sexta-feira, 3 de julho de 2020

Pequenos Mistérios


Quando me apresentei na rua das Figueiras já ela era tal como a descrevo, uma rua comprida e larga, murada a um lado e a outro por habitações contíguas como casas de pisa-pisa, umas que se elevam em vaidades de primeiro andar, outras térreas e sem pretensão, algumas humildes e envergonhadas, timidez de pobreza que se adivinha. A disparidade de cores e enfeites faz supor  obediência ao gosto e poder pessoal, pormenor também muito variável e bastas vezes de expressão feroz, constatado Portugal fora.  Do plano urbanístico ninguém sabe e diz vizinho Agnelo, um dos moradores mais antigos, coçando a cabeça à vista do vidrado em azulejo verde que refulge na fachada, queriam tinta e uma barra, veja bem; e depois vinham eles cá pintá-la todos os anos, não?!  - e num assomo de orgulho sabedor, acrescenta, boné em riste, – Está assim de nascença, não há coisa mais durativa que o azulejo. Sacode o pó do boné na perna da calça e ainda mofa, estão para ali de esqueleto ao alto e querem mandar no que é dos outros. E devolvendo o boné à cabeça, a enterrá-lo com mãos habituadas, isso é que era bom, no que é meu mando eu, reverbera a endireitar o tronco num rasgo de autoridade temerária. Vizinho Agnelo é alentejano de perna curta que toda a gente conhece por “o tocador”. Em tardes encalmadiças, senta-se o homem na sombra da esquina  a tocar acordéon, dedos nodosos que se fazem ágeis nos botões, cabeça ligeiramente de lado, o fole da concertina a esticar e encolher. A mulher, avantajada e resmungona criatura, voz de sargento que assusta todos os garotos com os seus destemperos, assoma à rede da cozinha e ali fica, sentinela esquecida, pano da loiça na mão e olhos de passado nascidos nas modinhas do seu tempo. Mais à frente, num rectângulo de luz forte, os torrões da horta endurecem à torrina e as novidades desmaiam de orelha murcha. Diz quem conhece, que o acordéon de Agnelo ajuda à sesta dos homens e das coisas e que não há nos arredores legumes como os seus. Pudera, são cuidados a desvelo e embalo musical. Agnelo toca virado à horta, uma gota de suor nasce-lhe em bolhinhas na testa, engrossa e resvala até ao pescoço.  Na Rua das Figueiras não passa um carro, só a música é viva e pulsa em surdina no ar quente.  As plantas mergulham em hipnose, resvala-lhes o caule em ponto de interrogação, as folhas desvitalizam e abandonam-se num tentear de sono encalorado.   Agnelo passa o lenço amarrotado pela cara, limpa o suor do pescoço e volta a enfiá-lo no bolso. Depois, despe as alças do acordéon, arruma-o na caixa e fixa o olhar na horta, que calmeiro, confirma. E entra em casa com a carga.

sábado, 27 de junho de 2020

Pequenos Mistérios


Vejo-lhe o perfil atento à condução. É uma mulher madura, cabelo branco bem curtinho, mas nova para a rua. Portanto, o diz que diz continua no vermelho. Não deu livre trânsito à bisbilhotice do bairro quando a vizinha que passeia os cães tentou meter conversa enquanto ela carregava caixas do carro para casa; também não houve alma a ajudar na mudança, além dos funcionários da empresa “A  Transportadora Ideal” que se soube pelas letras mais pequenas ser de Ourém, lugar estrangeiro a toda a rua. Ninguém arriscou perguntas que a azáfama dos homens fez supor outras mudanças em espera. Isto de empresas, já se sabe, lucram à conta do suor dos empregados. Pelas portas, os vizinhos intrigavam semi sumidos na rede mosquiteira: um pedaço da bata, desta; uma perna de calça, daquele; além, a testa larga de D. Branca sobressaindo, riscada de alto a baixo por uma fita escura e em hélice a acompanhar o estupor do corpo. Descia pela lateral do nariz até ao intervalo entre as pernas pesadas, a ponta oscilando mansamente na  inveja do andar de cima onde o conforto impávido de bata e  botões  alargava no redondo da barriga. D. Branca, a boca uma linha de dureza céptica atravessada pelo retorcido da fita, seguia com olhos de detective a figura miúda da nova moradora. A rua inteira respeita D. Branca, senhora de grandes poderes. Esconjura com copos os males do mundo e queixa-se massajando o pescoço, cansam-me muito, tenho de me deixar disto que puxam demais por mim, dão-me cabo da espinha. E depois, num lamento magoado e profissional, acrescenta, nada paga os males que me traz esta cura pelos copos, mas as pessoas gostam, fazer o quê?! E deixa-nos com a dúvida crucial e a vontade de um dia lhe subir ao sótão, tirar sapatos, despir apertos e enfiar uma das batas brancas que às vezes lhe esvoaçam no estendal, deitar na maca e pedir, deite-me os copos, vizinha, esconjure os males todos, dê-me a leveza dos pássaros. E mais a mais, pergunto eu, aqui que ninguém nos ouve, como serão os copos, que feitio e tamanho têm, estarão vazios ou cheios, serão copos de água, vinho ou licor.
E depois deste aparte que D. Branca merece e a que um dia voltarei, digo que não se conseguiu mais sobre a nova vizinha. Não tem animais de estimação além do automóvel que nos passa às portas em ronronar manso e sem grão de areia, os metais a encandear. Sabe o nosso radar, senhora que também merece crónica, que não recebeu até hoje qualquer visita e apenas lhe param na porta, para entrega de mercearias, as carrinhas respectivas. Janelas abertas e música dão conta de estar em casa, mas o quintal mantém-se deserto, não cultiva  flor no vazio dos canteiros ou planta nas traseiras.
Suponho que entendo o cepticismo inicial de D. Branca, ali não há cliente.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Pesca de Anzol


Talvez eu ainda adoeça por covid-19. Ou não.  Que a vida não é apenas o que a fazemos ser. Algumas vezes, apenas é. Livra-se das rédeas da vontade, cujas na verdade são bem menos fortes do que se julga, e acontece. Portanto, se eu fosse a garota espirituosa que não sou, escrevia com bom humor sobre regras e normas que se quebram, incitava aos cuidados e prescrevia, sempre bem humorada, algumas utilidades para uso avulso nestes tempos de desconchavo. Assim uma espécie de gel de mãos que não fosse gel de mãos nem álcool a 70% e servisse a título de conselho. Fazia-me útil e adequada.
Ora bem. Não me apetece. Apetece-me escrever que a Lili e a Violeta já me conhecem. O velhote aponta o fundo  do caminho, elas correm na minha direcção e festejam-me sem cansaço. As manhãs precisam delas, é isso. Outra coisa que me apetece dizer é que ontem Bernardo Sassetti faria 50 anos. Como é que sei? Bom, ouvi na Antena 2. Lembro-me do meu primeiro encontro com o Bernardo. Foi num programa da RTP 2  (não recordo o nome), conduzido pela jornalista Ana Sousa Dias, cuja, sem que o saiba, tem alguma coisa de minha mãe (nem sei o que seja, mas tenho a certeza que existe). Pronto, fiquei fã da jornalista em causa e do seu modo suave de conversar. E, certa noite, lá estava aquele garoto. Trazia uma espécie de lenço atado na cabeça, originalidade que quadrou comigo, não vira assim nenhum rapaz. Depois, ouvindo o que diziam, logo reparei que era ainda bem jovem, tinha conversa assisada, sabia do que gostava, não envaidecia  por ser tão jovem e estar a ser entrevistado, e falava de si como o ser comum que não era. Os olhos todos se iluminavam se falava da música, saber que colocava em palavras ao alcance do gentio. O que mais ressaltou foi o entusiasmo pela vida, era assim uma juventude de mente saudável, estuante e invejável. Aquele rapaz era uma certeza lançada ao futuro. Nessa hora, sem nunca o ter ouvido tocar, soube que lhe ouviria o nome muita vez. Foi encontro só de um lado, e, no mundo comum dos encontros, não foi encontro. Mas foi.
 E, vejam vocês, com tanto aviso e informação da DGS, apetece-me contar que fui até à praia. Essa mesma. A minha praia. Um livro, sol, areia, água salgada e em movimento. Uma folga no tempo de viver. Recreio.


terça-feira, 23 de junho de 2020

Passado a Limpo


Sei que o meu tempo se vai finando. Não apenas o tempo de viver, mas sobretudo o tempo e as condições que me estruturaram e fizeram ser quem sou. Também por morte dos que estiveram presentes. E mais porque o mundo se altera e a adaptação é caminho nem sempre fácil. No entanto, há coisas a que resistimos como aos castelhanos. Será porque as mentalidades não acompanham o movimento do mundo, por comodismo, por hábito.  
Sem as  viver, não me é possível avaliar com precisão as gerações seguintes. Mas resta a esperança. A minha geração, a que florescia no 25 de Abril que tantos fizeram por e para nós, a que sonhou primaveras e amanhãs e ajudou a construir o mundo como o conhecemos, essa geração dourada pela liberdade, chega a desanimar. Coube-nos a melhor parte do caminho. Em troca, ficou o dever de o manter  e transmitir fazendo justiça à história e, nela, aos que lutaram e sofreram pelo legado  democrático. Hoje, tenho dúvidas sobre a transmissão. Quem nos governa foi nosso aluno na vida, nenhum (ou quase) viveu connosco os alvores da liberdade. Herdaram-na com os valores que passámos. Terá havido falhas na transmissão. Ou apenas  esquecemos o legado, negando-lhe a importância que tem. Os tempos empurram-nos contra o Adamastor, mas manobramos sem ímpeto e desejo de vencer. Seguimos por arrasto. É verdade que, impreparados,   beneficiámos de novo sistema político. A maioria de nós desconhecia o termo democracia, apenas estudado na Grécia antiga. Para quem se aplicava na disciplina de história soou até estranho retomar uma forma de governo anterior à era cristã. Era assim que nós éramos. Ignorantes e puros.
Suponho que seja nas células pequenas que se treina a democracia, e não apenas a nível de governo central. Porque a democracia não existe. Existem as pessoas, as instituições formadas por pessoas, os núcleos e organizações constituídos por pessoas, normas e leis inventadas por elas. Portanto, é em cada um e nos mais pequenos núcleos que a democracia começa. O governo devia ser o espelho do país. E, quem sabe, talvez o seja sempre. Portanto, por exemplo, na família, a gestão de tarefas entre os progenitores será democrática. Respeitando embora as apetências de cada um, os pais repartem entre si funções domésticas, economia do lar, responsabilidades parentais, cuidado com idosos. Tão bonito de dizer e até de fazer. Mas não se verifica na primeira geração democrática, a única de que posso falar com alguma verdade.  Embora o contributo na economia familiar seja comum, em casa, a mulher trabalha o dobro do homem. E até mais.  Imaginemos que ele vai sair com amigos.  Banha-se, perfuma-se e sai; volta quando queira e lhe apeteça. Em casa, ela assegura o normal andamento das coisas e substitui-o nas tarefas que lhe cabiam. Mantêm-se as rotinas. Mas, se é ela a passar o dia fora,  compras  e jantar ficam feitos, as flores regadas, a rua varrida ou a cozinha arrumada. O homem fica em casa feito um lorde. Fará o que bem lhe apeteça. Se a roupa ficar estendida será assim que ela a encontra, se haja peças por dobrar e pôr na cesta lá estarão à sua espera, os plásticos e os vidros que inutilizou aguardam mão feminina que os leve até aos contentores. A saída feminina não pode “desmanchar” as rotinas do homem. O jantar mantém o horário e a vida não sofre alteração. E isto acontece apenas nos casos de homens que ajudam e são “bons”, não vadiam pelos cafés a toda a hora, não se embebedam e dão uma mãozinha na lide caseira.
Oxalá tenha educado melhor os meus filhos.


sexta-feira, 19 de junho de 2020

Amor e Dedicação


Hoje (ontem) o meu coração festeja. Contudo, não corri de loja em loja a procurar coisa que te agradasse, escrevi-te apenas um sms para não incomodar. E apesar da canseira das sextas, o meu coração teimou em ti. É um dia nosso. Por enquanto.
Nasceste às três da tarde. Como eu. E tanto te desejei, filho. Vieste por vontade minha, expressa e determinada. Um finca-pé teimoso. Estou aqui a pensar se a nossa hora de nascimento pode ser causa das crises de preguiça que nos assolam.  Convenhamos, é uma hora abúlica. A contragosto, teu pai tinha ido espreitar-me  - o médico tomara-o o pelo que não é e fora buscá-lo. Entrou pálido, assustado. Mas a epidural evita aquele sofrimento lancinante e, ao ver-me, acalmou um pouco.  Bastava um relance para entender que não estava à vontade, tudo nele pedia outro lugar. Mal o médico disse que ias nascer, a cor abandonou-o de todo.  O obstreta num relance, enfermeira, ponha este senhor na rua que ainda desmaia aqui e depois tenho de acudir aos dois. E ele saiu às pressas, sem olhar para trás. Bastaram dois empurrões meus e o médico logo te aparou e pôs sobre mim, filho. Ninei-te na vez originária. Escorregadio, quente, mexendo braços e pernas. Nós dois dentro do mistério. E eu contente por chorares e teres braços e pernas e seres meu filho. E depois teu pai entrou e embeveceu. E voltaram-lhe as cores. Pensei, consegui, agora falta tudo o resto.
Mas, do resto, sabes tu mais que eu. 
Sê feliz, meu filho


terça-feira, 16 de junho de 2020

Passeio Público III


Hoje, ao abrir da porta, chovia; e, perdida a alegria solar, a manhã não parecia ela. Naqueles segundos de surpresa, atravessou-me a ideia de desistir do passeio matinal. Mas logo emendei o pensamento. Conheço-me, se não saio nesta hora, não saio mais. E gosto do cheiro que a chuva deixa em todas as coisas, até nas que parecem inodoras. A chuva ateia a natureza, entra-lhe na alma e não apenas na raiz. Não a água da rega que sai dos poços, dos rios e ribeiros, de açudes e barragens. Essa propriedade de atiçar os cheiros da natureza cabe à água da chuva. E, como diz um amigo, limpa o ar e beneficia a fotografia. Portanto, fui por um corta vento de carapuço e, com nariz de perdigueiro, pus pés ao caminho.
Não choveu por muito tempo, mas a natureza rescendia. A terra molhada exalava um cheiro limpo e aberto, convidava como quem escancara a porta de entrada e o cheiro bom da cozinha se insinua. E havia as ervas da beira de estrada que erguiam um contentamento verde, cabeça no ar espreitando as flores que desvaneciam de gotículas. Talvez tenha sido também o prazer da chuva miúda no rosto. Tudo era afirmativo, estamos aqui, sempre aqui, somos certas e seguras, até ao fim. Foi talvez só hoje que compreendi o amor dos velhos por ver desabrochar o que semearam. Mesmo aqueles que não foram agricultores, que não sabem cavar, que desconhecem a importância do Borda d’ Água nas sementeiras. Mesmo esses, plantam. Em vasos pequenos; nas varandas; no canteiro breve, nesga que em tempos floriu. O milagre da natureza não desanima. E a ternura com que aquele homem, duvidoso do chuvisco, enchia na torneira um regador que depois vinha lançar sobre duas carreiras de batata. Aproximava-se dos ramos de batateira como se fossem animais de estimação e regava-os concentrado e amorável. E repetia. Andei em frente, os actos de amor não se interrompem e há outras vezes para, “bom dia, minha senhora”.
Lá à frente, a Lili saltava por mim acima e, antes das mãos, já o nariz sabia o cheiro do pelo sujo e molhado. E a pobre Violeta atardada, num passo mais difícil que o do dono, a alegria triste jogada a meus pés. O velhote num desânimo, está doente das pernas, não sei que tem. Ergui-lhe o focinhito. Os olhos animais são tão desvalidos que me pergunto pelo tamanho do que sofrem.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Formigar


O ano vinte-vinte saiu-nos pior que a encomenda. No início, parecia um bom número, capicua  irrepetível. Havia por força de ter algo a distingui-lo.  E temos de concluir que, nesse aspecto, se esmerou; terminando agora (lagarto, lagarto), já era inesquecível. E ainda nem chegámos a meio. Se olho para o tempo de confinamento à conta do covid-19, reparo que fui obrigada a desistir de duas actividades que eram carimbo nos meus dias. No mais, a vida seguiu igual. Não senti ponta de medo e ainda não sinto. O fatalismo alentejano tem assim uma coragem da desgraça e o que tiver de ser, será. Sem sustos. Fiquei em casa, lugar onde estou quase sempre. Não vi os amigos, mas é raro vê-los; vivem longe e a vida é muito cheia de mil pequenas coisas que lhes enchem o tempo que em mim é sempre livre para eles. Mas os filhos nunca se ausentam tão prolongadamente. E, de tanto os gostar, cresceu-me uma atabalhoada saudade. Os dias tornaram-se mais iguais e dei por mim a desejar a ida ao super, conversar um pouco com a menina da caixa, cada uma com sua máscara. De tanta secura, esmoreceu-me a vontade de escrever. E, portanto, virei bordadeira e comecei uma mui longa toalha para a mesa de Natal. Com os cuidados devidos, retomei o tricot. Mercê das inevitáveis arrumações – tanto tempo de confinamento obriga a arrumar - descobri um livro enorme que ainda não lera, facto que me animou. E passei a valorizar o Youtube ondes descubro coisas e pessoas muito válidas e a meu gosto. Acontece que, mesmo sem me mudar a vida, o covid alterou-me o estado de liberdade relativa, situação que aparenta ser-me básica.
E do desconfinamento, que dizer? Pois, que quase não o senti senão na TV, o que é o mesmo que dizer, não foi a sério. Não me foi possível retomar as duas actividades vedadas em Março; Experimentei uma única loja, máscara e fila de espera na rua. Conclusão: aborrecimento a evitar sempre que possível. Os passeios matinais passaram a registo de assiduidade para encontrar a Violeta e a Lili que por acaso vão mudar de horário. Aborreci de morte as notícias e as partes gagas de governo e jornalistas. Descreio cada vez mais fortemente dos senhores políticos.
Num caso e noutro – confinar/desconfinar - o portátil foi a ligação ao mundo, e se os blogues forem um lugar, foi nele que mais me atardei. Umas vezes comentando, outras nem por isso.
É sempre bom ler escritas diferentes. Contactar  outras galáxias mesmo se de fotos e beleza em geral. Obrigada.