sábado, 21 de outubro de 2017

Escrevinhando

A pena que eu tenho de ser portadora de um ímpeto rasgador que se refastela naquele som de papel que não pode mais e se cinde a contragosto, desfazendo a unidade de si mesmo num términus violento e ruidoso. Era esse ruído de laceração que me impelia a destruir os escritos dos verdes anos e seguintes;  “não presta”. E truz, tudo em fanicos antes que algum cusco casual desse de caras com os meus estados de alma. A bem dizer, só a velhice me fez poupar alguns escritos e creio que o mérito cabe quase inteiro ao mundo digital onde não nasci – e juro, achei-o mais estranho que o sabor da coca-cola -  mas que entranhei num ai.
Porque comecei cedo a escrevinhar. Desde os bilhetinhos para garotos da escola primária que nunca se dignaram sequer olhar-me e portanto dobrava, dobrava e   saíam do bibe em fanicos, à correspondência das minhas avós onde espraiava romantismos de cordel em gente que apenas imaginava e era decerto bem diversa do meu ideário, passando pelas redacções onde tentava à viva força enquadrar palavras e expressões do sôfrego mundo dos livros. Cedo compreendi que conversar era uma coisa e fazer uma redacção, outra. As redacções eram um mundo específico e agradável e fugiam ao linguajar conhecido. Assim uma espécie de almoço de Páscoa ou ceia de Natal encriptada. Essa ideia divertia-me sobejamente, era como se eu falasse esperanto com a professora. Quanto mais desconhecidos os termos, mais os olhos dela me sorriam. De modos que eu esmerava-me. Todos gostamos de agradar.
Mas o meu ponto alto foi a adolescência. Nessa época de infinda tristeza, comecei a escrita em cadernos. Sem ordem ou propósito, além da vontade de fugir de casa para não voltar. E só não fugi por palpitar que teria medo de atravessar o pinhal que via ao longe - a minha mente tem a particularidade de não aceitar o alcatrão e foge pinhais fora,  fuga que se preze não quer estradas –, vexada de ser encontrada pelos guardas republicanos. Imaginava-me perdida no meio do pinhal, trazida a casa no jipe da guarda e a encaixar uma valente sova a seguir. Convenhamos, arrasa qualquer coragem adolescente. E é claro que, vezes sem conta, me apetecia morrer. Havia semanas de infortúnio: nos dias mais negros, viajava no banco da frente da carreira, podia haver a sorte de um acidente. Não calhou. Não morri. Mas fui escrevendo e deitando fora a enxurrada lacrimejante. As lágrimas caíam em cima das linhas, faziam poça, o fio azul escorregava um bocadinho para baixo e nascia-lhe uma barriga à medida que o papel enfolava no redondo da lágrima empapada. E depois não podia escrever naquele lugar porque borrava. Por vezes, insistia e rasgava-o. Quando acontecia, cobria o caderno e a folha furada com irritações cheias de unhas a riscar no vidro, assoava-me, lavava a cara e ia olhar o longe do pinhal a discorrer, se fugisse de manhã e fosse sempre em frente e a correr, certamente saía do pinhal antes de ser noite. Mas de manhã ia para a escola e não me lembrava de ser tétrica. Selectiva, a tristeza visitava-me às tardes e fins de semana. Ou durante férias. Estou em crer que não mudei nada, as manhãs exploram o meu melhor. Mas pronto, talvez seja conveniente dizer que sim. Acrescentar que cresci, amadureci, pus travão ligeiro à imediatez.
Entretanto, lancei-me a escrever a todos os amigos e não amigos. Por conhecê-los. Ou porque os queria conhecer. Através do serviço dos correios, mantinha contacto com meio mundo. Os carteiros desconhecem, mas contribuí de forma activa para a sua continuidade. Claro que não fazia rascunhos. Se os fizera, não havia necessidade de fechar missivas com fita cola e de algumas chegarem multadas por excesso de peso. O meu mínimo assentava em três folhas de bloco de carta. Que a norma eram nove. Nove folhas escritas em frente e verso, com recados na margem superior. Não me lembro de seguirem assinadas. A minha vida era escola-casa, casa-escola, o que contaria em dezoito páginas?! Mas o prazer que eu sentia se uma destas missivas  me chegasse às mãos...

  

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o Meu Padrinho de Empréstimo

Lembro-me de si desde um casaco azul e uma bicicleta de pedais na descida dos eucaliptos. Era um casaco de dralon, mescla de fios entre o azul e o negro, alguns ligeiramente brilhantes. Nesse tempo de mangas de camisa e calça de cotim, parecia um príncipe. É verdade, padrinho, e a camisa branca a espreitar por dentro do casaco, aumentava a minha admiração. Olho com atenção e nada restou das pestanas arqueadas e das centelhas brincalhonas a esverdear  pela íris, encantos que migraram para filhos e netos. No lugar da destreza antiga, uma cadeira de rodas a amparar o corpo magro. E na voz uma mistela de sons desarticulados, a gente a aproximar-se num esforço inglório de compreensão, apenas para o ver contente de  “ ainda consigo falar com eles”, participo.
Não sei que fez a vida ao rapaz do casaco azul. Agora há o incompreensível de um babete sobre a camisa que já não é branca e há a baba que corre; há os pulsos finos meio mortos e as mãos trementes; há os pés que temos de ajeitar-lhe no estrado. Devagar. Cuidadosamente. E há a minha madrinha a dar-lhe bocadinhos de torta. Parte a fatia pedacinho a pedacinho e alimenta-o na boca, qual mãe desvelada. Observo este exercício de ternura manual, todo entretecido de dedos cuidadores. E oiço-o dizer baixinho “saudade da nossa casinha”. Mas logo depois me olha e a voz se perde; é a tradutora que revela, “estamos mais velhos”. E estamos, padrinho, estamos os dois mais velhos. Que as nossas mães escolheram o mesmo dia e mês para nascermos.
No fim da visita, está de mão dada com a minha madrinha. Mudo e triste. Como se só a mão ali esteja ainda presa à terra, o resto do corpo ausente. Ao meu beijo, murmura sem tradução, “cumprimentos a teu pai”. Tenho vontade de o abraçar. Era sempre assim que nos despedíamos em vossa casa quando eu aparecia inesperada, um doce de braçado. Minha madrinha fervia um chá de ervas que aquecia e aromatizava a casa, punha a toalha na mesa e chamava-o para dar-lhe tempo a empurrar o andarilho e chegar no momento de servir.
Não sei pensar-nos agora. Portanto, é provável que opte pelo passado. A morte é sempre triste, padrinho. E muito solitária.


domingo, 8 de outubro de 2017

Rascunho de Viver

Em tempos, tive o privilégio e a oportunidade de ler uma conversa entre um caderno e o seu proprietário, cujo teria uns dez anos. Uma pérola de amor ingénuo. Haja Deus, que a memória é de venetas e bastas vezes lhe dá para guardar não-prestas, na minha terra ditos “torgia”, termo que não escutei noutros lugares e a que não conheço grafia (portanto, pode estar mal escrito). No meu sítio, assim por junto e em via oral, "torgia" designa uma miscelânia de coisas sem qualquer préstimo. Ontem, folheando os meus cadernos, lembrei a pequena composição escolar. Já lhe perdi frases concretas, mas sei que transpirava a fidelidade intrínseca entre garoto e caderno. Eram parceiros numa relação feliz. O meu amor aos cadernos comunga de idênticos princípios.
É verdade que as agendas me auxiliam na economia doméstica e são o meu diário de gastos. Mas é nos cadernos que pulsa a minha vida. Folheá-los é recuar sobre os passos, saber o que fiz e com quem. Desarrumada congénita, tudo por lá se encontra na sequência da sucessão temporal. Quase aposto que a miscelânea de assuntos que detêm é também uma “torgia”. De recados a apontamentos, pedaços de cartas difíceis por pragmáticas e dirigidas a instituições diversas, listas de pessoas, projectos em várias fases de desenvolvimento, frases que li e gostei, endereços e outras formas de contacto com dia, hora... rascunho de mails em colectivo, resenhas de conferência, pensamentos pessoais, reuniões e muito trabalho profissional. Quanta gente encontrei ontem sem que ao menos uma dessas pessoas soubesse do encontro! Algumas marcaram-me para a vida, não seria a mesma sem elas. Umas por bem. Outras por mal.
Agradeço à minha desarrumação o enredo vital e manuscrito dos meus cadernos, ao ritmo de um por ano de vida. Ainda hoje me invade o doce impulso de comprá-los e tenho-os em excesso. Faz-me bem mirá-los assim quedos e próximos, em virgindade intocada. E há quem mos ofereça na certeza de agradar. Ontem, desfolhei os pretéritos. E encontrei-os a escorrer a minha vida com os outros. Na abertura do primeiro, julgava-me em despedida final. Pretendia queimá-los um a um, elevar ao nada páginas e páginas de não importância. E soube de imediato que não conseguia. O acto de preservar foi involuntário, mais parecia acto reflexo.

Portanto, hei-de juntá-los. Primeiro dou-lhes colo, mimo-os (e me) e adormeço-os como a bebés. Depois, deito-os cuidadosa e materna em berço de caixa e embalo-os para não acordarem. Um dia não muito longe, vai sobrar nos filhos a memória da mãe que tiveram. Não serei na sua memória quem me desejo, mas a lembrança do que neles se formou com o que de mim e por mim sentiram e souberam. Então, sem consulta, vão atirar tudo fora. Mas serão eles a fazê-lo. Não é a mesma coisa.

sábado, 7 de outubro de 2017

Instantes

Observo-a à distância, a mão distraída no bolso do avental. Longe dela, mas tão próxima no bem querer. Por vezes, como hoje, pega no carro e sai sem rumo. Passa. Mas não vê. Adivinha-se no rosto fechado o choro ao volante, óculos a embaciar, um lenço de papel puxado às pressas. Qualquer coisa a partir-se dentro dela, a entornar a tristeza toda. Invento-lhe um mar roxo, sem salvação. E o carro a esmo. Preocupo-me. Queria sabê-la positiva, de alma iluminada. Mas é difícil fazer caminho pelo forro. Entretanto, o automóvel sumiu. Fecho a cancela, volto sobre os passos, dedos palpando um inconsciente fio solto na costura do bolso. Agarro um nódulo de cotão preso no canto e trago-o à luz, dedos em pinça. É um breve montinho cinzento. Penso nela e nas suas tristezas de tempestade. Deito o montículo no caixote e a hipótese avança por dentro de mim: esquecermo-nos nos outros é ainda uma forma egoísta de ser, um ponto de fuga no horizonte individual. Apenas  uma hipótese. Tudo que eu quero é que ela volte mais leve, rosto desanuviado. Não me conhece. Não lhe sei o o nome. É um mundo ao fundo da rua.