sábado, 24 de agosto de 2019

Anos Dourados


Oh, os dezoito anos, diz toda a gente a revirar os olhos de nostalgia. Dezoito anos, idade de fulgor desusado, brilho de estrela em meio planetário. E eu, dezoito anos. Eu em tempo de guerras e farpas, ouvindo o que não queria de ninguém e menos dos que mais amo. Mas a vida também é isto de rir para fora e chorar para dentro. Aos dezoito.  De não apetecer ir para casa se é que ainda  chamamos casa às paredes que observaram amores e agora se arrepelam de contendas e ódios. Dezoito anos feitos. E já houve sorrisos cúmplices, ternuras tremeluzindo na voz, a trempe a passeio mão na mão, três pares de olhos contentes da vida. Há quanto tempo. Está plasmado nas fotos, não há pó de imaginação minha. E portanto. Aos dezoito, a etiqueta de passado no que julgara presente eterno. A separação.
Escolhi viver contigo. As raparigas têm pendência especial para os pais. E somos tão próximos que a mãe exibia uns ciúmes engraçados e parolos que nos desmanchavam de riso. Mas isto era antes, bem antes dos dezoito. É verdade, escolhi-te. Tu, não. Tu não me escolheste. Tu, escolheste morrer. Ao menos por acaso, pensaste nos meus dezoito anos, no brilho da idade de ouro, ou nem sequer afloraste esse hediondo crime de nos separares para sempre. Não. Em que pensavas, se não te apegaste a mim para resistir ao apelo da morte. Fica sabendo que os pais que falham aos filhos são menos pais. Não és nada um pai de primeira categoria; és de décima, de quinquagésima. Um mentiroso, é o que tu és. Mas doi na mesma a tua ausência.
Ora, pai, bem sabemos nós dois que, mesmo falhando tudo o resto,  não falhavas comigo. Agora, falhaste. E enraiveço de tudo e mais de ti que resolveste partir sem aviso. Como se fosses sozinho. Palerma. Tens ideia da falta que me fazes e das coisas que tenho de mudar na vida?! Eu contava contigo, seu traiçoeiro.
Tinha eu dezoito anos. Tinha eu duzentos anos.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Sexta-feira Lúgubre


A Amazónia, o maior pulmão da Terra, está a arder. Não sabemos ainda fazer o cálculo de danos. Sabemos que não é o fogo mas a ganância a engolir árvores e oxigénio, devorando fauna e flora. Sabemos que retira os indígenas da terra que é sua.  Talvez os mate de vez. Pessoas como nós, mas sem guerras. Seres pacíficos. Melhores que nós, portanto. Envergonha-me viver neste século de apregoado progresso e que não sabe ou não quer evitar estes excessos criminosos de grau dez. O mundo inteiro se revolta e escreve coisas, mostra fotos. Até eu escrevo contra tamanha barbárie. Mas de que vale escrever, de que vale, é mero desabafo. Não altera as chamas, nem sequer lhes muda um átomo de sentido. É nada. Cambada de incompetentes criminosos que temos a mandar no mundo - com as devidas desculpas a quem não pertence.
As sextas são às vezes aziagas. Mesmo com um café duplo. É o trabalho que cresce e eu diminuo de eficácia. São estas notícias que estropiam toda a humanidade e acabrunham qb. É o tempo que não sobra para descansar. É a culpa que sinto. Isso. Culpa. Remorso. Porque te vi no super e não te reconheci. Acenaste e fiz-me próxima. Era-te difícil andar, arrastavas os pés e eu a pensar em males do esqueleto. Afinal, uma depressão. Todo tu diferente. E eu tão impressionada que nem consegui disfarçar. Ainda tentei conversa de circunstância. Mas tu falando da nova separação, acaba-se o dinheiro acaba-se o amor. E lembro-te no primeiro casamento, jovem, jovem. Tão bonito, o menino de sua mãe casando por amor a uma pobretana, a contrariar o gosto dos papás. Os teus extraordinários vinte anos que levavam tudo à frente. Eu que adolescia sem jeito a invejar a sorte da pobretana que era mesmo linda e ciente de que jamais conseguiria encontrar assim um rapaz tão inteiramente bonito (não fui capaz). E hoje mesmo, dia do teu aniversário, o suicídio. E eu soube. Porque te encontrei de novo no super. Outro super. E falámos brevemente, até sobre as visitas que me tinham chegado. Os teus olhos de desespero sem fundo e que pareciam querer dizer mais, as pernas acompanhando a hesitação do olhar. E tudo tão breve, como que num receio de incomodar. Seguiste. Admirada, pensei que quando as visitas saíssem te convidava para almoçar, talvez te animasse saber que podias contar com alguém, quem sabe te abrias um pouco mais. Há anos tinha-te convidado - aquando da primeira separação - e foste loquaz, gostaste do meu almoço simples e do convívio com os garotos.
Saindo do super, foste a primeira pessoa que me entrou no campo visual. Estavas ainda no recinto, ao fundo do parque automóvel, de costas para o bulício. Parei a olhar-te a silhueta. E pensei que devia ir ter contigo, tocar-te no ombro a chamar-te à vida e convidar-te nessa hora, para esse mesmo dia. A tua figura dizia-me: solidão. Mas não fui. Porque tinha visitas. Porque queria fazer um almoço especial. Porque havia uma tarte a experimentar. Nada. Foi só porque sou estúpida. Mesmo só por isso. E agora já não almoças. Nem te convido.  Ignoras para sempre que me importo contigo.
Quem sabe, recuperaste os teus extraordinários vinte anos, vives tudo a partir daí e esta vida errada foi só uma interrupção. Quem sabe...
Um beijinho doce

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Carrossel


A vida é pródiga a moldar o carácter  dos homens. Em ondas sucessivas, uma e outra vez, adelgaça, encurva ou encomprida, cinzela e parte a martelo e escopo, destrói e volta a construir. Mas também desconfigura e cria monstros, líquidos adamastores que rugem encanados por dentro da normalidade, corrente furiosa que desvirtua e submerge os mais aprazíveis lugares de cada um. Contudo, não poderíamos classificar os homens apenas  pela ondulante e aleatória sucessão de fenómenos que a vida oferece. São homens. Fazem coisas. Têm vontade e domínio sobre si e os outros. Podem. Devem. Querem. O poder e o querer, afirmam alguns e sente a maioria, encadeiam na liberdade. Que o dever é termo malquisto nos nossos dias,  lembra a todos certo mofo religioso, coarta a liberdade que se deseja e tem o vício quase sistémico de contrariar o princípio do prazer.  Fiz-me com um rudimento dos três. Como todos os garotos do bairro da Venezuela, cresci a eito e sozinho com os dias, despido do conforto que aperreia, não vás, não faças, não comas. Libertários andrajosos e descalços, sujos e sem pente. Inconscientes órfãos da vida. Sabíamos apenas que éramos nós. Tia Emília criou-me de berço, pai e mãe não conheci. Mas, no bairro da Venezuela, parecia-me, os pais faziam pouca falta, os dias correndo sem eles. Começavam a mourejar no alvor das manhãs e as crianças desenvencilhavam-se a sós e umas com as outras. Nos dias redondos do estio, vislumbrava-os à noitinha, descalços, canseira a desbundar no poial da porta, as canelas muito brancas emergindo do cotim coçado das calças, pés de grandeza chamativa.  As mães, mal as conhecia. Resumia-as quase todas aos gritos de sirene vespertina, ó Arrenaaaatoooooo, ó Raúúúúliiiiii, ó Zéééiiiiii, que arrancavam de si numa estridência de pólvora avinagrada, anúncio de porradas a esmo se não relampagueassem à porta de casa. Mas os filhos obedeciam à chamada com a prontidão de bombeiros a toque de fogo. Por via disto, que bem me sabia a tia Emília já velha e pouco propensa a gritos. Não que a velha fosse meiga. No entanto, algumas vezes, usava comigo de ternura sacudida, como que arrependida de existir.  Mas não batia com cinto ou pau. As diabruras mais pulguentas castigava-as com  enxota moscas de mão áspera e, tristeza das tristezas,  retirava-me a brincadeira de rua. Compensação de sermos os dois, não precisava cuidar irmãos mais novos, contrapeso dos meus colegas de folia. Brincando, eu era livre por inteiro e, à vista dos garotos que tinham pai e mãe, considerava-me afortunado.

domingo, 18 de agosto de 2019

Depois de Passar a Moda


A blogosfera resplende de gente que escreve. Desde grandes discursos a poemas mínimos, haikus com voz própria. E, por certo, existem posts que não valem o tempo de lê-los e têm afluência renhida; textos que esgrimem bons argumentos e poucos ou mesmo ninguém a lê-los; poesia e prosa que não valem pelo número de leitores, que a relação entre os factores não é necessária. Assim são os tempos e as vontades.  
Leio que o bom tempo dos blogues já passou. Acredito. Não me foi dado o benefício de viver a época áurea no frenesim da postagem. Hoje, quem está, está de gosto. Não quer outra coisa, não está para empatar tempo e a sua presença não é casual. Da minha parte, nada descobri e nem tenho qualquer receita excepto escrever o que me apetece quando a vida me deixa fazê-lo. Sou nula em títulos e etiquetas, facto que não me aflige. Mas, seja qual for a linguagem e o estilo utilizado na blogosfera, ideias bem alinhavadas, uma costura de palavras digna do olhar e do entendimento, são a melhor apresentação.  O resto é com o gosto e apetite do escriba e  do leitor.
Todos sabemos que não é para nós que os bloguers escrevem. Mas os poetas também não o fazem, nem os prosadores da nossa praça. E gostamos de lê-los. E parece-nos que nos assentam certos pensamentos, comovemo-nos com versos que jamais nos sonharam, entrosamos em histórias que parecem as nossas ou estão escritas a nosso modo.
A meio da insónia, puxo do portátil e percorro caminhos e lugares  de gente adormecida, a casa quieta, umas palavras ou figuras sobre a mesa, um disco pronto a tocar. E saio pé ante pé, clic que mal se sente, a fim de lhes não perturbar o sono.  E o inverso também acontece. Mesmo.

sábado, 17 de agosto de 2019

Incompreensão


Admito, tenho certo apreço pelas Correntes de Escrita. Não que me desloque a ouvir os escritores, atenta a mesas redondas. Tempos houve em que desejei assistir e correr salas a ver e ouvir pessoas que admiro. Entretanto, morreu-me o desejo de ir à Póvoa do Varzim e no lugar instalou-se mesmo certa incompreensão. Que raio ia eu fazer tão longe?! A conversa com escritores não é hipótese. Ouvi-los, faço-o através da rádio que,  em boa hora, alguém me aconselhou o programa A Força das Coisas, cujo se dá ao prazer de entrevistar os autores mais notórios. É certo que os não vejo, mas, nestes casos, a visão pode até ser prejudicial. Os sujeitos interessam-me pelo dito, que o resto é amálgama de aparências e pormenores. E alguma perda de tempo.
Portanto, anualmente, passo a pente fino As Correntes. Ou o que, delas,  Luís Caetano traz ao mundo. Num dos últimos anos, calhou-me ouvir ler uma passagem de livro. Que não me abandonou. Não sei por que razão tanto penso nela, mas é que penso. Do que me lembro, versava sobre uma violação concreta e o texto lido dava-nos  a voz da mulher violada nesse momento crítico e traumático. Posso ter-me fixado na passagem por desânimo. Pois aquela mulher, talvez uma erudita, já não me sobra memória para tanto, aquela mulher, dizia eu, estava a ser violada e a recordar um trecho musical, qualquer peça de música clássica que não retive. Não li o livro e nem lembro o título. E assumo, a memória prega-nos partidas estranhas. Estar a ser violada e ocorrer-lhe uma peça de música clássica. Bem sei que não vivi tal experiência e se a vivera teria sido a minha experiência e não a da personagem. Também sei que desconhecia a personagem e quem sou eu para me comparar com ela. Os meus traumas surgem ligados à pituitária e, se fora eu, quem sabe me ficava um cheiro ao rosmaninho do chão mudado em execrável, um típico de suor que me daria vómitos desde o início do cheiro. Na duração, era bem capaz de notar – as coisas que notamos quando estamos aflitos - a formiga que subia descansada pelo braço do violador ou uma tatuagem que se me fixava para a vida enquanto a impotência me toldava a vista frente à força da besta e um ódio bruto   vingava na sujeição  e crescia até à apoplexia do sexo.  
É fora de dúvida, podia acontecer-me. A mim. Não à personagem do livro. Que continuo sem entender. Mas talvez a solução seja simples,  habitamos planetas diferentes. Quem sabe coexistimos em paralelo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Eu, Melga


Podia passar-me com a idade, ser sintoma de juventude ou adolescência. Mas não. Continuo inconveniente. Na verdade, e embora não tenha disso memória, sou inconveniente desde que nasci. Fui inconveniente logo na gestação, obrigando meus pais ao casamento. Depois, tomei embalagem e segui vida fora com as inconveniências. Dos três aos sete primava por enrubescer minha púdica mãe, assestando-lhe perguntas indiscretas e de claríssima voz, em cafés e transportes públicos. E, é claro, pespegava-me qual carraça em todas as sessões de namoro da vizinhança até ela me ir buscar por uma orelha, facto que não entendia, julgava eu que me portava bem e os namorados – de janela ou cadeiras gémeas na sala – amavam a minha presença. Verdadinha que nunca entendi que razão assistia minha mãe para assim contrariar a trina harmonia.
A adolescência trouxe-me muito assunto extra e fiz uma ponte directa para a juventude. Na fase juvenil mantive o hábito antigo de me fazer notada a namorados, mas com ligeira variante. Julgando-os amigos, incluía-me no grupo de dois que passava a ser de três. Imagino o melão com que ficavam quando eu me convidava para os acompanhar a cinema, praia, passeio. E era necessário que as garotas mo dissessem na cara, tintim por tintim, para entender que três era excesso.
 Já adulta e mãe, perseverei na táctica palerma que me caracteriza. Havia no trabalho dois colegas que namoriscavam por fora do casamento de cada um; pois eu, que conhecia e simpatizava com os dois e, é claro, os julgava também grandes amigos, ia sentar-me com eles onde quer que os encontrasse. Passados mais de dez anos soube destas inauditas inconveniências. Pelos vistos era conhecida pela falta de tacto (e de visão).  A meu favor, o facto de não ser intencional. Portanto.
O mal é tão fundo que até casualmente acerto na inconveniência. Certa vez atrasei-me para uma formação profissional que ia decorrer ao longo de três meses e exigia constituição de pares. Já estavam todos com parceiro e o formador mandou-me sentar onde quisesse. Onde é que me sentei, junto de dois amantes que toda a gente deixara sozinhos porque parece que era caso de paixão acesa e virulenta com efeitos retroactivos na conjugalidade de cada um. Pois não dei por nada e antes, tal como com os namorados que estorvava na infância, me senti lindamente com eles e passei mesmo a tê-los em alta conta. Para quem não me conhecia, foram simpaticíssimos. Está visto que só soube da inconveniência passados uns dez ou quinze anos, já amores e ilicitude tinham congelado de vez.
A velhice talvez transforme a minha inconveniência em burrice simples. Afinal, já não há assim tantos casos amorosos em que acertar. Que, havendo, caio lá que nem melga.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ao Fim do Dia


D. Carolina olhou-me directa, sabe, ouvi aquele diálogo de mãe a mãe e não entendi o tamanho da desgraça, era uma linguagem estranha, elementos desconhecidos misturando-se pelo meio a baralhar-me o raciocínio.  Apalermada, desandei a procurar Maria Helena que encontrei sentada na cama. Ergueu os olhos e nada havia da garota buliçosa companheira de jogos e brincadeira. Era outra garota. Segredos e mistérios adultos tinham sugado a minha amiga de infância. Minha mãe abraçara Aparecida e consolava-a, mas eu estava de mãos vazias, aquela garota  media-se com dimensões ignoradas e as minhas palavras não lhe serviam. Não nos pertencíamos como antes, tínhamos desajustado.
 Calou-se e a surdina da loja invadiu-nos em fundo. A cortar o silêncio, na tentativa de compor a vida de Maria Helena, dar-lhe um traço de cor, acrescentei, mas refez-se do golpe, casou , hoje tem dois filhos...E ela passeando a mão sobre a toalha da mesa, não casou, os filhos são os dois sem juízo.