sábado, 27 de janeiro de 2018

Momentos de Silêncio

Esta semana, sem vontade expressa, vi o mar. Na margem, um misto de água salgada e doce. Ao longe, a mole solitária preenchendo a iludida infinitude do meu olhar circunscrito ao ângulo que abarco da sua grandeza. Sento-me em nostalgia, a reviver viagens felizes.
Há quem afirme que somos felizes sem a consciência de sê-lo, suponho que seja a concepção de uma felicidade infantil, que não se pensa a si mesma. Nesse tempo de juventude, eu sabia que era feliz. Sabia de cor a curva da ansiedade, que acelerava no comer dos quilómetros. E havia um caminho a subir que me compunha o coração e o trazia à boca. Um caminho de nunca mais, que só na memória respira e se expande. Olho a água do Monte Estoril. Ritmada. Ergue-se em alvura de espuma sobre as pedras. Recua. Volta de novo. Será a mesma? Talvez as mesmas gotas que ela olhou – tanto gostava do mar! –venham em grupo rebentar na praia. Talvez a amurada do paredão guarde as batidas descompassadas quando me encostava esvaída e a sossegar o músculo, antes de iniciar a subida. Talvez os desejos dela passeiem em eflúvios, levados de um lado a outro na humidade da brisa. Talvez nas noites mais longas os seus dedos em fuso continuem a avivar as teclas e haja praia fora a agilidade sonora da música. Talvez os olhos que usava comigo e eram só meus ainda me reparem. Talvez tudo isso. Mas a minha é alma translúcida e nevoenta, não informa; a minha inteligência é inferior à dos prisioneiros da caverna, não oiço o piano, não lhe sinto o olhar, nem me dou conta dos seus desejos. E o que nos liga salva-se do nada absoluto por ser inegável que ainda existo.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

À Sexta

Às sextas  gosto de leituras fáceis, bem dispostas, meio arrelampadas. Eduardo Lourenço que se lixe e mais o Pessoa e mais outros que tais que às vezes me apetecem. Às sextas estaria desasada se não fora a intervenção milagrosa e explosiva de um café com leite de minha lavra, um triplex da cafeína aceitável, esculpido em delta platina e que me sabe extraordinariamente bem, me faz bastante mal e me dá velocidade de comboio elécrico (salvo seja)  por comparação com o inteirinho da semana em deslocações de carvão e fumaça. Fica-me mal dizer isto, mas às sextas, volto a frisar, não estou em mim (mas também não estou em mais ninguém), desabito-me, chego a parecer quem já fui. Dedico-me afectuosamente aos afazeres domésticos que nos outros dias destrato, nado com o afã de quem faz um salvamento - ou mesmo uns dois ou três de atacado -, sou aberta e bem disposta para mundo e redondezas. Não estou no em mim do presente. Por qualquer razão que vive na cafeína, esqueço-me de ser o eu hodierno e viro-me decidida para quem fui. Custa-me reconhecer isto, mas às sextas, a droga dá-me embalagem. Não há que ver ou acrescentar, um café com leite especial chuta para canto o eu que sou e vai buscar aquelazinha que nos retratos me sorri (muito sem idade, ela). E depois apetece-me o nonsense, querem o quê (não querem; neste espaço, o querer é meu).
Mas há noites de sorte. Por vezes, a Visão (revista) faz-me a vontade. Põe-me na frente dos olhos uma crónica bem disposta e melhor urdida, de Ricardo Araújo Pereira. A Boca do Inferno cai-me quase sempre como água fresca em boca sedenta, um céu em ponto pequeno. Fico mais consolada que o bebé a quem mudam a fralda. É um gosto, aquele rapaz.  O meu gosto, quero dizer.
Mas esta semana não havia uma crónica bem humorada. Não. Esta semana, listei um par de crónicas. Pois é, o Miguel supreendeu-me. Sempre pensei que Miguel Araújo é outro rapaz que escreve bem, mas quer ter mais graça do que a que tem. Mas não desisti (e nem ele), continuei a ler o que escrevia. Não abandonei o osso. Oh, enchia-o de críticas e reticências, preferia ali um escritor (ainda prefiro), apostrofava a revista, maldizia terem despedido os escribas residentes, sei lá. Um ror de coisas, as queixas também são como as cerejas. E não é que esta semana o garoto acertou no totoloto do bom humor?! “Velho para ser novo e novo para ser velho” é o que quer ser. E toda  gente sabe, conseguida esta identidade, o resto sãom peanuts. Pode  ser laxismo meu e nivelação por baixo?! Não me parece, nestas coisas de escrever sou esquisitinha e bato sem reserva, salvo se a amostra é má demais. E não, a cafeína não tem a ver, que a velocidade de carvão já me regressou.

Portanto, enquanto vou descansar da fumarada e travar a fundo, vão ler os dois artigos. Confiram. Valem. 
E a sexta já foi.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Eu vim de longe...de muito longe...

Lisboa acorda para um sol enrugado, velho de haver frio e ser inverno. Nas ruas e avenidas, alguns automóveis avançam sem pressa e os autocarros passeiam a meio gás  e despedem, sem dó, golfadas de gente amorfa. Gente trabalhadora que começa cedo, que desce e boceja metro fora;  autómatos estudantis encapuçados,  mala ao ombro, desabitados de ideias e sonhos,  o enigma dos olhos sem vislumbre de intenção.
Não há ainda a pressa das manhãs. Faltam as senhoras perfumadas e vivazes que pisam em pontas, tic, tic, tic; as jovens álacres que brilham num mar de cabelo sedoso e unha longa, botas a alcançar a coxa bem desenhada; os eficientes executores de ordens, alinhados em fato e gravata, óculos a compor o semblante; as enxurradas de teens tagarelas e desportivas. Este roldão de vivacidade chega mais tarde, em hora de ponta.
Entre as sete e as oito, o metro é sofrido e macambúzio: traz gente da Damaia, de Alfornelos e outros longes. Vêm do outro lado do rio, de Torres ou Santarém, do comboio ou autocarro que os vomita na estação de Restauradores ou em qualquer fim de linha.  Gente que se levanta às cinco, deita à mochila a sandes do pequeno almoço embrulhada em papel de alumínio, e sai estremunhada para a noite de um autocarro ou comboio salpicado de parceiros conhecidos. Gente que pouco se cruza com o lisboeta citadino e os seus cheiros a banho fresco e ar condicionado. Que come a sandes no metro, depois de a desembrulhar em cuidados, ainda assim não caia o recheio que mãos femininas – quase todas femininas, sim – ali acamaram com amor e desejo instante de presença, nos vincos do alumínio restos de agonia macerada. Fecham os olhos por minutos e, contando as estações de cabeça, antecipam cada etapa e estremeção da carruagem. Viajam meditabundos e sem chama, estranhos até de si, despreocupados da vizinhança. Mas  o corpo levanta-se e sai na estação certa.

Talvez a viagem seja um hiato e, entre a alternância de papeis, haja um eu que descontrai, é repouso de actor  no camarim.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Impressão Digital

A toda a hora desacreditamos do mundo. Não bem dele na sua configuração física de minúsculo e arejado planeta azul, rodando em volta do sol. Desacreditamos de nós. Da espécie humana que o habita. Desacreditamos porque os outros nos desapontam e maltratam, nos ignoram e não são quem pensámos. Porque a isenção dos media evaporou e os jornais exploram esse lado de egoísmo sádico, as televisões o catapultam ao esplendor, os livros o descrevem em exaustivo picotado de palavras. É como um ar que se respira e que, à nossa revelia, se vai fazendo nosso.
Ontem, no metro, um garoto falador sentou-se a meu lado. Disse e perguntou-me o nome, a estação onde descia e porquê, e dilucidou outras razões infantis. Em frente, a avó entabulou conversa e seguimos empatando tempo. A dada altura, a senhora comentou que viviam em Odivelas  - estávamos a caminho do Rato; para quem não sabe, é o sentido inverso da mesma linha -. Olhei-a julgando que ia falar-me do lugar para onde se dirigiam, imaginei uma compra, uma visita, qualquer curiosidade no Rato. E eis senão que ela diz, quase assim a desculpar-se, “sabe, agora faço sempre isto, apanho o comboio no sentido contrário, chego ao fim da linha e depois faço a viagem até Odivelas desde o início”. E perante o meu ar esparvecido, “é que, quando entramos os dois, o metro no sentido de Odivelas já vem muito cheio, mas as pessoas dão-nos logo lugar. E custa-me, sabe, é gente que vem cansada, pesa-lhe um dia de trabalho em cima. E então, olhe, vou no sentido contrário que tem sempre lugares vagos, e depois apanho o outro”.
Tão bom ter esta conversa! Lição viva de setenta e muitos anos.


domingo, 21 de janeiro de 2018

Mater Dolorosa

Estávamos pegados ao chão,  mudos.  Nós e a tristeza dela a espalhar-se e  invadir tudo. Não em gritos. Em lamentos arrancados das entranhas, soluços sangrentos que lhe dobravam a figura magra, a dor funda e suspirada de enterrar a filha. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Retrato

Hoje encontrei-te por entre as folhas dos meus cadernos. Páginas e páginas escritas a meias. De um lado, a minha letra certinha; do outro, os teus riscos a caneta de feltro, linhas gigantes, de alto a baixo da folha, bonecos cabeçudos com mãos solares, dedos abertos como raios. E o teu nome em maiúsculas de imprensa. Imagino-nos. Estamos sentados à camilha, tu no meu colo. Sentas-te no meu joelho esquerdo e a minha mão, também esquerda, envolve-te o corpo pela cintura. Temos o caderno aberto. Dei-te um conjunto de marcadores que já te sujaram as mãos e a que enfias e desenfias a tampa com pormenores de importância, como quem abre e fecha um cofre. Tomas conta da página esquerda e eu da direita. Tu desenhas, eu escrevo.
 Presumo que te cansavas de esperar até eu virar a página e recomeçarmos os dois.

Mais um caderno a guardar. Dentro dele, existimos. Pairamos no testemunho das páginas.  Os dois, tu de um lado e eu do outro. Pouco me interessa o que escrevi, eram nulidades da profissão. Mas os teus desenhos enternecem-me, olho a força parada do bico de feltro no papel, uma sarda azul ou violeta a alargar, e meço as hesitações nas letras do teu nome que, em alguns casos, tem o F ao contrário. A Rua Sésamo, que amavas de paixão, foi a tua cartilha. Ali, aprendeste a ler e escrever, lembras-te?  

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Voar com Trela

Na minha cabeça não há histórias. Nunca houve. Há só lembranças de vida, pormenores que me atazanam, gente que permanece e me inquieta até ser posta em letra de forma. Mas gente real, que me cruza ou eu cruzei, gente que imagino mais do que conheço. Não crio personagens, não invento cenários. Sonho vidas incógnitas, dou-lhes anseios insuspeitos, travo-lhes a maldade, insiro-as num ambiente familiar e imagino-me sendo elas. Por isso, há um fundo de verdade no que escrevo, da verdade como a vejo, cerzida com palavras que desgarram do factual partindo dele. É sempre um remendo o que faço. Pode ficar bem costurado, usar de primores no acabamento. Não sai de ser remendo. Remendos, por mais airosos, são acrescentos, vêm de fora. Remendo é trapo que não pertence. 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Insight

Quando a porta do elevador se abriu aproveitou o despacho desempoeirado do homem e perguntou pelo wc. Ele apontou as escadas, “sobe um andar, é logo ali” e as pernas moveram-se no sentido contrário. Mas, antes de empurrar a porta que ligava às escadas, a bata branca voltou e decidiu, “é melhor ir de elevador”. E, acto contínuo, carregou na seta luminosa e desapareceu. E ela quedou-se a pensar que era a primeira vez que alguém lhe atendia à idade.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Egoísmo Propositado

Os dias correndo uns sobre os outros; horas num sopro, pulverizadas pela rotina que desenrola o rol de necessidades; o calendário num muda que muda alvoroçado.  Mal nos precatamos, um novo ano que segue o velho, novidade indistinguível  e arrefecida de bons propósitos.
 Confirmo, regra geral, os propósitos sossobram. Projectos que não chegam a ser e são comidos como pasto, engolidos pelo quotidiano presente. Os que subsistem ao tempo, rareiam.
Ainda assim, insisto e proposito pessoalmente, o leque das escolhas em contracção drástica. Confronto-me com a impossibilidade de mudar o mundo, a minha rua, ou mesmo o que se passa dentro de portas. Mudar-me não é menos impossível. Mas bolir com umas arestas, arredondar uns cantos...quem sabe.

Talvez baste usufruir de uma dose suplementar de egoísmo. Fazer mais um bocadinho do que me apetece antes que tudo desapeteça e não haja por onde. Ser mais feliz com e pelo que tenho. Pode ser.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A Suculenta na Janela

Chegaste de vaso na mão e, num meio sorriso de menino, disseste em tom desculposo, “está a morrer, vê se podes fazer alguma coisa por ela.”. E pousaste sobre a bancada uma suculenta  a abarrotar de criação. Entregue a encomenda, foste à tua vida. Descansaste. Doravante, era comigo. Vida ou morte. Observei o vaso minúsculo sem um espaço livre, uma micro selva de folhas carnudas e aguçadas que despontavam em todas as direcções. Pensei que havia erro no teu vaticínio, a planta transpirava de rebentos novos. Erro meu. Via o chapéu, mas não os pés. E são os pés que andam.
À tardinha, fui investigá-la melhor. Mal tentei desvasá-la, esfrangalhou-se-me mãos fora, num pedido de socorro tão instante que me deixou sem jeito, os rebentos escapando sob a incredulidade dos meus dedos incapazes, a isolarem uns dos outros no pavimento solado. Tão verde e a morrer. Tinhas razão, morria de tanto procriar. Morria de tanto alimentar o sonho de vida. Não o seu, sufocado no centro do vaso, em tamanho de desistir. Alimentava o sonho de vida dos seus rebentos. Mãe vegetal e esquecida, estiolando em cedência de alimento e espaço de raíz. Repartia-se inteira e completa. Desapareceria se tal lhe fosse possível. Quando lhe tomei o corpo exangue e desagarrado de terra, entendi o despojamento.
Enquanto procedia à operação de resgate e salvamento, vasinhos em fila indiana, lembrei minha mãe, “não se mudam flores em Janeiro”. Mas não havia outra solução. Envasados à unidade. À mãe, para não restar solidão, deixei dois filhos por perto e alarguei espaço e terra.

É possível que ao plantá-los lhes tenha aberto a sepultura. Só Deus sabe. Rezo ao deus natural das plantas, que zela por água e alimento, que desvia moscas e piolho nocivo, que as faz crescer e lhes dá folhas e flores. E espero neste esforço comum de todos. Quem sabe se não contrario a maldição de Janeiro e daqui a uns tempos te devolvo a suculenta e seus rebentos...