segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Cabimento

Cabes tu, magnífica e de sorriso fácil, cabelo preso com um lápis, as pernas faiscando um céu de rede semeado de rútilas estrelas douradas ao rés do chão.

Cabe aquele menino que, não sei por que artes, saiu da carrinha escolar montado na bicicleta pequenina e lá seguiu contente, pés no chão e rabo no selim, garbo de cavaleiro  miniatural.

Cabe o professor excepcional e abrangente, cara de menino simpático e bem comportado, que  favorece a humanidade em cada aula e se reencontra com grato prazer.

Cabe a mulher paciente encostada no semáforo, esperando as companheiras que entretanto lhe acenam e mudam de direcção; e ela, “valha-me Deus”. E atravessa açodada.

Clave de Sol

Ontem, as garotas da Gulbenkian pareciam ter feito uma pausa num passeio de tarde para tocar. Vestiam saia curta e blusinha de cor vária: vermelho, azul, laranja e preto alternavam combinadas por sectores, que nada do quadro é casual nesta orquestra. O corpo masculino, despido de laços e gomas de lapela e rabo de andorinha, rimava com elas em casaco simples onde raras gravatas pontuavam. E logo os instrumentos, espaço conquistado à falta de solenidade, personificavam e enchiam o palco. Fora do seu hábito de cerimónia, a orquestra afinava instrumentos e parecia confraternizar em desarrumação saliente. 
Mas eis o maestro. Não solene, apenas lindo, a lembrar músicos de outras eras. Jovem e esguio, barba aparada e basto cabelo em ondas que se adivinham destemperadas de raiz. Em fato de passeio, talvez antracite, um ligeiro de cerimónia nos pés, lustro de verniz que fulgiu ao longo do concerto. Que foi uma maravilha. A vitalidade da música em irrupção no silêncio. Desde as palavras do jovem maestro à valsa que dois elementos dançaram só para nós. Mas foi mais lindo e dócil na história musical do cavaleiro da rosa que é a história banal de um velho que envia um jovem mensageiro à sua juvenil amada, portador da respectiva rosa de prata – hábito de quem pedia a mão de uma menina solteira – e o mensageiro e a garota apaixonam-se e termina tudo em bem. Mas, esta natural banalidade posta em música por Richard Strauss, é sublime, corporiza e vive por si, sem necessidade de voz que a alimente. E naquela esquina me encontrei com quem sempre me acode por dentro da música. Eu e os meus espíritos benignos num abraço musical. A meu lado, uma armadilha de muita laca. Julgo que não deu por nada.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Numa Rua de Vivendas...

No fundo de uma rua de casas novas há uma casinha pequena, porta e duas janelas, geminada com um barraco de não presta e quase tão gasta como ele. Não é uma casa bonita. É lar de gente pouco abonada e, no acto de compra,  estaria talvez para venda por morte de velhos proprietários.  Soube pela roupa estendida no cubículo onde não cabe um canteiro, que tem mulher, homem, criança. É roupa de pobre, sem um luxo ou garridice. A roupa acena diáfana no estendal móvel ao rés da estrada, qualquer passante pode colhê-la sem desviar caminho.  Por detrás das janelas de alumínio, há cortinados de franzido novo que me olham e empertigam, um bocadinho de orgulho no cair, como a dizer-me, não somos bonitos, pergunta apenas retórica, estão convictos da sua gomosa beleza. Em frente da casa, estaciona um carro antigo, provavelmente de segunda ou terceira mão, usado para transporte de compras semanais e para uma voltinha curta aos fins de semana. Não sei ao certo porquê, mas julgo-a casa de imigrantes sem dinheiro. Passo–lhe à frente com muito respeito e atardo-me nela como em nenhuma vivenda. Imagino o dinheiro contado mês a mês até perfazer o preço da venda. A alegria estreante de entrar e dormir  em algo que é nosso, ganho a poder de tempo, muito trabalho e poupança firme. A satisfação de um móvel novo este mês, um cortinado no outro.
 e mais um trabalho extra que aceito porque o dinheiro se gasta quase sem querer e quem saiba de mais uma horas eu ainda alinho. Se é ao sábado, vou na mesma que só preciso de um bocado para a lida da casa e outro para as compras no super. E no domingo antes de missa também estou disposta.

É assim que a vida acontece. Aqui, a casa é cofre de sonhos.

Nas traseiras já a modificámos toda, temos a lareira que sonhámos desde o frio dos Invernos sem aquecedor para não gastar luz, uma cozinha novinha em folha que não deve à das senhoras onde faço limpeza; na sala, a salamandra aquece o garoto enquanto vê os bonecos na TV. Para as obras, poupámos por mais de oito anos, que só no ano passado as fizemos. E abrimos uma janela no sótão, o garoto há-de querer estar sozinho com os amigos e tem ali uma bela sala.

E hoje passei de novo. O estendal acenava e a porta entreabria. A senhora chegava para recolher a roupa e cumprimentou, estendeu-me um boa tarde simpático e sorridente, também algo orgulhoso. Decretei que é cabo verdiana. E invejei-lhe o ímpeto de mulher feliz. Que Deus a proteja.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

À Luz

A caminhada virou moda. Há a caminhada do coração, do cancro da mama e do corpo todo, dos deficientes, dos jovens, dos idosos e sei lá que mais. São para todos os gostos, diurnas, nocturnas, só de tarde  e só de manhã. E há as caminheiras não oficiais: assíduas, entrosadas em grupos infatigáveis, repetem-se diárias e são ponteiros de relógio à minha janela infalível. Emprestam movimento e conversedo a caminhos e bermas de rua usualmente desertos, que no século XXI desaprendemos de andar a pé e imagino mesmo que ninguém gaste as solas dos sapatos o que a bem dizer nem é mal, já que nenhum sapateiro tem umas meias solas de jeito para oferecer. A única coisa que podem fazer se algum andarilho maluco lhes pede meias solas é sorrir complacentes enquanto puxam do arremedo plástico comprado em série e pronto à colagem.

O panorama de andarilhos em grupo não me motiva. E por qualquer razão de saúde que abandono ao secreto discernimento médico, também não me convém andar muito. Por vezes, que não são muitas vezes, dou uma volta pequena e sempre a mesma. Não é um percurso bonito, é apenas útil e serve os intuitos. Cada um escolhe a diversidade que deseja dentro do tempo que tudo muda. Eu prefiro calibrar as mudanças das estações nas mesmas coisas e pessoas, assinalar o que o homem transformou aqui e ali, absorver as mudanças de luz em objectos e paisagens de hábito. E enquanto isto, o pensamento é folha na brisa, ondula sem rumo fixo. Gosto de ignorar nomes e apelidos, mas conhecer a gente que me cruza e saber a que casa pertence, antecipar quantos cães correm soltos em cada quinta e me acompanham ao longo do muro em alegre ladrido (não tão contentes como eu deles, só que não ladro). É bom pensar com o ar fresco a fazer viva a pele do corpo e nós deliciados, olha, afinal ainda a sinto como dantes. Coisas deste teor não se fazem em companhia. E talvez nem haja palavras para descrever o meu  barro poroso e aberto à frescura da água. 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Surreal

Certa manhã de vagar friorento, estava eu sentada no metro a meditar na morte da bezerra e sem ver um boi à minha frente, quando os meus inadvertidos olhos intrigaram. Era uma onda ou seria um bocadinho de mar ali à mão. Dois metros  à minha  frente, se tanto. Firmei a vista. Incrível, estava uma sereia no metro. Era uma sereia a sério, mas sem rabo de peixe ou escamas. Seguia em animada conversa e dava-me as costas. O relâmpago de novidade que me preenchera a retina era um extenso cabelo de Menina do Mar ondulando até perto da cintura, num arredondado brilhante de tons verde pálido com reflexos azuis.  Aquele ser extraordinário virava-se  ao rapaz da casa branca nas dunas, e quem sabe se combinavam o passeio em que ela foge do fundo do mar para ver as vinhas e os fósforos e outros desconhecidos encantos da terra. Bom, não que o jovem tivesse identificação visível, mas sou fiel à autora e ele tinha todo o ar de quem escuta tempestades e ventos marítimos. Mais, sendo a garota quem era, só podia ser ele. Amiudadas vezes as mãos dela subiam em movimento de alga e ocupavam-se a afastar o cabelo do rosto. E logo ele verdejava sem destino e despedia reflexos azulados dorso abaixo. Que todos ignoravam. Como não enxergavam a mansidão de onda preguiçosa a desmanchar e que bulia a cada movimento de cabeça. Desvaneci assolada de verão, corpo na areia, um murmúrio de ondas à conversa. Admito, talvez tenha fechado os olhos.

Quando regressei, o rapaz eclipsara e ela estava na minha frente. Não um perfil delicado. Frontal.  Linda e exótica. Tão linda como qualquer sereia de cabelo verde, um ganchinho no lugar dos búzios, olhos perdidos. 
Aposto que sonhava com os fósforos e o sabor das uvas que desconhecia.