quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A Circulação do Ar


Nas férias, paulatinamente, vão chegando as visitas que me são caras. Regressam os que emigraram. E os outros. Estes, porque só o calor os retira do casulo; aqueles, porque são meus amigos mas  têm vida assoberbada; os outros, porque resolveram actualizar memórias. Todos vivem longe demais, queixa-se a minha saudade solitária.  já vai para três Verões que os distribuo pelas minhas semanas, no desejo de atender todos e cada um com vagar e certo conforto carinhoso. E se há quem agradeça mas não seja pobre de esmola e tenha o amor a rodeá-lo, outros existem para quem estes mimos e cuidados de férias são únicos. Não há quem providencie outros e ao longo do ano lhes seja oásis.
Agosto vê-os chegar. E partir. A amenizar o vácuo da partida, deixam promessa de voltar antes das próximas férias. Não os censuro. Mas quanta vez a vida se intromete e é impeditiva.  No mês de Agosto a casa descaracteriza de tão usada, enche-se dos cheiros e adereços de quem vem, passos estranhos sobre o chão, ritmos de acordar e adormecer que são novos, mãos a fechar portas de outra forma. Gente nova a imiscuir e misturar as rotinas,  desorientando-lhe os ritmos. Na cozinha anda solto certo ar de desbunda desarrumada, as refeições quase pegam umas com as outras, a chaminé vai aos arames com a nervoseira de exaustão, mas este movimento no fogão nunca mais pára?! Queixam-se as flores no quintal a apontar relógios biológicos, está na hora da rega. E nem uma gota lhes cai a refrescar o caule ou desliza pela sede da terra até à radícula. Por ali estão, orelha murcha, esqueceram-se de nós. Assim é o síndrome de privação de  coisas e plantas. Não há como elas para sofrerem a ausência do quotidiano. Se passo, lançam-me olhares tão desconjuntados e pretensamente indiferentes, tão cheios de orgulho ferido e ciumeira que me sobe um borbotão de ternura  e apetece ir por cada caule, festejar corola a corola, desculpar-me a cada botão.
E agora que todos partiram e o mundo da casa retoma lugar, cada coisa a voltar a si, vens tu. Tu, que há séculos não me visitas e a quem custei a convencer a voltar. Assegurando e assegurando. Tu, cujo regresso sempre esperei. Porque a amizade tem lugares certos e rituais necessários. E vou ali pedir às flores que não emburrem, amanhã segue o programa quotidiano. Mas hoje, é favor que me fazem: abram uma excepção, não abominem a minha falta de zelo. Bem sabem que não se podem servir dois senhores em simultâneo. E hoje o dia enche-se de Ti:).


terça-feira, 27 de agosto de 2019

Carrossel


Ao invés das velhas da sua idade, Tia Emília lia e escrevia e havia até alguns livros em nossa casa. Mas, a par da literatice ímpar, havia outro dom que a meus olhos a fazia crescer: o sentido de justiça com que afrontava qualquer, até os homens. Ouvindo gritos a desmedir a velhota punha pés ao caminho e ia segurar a mão que batia, pará-la. Parava a fúria cega da pobreza, a mágoa que não se cansa de magoar e desafoga nos outros as arrelias da vida. Tolhia a mão das mães, dos irmãos, dos pais, dos maridos. E certa vez chegou a casa de nariz em sangue por levar um murro a apartar   dois homens. Querendo, tia Emília era força desabrida.
         Um dia, olhando fotos antigas, reparei com espanto que tinha sido jovem e bonita. À minha exclamação ela riu, pensavas que já tinha nascido velha, filho?  Quase a não ouvia. Embezerrado da novidade, ocupava-me a absorver os pormenores da foto: o cabelo, na frente sujeito a travessas, descia-lhe em ondas e caracóis até aos ombros e tinha um meio sorriso de dentes iguais e brancos, o pescoço a sumir num folhinho curto do vestido ou blusa. Era tão jovem que me custava acreditar ser a mesma pessoa. Então, eu associava beleza a casamento e julgava que só as feias não casavam. Mas Tia Emília não tinha marido e não havia em casa sinais de homem, morto ou vivo. Nada que lembrasse uma existência masculina. Habituado a um mundo de mulheres onde os homens eram esporádicos - quase sempre de bigode - surgindo por umas quotas a pagar ou entupimento do fogão a lenha,  esperei um dia de boa disposição e ataquei de frente,  a tia Emília nunca casou?, e ela que não. Então é solteira como a Maria do Víctor?, e ela paciente, era solteirona, tinha deixado passar a idade do casamento. E ficou a olhar-me com olhos de diferença, qualquer coisa a adoçar-lhe a expressão. Saí do meu lugar e fui buscar o álbum que abri na foto de ela jovem e apontei exigente, era bonita, por que é que não casou. E ela já sem paciência, a fechar-me o álbum de rompante, vai lá pôr isso no lugar que ninguém  te encomendou o sermão. Já o carapau tem tosse. Tem tento menino que ainda és criança e não percebes da vida dos adultos. Um dia que cresças conto-te a minha história. E à minha súplica, ó tia conte já, ó tia conte que eu percebo, conte, conte, conte, fez orelhas moucas e saiu para o alpendre. Quando passei por ela, cosia virada à máquina da costura, o contentamento do canário pipilando na tarde.   

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Carrossel

Tia Emília vivia do seu trabalho. Jeitosa de mãos e com sorte para bolos e doces, lançava-se a qualquer empreitada: costura, arranjos de flores - secas ou viçosas -, encomendas de bolos de aniversário, doces para festas e baptizados e, em casos especiais, atirava para o saco dois aventais compridos - um branco e folhoso, enfeitado de rendas e bordados e que nunca lhe vi vestido; e outro que trazia a uso -, entregava-me à vizinha da frente e partia para uma ausência de três dias. Durante esse tempo,  preparava e servia o copo-de-água de um casamento caseiro.
A novidade criava em mim o desânimo de outra casa, outros cheiros e vozes, diferente maneira de estar. Viver em meio estranho só me entristecia e acicatava a saudade da vida quotidiana. A parte boa acontecia quando a minha dama regressava e servia aos dois um chá acompanhado de bolos que me sorriam por recheio e cobertura, e perninhas de frango assado, sobras do malfadado casamento. Sentada na minha frente, a velhota cabeceava sobre a chávena e quase adormecia a meio do lanche. Entretanto, eu comia em silêncio satisfeito, metido em respeitos de não bulir com o seu cansaço e também porque a novidade e o sabor dos manjares mereciam a cerimónia. Os meus dedos abelhudos somavam bolos que ofereciam sem delicadeza ao pálato desacostumado. Tia Emília num esforço de olhos abertos, não enchas tanto a boca que os bolos não fogem; anda, bebe uma pinga de chá para isso ir para baixo.
 Com a idade, estes banquetes de saudade e boas vindas foram rareando. Eu crescia e ela envelhecia. Foi-se despedindo da azáfama dos casamentos. A quem a atentava para uma boda, retorquia, não posso, já não vou para nova e o gaiato precisa de mim. Contudo, se depois das despedidas às senhoras de lábios carmim calhava de passar por mim, nem de soslaio me olhava. Mas as palavras ditas aqueciam a solidão do meu inverno. Tia Emília, como a gente que sempre bole e pouco descansa, parecia-me alta e enxuta de carnes. Tinha uma prima afastada a visitá-la de longe em longe. Adiposa e enlutada, custava-lhe a desarredar gorduras quando viajava na carreira. Dava-me beijos picantes por mor de um pé de barba rija plantado na verruga do queixo, eu a apontar a cara ao outro lado do rosto para não embicar na verruga agulhenta.

sábado, 24 de agosto de 2019

Anos Dourados


Oh, os dezoito anos, diz toda a gente a revirar os olhos de nostalgia. Dezoito anos, idade de fulgor desusado, brilho de estrela em meio planetário. E eu, dezoito anos. Eu em tempo de guerras e farpas, ouvindo o que não queria de ninguém e menos dos que mais amo. Mas a vida também é isto de rir para fora e chorar para dentro. Aos dezoito.  De não apetecer ir para casa se é que ainda  chamamos casa às paredes que observaram amores e agora se arrepelam de contendas e ódios. Dezoito anos feitos. E já houve sorrisos cúmplices, ternuras tremeluzindo na voz, a trempe a passeio mão na mão, três pares de olhos contentes da vida. Há quanto tempo. Está plasmado nas fotos, não há pó de imaginação minha. E portanto. Aos dezoito, a etiqueta de passado no que julgara presente eterno. A separação.
Escolhi viver contigo. As raparigas têm pendência especial para os pais. E somos tão próximos que a mãe exibia uns ciúmes engraçados e parolos que nos desmanchavam de riso. Mas isto era antes, bem antes dos dezoito. É verdade, escolhi-te. Tu, não. Tu não me escolheste. Tu, escolheste morrer. Ao menos por acaso, pensaste nos meus dezoito anos, no brilho da idade de ouro, ou nem sequer afloraste esse hediondo crime de nos separares para sempre. Não. Em que pensavas, se não te apegaste a mim para resistir ao apelo da morte. Fica sabendo que os pais que falham aos filhos são menos pais. Não és nada um pai de primeira categoria; és de décima, de quinquagésima. Um mentiroso, é o que tu és. Mas doi na mesma a tua ausência.
Ora, pai, bem sabemos nós dois que, mesmo falhando tudo o resto,  não falhavas comigo. Agora, falhaste. E enraiveço de tudo e mais de ti que resolveste partir sem aviso. Como se fosses sozinho. Palerma. Tens ideia da falta que me fazes e das coisas que tenho de mudar na vida?! Eu contava contigo, seu traiçoeiro.
Tinha eu dezoito anos. Tinha eu duzentos anos.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Sexta-feira Lúgubre


A Amazónia, o maior pulmão da Terra, está a arder. Não sabemos ainda fazer o cálculo de danos. Sabemos que não é o fogo mas a ganância a engolir árvores e oxigénio, devorando fauna e flora. Sabemos que retira os indígenas da terra que é sua.  Talvez os mate de vez. Pessoas como nós, mas sem guerras. Seres pacíficos. Melhores que nós, portanto. Envergonha-me viver neste século de apregoado progresso e que não sabe ou não quer evitar estes excessos criminosos de grau dez. O mundo inteiro se revolta e escreve coisas, mostra fotos. Até eu escrevo contra tamanha barbárie. Mas de que vale escrever, de que vale, é mero desabafo. Não altera as chamas, nem sequer lhes muda um átomo de sentido. É nada. Cambada de incompetentes criminosos que temos a mandar no mundo - com as devidas desculpas a quem não pertence.
As sextas são às vezes aziagas. Mesmo com um café duplo. É o trabalho que cresce e eu diminuo de eficácia. São estas notícias que estropiam toda a humanidade e acabrunham qb. É o tempo que não sobra para descansar. É a culpa que sinto. Isso. Culpa. Remorso. Porque te vi no super e não te reconheci. Acenaste e fiz-me próxima. Era-te difícil andar, arrastavas os pés e eu a pensar em males do esqueleto. Afinal, uma depressão. Todo tu diferente. E eu tão impressionada que nem consegui disfarçar. Ainda tentei conversa de circunstância. Mas tu falando da nova separação, acaba-se o dinheiro acaba-se o amor. E lembro-te no primeiro casamento, jovem, jovem. Tão bonito, o menino de sua mãe casando por amor a uma pobretana, a contrariar o gosto dos papás. Os teus extraordinários vinte anos que levavam tudo à frente. Eu que adolescia sem jeito a invejar a sorte da pobretana que era mesmo linda e ciente de que jamais conseguiria encontrar assim um rapaz tão inteiramente bonito (não fui capaz). E hoje mesmo, dia do teu aniversário, o suicídio. E eu soube. Porque te encontrei de novo no super. Outro super. E falámos brevemente, até sobre as visitas que me tinham chegado. Os teus olhos de desespero sem fundo e que pareciam querer dizer mais, as pernas acompanhando a hesitação do olhar. E tudo tão breve, como que num receio de incomodar. Seguiste. Admirada, pensei que quando as visitas saíssem te convidava para almoçar, talvez te animasse saber que podias contar com alguém, quem sabe te abrias um pouco mais. Há anos tinha-te convidado - aquando da primeira separação - e foste loquaz, gostaste do meu almoço simples e do convívio com os garotos.
Saindo do super, foste a primeira pessoa que me entrou no campo visual. Estavas ainda no recinto, ao fundo do parque automóvel, de costas para o bulício. Parei a olhar-te a silhueta. E pensei que devia ir ter contigo, tocar-te no ombro a chamar-te à vida e convidar-te nessa hora, para esse mesmo dia. A tua figura dizia-me: solidão. Mas não fui. Porque tinha visitas. Porque queria fazer um almoço especial. Porque havia uma tarte a experimentar. Nada. Foi só porque sou estúpida. Mesmo só por isso. E agora já não almoças. Nem te convido.  Ignoras para sempre que me importo contigo.
Quem sabe, recuperaste os teus extraordinários vinte anos, vives tudo a partir daí e esta vida errada foi só uma interrupção. Quem sabe...
Um beijinho doce

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Carrossel


A vida é pródiga a moldar o carácter  dos homens. Em ondas sucessivas, uma e outra vez, adelgaça, encurva ou encomprida, cinzela e parte a martelo e escopo, destrói e volta a construir. Mas também desconfigura e cria monstros, líquidos adamastores que rugem encanados por dentro da normalidade, corrente furiosa que desvirtua e submerge os mais aprazíveis lugares de cada um. Contudo, não poderíamos classificar os homens apenas  pela ondulante e aleatória sucessão de fenómenos que a vida oferece. São homens. Fazem coisas. Têm vontade e domínio sobre si e os outros. Podem. Devem. Querem. O poder e o querer, afirmam alguns e sente a maioria, encadeiam na liberdade. Que o dever é termo malquisto nos nossos dias,  lembra a todos certo mofo religioso, coarta a liberdade que se deseja e tem o vício quase sistémico de contrariar o princípio do prazer.  Fiz-me com um rudimento dos três. Como todos os garotos do bairro da Venezuela, cresci a eito e sozinho com os dias, despido do conforto que aperreia, não vás, não faças, não comas. Libertários andrajosos e descalços, sujos e sem pente. Inconscientes órfãos da vida. Sabíamos apenas que éramos nós. Tia Emília criou-me de berço, pai e mãe não conheci. Mas, no bairro da Venezuela, parecia-me, os pais faziam pouca falta, os dias correndo sem eles. Começavam a mourejar no alvor das manhãs e as crianças desenvencilhavam-se a sós e umas com as outras. Nos dias redondos do estio, vislumbrava-os à noitinha, descalços, canseira a desbundar no poial da porta, as canelas muito brancas emergindo do cotim coçado das calças, pés de grandeza chamativa.  As mães, mal as conhecia. Resumia-as quase todas aos gritos de sirene vespertina, ó Arrenaaaatoooooo, ó Raúúúúliiiiii, ó Zéééiiiiii, que arrancavam de si numa estridência de pólvora avinagrada, anúncio de porradas a esmo se não relampagueassem à porta de casa. Mas os filhos obedeciam à chamada com a prontidão de bombeiros a toque de fogo. Por via disto, que bem me sabia a tia Emília já velha e pouco propensa a gritos. Não que a velha fosse meiga. No entanto, algumas vezes, usava comigo de ternura sacudida, como que arrependida de existir.  Mas não batia com cinto ou pau. As diabruras mais pulguentas castigava-as com  enxota moscas de mão áspera e, tristeza das tristezas,  retirava-me a brincadeira de rua. Compensação de sermos os dois, não precisava cuidar irmãos mais novos, contrapeso dos meus colegas de folia. Brincando, eu era livre por inteiro e, à vista dos garotos que tinham pai e mãe, considerava-me afortunado.

domingo, 18 de agosto de 2019

Depois de Passar a Moda


A blogosfera resplende de gente que escreve. Desde grandes discursos a poemas mínimos, haikus com voz própria. E, por certo, existem posts que não valem o tempo de lê-los e têm afluência renhida; textos que esgrimem bons argumentos e poucos ou mesmo ninguém a lê-los; poesia e prosa que não valem pelo número de leitores, que a relação entre os factores não é necessária. Assim são os tempos e as vontades.  
Leio que o bom tempo dos blogues já passou. Acredito. Não me foi dado o benefício de viver a época áurea no frenesim da postagem. Hoje, quem está, está de gosto. Não quer outra coisa, não está para empatar tempo e a sua presença não é casual. Da minha parte, nada descobri e nem tenho qualquer receita excepto escrever o que me apetece quando a vida me deixa fazê-lo. Sou nula em títulos e etiquetas, facto que não me aflige. Mas, seja qual for a linguagem e o estilo utilizado na blogosfera, ideias bem alinhavadas, uma costura de palavras digna do olhar e do entendimento, são a melhor apresentação.  O resto é com o gosto e apetite do escriba e  do leitor.
Todos sabemos que não é para nós que os bloguers escrevem. Mas os poetas também não o fazem, nem os prosadores da nossa praça. E gostamos de lê-los. E parece-nos que nos assentam certos pensamentos, comovemo-nos com versos que jamais nos sonharam, entrosamos em histórias que parecem as nossas ou estão escritas a nosso modo.
A meio da insónia, puxo do portátil e percorro caminhos e lugares  de gente adormecida, a casa quieta, umas palavras ou figuras sobre a mesa, um disco pronto a tocar. E saio pé ante pé, clic que mal se sente, a fim de lhes não perturbar o sono.  E o inverso também acontece. Mesmo.

sábado, 17 de agosto de 2019

Incompreensão


Admito, tenho certo apreço pelas Correntes de Escrita. Não que me desloque a ouvir os escritores, atenta a mesas redondas. Tempos houve em que desejei assistir e correr salas a ver e ouvir pessoas que admiro. Entretanto, morreu-me o desejo de ir à Póvoa do Varzim e no lugar instalou-se mesmo certa incompreensão. Que raio ia eu fazer tão longe?! A conversa com escritores não é hipótese. Ouvi-los, faço-o através da rádio que,  em boa hora, alguém me aconselhou o programa A Força das Coisas, cujo se dá ao prazer de entrevistar os autores mais notórios. É certo que os não vejo, mas, nestes casos, a visão pode até ser prejudicial. Os sujeitos interessam-me pelo dito, que o resto é amálgama de aparências e pormenores. E alguma perda de tempo.
Portanto, anualmente, passo a pente fino As Correntes. Ou o que, delas,  Luís Caetano traz ao mundo. Num dos últimos anos, calhou-me ouvir ler uma passagem de livro. Que não me abandonou. Não sei por que razão tanto penso nela, mas é que penso. Do que me lembro, versava sobre uma violação concreta e o texto lido dava-nos  a voz da mulher violada nesse momento crítico e traumático. Posso ter-me fixado na passagem por desânimo. Pois aquela mulher, talvez uma erudita, já não me sobra memória para tanto, aquela mulher, dizia eu, estava a ser violada e a recordar um trecho musical, qualquer peça de música clássica que não retive. Não li o livro e nem lembro o título. E assumo, a memória prega-nos partidas estranhas. Estar a ser violada e ocorrer-lhe uma peça de música clássica. Bem sei que não vivi tal experiência e se a vivera teria sido a minha experiência e não a da personagem. Também sei que desconhecia a personagem e quem sou eu para me comparar com ela. Os meus traumas surgem ligados à pituitária e, se fora eu, quem sabe me ficava um cheiro ao rosmaninho do chão mudado em execrável, um típico de suor que me daria vómitos desde o início do cheiro. Na duração, era bem capaz de notar – as coisas que notamos quando estamos aflitos - a formiga que subia descansada pelo braço do violador ou uma tatuagem que se me fixava para a vida enquanto a impotência me toldava a vista frente à força da besta e um ódio bruto   vingava na sujeição  e crescia até à apoplexia do sexo.  
É fora de dúvida, podia acontecer-me. A mim. Não à personagem do livro. Que continuo sem entender. Mas talvez a solução seja simples,  habitamos planetas diferentes. Quem sabe coexistimos em paralelo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Eu, Melga


Podia passar-me com a idade, ser sintoma de juventude ou adolescência. Mas não. Continuo inconveniente. Na verdade, e embora não tenha disso memória, sou inconveniente desde que nasci. Fui inconveniente logo na gestação, obrigando meus pais ao casamento. Depois, tomei embalagem e segui vida fora com as inconveniências. Dos três aos sete primava por enrubescer minha púdica mãe, assestando-lhe perguntas indiscretas e de claríssima voz, em cafés e transportes públicos. E, é claro, pespegava-me qual carraça em todas as sessões de namoro da vizinhança até ela me ir buscar por uma orelha, facto que não entendia, julgava eu que me portava bem e os namorados – de janela ou cadeiras gémeas na sala – amavam a minha presença. Verdadinha que nunca entendi que razão assistia minha mãe para assim contrariar a trina harmonia.
A adolescência trouxe-me muito assunto extra e fiz uma ponte directa para a juventude. Na fase juvenil mantive o hábito antigo de me fazer notada a namorados, mas com ligeira variante. Julgando-os amigos, incluía-me no grupo de dois que passava a ser de três. Imagino o melão com que ficavam quando eu me convidava para os acompanhar a cinema, praia, passeio. E era necessário que as garotas mo dissessem na cara, tintim por tintim, para entender que três era excesso.
 Já adulta e mãe, perseverei na táctica palerma que me caracteriza. Havia no trabalho dois colegas que namoriscavam por fora do casamento de cada um; pois eu, que conhecia e simpatizava com os dois e, é claro, os julgava também grandes amigos, ia sentar-me com eles onde quer que os encontrasse. Passados mais de dez anos soube destas inauditas inconveniências. Pelos vistos era conhecida pela falta de tacto (e de visão).  A meu favor, o facto de não ser intencional. Portanto.
O mal é tão fundo que até casualmente acerto na inconveniência. Certa vez atrasei-me para uma formação profissional que ia decorrer ao longo de três meses e exigia constituição de pares. Já estavam todos com parceiro e o formador mandou-me sentar onde quisesse. Onde é que me sentei, junto de dois amantes que toda a gente deixara sozinhos porque parece que era caso de paixão acesa e virulenta com efeitos retroactivos na conjugalidade de cada um. Pois não dei por nada e antes, tal como com os namorados que estorvava na infância, me senti lindamente com eles e passei mesmo a tê-los em alta conta. Para quem não me conhecia, foram simpaticíssimos. Está visto que só soube da inconveniência passados uns dez ou quinze anos, já amores e ilicitude tinham congelado de vez.
A velhice talvez transforme a minha inconveniência em burrice simples. Afinal, já não há assim tantos casos amorosos em que acertar. Que, havendo, caio lá que nem melga.


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ao Fim do Dia


D. Carolina olhou-me directa, sabe, ouvi aquele diálogo de mãe a mãe e não entendi o tamanho da desgraça, era uma linguagem estranha, elementos desconhecidos misturando-se pelo meio a baralhar-me o raciocínio.  Apalermada, desandei a procurar Maria Helena que encontrei sentada na cama. Ergueu os olhos e nada havia da garota buliçosa companheira de jogos e brincadeira. Era outra garota. Segredos e mistérios adultos tinham sugado a minha amiga de infância. Minha mãe abraçara Aparecida e consolava-a, mas eu estava de mãos vazias, aquela garota  media-se com dimensões ignoradas e as minhas palavras não lhe serviam. Não nos pertencíamos como antes, tínhamos desajustado.
 Calou-se e a surdina da loja invadiu-nos em fundo. A cortar o silêncio, na tentativa de compor a vida de Maria Helena, dar-lhe um traço de cor, acrescentei, mas refez-se do golpe, casou , hoje tem dois filhos...E ela passeando a mão sobre a toalha da mesa, não casou, os filhos são os dois sem juízo. 


terça-feira, 13 de agosto de 2019

Ao Fim do Dia


Aparecida e o marido encaneciam e mirravam a olhos vistos e Maria Helena perdera vivacidade. A desconfiança do povo não tardou. As comadres faladeiras interrogavam quem morava perto, porta com porta, e o mais que se ouvia era silêncio. Nada. E mais desconfiavam, antenas assestadas no número dezoito da Rua Direita.  Foi quando Maria Helena começou a passar mal, ânsias e vómitos que se ouviam ao fim da rua, pálida e olheirenta que nem parecia ela, os pais num fincapé, isto passa, ir ao médico para quê. E bastou para acender uma segurança de rastilho no mulherio, que a cor da garota dizia tudo. Qual pólvora indubitável, a novidade disparou, está grávida.  E depois a ponderação, mas de quem, quem é que a enganou. Sim, que é uma miúda, tem treze anos. Tem aquele corpo tamanho, mas é quase uma criança, quem terá sido o malvado que nem se quer assinar por pai, o anjinho que aí vem não tem culpa. Mas o irmão sabe de certeza, apertem com ele, levem-no ao posto que a guarda há-de fazê-lo falar. A rua inteira a solidarizar-se com a garota, mas a exigir um nome, uma figura para escarnecer, um rosto onde cuspir. Da família, não saía palavra.
Certa manhã, ainda os galos cantavam e o sol não era nascido, o jipe da guarda republicana a parar na porta e levar o irmão. Na casa de Maria Helena os vómitos alargavam no silêncio e Maria Aparecida era defunto sem caixão; quase transparente,  sumia-se-lhe a figura na cal das paredes enquanto o homem se eternizava a cavar o quintal. Perante estado tão lastimoso a vizinhança desencorajava de apedrejar, baixava a voz num sussurro e saía murmurando, coitadinha, está pior que a filha que os trabalhos são para ela, ela é que vai criar a criança e nem pode ser de outra maneira. A rua encheu-se de falatório, de culpas de mãe, pai, irmão, cabeça avoada da garota, liberdades de mais e liberdades de menos. E da paternidade indefinida, de quem é, e de quem não é, que agora é que se vai saber, a guarda não deixa o trabalho em meio, o irmão  tem de falar.
Passaram as horas da manhã, veio o almoço, a largura da tarde, caiu a noitinha e o rodado do jipe que não se ouvia. As vizinhas já duvidando da autoridade, em conciliábulos de umas a outras, e se lhe bateram em demasia e agora está no hospital, e se o atiraram para uma cela e nunca mais se lembraram, pobre de quem lá cai. E já o rapaz era joguete nas mãos dos agentes.
 Entretanto, minha mãe fechou a loja, despiu e dobrou a bata da função e, vamos ver a Maria Aparecida. Minha mãe que não era de andar cheriscando a casa dos outros. Quando se abraçaram, falou-lhe como a uma criança, com ternura, a descansá-la, fizeste bem, Aparecida; mais cedo ou mais tarde tinhas de fazê-lo. Isto não é só um segredo, é um crime. E a mulher numa queixa, rouca de dor,  são os dois meus filhos, são meus filhos Dina, entreguei o meu filho à cadeia.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Ao Fim do Dia


E, veja a senhora, certo dia cheguei da escola e esta porta de comunicação com a loja estava fechada por dentro.  Pelo vidro fosco que é ainda o mesmo, divisava duas figuras sentadas à mesa, a de minha mãe e outra que não reconheci. E meu pai de sentinela, não podes entrar, a tua mãe está a falar com a Maria Aparecida. Mas quando saíram, por mais disfarce de ambas, bem se notavam os olhos vermelhos e inchados de choro. Aparecida não parecia a mesma.  Ou entrara mais velha, ou foi assim que saiu. Ela que sempre se metia comigo e dizia uma graça, estava muda e dolorosa. Parecia que os sentidos não lhe faziam préstimo, não dava conta de nada e uma expressão de desgosto descia-lhe do rosto e arruinava o corpo deslembrado. Perdido o andar de mulher foita, que quem não deve não teme, caminhava trôpega e  às cegas, como quem carrega nas costas o madeiro de Cristo. Um dó. Mas quando a mulher se afastou sob a preocupação e cuidado de meus pais, a ver se não embica no passeio e dá conta do trânsito, os meus olhos encontraram os de minha mãe.  Que virou costas. Nada me diria. Temi por Maria Helena, mas meu pai leu-me o pensamento e sentenciou peremptório, não sais daqui. O que aquela gente menos precisa é da tua visita. Que eu saiba, não morreu ninguém. Mas ali houve coisa, a Maria Aparecida nem parece ela.
Nessa noite, minha mãe não jantou. Que lhe doía a cabeça. Minha mãe respeitava, mas não era de missas nem de igreja. Porém, na manhã seguinte, arrumada e pronta sentenciou, vou ali à igreja e já volto. Meu pai e eu ainda à mesa do pequeno almoço, arregalados do nunca visto ataque de fé.  

domingo, 11 de agosto de 2019

Ao Fim do Dia

Os pais tinham três filhos maiores, todos homens. O mais velho fez a tropa e seguiu para o ultramar, pouco me lembro dele nesse tempo, era rapaz e nós catraias e cedo esvaneceu. O do meio juntara-se com uma rapariga dos foros e viviam por lá. E o mais novo tinha casa por conta do emprego, era guarda florestal, profissão que agora já nem deve haver, apesar da falta que faz neste tempo de tantos fogos. Maria Helena era a filha retardatária, os pais beirando os quarenta quando nasceu. Com os irmãos fora, crescia no mimo dos pais e aprimorava a genica toda que a senhora bem conhece, o corpo a enraparigar, benza-a Deus. Nenhum dos irmãos estudara e foi em vão que a professora primária falou em pedir uma bolsa de estudo porque a rapariga tinha boa cabeça para os livros e era muito mais inteligente que eles. Os pais negaram, que nada tinham de seu e não podiam sustentar-lhe os estudos. Para eles era também uma questão de justiça familiar, os irmãos tinham ficado pela quarta classe; portanto, ela não podia ir mais à frente. E olhe que a vi chorar quando fui para o ciclo e ela se quedou por casa. 
Depois, sabe como é, criei amigas nos estudos e apeguei-me àquela vida. Entretanto, ela começou a ganhar para os alfinetes, trabalhava a dias, coisa ainda de umas horas aqui e umas horas ali, para não massacrar o corpo nem dar nas vistas, teria uns doze, treze anos. E comprava roupas novas que mostrava trocando invejas com as ex colegas.
Entretanto, os pais vigiavam pretendentes e punham o irmão  regressado da guerra do ultramar, solteiro e sem defeito, a acompanhá-la a bailes e incumbido de espreitar-lhe os passeios. E isto sabia eu por comentários de minha mãe que mantinha com a dela uma amizade de anos. Também elas se conheciam de solteiras, está a senhora a ver. Vendo-a por vezes passar na rua, minha mãe pasmava num ímpeto todo hortícola, uma rapariga tão adubada e  viçosa, a Maria Aparecida tinha de ir com ela aos bailes; mandar o irmão...ele também é novo, quer lá saber da pequena. Mas, dizia quem via, que saíam e entravam juntos e que o irmão era cioso e não lhe permitia mais que uma série com o mesmo par.

sábado, 10 de agosto de 2019

Ao Fim do Dia


Quando perguntei, dona Carolina acertava o peso de meia dúzia de maçãs e encolheu os ombros, um esgar desiludido a erguer-se em parêntesis curvos nos cantos da boca, só se o Baltazar  piorou, que ela não é de faltar ao trabalho. E continuou a pesar os géneros da cliente em espera. Ainda tentei, mas o garoto é doente, é que Maria Helena pouco conta...E a senhora num soslaio, olhos de quem sabe mais do que diz, dão-lhe ataques. E voltou-se definitiva para a fila na registadora, uma mão pianando números e a outra passando a mercadoria. Saí com a impressão de alguma coisa a escapar-me, certo zunzum no ar. Já em casa, revia o esclarecimento de fim de linha, dão-lhe ataques. Que ataques, tinha de saber. Além disso, a sobrevinda atarantação apagara o pedido de endereço. Portanto, em hora de pouco movimento, voltei à loja. Sozinha frente à registadora, D. Carolina folheava uma das revistas para venda. Na sua vida de casa-loja, loja-casa, passeava com a revista Evasões e, por vezes, páginas abertas em lugares de sonho, apontava-me preferências. Entre elas, as águas azuis da Grécia, quem me dera nadar aqui, dizem que as praias são ainda mais bonitas que na revista.  Porém, ao ver-me pôs de lado a revista e justificou, a senhora desculpe aquilo de à bocado, mas é assunto que não me serve de conversa. A senhora veio de fora e não conhece as famílias, mas eu nasci aqui, paredes meias com a Maria Helena, andámos juntas na escola. E sem que eu pedisse, olhe, vive onde sempre viveu, mora ali na rua de trás, número dezoito, mesmo antes da rua começar a subir. Pus o meu sorriso grato e dispus-me a sair. Mas atalhou,  é melhor eu contar-lhe e depois a senhora faz como quiser. Deixe-me só chamar o meu Raul para ficar aqui um bocadinho e vamos ali para dentro. Anexa à mercearia e com porta de ligação, havia ainda a antiga casa de Dona Carolina que agora servia de apoio ao casal. Posto o vigia no estabelecimento, segui-a até à saleta de entrada no anexo. Fechou a porta de comunicação e sentámo-nos à mesa.
Já deve ter reparado que a Maria Helena é uma mulher vistosa, alta e enxuta mas nada magricela. Pois, para mal dela deitou aquele corpo que ali vê, bem cedo. A mãe, que se aviou sempre aqui na casa de meus pais, dizia com  enlevo e receio, a minha Lena cresceu depressa demais, as outras andam de soquetes e ela é já mulher e tudo, Deus queira que  não me dê um desgosto.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Ao fim do Dia


Nos dias em que o trabalho exigia,  querendo despacho e brio, Maria Helena bebia um avantajado café. Chegava-me à porta cantando os bons dias e já agarrada a balde e esfregona. E não era apenas questão de ritmo. Toda ela se dispunha. Dizia-me que nesses dias a vida lhe parecia mais arável, os obstáculos a encolher.  E até aventava futuro na sua vida tão mesma. Na força da genica, virava-me a casa do avesso. De temer, só os desmedidos de deixar tudo que nem brinco, como daquela vez em que assassinou a planta da entrada  por lhe passar uma abundância de óleo de cedro na largura das folhas. E ainda hoje se a encontro, dona, as folhas ficaram tão bonitas assim brilhosas, dava gosto vê-las, era uma verdura que só visto. E quando lhe explico que lhes vedou o respirar logo me salta, credo, matei sem saber que matava e já não se pode fazer nada.
Anos e anos de trabalho juntas e pouco me falava da família. O que sabia era tirado a ferros e monossílabos. Casada, dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Por vezes, oferecia pequenas lembranças às crianças e ela emudecia a  olhar os livros de gravuras ou os doces, parecia que a boca encetava uso, mas logo agradecia, enfiava tudo no saco de sempre e retomava as andanças pela casa. Quando lhe sugeri trazê-los para travarmos conhecimento, olhou-me como se ideia descabida e, era o que mais faltava; é que nem pensar, estão muito bem em casa. Era ponto de honra, queria trabalhar à vontade e sem empecilhos. Mas quis a sorte ou o azar que me falhasse o serviço dois dias seguidos. Fenómeno estranho a alertar-me para a falta de um contacto. Talvez na mercearia da esquina, dona Carolina conhecia toda a gente. A doçura gentil de dona Carolina incentivava, e ainda hoje me refresca a memória. Loura, olhos de clara compreensão, gastava as horas desertas da loja com uma garota, carraça de curto juízo, que inquiria contínua e incisiva, dedo esticado apontando a sequência das prateleiras, Lina, isto chama-se?. E ela paciente, respondendo uma e outra vez, as mesmas respostas para as mesmas perguntas, que a miúda era interminável.   

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Retoma


As festas de verão cansam. Antes, culpava o abrasivo calor que  tudo empapa,  animais e plantas semi mortos no ar parado e sudoríparo. Acusava-o  da modorra do corpo, da lentidão do pensamento, da pressa com que se instala no dia. Mas este ano o verão veio fresco, o calor não rebenta com as manhãs, chega calmo e pé ante pé. Depois, instala-se no seu conforto de sol, adormece uns pares de horas e, qual nubente escrupulosa, começa a arrumar-se para sair. Vai saindo de manso e deixa no ar um fresco assobio ventilado, coisa que, nocturnamente, apela ao agasalho. Enquanto a Europa do norte sua as estopinhas e as notícias dão este verão por um caso sério de calor, em Portugal, estamos livres de noites de sufoco e sem aragem. A terra nocturna suspira e descansa.
Imersa neste verão fresco,  tenho de reconhecer, as festas cansam-me em qualquer estação, e até mesmo se não exigem labuta pessoal. Festejos não são o que quero da vida, mas há uma roda dentada em que engreno e depois come o meu tempo livre, exaure-me de ser eu, as horas numa baralhação. Dou por mim a antever o regresso ao quotidiano, desejando o bocadinho de tempo livre que gasto a ler, escrever e pensar. Sinto mesmo certo remorso destes desejos poucochinhos enquanto a nível mundial  nos empenhamos a afundar  o planeta e  destroçar-nos a nós mesmos. Afincadamente. Parece estúpido. E é. Desconheço animal que mais maltrate o lugar onde vive, o alimento que come, o ar que respira. Começo a crer que sejamos uma espécie suicida, caso psiquiátrico insolúvel.
Eu que queria duvidar da profecia “a dois mil chegarás; de dois mil não passarás”.