quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Carrossel


Nas longas noites desse verão, Esparguete desfiou episódios pícaros e outros menos alegres, como o de mãozinha. A poder de histórias e acontecimentos ordinários, elucidava a vida do Lar, fazendo-a mais próxima do garoto estrangeiro que eu era. Mas, se eu gostava de o ouvir e me interessava o quotidiano da nova casa, ele rendia-se ao meu mundo. A vida no Bairro da Venezuela foi espiolhada, medida, contada e recontada. E, por mais que ilustrasse a miséria comum, tudo entendia como conto de fadas. Memorizava os caminhos dos ninhos e o nome dos pássaros, o lugar da cerejeira de primaveras floridas, a altura imensíssima da barreira onde reuníamos. Sabia a espessura flexível das lianas e o grosso tendinoso das árvores que as produziam, e não esquecia os pássaros que as habitavam. Perguntava seguro da resposta, eram pardais, não eram.  Falava com desenvoltura de grilos cantores, machos que guardávamos em caixas de fósforos atapetadas de alface e furadas na parte superior, as asas numa refrega cantando noite fora; dos ouriços espinhudos e lentos, atravessando veredas com patinhas minúsculas e a rasar a terra; criaturas tímidas, um só lado de carne rosada que víamos se os voltávamos com um pau e que inteiros se recolhiam e fechavam, o susto em bola de picos; das lengalengas em tom de rapper que usávamos para apurar quem ficava a contar no jogo das escondidas, “hidrovião da escola militar diga lá minha menina em que terra quer poisar”  ou a sua preferida, que a outra era coisa de raparigas e ele nem sabia como é que nós a aceitávamos no Bairro, “ita não ita, ita não há, quem está livre, livre está”. Acordava-me de noite a perguntar, as camarinhas sabem a quê. Ou inclinava-se a sacudir-me ombro e sonhos que arvoravam por ali fora sem volta, e ele, olhos de cobiça esfomeada, os bolos de casamento eram muito grandes, quantos é que tu comias de uma vez. E eu estremunhado, a alinhar ideias, não sei, não me lembro. E depois de acordado, numa saudade doce toda feita de papilas gustativas e restos de fome, devia comer uns dois ou três. Enfiava-se na cama como quem descansa de preocupação séria e, alimentado na minha memória, sussurrava,  bem me parecia. E adormecia.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Carrossel


Mãozinha danou-se a empurrar a máquina maior que ele e, cumprindo  ordens, parou-a no final. Intentou retirar a ficha, mas a sua força de quatro anos  era brisa naquele aperto ajustado. Chamou e ninguém acudiu. Correu ao pátio e nem sinal do Ferrugem. Então deu-lhe um puxão a mãos ambas, coisa de ou vai ou racha, que o maior era áspero a castigar. E trouxe atrás a tomada. Depois, trabalho de ingénua curiosidade infantil, foi pegar nos dois fios coloridos que ficaram à vista. A casa estremeceu com o berro desabalado enquanto o coice da descarga o atirava para o outro canto, a mão encolhida como papel no fogo, dedos em garra. Um grito agónico e dolorido que repercutiu e fez Octávio voar desde a quinta, botas largando terra pelos corredores. Chegou a par dos garotos espavoridos. Pegou em Zézito e correu a depô-lo no banco traseiro do bolinhas onde Maria, de avental e chinelos, o recebeu no colo. Olhos de ardósia sem palavras, os garotos assistiram às manobras nervosas do bolinhas, os pneus numa chiadeira de sofrimento e esforço galgando caminho em rapidez nunca vista. E enquanto isso o Ferrugem, homem feito e barbado, lamuriava tracejando lágrimas, ai se ele morre, se ele morre fui eu que o matei. E os outros imóveis, tormentosos, um mar de rancor a borbulhar em espuma revolta que instilava no corpo urgente e ardia nas articulações. Os outros esquecidos da maldade pessoal e de quanto todos castigavam os mais novos, a prometerem o que sabiam não ir cumprir, nunca mais obrigo nenhum a nada e vou ajudar a tomar conta deles. Os outros em parede vingativa, a projectarem no Ferrugem as próprias falhas e culpas, caindo-lhe em cima como malhos, chuva de pontapés e murros de que nem tentou defender-se. Os rapazes do lar amealhavam um tamanho de cólera e destruição que nem eles sabiam que tinham. À vista da violência e do sangue, os mais novos desataram o choro, condoídos do saco de pancada que mal gemia e de que iam vendo um braço ou uma perna já em desânimo vital, bocados de camisa rasgada, relâmpagos da cara num trambolho  ensanguentado. E, se um deles não corre pela cozinheira reboluda e chamejante, Octávio chegava e o Ferrugem estava feito às postas. A mulher não esteve com meias medidas e apartou-os sem rodeios, batendo o maço dos bifes na cabeça de um e outro até descobrir no solo o corpo desmaiado do Ferrugem. O coro choroso que emudecera à vista da sua intervenção, julgando-o morto, redobrou. Ela acenou com o maço e gritou acerada, fora daqui. Não precisou repetir. Depois, empinou-se aos pelejadores ora indecisos e ofegantes, palpando a cabeça. Vermelha de raiva, fuzilava-os com o olhar, voz esganiçada de alarme, suas bestas, vejam bem o que fizeram. Não têm vergonha, todos em cima de um. Agora carregam-no para a cama que eu vou aquecer água e vão tratá-lo e lavar-lhe as feridas à minha vista. E desandou para a cozinha, pressas de avental enxofrado, resmungando pelas costuras, selvagens, cambada de bestas quadradas, corja de bandidos, filhos de uma puta que iam matando o rapaz. Não basta um aleijado, agora temos dois.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Carrossel


Desde que Esparguete nos fez companheiros de mesa e partilhámos a mesma carteira na sala de estudo, arvorou em meu protector e deu-se a manobras tais que ocupámos camas lado a lado e ficávamos que tempos a cochichar. Grata, a minha orfandade acoitou-se à sua guarda como se ele pessoa de força e nobre inteligência, e não criança da mesma idade. Orgulhoso do papel, Esparguete acusava a supremacia respondendo por mim à curiosidade dos mais pequenos enquanto me desviava da crueldade dos crescidos, manápulas sempre prontas a empurrar, socar ou puxar-nos pelos cabelos, usando-nos para recados e trabalhos que Maria lhes destinara. Se as tarefas saíam mal ou ficavam incompletas, os maiores não perdoavam e zurziam-nos a sério, ameaçando sova maior se contássemos a Maria ou Octávio. Os crescidos reinavam despóticos sobre todos os grupos e eram ferverosamente temidos. Contra eles, Esparguete ensinou-me a vassalagem fictícia, sorrisos fingidos, satisfação de favores não pedidos e distância se os topávamos mal dispostos. Esta capa de panaceia livrava-nos de puxões de cabelos seguidos de invectivas e ordens para tarefas que a nossa idade não permitia. O mãozinha era bom exemplo. Aos quatro anos foi indigitado por um crescido para aspirar a sala da costura, chão crivado de  linhas e trapitos, réstias de tecido desenhado ou liso, um botão caído, a ponta de uma camisola a bordejar o chão no molho de roupa cosida e pronta e em que não podia tocar. Antes de as arrumar ou pôr a uso,  Maria gostava de inspeccionar as peças uma a uma. Quando deu o trabalho ao Ferrugento recomendou, o chão bem limpo, quero tudo bem aspirado. E indo à sua vida ocupada, cuidado que a máquina é cara. 
Depois de um dia de agulha, dedal e tesoura sem parança, o  chão parecia sala de baile no fim dos festejos de carnaval. E o Ferrugento, assim chamado pela resmunguice constante, o primeiro dos pequenos que passe, e é ele, eu é que não faço este trabalho de mulher. O mãozinha, que nesse tempo ainda se chamava Zézito, teve azar, passou. E o outro logo a segurá-lo pelos cabelos até ao aspirador sem fazer caso aos olhos redondos de medo e dor, tu gostas de guiar, pois tens aqui a máquina, é só guiares que ela apanha-te tudo do chão. Depois de ligada, não pesa, vais ver que és capaz. E se não, dou-te uma pisa de verdasca. Já sabes, sentenciou. E foi embora.

domingo, 27 de outubro de 2019

Instantâneo


Havia um ventinho frio a correr manso, coisa de aragem nocturna que o sol bebé não afugentava.  No Metro, tudo diferente, o vagar nos gestos ensonados, os ténis e calções desportivos, a bicicleta, a mochila da natação, o sonho de, quem sabe, pedalar e correr à beira rio. Um homem de pé, encostado e descontraído, um livro e óculos de sol. Por certo vai ler em lugar que lhe apraz, talvez em companhia. Um cão à trela, contente e com dono a condizer; nos olhos de ambos, a alegria de uma corrida a par e estadia tranquila em café de eleição. São passageiros de antes de almoço de sábado. O apaziguado ar que perpassa nas catacumbas da cidade e certa moleza de gestos acordados para os pequenos prazeres de fim de semana enternecem quem vem de fora e assiste à glória matinal da cidade. Bem hajam.

sábado, 26 de outubro de 2019

O Fascínio das Histórias


Hoje, dia vinte e seis de Outubro do ano da graça de dois mil e dezanove, a Gulbenkian abriu portas a “O fascínio das histórias”. Portas abertas com primor. Oradores e moderadores interessantes em todas as salas, um naipe de filmes a condizer. A dificuldade de escolher. Por via de um comboio impaciente deixei para trás oradores que me apeteciam de raiz. Ainda assim, consegui ver um filme e assistir a duas sessões de palestra, uma na sala da literatura e outra na do jornalismo.
Fahrnheit 451 é um filme sobre uma sociedade que imola os livros pelo fogo e prende quem os possui. Livros são motivo de diferenciação mental, logo, objectos banidos. Perniciosos, ajudam a ter pensamento próprio numa sociedade que se quer igualitária e robotizada. A acção decorre  no futuro e os bombeiros têm a função de atear fogos usando os livros que são treinados para encontrar escondidos nas casas dos inssurrectos. Gosto dos filmes de Truffaut. E também de Truffaut. O realizador sempre me parece garoto que sabe pensar, impressão que me vem da forma como nos olha a direito e da humanidade  terna que reconheço nos seus filmes.
Depois, foi a vez de Hélia Correia ir paulatinamente negando a juventude de Alexandra Lucas e se afirmar em alguns pontos como a distinção entre literatura formativa e literatura moralizante; Mário de Carvalho  dissertar naquele tom calmo e baixo que o caracteriza e Rui Zink desconcertar corrosivamente.
Na última conversa tive o prazer de assistir a Patrícia Reis que nunca perde de vista a farpa feminista, a reivindicar aos colegas presentes o prazer da mulher, a masturbação feminina e não me lembro que mais no feminino, adiantando que os livros sobre sexo e morte é que é, pegam de estaca. Aproveitou para negar a religião e as verdades bíblicas, inventadas uma e outra muito antes de Cristo (coisa comprovada, não é trinta e um de boca) e assumiu que se uma mulher escreve um livro sobre sexo é olhada por isso mesmo, escreveu um livro sobre sexo; se for Lobo Antunes a fazê-lo, é um livro sobre a condição humana. A assistência riu e eu estive para dizer-lhe que Lobo Antunes não faz livros sobre sexo, são mesmo sobre a condição humana. Mas achei que ela não gostaria da observação e calei-me. Depois estava um psiquiatra a que a jornalista, escritora e editora chamou “a estalada de Alvalade”, pessoa bastante moderada. Foi esclarecedor face à torrente por vezes demolidora e catártica do realizador de José e Pilar que informou a plateia acerca da sua necessidade de umas consultas de psiquiatria (um brincalhão) e falou sem pejo de masturbação e erotismo, ilustrando com exemplos pessoais. A sessão foi moderada por Miguel Ribeiro, um amor de garoto em estarrecida bonomia com o teor de sexo que assentou de início e se refastelou. E posto isto, a plateia pareceu-me muito mais interessada e divertida que na sessão anterior. Patrícia, és bem capaz de ter razão.
O que eu gosto de estar na Gulbenkian aberta ao povo.
Um obrigada ao comissário Nuno Artur Silva.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Carrossel


Não havia muito tempo para digerir novidades que se apresentavam em catadupa, e o sexo não foi excepção. No Bairro da Venezuela não o apercebera. Por outro lado, o meu corpo ajudava mantendo-se entrincheirado no reino da infância. Portanto, alheio à linguagem do prazer, absorvi a notícia que associei à surpresa gemebunda. Com alguma estranheza, quedei mesmo um tanto impressionado. Mas,  à vista da  picardia delambida do Anão, a ignorância virou-se contra mim.  Receava ser escarnecido, adquirir alcunha pejorativa de que nunca me livraria, o pior cartão de visita na casa.  Encenei olhos de conhecedor, guardei o que sabia e não sabia e, sem um som, assenti. Cá dentro, as perguntas submetiam-se e involuíam sobre si mesmas reduzindo-se um altinho inóquo dentro da minha curiosidade.
Enquanto eu escondia questões alarmadas, tu descobrias o sexo no quarto da empregada sem rosto, saias à cabeça e pernas abertas, silêncio estendido na cama sem gemidos, punhos e mãos grossos abandonados ao longo do corpo de boneca inerte. Fixavas as unhas roídas que interpelavam as urgências machas de teu pai, calças de vinco nos tornozelos, a ponta livre do cinto em cauda de gato nervoso, nádegas abaixo e acima, roncando num despropósito que te fez recuar enojada e rendida ao espectáculo. Coisa de violência e submissão  que te escancarou olhos e espírito e para que não tinhas nome. E éramos dois e longínquos, cada um em seu casulo roto.
Por mim, caíra num mundo paralelo que me impunha vida indómita e desconhecida. Todas as horas eram ocupadas por isto ou aquilo e rodávamos como contrapesos de relógio, acompanhando os ponteiros. Tinha a vida cheia de horas, tanta hora e meia hora  sem falhas. O quotidiano fora invadido pela imposição temporal, o acordar e a deita, as refeições, o estudo, as horas de brincadeira, a igreja, o trabalho na horta. A vida era tão diversa que a mente me atordoava demorando a organizar os novos conhecimentos e gastava os dias a aprender a orientar-me pelo relógio que antes só usava para a escola.  Contudo, as noites traziam-me a triste nostalgia da figura de tia Emília e da vida passada que, subitamente, me surgia deliciosa e liberta. Tia Emília era transcendência, um anjo com quem privara e que partira. Mas, a minha certeza estava na nova casa. Dentro da diferença, a fome assoberbava-nos constante e não deixava coalhar outras preocupações. Escravizava. E eu a estreá-la. A sopa de almoço e jantar era curta, o leite aparecia misturado com água e uma fatia de pão minguado, ao lanche uma peça de fruta vinda da quinta. Só nos almoços de domingo havia dois pratos e saíamos do refeitório saciados.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Crónica de Um Encontro


Quando te anuncias, começo a preparar-me para ti. Não pessoalmente. A preparar a casa para te receber enchendo-a de flores e limpeza que nem notas mas estão no posto; a imaginar almoços a teu gosto e sobremesas que te agradem; a escolher de entre os meus livros mais recentes os que te sirvam as preferências; a enumerar as pequenas prendas que te vou comprando ao longo do ano e tenho de procurar e reunir, peças de roupa, livros e outros pormenores; e  em mil coisas que o tempo não há-de deixar que te conte e só cabem na minha intenção.
Na véspera, aperfeiçoo lista cuidada para o super, faço uma sobremesa. Penso-te em cores de alegria, envio sms e pondero de mim comigo sobre as nossas horas sempre curtas. Um travo ligeiro, rasto breve que não empata nem ensombra.
No dia, levanto-me cedo e tomo um café. Vemo-nos tão pouco, prefiro que captes o meu optimismo risonho. E necessito certa aceleração para cumprir horário. Conheço-te, não atrasas. Vou ao super de fugida, ordeno alguma coisa em casa e ponho o avental. A partir desse momento estou oficialmente ao teu serviço. 
É verdade que me esmero para ti. Tão pouco te vejo e tanto te conheço. Sei por exemplo o raro de alguém te fazer ou oferecer um almoço ou jantar. Gozaste o benefício de pais próximos até ao fim da primária. O resto foi a aprendizagem de viver sem eles. Eram pais de férias. Mas a vida é também assim. E gosto que venhas. Porque a saudade existe e amigas como nós têm de ser presenciais. Mas também porque tenho largo prazer em servir-te, dar-te o que mais aprecias e tão pouco tens, refeições agradáveis e livres da tua responsabilidade. Tu que tanto cozinhas detestando a culinária.
Depois, bom, depois é claro que derreto por tudo apreciares. E na hora da despedida ofereço-te o possível, plantas, chá, um pedaço do bolo, um casaco que talvez me esteja apertado. Eu te daria qualquer bocado de mim se te servira.
Fica a revolver-me o teu abraço apertado, amplexo tão diferente de tudo. És a única amiga que me abraça; a única que não teme a expansão da ternura. Mas a essência é a absoluta certeza de cada uma de nós existir na outra. Ou talvez seja apenas a pura necessidade dessa certeza. Quem sabe.  
  
   

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Carrossel


Depois vieram o mãozinha,  a quem a curiosidade e um choque eléctrico tinham encarquilhado e cristalizado a mão direita em tamanho bebé; o engenhocas, electricista amador que resolvia os pequenos problemas caseiros;  o  gaitinhas que se comprazia a lembrar um avô tocador de gaita de beiços; o anão que tinha treze anos e era invulgarmente baixo; o feloso, um aranhiço magricela e amarelento que penava os invernos com um silvo de máquina a escapar-se do peito. E outros.  
No seu insólito, cada um dos meus camaradas se encontrava mais apetrechado que eu. A vida desentranhara neles o desenrascanço e a manha. Tinham aperfeiçoado a pequena e admirável desfaçatez da sobrevivência que eu ainda desconhecia. Poucos conheciam pai ou mãe e não havia lugar onde alguém os esperasse. Juntos no mesmo barco. Tu não, tu eras a menina dos olhos de pai e mãe, tinhas quarto só teu, vivias num andar aquecido, tua mãe fazia-te mimos, dava-te pequenas prendas, ensinou-te a patinar no gelo. Mas o meu mundo e o deles corria naquela casa  abandonada  às soalheiras campestres e asperezas das invernias, e o gelo, para nós, era tomento sem patins. Maria era o gerador da casa. O marido, quase sempre de sacho ou enxada, só era visto à noite quando, macambúzio, se sentava connosco para jantar e, no inverno, se o gelo ou a chuva se apossavam do campo. Nesses dias de modorra cinzenta, dedicava-se a arranjos de camas e cadeiras desasadas e outros consertos. Certa vez o anão, que era o mais baixo mas também o mais sabido, confidenciou que o paz de alma, alcunha que lhe imbuía pela emergente mansidão, era um atleta na cama. No bairro da Venezuela o atletismo de cama não me tinha sido mencionado. Vivíamos de ninhos e lianas, constantes descobertas de mundo físico e certo desdém por raparigas sempre com os mais novos ao colo, atezanadas por tanques de roupa e sem direito a participar nas brincadeiras. Decerto a confusão me veio ao semblante que logo o anão acrescentou, nunca foste à casa de banho durante a noite e ouviste gemer, a cama até parece que não se aguenta ao balanço. Recordei aquela noite em que uma dor de barriga me fizera atravessar o corredor no escuro – durante a noite a luz ficava sempre desligada - e, lá ao fundo, os gemidos me tinham assustado de morte, quem sabe uma alma penada que me agarraria por um braço, um fantasma que me levasse no branco do lençol. E a minha pergunta no dia seguinte, Maria, há fantasmas nesta casa. O riso e a negação. E eu, mas fui à casa de banho e ouvi barulhos e parecia uma pessoa a queixar-se,  doente ou assim. Os seus olhos em súbita confusão. Mas a resposta pronta, era o cão no quintal, em certas noites uiva e fica assim, desassossega e dá em gemer. E a arrumar assunto, não penses mais  nisso, não há aqui fantasmas nem almas penadas.

sábado, 19 de outubro de 2019

Carrossel


Maria chegou açodada, dedos engelhados em mãos  vermelhas. E despediu as ajudantes, vão até à cozinha e bebam um chazinho. Depois, encostou a porta, puxou um dos assentos vazios e aproximou-se de nós. Fixou na prima os olhos de balança e, ajeitando uma mecha de cabelo desavinda suspirou, a senhora sabe, isto está tudo no começo e falta muita coisa, mas quando a igreja me disse que o rapaz estava sozinho, que havia de fazer senão aceitá-lo. Sem fazer caso ao agradecimento murmurado de Eugénia prosseguiu, veja a senhora, a religião é nova, os fiéis ainda são poucos e o Estado não  comparticipa; é a nossa igreja que paga o lar. E a animar-me, estão cá dois ou três garotos da tua idade. Abriu a porta e, a despachar conversa e matar embaraços sugeriu, o melhor é despedirem-se e ires bater naquela porta a meio do corredor da direita. 
Espequei em frente das duas sem coragem para o irredutível. Talvez tristeza ou receio se plasmassem no rosto. A prima, abreviando despedidas e afectos que não havia, fez um gesto de incentivo em direcção à porta, a verruga a doer-se mole, alinhada com a evitação dos olhos. E como eu preso ao chão, Maria agarrou-me pelo ombro e empurrou corredor fora a minha resistência de máquina perra a desacertar na correnteza dos passos.  O breve estalido do trinco despoletou do outro lado uma pressa de cadeiras arrastadas. Mas, aberta a porta, a sala silenciosa, seis ou sete rapazitos imóveis, sentados em carteiras escolares, cabeça nos livros.  Maria arqueou os cantos da boca num quase sorriso que pronto desmanchou, colocou-me bem na sua frente e, mãos a segurar-me os ombros largou o aviso, temos mais um companheiro. Um de vocês tem de repartir carteira e mesa com ele, não há mais mobília. Entreolharam-se. Ela a impacientar, então... se ninguém se oferece, escolho eu. Foi quando o garoto que nos abrira a porta se levantou, eu posso ficar com ele. Maria passou-me imediatamente àquele fiozinho de gente recomendando, orienta-o. E largou porta fora, vou ver se arrumo a papelada e despacho a senhora, os tempos não estão para apaparicar madamas.
Mal a porta se fechou, os olhares convergiram em mim e ouvi uma espécie de zoada em surdina. Mas, quando enfim os passos deixaram de se ouvir e a porta da saleta bateu, as carteiras pareceram ter molas. Os garotos precipitaram até nós num encapelado novelo de perguntas, umas sobrevoando outras. O meu protector pôs ordem nos colegas, deixem-no em paz, agora o que interessa é contar-lhe a vida aqui e dizermos os nossos nomes. E para mim, certo ar de importância, todos temos alcunhas. Chamo-me Alberto, mas tratam-me por esparguete. E é claro que esparguete me pareceu um nome perfeito.

terça-feira, 15 de outubro de 2019




Eu queria dar-te a flor que nasce nos cumes azuis das altas montanhas. E sou rasa, plana e densa como mó de moinho. Queria erguer para ti uma catedral burilada e rútila, mas o desastre das minhas mãos enfermas não suscita beleza. Queria ser tapete de passos teus e sou desencontro e pó de estrada. Mas, quem sabe, um dia te debruças rente à terra, ao rés do pó. E então nos acharemos, filhos pródigos de excelso acaso. 

Carrossel


A mulher fitou-nos por intrigados segundos, a mente em busca de razões. E logo relampejou, és tu que vens de novo, não é?  Pois vão lá andando para a saleta. É a segunda porta à esquerda, já lá vou ter. Desculpem, mas os canos  entupiram e a água do tanque não escoa. E a recuperar velocidade na escova, justificando-se, temos de lavar na mesma, a roupa já começa a faltar. E foi como se entre nós e ela uma parede.
Saímos e, mau grado o feltro da entrada onde limpámos os pés, a prima enfastiada e a inclinar os sapatos ora à esquerda ora à direita,  o rasto húmido seguia-nos corredor fora. Quando empurrou a porta indicada, deparámos com três mulheres de meia idade sentadas em cadeiras baixas, óculos quase na ponta do nariz. Cosiam e remendavam. Ao fundo, outra mulher afadigava-se na tábua de passar a ferro. Parámos na soleira. No súbito  silêncio, só os olhos trabalharam. Mãos quietas, as mulheres ergueram a cabeça. Eugénia aventou confusa, desculpem, procuramos a saleta. Elas esclarecidas e logo afáveis, agulhas e ferro a acordarem, entrem, entrem, é aqui mesmo. A prima reforçou dedos em volta da malinha de mão e entrou comigo a tiracolo. E logo uma se afadigou a aliviar dois bancos sepultados em roupa dobrada e, sentem-se que a Maria não tarda. Ao silêncio desanimado da prima a do ferro adendou, isto há-de ser uma saleta, há-de, mas agora é o sítio onde vimos coser a roupa dos catraios. E a apontar o bico do ferro ao vinco de uma manga, somos da aldeia e estamos cá todas as quintas de tarde para coser e passar. É uma caridade que fazemos, a Maria e o marido não dão conta do serviço. Eles têm uma mulher na cozinha, mas então e o resto. E sacudindo nova peça antes de a ajeitar à tábua, ajudamos como podemos. Viradas à costura, as três da agulha assentiram filosóficas. 
Entretanto, uma das mulheres esvaziou um carro de linhas e passou-mo para a mão, toma. Rolei-o na mão aberta. O que teria valido esta prenda no Bairro da Venezuela. Seria bom eixo para qualquer caixa de fósforos, rodado de madeira polida a garantir carga. Mas bem sabia que  tinha morrido para o bairro, nada de meu por lá ficara. Faltava deixá-lo afastar-se dentro de mim até ser apenas memória boa. Mas, e isto sei hoje, lugares e pessoas desaparecem mais devagar se, como é o caso, nunca chegam a desaparecer e volta e meia nos estão azucrinando o espírito. Como tu, tão próxima sempre, tão o teu cheiro no meu olfacto. Tu, de difícil arredo.
A dada altura a mesma mulher apontou a trouxa que eu segurava no colo, é a tua roupa?. Assenti. Tirou-ma suavemente, dá cá, temos de a marcar. E ao desfazer do nó, olhando os meus remendos e cerziduras, tenho um neto que há-de ser pouco mais velho que tu, para a semana vejo o que há por lá que te sirva e trago, queres?. Fiz novo aceno e a prima Gena corando sob os lutos, um embaraço de dedos no fecho da malinha, clic a abrir, clic a fechar, clic a abrir de novo. E do meio dos cliques saltou-lhe um  muito obrigada moldado em boca pequena.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Carrossel


O meu treino na amizade começou no desamparo daquela casa grande plantada a meio do campo. Éramos  para cima de quinze rapazes de idades variáveis, talvez entre os três ou quatro anos, e os quinze a dezasseis. De trouxa na mão e coração apertado,  mergulhado em desorientação temerosa de novidade, nada apercebi. A prima tocou um sininho na entrada e esperámos. Para além do desconcerto, fiquei vivamente interessado no sino. Depois de uns momentos em que mirámos o sossego  do taxista refastelado no dever cumprido e o assomo de irrequieta bisbilhotice num garoto ou outro delatado por perrice de janela, um sussurro de passos ligou-nos à porta que entreabriu. Na soleira,  um miúdo franzino, mais ou menos da minha idade, olhou-me com interesse e afastou-se a dar passagem. Não sei porquê, aliviou-me vê-lo. E sem remorso disse adeus ao sino.
A prima debitou umas palavras ininteligíveis e ele apontou um corredor comprido e desapareceu em corrida como se algo urgente em espera, uma torneira aberta ou assim. Pensei se seria mudo. Eugénia olhou-me sem expressão e atacou o corredor. Segui no encalço assombrado da minha parente de empréstimo que arregalava e  fazia ruguinhas de gordura a  corredores sebentos e despidos. Oscilava desventuras nos sapatos de salto e, à medida que em sofrimento de passinhos indecisos espreitava salas a um lado e a outroia abanando a cabeça contrafeita. Por mim, fiquei impressionado com  as mesas do refeitório.  Habituado a canastros e caixotes em cubículos mal iluminados e de função múltipla, pasmava àquela sala de tamanho inusitado, ocupada por mesas e cadeiras. Ao invés, a prima imobilizava em observação e ia resmungando entrecortada, olhem para isto, nem toalhas têm, as mesas com restos, bancos e cadeiras desirmanadas, tudo tão velho. E eu atrás dela, o velório de tia Emília a espreitar-me das cadeiras sem pedegree e a tristeza uma água a sumir no desalinho de descaradas cabeças que nos espreitavam. Entretanto, passámos a camarata, uma extensão de camas sem colcha, deserta de tudo.
             Finalmente, depois de uma cozinha toda tachos, panelas e frigideiras, mais uma data de utilidades dependuradas em grade que a prima desdenhou, encontrámos a responsável do lar. Parecia uma mulher da aldeia, facto que me retirou um oceano de medo. De costas para nós, devorada pelo calor, botas de borracha enfiadas, debruçava sobre o tanque o avental impermeável. Afadigava-se a esfregar à escova roupas encardidas, prováveis vestes dos meus companheiros, facto que na altura não interpretei. Atordoado, avancei  e encharquei pés e canelas. Confrangido, parei o olhar na Gena. E já ela erguera as banhas periclitantes sobre tijolo providencial, um mar de gordura cinzenta a debruar-lhe as solas. Em redor, no lago onde mergulhara as minhas extremidades, boiando na crosta escurecida, uma ou outra peça de roupa indistinta, excrescências da laranjeira próxima, folhas envelhecidas a vogar mansas. Do seu pedestal de argila, a prima soltou um bom dia envergonhado e a mulher virou meio tronco rápido, a mão da escova a abrandar sobre o tecido.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Carrossel


Quando a paisagem se encheu de novidade começou a desinteressar-me.  A espaços, nasciam casas grandes e bonitas, mas o mais eram sobreiros uns a seguir aos outros, campos e campos cheios deles. Rodávamos fora do meu mundo. Desanimado, encostei a cabeça no vidro e, tão bem sentado como nunca estivera,  fosse por cansaço triste ou saturação de novidade, adormeci no embalo do motor. No meu sonho, a prima desvelada, vens viver comigo, a partir de hoje chamas-me prima Felicidade.
Acordei com a cabeça recostada no assento, a prima fixando-me compassiva, ó filho tive de te puxar para aqui, ias só aos pendões contra o vidro. Eu ainda sob a influência do sonho, a prima chama-se Felicidade?, mas ela numa estranheza balofa, a verruga a aproximar, pois tu nunca ouviste a Emília chamar-me? Chamo-me Eugénia, sou a  prima Gena. Emudeci, os meus sonhos um conforto de miséria.
Lá fora, no aperto de luz e calor, a brancura de casas  aconchegadas umas nas outras, prédios, uma praça comprida com igreja ao fundo, um sino desmedido de vigia na torre. O automóvel vagaroso e encalorado passando no largo. A meio, uma estátua de brilhos suados, árvores tolhidas de esparavelas de sol e gelo, bancos de madeira descorada a toda a volta, gente que não tinha onde ir conversando nas fitas de sombra - se calha, ainda hoje a conversar naquela praça à soalheira -, e nós mirones com destino, rolando devagar. O taxista para a prima, é preciso cuidado dentro das localidades, ou ainda passamos alguém a ferro, o pessoal tem pouco hábito de automóveis e atravessa sem cautelas. E logo mudou de assunto, que isto é assim, se é para multar, a GNR só vê táxis e camiões. Não fazem pêva e ainda prejudicam quem trabalha. E de dedo em riste, apontando a autoridade que flanava ao fundo da praça, olhe para aquilo, levam a vida ao alto, o trabalho não os faz dobrar a espinha; por isso estão gordos, já viu algum GNR magro. A prima olhava e, isenta de rancores à força da lei, assentia em silêncio brando, talvez a comparar-se, não sou tão gorda, uma dietazinha e fico igual aos mais.
E de novo um raro de casas, uma criança num quintal a olhar-nos de pés esquecidos nos pedais da bicicleta nova, um tractor que lavrava transportado por uma nuvem de poeira, uma carroça de ciganos de certeza a tilintar que os ciganos gostam de guizos; os pais à frente na condução das bestas e as crianças atrás, taipais descidos e pernas penduradas a desafiar perigos. E nós a ultrapassá-los. O taxista num murmúrio concentrado, é passá-los minha senhora, livre-nos Deus de desastres com ciganos, cai-nos a família toda em cima. E deitando-me um olho fatalista, já falta pouco, a casa fica no campo, já cá vim uma vez ou duas. Pode ser que gostes, há lá muitos como tu, isso é verdade.

domingo, 6 de outubro de 2019

Carrossel


A vida corre mansa durante anos mas, num arremesso, pode mudar-nos a circunstância. Bastam umas horas, um dia, a ligeireza de segundos. Talvez o imprevisto seja o ponto de viragem na história, um rápido no leito do rio,  tumulto de velocidade que altera o curso e nos cavalga em atropelos de novidade. Dei por mim no banco traseiro de um táxi, a prima anafada a convencer-se, vais ver que gostas. E enquanto ela cismava, eu despedia-me de todas as árvores. E do caminho.
Logo após o arranque passaram, bem devagar, as brincadeiras de Tarzan. Eram árvores folhudas e cheias de riso e apostas, via-lhes da janela as lianas despidas, oscilando vagares; em espera de braços e mãos. Agarrávamos firme e, num golpe de pernas e impulso de corpo inteiro, transportavam-nos à árvore seguinte. Depois, na trepidação de motor regulado, o pinheiro manso à curva, sombra debruçada sobre a estrada, a largar pinhões aqui e ali e nós à coca de pinhas arreganhadas de calor e em cálculo do lugar de queda da semente; na aspereza do  tronco, dois corações entrelaçados, a força de prego ou canivete a entortar nas rugas de pinho. Dois corações solitários, sem nomes ou seta a trespassá-los, unidos na carne viva da árvore e que os nossos intrigados dedos percorriam amiúde. Mas já a lonjura dos eucaliptos se sobrepunha. Gigantes de beira de estrada, ofereciam-nos aroma de saúde que mais tarde configurei ser de farmácia. Na sua sombra havia um cepo decepado a meia altura que eu promovera, era “a minha cadeira”. Largava a mão de tia Emília e corria desalmado a sentar-me. Ficava ali no gozo de merecido repouso enquanto ela se aproximava a passo certo, carrego de compras à cabeça. Quando passámos e o olhei, uns passaritos debicavam-no e enchiam-no de passinhos saltitantes. Leguei aos pássaros o meu trono. E no fim da subida, o táxi a arfar de cansaço, surgiu a última casa, a barraca de tia Maria dos tremoços, tábuas encostadas umas nas outras e que tanto espreitávamos na curiosidade da velha a enxotar-nos como a cães, proibindo assomos. Portanto, era bruxa indiscutível, tinha seguramente um caldeirão onde mexia orelhas de morcego, mais as ervas que a víamos apanhar nos baldios e, estávamos certos, sacrificava junto um dos gatos vadios que sempre a acompanhavam; é sabido que as bruxas precisam de sangue nas poções mágicas. Neste entrementes, o táxi deixou de soluçar e o motor engrenou a ronronar fácil. Mas ainda vi tia Maria a espreitar o automóvel. Ao reconhecer-nos, fixou-me. Os nossos olhos encontraram-se e aconteceu o impossível,  espalhou-se por entre as rugas um sorriso triste, amarelo do sol antes de chuva, e levantou a mão num aceno.  

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O Coração do Coração


De tarde, Maria Alzira Seixo e os tradutores a afirmarem, cada um a seu modo, a dificuldade, o desafio de traduzir autor tão complexo e intraduzível. E um deles num português curiosíssimo: Lobo Antunes diz-me, “na impossibilidade de tradução, sê criativo”.
A finalizar, o autor. A sua estranheza perante a própria velhice e o efeito que a imagem tem nele. O reconhecimento de que viveu a escrever. As lembranças e a memória que não sossega, não dá tréguas, mas também é refrigério. A memória de elefante que, digo eu, lhe dura a vida toda e oxalá se mantenha. A memória da mercearia do careca onde o Nuno, e por certo ele mesmo, comprava os cigarros que fumava enquanto escrevia; o irmão João e o último encontro que narrou emocionado tal qual a crónica que escreveu; o avô visconde que o levou a Pádua a fazer a primeira comunhão (outra crónica); o mesmo avô que era militar e tinha uma veia humorística de onde virá o seu próprio humor tão fino como cáustico, e de que contou peripécias engraçadas; O seu agradecimento ao contacto a que chamou toque, dos homens da sua vida e dos que, não o sendo, o marcaram - o abraço de despedida do João, o do avô, o de Paulo Portas (crónica). O seu encanto pelo dizer-se da ternura masculina, a amizade entre homens. O imenso amor a Portugal e a saudade que traz quando regressa "apetece beijar o ar, os cheiros, a luz, a cor do céu que é única..."
E depois, a imposição da Ordem da Liberdade pela mão do Presidente Marcelo. E Lobo Antunes meio atarantado, sem palavra. Sob o benévolo olhar de três presidentes da república. Mas sobretudo, valha-nos isso, sob o nosso olhar. Comovido. Grato até ao infinito de cada um. Tudo dito em palmas sem fim.
Fiz não sei quantas bolhas nos pés, esqueci o almoço em casa, o cinema falhou-me e não me deixou vê-lo. Mas Lobo Antunes foi o máximo. Creio bem que tudo aconteceu assim por ter de ser: era o seu dia.
E aposto que no curso das horas desligou o aparelho algumas vezes. Ou, como meu pai, nem precisou fazê-lo. Ficou-me a última frase, “O afecto é a forma suprema de elegância”.

O Coração do Coração


Começo a habituar-me à ideia, os velhos dormem pouco e chegam cedo a todo o lado. Era sábado. No auditório da Gulbenkian, um mar de cabelos brancos e grisalhos, semeado de onde a onde por caravelas escuras ou loiras, quiçá tingidas, viu chegar a horas o sujeito da homenagem: pesado, lento, andar  dificultoso a socorrer-se de ombro familiar, aparelho auditivo no ouvido. Não havia como negar carinho  a quem nos deleitou durante quarenta longos anos com o seu trabalho. A sessão abriu com o testemunho de Henri Lévy, escritor e ferveroso admirador da prosa de Lobo Antunes. E foi abertura digna de ambos os autores. Um Henri Lévy muito francês, alto, flexível, aprumado e penteado a preceito, boa voz e inteligência discursiva de fazer inveja aos melhores; dissecou de forma original e profundamente conhecedora a obra de Lobo Antunes. Um primor. E foi tanto assim que Nuno Lobo Antunes iniciou a sua homenagem dizendo, vou citar as palavras de minha mulher ao intervalo, “filho, depois do Henri, o melhor é dar-te uma embolia e ires de urgência para Santa Maria”. Mas Nuno Lobo Antunes deu um testemunho emocionado e muito vivo acerca da sombra que o primogénito lançou sobre o quinto filho que ele é. Começou por reconhecer que o irmão lhe roubou todas as imagens e histórias da família e o deixou sem circunstância familiar que possa lembrar por escrito. E terminou dizendo, “meu bebé, amo-te muito”. Pelo meio ficaram pactos de adolescente que mandava comprar cigarros, promessas, pequenos nadas de vida familiar tão diversa do comum de quem ouvia. E o testemunho de Daniel Sampaio, embrenhado em recordações, esquecido daquele olho clínico e meio tétrico que lhe surge quando fala como psiquiatra. Eram as memórias do colega de trabalho e amigo já com obra publicada, incentivando a escrita do jovem António. Convicto do seu valor, levou às editoras o manuscrito de Memória de elefante. Um êxito apesar da pancada dos críticos portugueses. Que só Agustina e uma personagem que já esqueci louvaram a obra. Recusada por duas editoras. A terceira, uma editora pequena, aceitou publicar. E,naquele verão, toda a gente leu “Memória de elefante”, eu incluída.