quinta-feira, 21 de junho de 2018

À Beira de Haver Verão


Vejo-a azular ao longe, por entre arbustos ramudos. Uma extensão de água. Podia ser lago. Mas é ela. Distingo-a pelos matizes de azul. A nada me cheira excepto ao ar condicionado sobre um quê de novo que ainda paira no interior do automóvel ajudado por ambientador que me destoa. E o rádio. Que saudade das  viagens de mim comigo mergulhada em silêncio que apazigua. Um silêncio falso, cortado pelo motor, bom lugar para chamar gente que acode e fica por ali a acompanhar. Entretanto, vou guiando a olhar a paisagem, contente de mim e do que me parece a liberdade dos pinheiros sob o riso ainda suave do sol. O caminho que leva à praia espreguiça-se na claridade que galga e o mundo oferece-se morno e sem mistérios.
Atento na realidade com olhos que não são os do volante. Reparo nos pinheiros, um tudo nada empertigados, estar de árvore que o verão ainda não descontraiu. E o sol armado em cusco, a enfiar-se pelos interstícios da terra. O sol apenas claro e em brasa, nada de sorrisos cordiais.
Enfim, a praia. Não me pertence, mas, qual canto de sereia, ali se agita a mesma força viva: marulhar é o impulso ritmado e originário das ondas que vira feitiço e não se cansa de chamar.

domingo, 10 de junho de 2018

Frantz


O último filme que vi reconciliou-me com o cinema. Mais que os ganhadores de óscares. Dá pelo nome de Frantz, apresenta-se a preto e branco (gosto) e decorre no pós da primeira guerra mundial. Gostei tanto que, nessa noite, o sono evaporou e o fiquei a rememorar como se personagens e história fossem verídicos. O ser humano é assim, altera-o o mal e também o  bem. Somos profundamente vulneráveis, tudo ou quase tudo nos afecta.
“Frantz” é um filme recente, seleccionado para o festival de Veneza e realizado por François Ozon. Tem os ingredientes certos: o classicismo que amo, a densidade construída com fotografia exímia e ideais subjacentes, uma história aparente e vulgar que se vai fazendo inédita.  Não beneficia de gags, pancadaria e sangue a escorrer, lacerações expostas, do turbilhão do sexo. Os sentimentos e emoções surgem quase todos com subtileza e elegância e a vivência de alguns aparece a cores. É apreciável a arte do realizador ao tratar a mudança de cambiantes sentimentais ao longo do filme. Apresenta uma visão muito próxima do que a vida faz das pessoas e do que elas fazem com o que a vida lhes dá. Será um filme poético. Mas pareceu-me antes uma homenagem à vida e às mulheres (o que não é pensamento objectivo, vi-o com olhos meus e são muitos os filmes que me parecem louvar o lado feminino da humanidade). E depois há as questões de sempre, tão velhas como inquietantes: a morte, o suicídio, a culpa, o amor, o altruísmo, a religião, o preconceito.
É filme que não desdenha as personagens. Respeita-as. E desvendar a história ou resumi-lo, só estraga. Não será extraordinário. Mas é a minha medida. Talqualmente.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

No Princípio era a Canja


Não me atrapalhei. Minha mãe de certeza cozia a galinha na panela de pressão, via-a a toda a hora sobre o fogão a resfolegar caracóis de nuvens e em digna fervura interior. Tirei-a do armário, parti a galinha com uma dificuldade emérita e merecedora de filme e ajeitei-a no recipiente. A impar de orgulho palerma por ter conseguido. Deitei água sem saber até onde. Neste ponto, julguei conveniente ouvir opinião abalizada e chamei a minha irmã de nove anos – o mais abalizado que existia. À vista do que conseguira perguntei, “o que é que a mãe põe na canja?”. E ela bem mais atenta que eu, “parece que primeiro a mãe coze a galinha e depois tira-a e faz a canja com a água”. Dei graças aos céus pela mana sorrateira e tão observadora. Quinze anos de canjas e fui ultrapassada à campeão. Levei tudo a lume e, desconfiada de mim, cirandei incertezas pelas imediações da panela ainda assim não silvasse como de costume, a recear rebentamentos, imaginando um vesúvio a atirar com os bocados do bicho para o espaço. Ou qualquer outro inesperado drama. Minha irmã, que se entretinha na rua com a mais nova, ia-me espreitando a preocupação. Entrementes, o bebé caía, enchia a boca de terra, chorava e clamava por colo. Um arraial. Enfim, a panela começou a encaracolar vapor e respirei. Tudo normal. As manas brincavam também com mais descanso. E podia dar colo ao garoto.
 Não sei bem como, mas cozi a galinha. Retirei a carne e chamei a conselheira, “e agora?” Ela, “agora pões a massa, mas não sei quanta”. E eu deitei a massa sem ideia de quantidades e voltei, “a mãe põe mais alguma coisa?” Ela a pensar, “acho que põe cebola”. E eu, “vai lá buscar uma cebola”. E ela ainda, “se calhar também põe salsa”. Eu, “vai apanhar um raminho de salsa”. Como não lembrasse mais nada (felizmente para a canja), liguei de novo o fogão. Enquanto cozia, provei-a e provei-a.  Acredite-se ou não, saiu normal. Foi, metafórica e literalmente, muito suada.
E, por via de uma canja, me exilei da doçura fofa que me existia  no suave país dos bolos.

terça-feira, 5 de junho de 2018

No Princípio era a Canja


Nada se sabe de verdadeiro até ser vivido, até que, irremediáveis, demos por nós dentro da surpresa que é defrontar a realidade. Convenhamos que há situações em que nos preparamos para uma determinada realidade e, ainda assim, ela nos surpreende, difere, supera. Imagine-se, pois, o que acontece aos impreparados como eu. Entre os quinze e os dezasseis,  a vida impôs-me ser dona de casa. Eu. Que só lia e estudava. Bom, também pintava os olhos com lápis de cor e comprava na drogaria vinte e cinco tostões de verniz transparente e rosado para pintar as minúsculas unhas que Deus me deu, ainda por cima roídas (decerto não ficava de jeito, porque nem a pessoa que mais atentamente me olhou em toda a vida dava por tal). Em face dos afazeres, a dona de casa de pressão rapidamente esqueceu  a vanitas. Ele eram coelhos, galinhas, cabras e ovelhas, o porco, o cão. E mais o pessoal. Tudo para mim e minhas mãos que máquinas não havia e meu pai afiançava que nem era preciso. Rede eléctrica, nicles.
No primeiro dia em que estive por conta própria, meu pai fez-me o excelso favor de matar uma galinha (apetecia-lhe almoçar canja, querem o quê). Arranjei-a como costumava (jamais o fizera sozinha) e deixei-a sobre a bancada, coxa ao léu, toda vampe e amarela, excepto cabeça escortinhada, crista de banda e olhos agoniados de morte. Julgava que meu pai, ciente do meu ser ignorante, faria a apetecida canja,  já que gastava tempo e decibeis extralargos invectivando minha mãe por me deixar ler e não me obrigar às leis da cozinha. Mas quando ia por ele, só vi o fumo da zundap.
(cont.)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Circunstância e Culinária


Hoje, madura a cair da árvore, tenho de reconhecer que, em meus tempos, fui uma menina mimada. Não a menina da mamã. Mas, seguramente, a menina de sua mãe. Minha mãe poupava-me quanto podia  a dissabores. E não me ralhava bastante quando, a todo o momento, me isolava a ler. Fazia intervalos de horas nas tarefas domésticas e quase sempre fui apanhada em flagrante - num ai esquecia os quinze minutos que mentalmente aprazava. Os livros distraíam-me demais e nem dava pelo relógio que pendulava na sala contígua ao meu quarto e batia horas certas e meias horas. Embalada pelo ritmo do mecanismo, dissolvia dentro do livro, surda a todo o ruído, e só a suavidade vocal de minha mãe me puxava à realidade.
         Está bom de ver que, de cada vez que ela fazia tenção de me ensinar a cozinhar, encontrava um pretexto para não o fazer porque mais me sobrava para ler. Egoísta como só eu, não me ocorria que aprender seria forma de a ajudar. Apesar destes pruridos culinários, comecei a fazer bolos aos oito anos. Não para ajudar. Na minha óptica, “fazer bolos” era coisa boa, engraçada – eu subia uns pontos na consideração das outras garotas -, e sinal de festa.
Ao invés da doçaria, a culinária era-me estranho bicho de sete cabeças, obrigação desenxabida e origem do meu pior inferno: a alimentação. Aos dez anos, convenci-me que basta ver para saber fazer e lancei-me a estrelar um ovo no fogão que era alto. O ovo estrelou, mas queimei as pernas abaixo do joelho. Foi uma grandessíssima falta de jeito e igual chatice. À época, dançava folclore infantil, havia espectáculo nessa noite e as meias de renda pegaram-se às bolhas - o traje incluía meias de renda até ao joelho. Mais tarde, fartei-me de carpir a retirá-las conjuntamente à pele que se colara e me deixou as pernas com pequenos círculos em carne viva. Bom, isto para dizer que, quando aos quinze tive de orientar as refeições de cinco pessoas, eu incluída, afligi deveras. Tudo que sabia era estrelar ovos queimando as pernas abaixo do joelho e mesmo isso à distância de cinco anos. Ah pois é. E não havia quem me ensinasse. Nobody mesmo.

domingo, 3 de junho de 2018

Razões


Entrei na blogice a convite e num projecto comum.  Sem entender patavina. A zero. Dá para entender que não pus prego ou estopa no número um. Entrei como sou, armada de vontade com salpicos de pretender agradar. Avaliada apenas pelo escrito, apresentei-me sem acrescentos inventivos, cujos me fariam perder tempo e soavam a desrespeito pelos hipotéticos leitores.   
O projecto comunitário teve o seu tempo e peripécias, mas deixou o gosto pela blogosfera e por pessoas que são, entre si, mundos substancialmente diversos. Umas têm caixa de comentários aberta, outras não. Umas publicam os meus comentários, outras não. Estas respondem aos comentários, aquelas não. Cada uma posta o mundo a seu modo. Há quem, como eu, se vá escrevendo no que conta, quem olhe de fora e transcreva a observação, quem viva da notícia, da fotografia, dos eventos, da poesia, da reflexão mais comum ou mais abstracta...quem descreva estados de alma, quem capte da vida a sua comicidade e a vá apaladando para alegria de quem passa.
A net é casa de muita e vária janela.  Janelas nascem enquanto outras se fecham ad eternum. E tudo permanece depois de escrito, mesmo que se delete e deixemos de vê-lo. A net é a versão digital da maldição de Nietzshe na teoria do eterno retorno. Em pior. No mundo digital o passado não dá folga, é eterno presente. Portanto, meus amigos, visto sob certo ângulo, completa maldição.
Não imagino o que move outros bloguers a alimentar uma página – ou várias – na net. A mim,  empurra-me a curiosidade e a convicção de que o homem é ser de companhia; mas também alguma preguiça e comodismo; o gosto por ler e escrever; a certeza que a oralidade me menoriza o pensamento enquanto a escrita, vá-se lá saber porquê, o expande. É bom ler quem pensa, observar diferentes interesses e gostos, conhecer lados ignotos da vida.
E cá estamos.