terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Dia Dez


A manhã é amena e nadar apetece. De caminho, compras.  Já em casa, os preparativos: refeições de ficar e levar; ingredientes avulsos que arruma no saco sem esquecer o que vai a pedido e uma ou outra falta que a mente lhe puxa; e os mimos  de trazer por casa, prazeres caseiros tão comezinhos e necessários ao bem querer. Durante a refrega, orienta o almoço, acomoda a roupa engomada, organiza  a máquina de roupa. E enquanto a sopa coze e o grelhado fuma, quem passe vislumbra-lhe a silhueta na bancada feita poleiro, por detrás da janela da cozinha. Retira o cortinado e coloca o folho de Natal. Na copa, escadote em punho, toda a janela se enche de sinos minúsculos que, postos a repicar, fariam um chifrim dos antigos. Deixo de vê-la. Talvez almoce. Mas depressa ganha a rua. Recolhe as peças no estendal, varre as folhas do alpendre;  carrega a mangueira e posiciona o carro, é hora de limpeza. Depois abre o capot e verifica o nível do óleo. Partir: sacos e malas de cabeça erguida, em utilidade vaidosa, o abafo atirado ao banco traseiro. Reentra. Surge minutos depois. Mudou de roupa. Arranca. Ficou o cão a olhá-la em despedida e, ao rés do lava loiça, um amuo calado. Mas o  presente é caminho, fita negra que se estende em evasão.  
A sorte de sair do lugar dá a mão à má sorte de consultas médicas no horário de uma apresentação de livro que faria gosto em ver. Paciência. Quem sabe haja tempo para o concerto de entrada livre.  Vãs tentações. Primeiro a consulta atrasa e a apresentação esfuma. Depois, o atraso encomprida e nem o concerto que parecia tão à mão. Valeu que no intervalo inesperado saiu em busca de presentes. Chegou carregada de contentamento, mas três andares de contentamento e sacos plásticos pedem suor extra. Oxalá as prendadas gostem. Que vestir e despir peça atrás de peça, passá-las a pente fino até decidir, é coisa de amor paciente. Mas não garante resultados.
O jantar é tempo ameno, tão igual e costumeiro que engole distância e tempo. Lembra-se dos versinhos de Torga e duvida que a vida embeveça ou sequer  páre a ver. Mas  ela é a mãe ovelha que desvanece  no retoiçar do filhote.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Dia Nove


 Há dias que são apenas escorrências de cansaço, coisas de nada que empatam e a que não damos nome porque nome não têm. Gastam-se horas triviais e, na agastura do dia que se foi, sopra um relento de desgosto. Coisa pouca, talvez apenas o friozinho desconfortável de sabermos que não voltamos a ele. Mas a verdade é que não voltaremos a nenhum dia, a linha da vida não é circular e tudo é perda irremediável. 
Quem sabe, podemos aproveitar certo ar de Natividade dependurado no estendal, o vermelho dos laços que é ainda largura de fita, os cortinados com sinos dobrados sobre si, os folhos em verde e vermelho. E o cão à beira do varal, especado. Intrigado pelo excesso de garridice que areja e se meneia em álacre contentamento. Mas a filosofia canina faz-se de sol e preguiça e basta-lhe um troço de chão onde cruze patas e poise focinho. A imagem lembra-me o pensador de Rodin. Talvez pela diferença específica.


domingo, 9 de dezembro de 2018

Dia Oito


Em dia de Inverno sem nuvens, a gente põe roupa a secar, apanha e guarda um solinho na alma e faz o que tem a fazer.  E depois há o que não tem de fazer mas também faz, a impulso do dínamo solar. O mundo parece alegre. Quase nem nos lembramos que dantes, há muitos anos, hoje, era Dia da Mãe. Antes pensamos que  às portas do inverno, dias amenos e quase primaveris rareiam. Festejemos, pois. Iniciei a comemoração na Refer, os comboios voltaram  a ser eles.  E enquanto anoitece, há passeios pela Baixa no meio de brilhos e turistas e tanta luz de Natal encadeada. Já não há carrego de prendas, mas em todas as ruas se ouvem espanhóis, linguajar tumultuoso, decibéis acima da média. Famílias inteiras de espanhóis, três gerações; e garanto que os avós não eram os menos contentes. A proximidade geográfica não nos fez parecido o carácter. Atravancam as nossas ruas  para eles estreitas e ainda assim caminham em algaraviada paralela. Sentam-se nos nossos restaurantes e degustam os nossos petiscos bebendo do nosso néctar. É o turismo. Claro que, no Bairro Alto, também se encontram inglesinhas adolescentes;  deslocam-se em grupo e são bonitas e elegantes mesmo de ténis.
         E depois um Carlos Mendes esguio, um je ne sais quoi de dandy, talvez o casaco à beatle que lhe assenta como a qualquer Paul McCartney. Ou o chapéu. Ou o cachecol. Enfim, ouvir  e acompanhar “Amélia dos olhos doces” que tanto se cantarolou pelo país, ou “Ruas da minha cidade”, foi um gosto dos antigos.  Anos a fio as cantei com quem esteve a meu lado, foi revivalismo o que ali nos levou. Que pena não ter cantado  “nocturno”. Porque a poesia de Joaquim Pessoa lhe fica bem à voz e a mim unguenta a alma por sempre me parecer coisa próxima e bem dita. O cantor perdeu cabelo e algumas notas musicais, mas consegue ainda aqueles agudos difíceis (não são canções fáceis).
         E depois saímos Lisboa fora a rememorar. Em passinhos pequenos, de bebé, a encompridar o curto caminho de estarmos juntas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Dia Sete


Quando as manhãs se apresentam pejadas de condensação e o mundo é pintura nebulosa sei que um manto de gotículas esbate o colorido das plantas  e lhes pendura os braços no desconforto de corpo que escorre a espaços. Gotas que engordam, resvalam e se perdem  no molhado. Queda surda e inevitável. Nesses dias, penso em coisas quentes. Não em abafos ou lareiras. Nos sentimentos que nos aquecem e relacionam e na necessidade de deixarmos nos outros algum calor que permaneça. Talvez seja vaidade, desejo de permanência, qualquer interesse subjectivo e kantiano que suga todo o mérito ao que penso e faço. Talvez que um corolário da minha própria vida, coisa de razão necessária e suficiente. Os estudos e estatísticas dizem que os pobres dão mais que os ricos e mais se compadecem. Por que não?! Certo é o fincapé  sobre a insuficiência de alguns actos reduzidos à vez original. No meio da névoa além janela, a claridade mental: o que não tem repetição não chega a ser um bem, que nenhuma solidão se mitiga numa visita única ou em encontro irrepetível. É preciso repetir, re-repetir, até criarmos no outro e em nós a certeza do interesse mútuo. Há-de haver quem o diga melhor que eu, a influência do café e da barrela das sextas feiras não garante coisa nenhuma. Mas é isto. Foi a nebulosa exterior quem suspendeu o natal caseiro e me levou a repetir uma visita. Depois, alguém ligou com saudade. E fui correndo. Nova visita. Ambas tão alegres como tristes. O que a gente sofre para morrer, Senhor!
à boca da noite, quem o diria, chegou, de propósito para mim, um longo abraço de Natal:).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Dia Seis


Hoje é dia de S. Nicolau. Se as nozes dentro das meias acontecerem de véspera, como o Menino Jesus português, esta manhã muitas crianças – não sei se também adultos – tinham nozes e outros frutos dentro das meias. Compreendi talvez, hoje, a utilidade daquelas meias de Natal um bocadinho grandes de mais. Verdade, é um bocado tarde para aprendizagem tão básica. Os portugueses não estão familiarizados com este santo e nem parece que venha a ter tanta saída como o S. Valentim que há uns vinte anos ninguém sabia quem era. Quer dizer, eu sabia. Ficou-me das fotonovelas que gostavam muito da data. Lembro uma senhora de chapelinho à Jaqueline Kennedy dizendo através dos balõezinhos das palavras para o motorista Max, uma lindeza de boné, que era dia de S. Valentim. Parece claro, mas não é. Pensei que S. Valentim fosse o nome de  um lugar, a madame queria por força ir a um parque, chamar-se ésse Valentim ou outro nome, era indiferente à minha gestão da fotonovela.
E posto que é Natal: ainda não descobri os lápis, estou a ponderar usar umas aguarelas que me apareceram a pedir água. Embora não seja o meu mundo, se os vagabundos dos lápis não derem à costa, olha, lá vai um borrão em aguarela. Desventrei umas caixas com artigos de Natal e, por amor a quem mo fez, pendurei um anjo em crochet que tem tudo de  fantasma; é esquisito lendo-se o u. Também apareceu, muito bem embrulhadinho, o Menino Jesus número dois, legado que muito prezo e tem três anos em minha casa. Fiquei a olhá-lo que tempos, meio escurinho, em barro tosco. E desejo com muita força que proteja até ao fim quem o trouxe consigo a vida toda.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Dia Cinco


Hoje, cinco de Dezembro, degustei o meu primeiro e único almoço de Natal. Isso. Este ano adiantei-me ao calendário, aos enfeites e ao mais que me compete e fui almoçar fora. No ano passado, por mais isto e mais aquilo, o almoço de Natal, o único que tenho, foi sucessivamente adiado e viu a luz para aí em Fevereiro. Ora isto não se faz, em Fevereiro é o Entrudo, aquela época meio tôla de pessoas que se disfarçam não se entende bem para quê, se cada um é tanta gente todos os dias. Mas pronto, há quem goste de rir a metro e não tenho nada com isso. Repito, um almoço de Natal em Fevereiro, destoa. Viver, ensina-nos uns estratagemas; não aprendemos a não errar mas, por vezes, sabemos como evitar o erro. Portanto, este ano antecipei-me à sorte e antes que ela resolvesse contrariar-me, pimba, restaurante com elas. Ah, ah, enganei-a.
Não havia muita gente, fomos servidas digo eu que, graciosamente, o que vai sendo raro. E não foi caro. Está feito. Novo almoço em Janeiro, a comemorar o Ano Novo. A seguir talvez comemoremos sermos velhas e termos a sorte de chegar a 2019 (se chegarmos, se não...). E depois havemos de comemorar sermos pessoas tão diferentes que gostam de almoçar juntas. E ainda: todo o pretexto que nos lembre.
Ó almoço abençoado! Que vivas longamente e a uso.

Dia Quatro


Hoje foi advento, um advento que o corpo agradece. Talvez não tenha relação directa com o homónimo religioso, mas quem mandou ao Menino Jesus, o das palhinhas e do estábulo, nascer no Inverno?! É que o Inverno chega primeiro e se queremos que o Menino não resfrie, há que cuidar do ambiente que manjedoiras já nem há e os burros estão em extinção; quanto às vacas, suponho que existam nas vacarias, todas empreendedoras, máquinas ligadas às têtas, o leite correndo para um reservatório. Ora quem é que acredita que os proprietários as vão dispensar para aquecer um recém nascido, mesmo que seja só uma e por uma noite. Ná. Temos que ser nós a dar a volta, o passado já não se arranja, acabou. Portanto, há que aconchegar roupas quentes e arrumar as que no verão geravam calor insuportável e agora um friozinho nas costas, um desconforto pelo corpo se as vestimos. Que isto de vestuário tem muito que se lhe diga, são peças cheias de manias e algumas nunca estarão a contento, ora demasiado frias, ora demasiado quentes. Caixas e caixas a transbordar de abafos, e gorros, e luvas, e. Tirar e arrumar tudo, nunca se sabe o que pede o Menino na falta do bafo dos animais. Mas pode ficar descansado que é mesmo só pedir, o que é meu é dele.
E pronto. Foi.