domingo, 30 de junho de 2019

Madama Butterfly


Sou, em sentido musical, uma herege,  o meu ouvido não se habitua ao bel canto e nem sabe apreciá-lo.  A ópera, ó sacrilégio, cansa-me as meninges feitas para coisas pequenas e menores, sem elevação tonal, talvez mesmo medíocres.  No entanto,  convencem-me pequenas árias lamentosas, a voz trinando baixo; e, presa de  característica vocal específica, um intérprete ou outro.  Foi com este sentir que assisti “Madama Butterfly”  na Gulbenkian. 
Possuía o ingresso há meses. Porque o filme do mesmo nome, inesquecível e interpretado por Jeremy Irons, me incentivou ainda que divergente na história; por ser o último espectáculo da temporada e me nascer a esperança do inefável jardim em fundo musical, como sucede em concertos especiais e que é demais de bonito; por a presença do coro somar pontos ao concerto. À beira do acontecimento, soube que também ias; acredita, foi uma doce viagem.
Agora repara: o coro quase não cantou; não houve o fundo verde do jardim iluminado na noite; vi-te de raspão na entrada, desencontrámo-nos no intervalo que perco faculdades em multidões selectas e deixo de ver. E no entanto, na esplanada repleta, bebias café com a família. No final, levaste-me a casa perseguidas pelo carro do lixo que é como quem diz, deixaste-me e seguiste. Só os olhos mataram a saudade imediata e fácil. A outra, a que dói e importa, a que se faz buraco cá dentro, permanece. Estavas em família, não era nem havia o tempo de sermos as duas.  
Mas o espectáculo. O que gostei da orquestra toda em traje de gala, do drama às escâncaras na música de Puccini. Somos levados pela história  - contada e cantada - desde o esplendor amoroso que tudo dá e nada exige, até à solitária insistência na esperança pungente, crença amorosa que se rende apenas no confronto com o intransponível muro da realidade. E há desde o início o presságio de angústia e solidão a rodear a doce Butterfly. Que admirável a soprano Melody Moore, uma Cio-Cio-San (Butterfly) extraordinária. A pureza e sensibilidade da voz a ecoar no silêncio, sinais inenarráveis da sua qualidade artística e humana. Tão, mas tão aplaudida.    Naquelas três horas, Butterfly tomou posse. Reinou.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Tininha


Crescemos. Ana mudou-se com os pais para terra distante, não voltei a vê-la. Estudei fora, empreguei-me longe da casa paterna e perdi o rasto aos colegas da escola. Certo dia, num restaurante, uma empregada sorridente citou o meu nome inquirindo se não a conhecia. E não conheci. Apresentou-se, a Tininha da escola paga. Também ela mudara, fizera-se uma linda jovem. Corpo alto e airoso,  a mesma franja, o cabelo escorrido caindo junto ao rosto como então, olhos alegres. Abraçámo-nos a rememorar as horas de brincadeira, os jogos do mata e os outros, a menina Margarida que entretanto casou e também saiu da aldeia, não se sabe para onde. E ela quase de lágrima no olho, a voz a sumir, ela é que foi a minha professora, nunca a esqueço; ensinou-me me a ler e deu-me coragem para a escola, eu tinha um medo da escola que me pelava. E olha, no ciclo até ganhei um prémio por ser a melhor aluna. Pena que não estudei mais, a minha mãe não podia. E estendendo a mão esquerda, casei e estou à espera dos papéis, vamos emigrar. E despedimo-nos com muito recado de voltarmos a encontrar-nos quando viesse de férias.
Passaram anos. Soube que regressara para atender a mãe que sofria de doença degenerativa. Entretanto, descasou por maus tratos do marido. Criou dois filhos pequenos. A filha, muito semelhante à mãe na figura e na mente, era aluna aplicada. A droga atravessou-se na adolescência do filho. Foi assim que a encontrei segunda vez, de novo a servir à mesa. O mesmo cabelo e diferentes olhos. Pesarosa, contou-me o desgosto, os esforços para que deixasse a dependência, o dinheiro que gastava com ele. Moravam juntos. Eu pouco disse, faltam-me sempre as palavras para a fundura sofrida. 
Num entardecer de calor, depois de um dia de trabalho e enquanto eu sacudia a areia da praia e retomava o caminho de casa, Tininha  chegou a casa e encontrou o corpo do filho pendurado numa viga. Fui acompanhar. Não acompanhei coisa nenhuma, ninguém acompanha dor que não tem dimensão. Se algum dia senti compaixão por alguém foi por ela,  boneca desarticulada, perdido o elástico que lhe unia as peças. Desmaiava consecutiva; a esmo, os cabelos sedosos e costumeiros do rosto, caindo por aqui e ali e apenas com ela porque implantados no couro cabeludo. Mãos, pernas e braços, todo o corpo perdia vida num deslembramento de beleza trágica. Sozinha, engolida por dor sem contornos, rosto de nenúfar em águas turvas, olhos fechados. A Tininha.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Tininha


Lembro-me dela, franja de âmbar sobre os olhos, dedinhos em vírgula afastando o cabelo, ocupados a acondiconá-lo lá atrás, no claro recanto da orelha minúscula. E a  mente enganchada na hesitação das sílabas. Chegara em peça única com a mala, tábua de salvação que o receio  dos dedos apertava. O medo arredondava-lhe os olhos de castanha e tudo nela era improviso de boneca. No outro braço, carregava o banquinho onde havia de sentar-se, o moxo, como lhe chamavam todos, “vais para a escola paga da menina Margarida, dás cinco escudos por semana e tens de levar o moxo; podemos lá ficar até as mães virem do trabalho. E brincamos muito”. Era assim o aviso que corria. E a divisão pequena da escola paga encheu como um ovo.
Como em todos os grupos, havia um líder, neste caso, uma líder, a Ana. Ana vestia melhor que as outras crianças, era alta para a idade e desempoeirada; era a única criança que se sentava numa cadeira com florinhas pintadas e que todos cobiçavam se ela faltava, menina Margarida, posso sentar-me na cadeira da Ana. Além da cadeira, as outras crianças admiravam–lhe a pele branca e sardenta, o verbo fácil e o cabelo de corvo radiante. Era muito assertiva a jogar ao mata.  Reinava. À vista da nova aquisição, logo abriu um espaço na roda de banquinhos e antes que a menina Margarida dissesse palavra, senta-te aqui ao pé da Irene. E depois, como quem se recorda, pode, não pode, menina Margarida. E podia. Menina Margarida sabia a importância do acto. Sem promessa ou escritura, Ana fazia-se protectora da garota,  o melhor antídoto para o medo. A nova sentou-se sem uma sílaba, pássaro que encontra ninho. Sob a cortina da franja, um olhar grato e medroso para a menina Margarida  também sentada num moxo, risonha e muito jovem, nada parecida com a professora da escola oficial.
Na segunda semana, ela que não sabia ler nem escrever e reprovada de dois anos na escola, ganhou entusiasmo, aprendeu as vogais e as duas primeiras consoantes, o pê e o tê. E lia de gosto as lições.Tornou-se faladora e brincalhona e, aos poucos, foi deixando de se mirrar toda, rosto escondido nos braços, se a menina Margarida se movia para mudar a página do livro. Ana ria-se dela, a menina Margarida não bate, palerma, não tenhas medo. No final das férias, lia fluente em qualquer lugar, fazia cópias e ditados sem erro, era barra nas tabuadas e nas contas. Dizia a mãe, a minha Tininha ganhou inteligência, faz contas e lê tão bem...e deixava a outrém o ensejo de imaginar os prodígios repentinos do seu rebento.
(cont)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

The Heart is a Lonely Hunter


Há uns anos, foi-me sugerido o filme e investiguei, que é como quem diz, procurei-o na net. Então, vi-o sem legenda e, por  falta de fluência na língua inglesa, limitei-me ao entendimento sumário de personagens e história. Mas um destes dias o meu cinéfilo de estimação deu-me o filme legendado. Valeu. “The heart is a lonely hunter” ou “O coração é um caçador solitário” é um bom filme, baseado em livro que decerto lhe acompanha a qualidade.
A história contada não é apenas uma, são várias. E, nas várias, existe uma personagem que se repete e intervém quase como anjo da guarda: um surdo mudo. O filme é esse conjunto de histórias diversas, num mundo de trabalho e dificuldades que a personagem unifica. Ou, é a história da solidão da personagem que como náufrago se vai agarrando às ervas e arbustos das margens, que se soltam da terra ou apenas não o seguram, e continua impelido pela corrente. É como se ele permaneça uns momentos agarrado aos arbustos e nesse tempo breve pense, estou a salvo; mas logo a corrente o arranca, o arbusto desfalece, as mãos lhe escorregam. E de novo se vê sem chão. A diferença entre o náufrago e o surdo mudo é que o último, onde toca, planta semente boa. É um anjo. Um anjo solitário e fechado no seu mundo de silêncio e que comunica por escrito e em linguagem gestual. Gestos é tudo que faz durante o filme. Tem um amigo do coração; também surdo mudo. Para estar próximo,, muda de cidade e de emprego sem hesitar. Mas o amigo, de quem pede a custódia, é deficiente mental; vê-lo no hospício é tudo que lhe resta até que chegue a decisão do tribunal. E ainda assim não desanima.
Na nova cidade, reparte a sua atenção com quem a precisa: um bêbado que recupera para a normalidade e o emprego, e com quem julga poder sentar-se a jogar xadrês, o que nunca acontece. Dói notar o cuidado que põe no encontro para o primeiro jogo, as cervejas, os copos limpos, o tabuleiro...e o parceiro chega numa pressa, afirmando que o novo  emprego o espera e outra vez será. Vez que a vida se encarrega de não haver. E há o médico e os seus fantasmas de racismo, com quem se confronta e que por fim lhe reconhece valor. Encontram-se. Mas o médico debate-se com problemas familiares e um cancro incógnito que lhe viaja nos pulmões. E o nosso homem-anjo conta à filha desavinda e aplana o caminho do médico. Mas a sua ternura maior vai para a garota da casa onde aluga o quarto que antes fora dela. Ele que é atento e tudo perscruta, descobre que gosta de música clássica e compra um gira discos e os discos dos concertos a que ela não assiste porque a família atravessa um período difícil. É de ternura inédita esse momento em que ela, treze ou catorze anos magrinhos, sobe a escada e ouve a melodia. E ele contente da alegria que fez nascer, ele a fingir que ouve o que nunca será capaz de ouvir. E ela sonha e como que descansa das coisas difíceis ao som da música.
Um dia visita o hospício e o amigo, o único que o idolatra, que conhece a linguagem gestual e fala com ele, que o abraça com alma, morreu. A perda tira-o de si, precipita-o na dor. E a solidão completa-se. Como casa que o encerre,  sem portas ou janelas.
Não há culpados. Ao recusá-lo, todos tinham os seus motivos e não eram motivos fúteis. A vida desatentou a todos de quererem saber sobre ele. Ninguém lhe fez companhia ou perguntou se tinha amigos. Ninguém chorou com ele a perda que nem sequer se soube. Não houve uma pessoa interessada na sua vida. Ninguém desviou a cortina da serenidade que aparentava no silêncio conveniente e lhe espreitou a alma.
Um filme que aconselho e que excede largamente o que este emaranhado consegue dizer.
Bem haja quem mo deu a conhecer.

domingo, 23 de junho de 2019

Uma Insónia Chamada Jane Austen


Habitualmente, compro na Feira um autor nunca lido. Permito-me uma experiência nova. Este ano calhou a Jane Austen. Recusei obras que tinha visto no cinema por preferir   livro a meus olhos inédito e trouxe o seu primeiro trabalho e livro do dia,  “A Abadia de Northanger”. Jane Austen, talvez pela época em que viveu, tem alguma coisa dos romances rosados de minhas tias: as heroínas vivem a pensar em casamento, vestidos, festas e passeios. E, ainda que mal comparado, parecem-me, em certo sentido, uma versão de Enid Blyton para crescidos. Os lanches, bolos e refeições divinais são substituídos por vestidos, bailes, um castelo ou um solar onde nada falta. São aventuras escritas para uma mocidade que se realizava casando. Sobretudo, casando bem. Jane Austen criava esse ambiente de época que hoje nos deixa nostálgicos; não se entende porquê, eram tempos desconfortáveis e as mulheres, por mais inteligentes e letradas, tinham de saber bordar e agradar aos homens ou ficariam para tias o que era um desconforto para elas e para os pais. Inteligência e letras, ao que tudo indica, não eram qualidades de admiração.
Mas não se julgue do dito que não admiro Jane austen. Para já, e não desmentindo ser sobrinha de quem sou, li-o numa tarde e parte da noite. Quase de enfiada, a reviver o tempo em que não conseguia adormecer antes de terminar um livro. Pois foi, mas ontem andei feita zombi, que fingir de jovem é arrasante.
Do que gostei: do estilo desencardido da autora; de se misturar na narração como quem espreita de forma sorridente e por vezes trocista; de  a heroína ser vidrada em romances e ter a cabecinha cheia de ideias falsas acerca da realidade. Pareceu-me aviso muito assisado, o imaginário tece muita teia de aranha sem serventia – é verdade, escusam de negar. De Austen passar a ideia – ou pretender -  que os homens também lêem romances e sabem distinguir os bons dos menos bons; Do início do romance e da configuração das personagens; de um estilo de escrita bem humorado e sem tagatés que deixa adivinhar a escritora que aí vinha.
Bom, agora vou ter de ler mais um para ver se não me enganei nos prognósticos. E assim.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Sophia e Sena - correspondência


Durante dezoito anos Sena correspondeu-se com Sophia. Dois poetas grandes. Estilo poético diverso. Amigos de verdade. Como previsto, trouxe a correspondência da Feira do Livro 2019. Li-a com algum pejo, a sentir-me invasora, nenhum deles terá pensado que as suas poderiam ser cartas abertas ao mundo. Eram cartas. Não eram páginas de livro. Mas, a mulher de um e os filhos da outra dispuseram-se à divulgação. Facto que tem tanto de prós como de contras e que não me pertence discutir. Aprovaram e superintenderam a publicação. Está feito. E não sabemos até que ponto o que lemos é integral. Há grandes, enormes intervalos entre elas. Assinalado em várias missivas, era correspondência vigiada e lida pela PIDE. E, em amizade tão longa e dedicada, não há uma referência à prisão de Francisco Sousa Tavares e apenas uma vez encontrei alusão a um interrogatório de Sophia na PIDE (talvez tenha sido o único, não estou por dentro da vida pessoal da poeta).  Contudo, há muito sobre poesia e ambiente cultural português. E, sobretudo, há, por parte de Sophia, um puxar constante pela poesia de Jorge de Sena, emigrado primeiro para o Brasil e depois nos USA por contingência política e desagrado com o ambiente intelectual da pátria.  Salienta-se o cuidado da poeta nos incentivos e louvores verbais que abundam nas cartas, como nas críticas atentas e na moderação a que por vezes o exorta. Mas sobretudo na insistente divulgação, cá dentro e fora de portas, da poesia de Sena. É enternecedor o quase orgulho com que imaginamos Sophia a recitar Sena, a falar dele e enaltecer o seu indiscutível valor, a mostrá-lo e a contar-lhe isso mesmo na medida em que o poeta sempre se queixou do pouco valor que tinha para os seus conterrâneos. Era como que se quisesse, sozinha, fazer justiça ao amigo. Por seu lado, Sena, que necessitava de quantias módicas para sustentar a família numerosa e as adquiria jogando mão a qualquer trabalho intelectual para além do ensino universitário, Sena era esse incansável estudioso, uma mente brilhante que não esquecia a amiga Sophia e, mais modestamente, a divulgava; seria por falta de oportunidade e contexto, quem sabe. Muito haveria a dizer sobre os dois poetas, Cartas são confidência e lê-las ajuda a mão que escreve. Mas o que admiro sem fronteiras nestes dois espíritos que ofereciam um ao outro o que iam publicando, é o comum desejo de elevar Portugal quando e se fazem parte da representação portuguesa no estrangeiro; e Sena, que tanto condenava a pseudo intelectualidade portuguesa  e a partidarite que imperava (impera?) no meio, claramente as separava do povo português e de Portugal como país a que pertencia. A preocupação em mostrar o que há de melhor na literatura lusa, a proposta de obras e iniciativas que iam muito além da evidência pessoal. O gosto em mostrar o outro como bem literário inestimável. Um grande bem haja aos dois.


terça-feira, 18 de junho de 2019

Na Cerca


O Minho que conheço é feito de sombras e frescura, humidade que ressuma dos muros, pequenos veios de água escorregando a passos de lismo. Em Tibães a água que serve o mosteiro vem do monte que lhe fica em frente, visão que maciços e arvoredo escondem. Quem terá construído a ala de degraus intervalados de fontes, esta escalada frondosa debruada a pedra de sentar e que leva o viajante até ao cume. Já não estou certa, mas serão nove fontes e, entre uma e outra, os degraus. São muitas as estações e vou parando, a encher-me do lugar e esvaziar-me de mim. Cada fonte é sinal de pausa,  lembra a via sacra. Quem sabe, o número obedece a preceito que desconheço. A serena beleza daquele caminho de sombras e pássaros, a abertura dos ramos a fazer tecto e, em todo o ar à volta, um silêncio que se entrega, toma-me. 
Ali, a minha igreja de seiva, água, terra. Ali, habitam em harmonia os deuses e os espíritos benévolos da floresta. E o mundo é lá fora e desimporta. Bem a meio, o cano que desce colado à terra, a água em corrida; há-de percorrer a distância até ao mosteiro onde, senhor nos seus domínios, distribui a benesse líquida que no inverno é agreste frescura e pode gelar. Lá em cima, em remate, uma construção branca ressalta do verde. Será a mãe de água, uma cisterna, um simulacro de igreja. Não sei, sou ainda presa do caminho. 
Desço o carreiro que desemboca em clareira aberta. No lago inesperado, um dramático e enorme círculo líquido que palpita de vida animal, a água ondula aqui e ali. Abeiro-me da superfície escura e milhares de insectos ou pequenos seres aquáticos borbulham e são praga que repugna. Será que os frades ali se banhavam ou lavavam roupa. Que algum se deitou a afogar no fascínio escuro de lodo, o corpo inane e branco levado em braços e a pingar verde pelos caminhos da horta. Que funestas paixões e proibidos amores ali deliraram e foram submersos e ciliciados. Jamais saberemos que dores pressentidas o escurecem ad eternum.
Antes de abandonar o mosteiro, revi ainda os aposentos exclusivos do abade, a breve varanda de sol e gorjeios e as escadinhas que deitam para a ampla exclusividade do quintal onde uma romaneira insistente floresce em alegria.
Não se me dava ser abade neste mosteiro.



segunda-feira, 17 de junho de 2019

Tibães e uma Inveja Telúrica


Ultrapasso o pedaço de vinha e o receptivo espaço de aluguel arado e aberto à semente. Invejo aquela terra forte, escura, a água que corre em regueira natural, a força verde de natureza bem nutrida. Acudo ao chamamento dos bancos de pedra, subo degraus e sento-me ao rés da primeira fonte. No início da tarde, o calor, a quietude, um silêncio de pássaros no arvoredo que rodeia o semi círculo de lajes, convidam ao remanso de preguiça digestiva a que os alentejanos chamam sesta e tanta vez é apenas um alívio de existir e laborar em árduo sufoco de sol. Nas sombras quentes e suarentas, os alentejanos apoiam costas num tronco e, chapéu puxado ao rosto, adormecem. Minutos em que são indefesos meninos, abandonados de força, corpo lasso, pernas bambas, pés sem caminho. Ao invés, rasa a fonte uma frescura de gotas em suave canto chão. É talvez o prenúncio de água fresca que os alentejanos sonham sob o chapéu que os isola e protege da intrusão de moscas e moscardos, formigas subindo-lhes o corpo deslembrado. Sabe-se lá o que ouvem no breve coma que os tolhe. O bem que lhes faria a força vital destas árvores, a sombra fresca e cerrada de que sobreiros e azinheiras são incapazes, por mais que estiquem folhinhas minimais. Tudo na enxada alentejana deseja a terra fecunda e escura que desconhece, o mundo de além Tejo suspira por esse húmus que lhe não pertence. E remexe no pó cinzento da terra anémica que lhe calhou. E dela arranca esforçadas flores e frutos, e planta árvores que crescem tinhosas ou a poder de cuidados e reservas. Mas, aqui, não; aqui, tudo cresce desmedido. O mundo do esforço é muito desigual.
Refrigero mãos na água abençoada e sigo viagem, piso devagar nos caminhos desta primavera veraneante. Maciços despedem odores a viço jovem e clorofila e a respiração agradece o novo alento. Aqui e ali, pequenas flores silvestres sorriem a pintalgar a verdura. Flores que ninguém rega nem ampara, crescendo a sós com o sol e a água. No Alentejo, os caules estiolam sem razão aparente e as plantas que sobrevivem requerem amparo humano. Que o verão tudo engole e queima, das ervinhas mínimas a arbustos impensáveis. Na modorra de tardes infernais as frágeis flores sossobram, aceitam a morte que se anuncia na canícula, pergunta breve e repetida, até quando resistes, até quando. Aqui há flores contentes, pujantes, duram o todo do seu tempo. Cumprem-se. Mas o meu coração está lá, irmanado à sobrevivência do mundo vegetal, comovido no esforço desafiante de cada botão. Mesmo que as corolas pendam e os caules desistam, que belas são as flores exaustas.  


sábado, 15 de junho de 2019

Ainda Tibães


Abençoados os condes D. Teresa e D. Henrique que em 1110 doaram as terras de Tibães à igreja. Nelas, o mosteiro beneditino foi construído, reconstruído e acrescentado ao longo de séculos.  A época áurea coincidiu com o período em que foi sede da congregação de S. Bento e a ordem juntava as casas de Portugal e Brasil. No interior do mosteiro abunda uma claridade que apetece e convida à contemplação, talvez por ser povoado de zonas amplas e abertas, pátios e claustros arejados; no piso superior, um passadiço externo que liga o edifício disposto em quadrado, de um lado ao seu oposto. Foi escola de artistas vários que ali praticaram a sua arte e era frequente a existência de monges que deixaram obra dentro de portas. O zelo dos artistas avulta na opulência da igreja, um explosivo mar de arte sacra em maneirismo rococó que não a confina. Tudo no templo é molde de artista a louvar o Criador: azulejos; a profusa talha dourada estuando motivos; as cadeiras de sentar e encostar do coro, personalizadas uma a uma com figuras de animais; quadros; altares; a separação das zonas de culto. E por ali andamos atentos, num cansaço feliz e de olhos saturados, imersos na profusão de obras que são salmo, oração e cântico perene. Desvinculados de quem somos ou seremos. Olhos e alma esquecidos de que é o corpo que se move e os leva de cela em cela, corredor em corredor.
O mosteiro cresceu até ao século XVII, mas, extintas as ordens religiosas, foi encerrado em 1830. Vendido a particulares, só se torna edifício estatal em 1986, ano em que se iniciam as obras de restauro que permitem hoje a visita.
           Entretanto, desço ao verde da cerca rumorosa e cheia de sol. Encontro um pequeno jardim de ervas aromáticas onde uma mulher se fez súbita e nomeou cada uma. Seria por aqui que os frades tinham também a sua horta de remédios futuros e mezinhas, um bocado de terra para alívio dentro e fora de portas; chão sagrado, portanto. Talvez aquela senhora fosse uma funcionária do mosteiro. Ou estudiosa atenta. Ou, quem sabe, uma religiosa. Olhei-a: nem nova nem velha, traje discreto, uma paciência sábia na voz, sinais de amor pelo lugar e sua história; e um apagamento de si que invejo. Contou que os últimos proprietários de Tibães não tinham filhos e deixaram a propriedade à empregada que tem doze (não estou segura do número mas são mais de dez). Fiquei sabendo onde vive a senhora - muito perto do mosteiro - e que os filhos delapidaram a herança  e foram vendendo bens até que o Estado deitou a mão ao património restante. Deixei-a por entre aromas e segui para a mata.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Feira do Livro e Jacarandás


Não se explica o meu gosto pela Feira do Livro de Lisboa.  Nascida numa casa sem livros, os que por lá passaram não nos pertenciam. Qual Benjamin Button, as minhas leituras começaram do fim para o princípio, soletrei e tomei velocidade nos romances de Corín Tellado e, após muitas derivações, dedico-me presentemente a comprar e ler as histórias que Sophia escreveu talvez para entreter as suas crianças. Agora. Na idade de reforma. As histórias de Sophia são auroras boreais de uso privado. Presumo que, em termos de idade mental, me situo para aí entre os dez e os treze, o que só em parte mínima me beneficia. Paciência. Um pormenor que me intriga na convivência prematura com romances de cordel é que neles tudo dava certo, o amor saltava mais barreiras que um cavalo em competição e não sofria abrandamento ou queda. O fim do romance era mesmo coisa de semi recta, um continuum de felicidade. Contudo, jamais a minha mente de pássaro julgou que as situações  dos romances pudessem ser comuns à vida da gente. Nada. Os romances tinham ser próprio, começavam e acabavam nas palavras. Basicamente, entendi-os como contos para adultos, só existiam no papel. A instituição desta parede mental poupou-me muito dissabor e pode ter-me retirado algumas hipóteses. E condicionou-me o gosto. Basta olhar a pilha de livros que trouxe da Feira.
Apesar do desgraçado vento frio que encanava pelas ruazitas da Feira, passeei-a de gosto no pára arranca de gastar minutos e meias horas a estudar futuras compras na folha de cálculo dos gastos e dilatando a fasquia desde a partida. Pena não me ter sobrado tempo nem bolsa para os livros de alfarrabista que tanto aprecio. Propósito: no próximo ano hei-de visitá-la em dois dias e dedico um monte de horas aos meus amigos alfarrabistas.
 Debrum de caminhos, os jacarandás arredondavam subtilezas lilás pelo recinto e quem bem olhasse veria o zelo languescente em recortes de braço e uma materna finura de dedos sobrevoando as juvenis barraquinhas de livros. Os jacarandás de Lisboa, tão cheios dos olhos de tanta gente. Tempestades e sóis de esturricar meninges, ventos fortes e brisas, arrulhos de pássaro e de gente. A tudo assistem. Às seringas de efémero prazer, a zangas de toda a espécie, tristezas que se não dizem e eles notam, fomes longas e lentas que matam o fora e o dentro de cada um,  aos barcos que levam e trazem gente, aos afogados que dão à costa num inchaço deslavado de lábios roxos e meio comidos, à apertada saudade das despedidas, aos comboios que chegam cansados e partem de má vontade. A tudo que não sei dizer e eles coleccionam por dentro da seiva, tudo que lhes requebra e curva braços e dedos, tudo que escurece nos troncos, os salienta na paisagem e faz mais vivos que a vida toda que mexe em seu redor. E assim gritam calados e choram e riem, os jacarandás de Lisboa.

domingo, 2 de junho de 2019

Mosteiro de Tibães


Tibães é lugar de recato, o bulício não sobe ao Mosteiro timbrado pelo sussurro do vento na copa  das árvores e música de pássaros. Tempos houve em que foi mais isolado. Hoje, época de caminhos em vaso comunicante, somos gratos ao sossego do sítio.
Entramos e logo as pedras nos avisam do tempo que carregam. Pergunto-me se viriam até ali todos os monges, ou, depois de franqueada a porta, era lugar vedado à maioria. Nada sei do mosteiro e da sua história, mas já me entrego a ele como noviço esperançoso que pisa o chão primevo sentindo-se em casa. Na sala abobadada, lugar de aquisição de bilhetes e lembranças, enredo nos bordados e bainhas abertas e faço contas de cabeça: isto e mais aquilo, a feira do livro, os aniversários que ora esta, tanta gente nasceu este mês. E logo os aquieto no lugar, orelhas moucas aos pedidos de leva-me contigo e à ilusória cantilena de certezas que abre por entre os fios de linho, pertenço-te. Ajeito dobras em modo de despedida e desculpa, olhos em voluntária desatenção. Seguimos.
O mosteiro, que nasceu no século XI e dizem ser o mais antigo da europa, alarga-se por zonas distintas: a igreja e seus apaniguados, hoje ao serviço da paróquia de Mire de Tibães; a extensa zona reservada à vida monástica; a parte que se destinava ao comando da ordem benditina – Tibães superintendia todos os mosteiros da ordem em Portugal e Brasil; a zona da cerca ou dos trabalhos agrícolas e a que pertence também a extensa mata. O território do mosteiro espraia-se por quarenta hectares  e apetece descansar na pedra de todos aqueles bancos. Do amplo terraço das traseiras, lugar de recreio dos monges, o olhar  perde-se no suave ondulado de copas verdes crescendo para o céu. Ali perpassa ainda a extensão silenciosa de outros tempos. Sem minutos ou horas. E, com hábito ou sem ele, deseja uma pessoa permanecer. Que, longe das mundaneidades, quem sabe, nos achega a inteireza.
Mas a viagem escrita, mais de impressão que exaustiva, começa no amplo claustro do cemitério. Lugar alegre,  luz espaçosa em derrame simples sobre a vegetação, bancos de pedra aqui e ali, pássaros de hábito na fonte central. E tudo debruado pela elevação natural dos arcos, religiosidade que ressuma da pedra assim talhada e revolvida. No piso em volta do claustro, as campas dos monges. Na simplicidade anónima de laje de chão, apenas uma inscrição numérica. Apagamento de si.


sábado, 1 de junho de 2019

Love Story



 Love Story acordou memórias-embrulho acomodadas na prateleira do arquivo morto. Mas é que gostei do filme. Mesmo. Entretanto, informara-me sobre o resumo da história que era, então, o meu possível sobre a película. E esquecera-a. 
Ora, há certa tendência melodramática no espírito humano e não sei se por excesso de calor e simultânea escassez de água, acentuam-se na alma alentejana. Os finais felizes carecem de sedução, gostamos um bocadinho do nó na garganta. Parti pois para o filme com alguma curiosidade mas sem expectativa, facto que não me impediu de chorar como uma Madalena. Dado que a adultícia teima em nos emperrar o saco lacrimal, considerei uma boa coisa. Há funções que a gente pensa que desaparecem e afinal ainda lá estão. E somos gratos. É isso.
Agradou-me a leveza e certa ingenuidade sempre presentes. O filme vive da história, dos diálogos que são uma pérola, e do desempenho dos protagonistas. Vivem ambos o amor embevecido que todos tivemos ou, pelo menos, desejámos ter. E é bom lembrar aquele olhar que é em nós diferente e todo se adoça a pousar na nossa figura, que nos vê com o sortilégio da univocidade e a quem não apenas bastamos amplamente como somos pura necessidade. Aqueles dois fingiram o élan amoroso na sua autenticidade.
Como é que alguém critica as cenas da neve?! São uma ternura beijada a juventude.
É certo que  há os pruridos da leveza em tema árduo, o cancro que surge, toma e arrebata quase sem sofrimento; a briga com o papá milionário que deserda o seu menino; a surpreendente adaptação à pobreza; o esconder, propositado (lá se ia a leveza e juventude) das partes feias, dos desajustes sérios, das limitações que se dizem em exasperação de decibéis. Ao invés do que sucede na vida, tudo é leve. Mas gostei do desenho. E da forma como Ali Macgraw chama betinho ao seu menino rico,  a ironia em escudo ou apenas a amorosa ternura; do amor que o cinema sabe tornar tão irresistível e limpo. Aqueles dois são uma manhã clara até ao fim. E isso se deve muito ao deslumbramento que Ryan O’Neil lhe empresta.
E depois, quem é que preferia a realidade ali esparramada?! Eu, não.