrita mesureira, esgota-se-me todo o melado. Términus da cafeína. Ponto final parágrafo.