domingo, 30 de dezembro de 2018

Dia Vinte e Oito


Mercê de um apetecido café, as sextas começam bem. Quase posso sentir os pertences da cozinha a enrolarem no aroma quente expelido da velha cafeteira, arrasando sombras e nuances de má sorte. E eu ávida. Eu talvez feliz por uma almoçadeira na minha frente a fumegar e muitos goles em perspectiva. Não é que me entonteça, um café com leite escurinho esclarece-me, empurra-me. Encho-me de vontade fazer coisas e a vida, sendo a mesma, aparece-me sob ângulo mais atractivo. E uso eu este dia para pôr ordem e algum sentido na casa, que é como quem diz, limpá-la. Por norma, são dias de curto tempo livre. Pequeno almoço e natação são primícias, bens que me esperam, certezas amenas que abro na barafunda. Mas hoje é uma sexta feira especial, terminá-la com um bailado não é vulgar.
Há dois anos que não via mãos e braços de bailarinas a agitarem-se como corpos independentes, que não lhes sentia os passos leves e de imperceptível som. Dois anos sem admirar a elegância alada dos bailarinos que saltam metros como se um vento os puxe e empurre. Dois anos sem eles na minha vida é intervalo comprido e quase sacrílego.
Mas antes de vê-los, passeei pela Baixa em conversa, a admirar as iluminações de Natal. E vi e atravessei aquela árvore do Terreiro do Paço que diurna me assusta e nocturna é tanta lâmpada colorida. E entrei na Confeitaria Nacional que, não desfazendo, tem óptimo serviço e onde aproveitei para perder um saquito. E, quem sabe, podemos repetir que, muito importante,  descobri uma companhia agradável e delicada...
Lamento, mas não sei descrever as imagens de Lago dos Cisnes. Sei que cada vez é sempre a vez primeira. O mesmo desconcerto. A mesma beleza extasiante.
E Pronto. Lá se vai o segundo Calendário de Natal

sábado, 29 de dezembro de 2018

Dia Vinte e Sete


A normalidade é grande coisa. Acordar e sentir o corpo vivo e a querer mexer-se, é bem maior. Tomar o pequeno almoço e sentar-se uma pessoa a escrever, por exemplo. Ou perder-se em leituras enquanto espera que nasçam as horas de toda a gente. O regresso aos hábitos tem a sua sedução, traz o tempo livre que,  pouco ou muito, é livre e tão e pessoal que ninguém o disputa (seria alheio desperdício do querer). Quanto se corre para ganhá-lo! Convenhamos, tudo na vida é produto de esforço e, quem sabe, mais nos vale por isso mesmo.
Por mim, anima-me a possibilidade de criar o alimento diário. Como jardineiro que planta e espera colher, assim eu. Desde o despertar que escavo, adubo, ancinho e planto; vou regando ao correr das horas e se almejo tempo só meu, exulto. Então, desce sobre mim não o espírito santo, mas alguma aprazível beatitude – talvez a origem do meu nome pequeno – que mais parece transcendência religiosa, instauração de tempo diferente e originário dentro do quotidiano.
Sem um pé fora de portas e até sem quase me mexer, salva-me a perseverança nesses relâmpagos.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Dia Vinte e Seis


Oh céus como me apetece dormir um dia inteiro. Dormir sem horário, até não ter sono e o corpo me suplicar movimento. Levanto-me a contrariar a inércia, cheia de vontade de voltar a deitar-me. Desço sonâmbula e sento-me obtusa frente a um chá que aguarda torradas. Na rua o sol, o movimento automóvel, a vida que recomeça. É cedo. A máquina de lavar sacode-me o torpor pensante, rrre, rrre, rrre, toda pernas e braços que enlaçam e deslaçam girando no tambor. Por dentro de mim, o pensamento a engrenar, rre, rre rrre, a minha vida no tambor, anos e anos de tambor. Até ao stop. E portanto, como ainda não stop, lavo e estendo e apanho e dobro. E o dia escorre vagares sol afora, até enviesar num remate de nebulosa húmida que cola aos sapatos. Invejo a roupa que repousa em cheiro perfumado. Vou pela janta para os meus meninos. E gosto que gostem e lhe encontrem sabores. E depois sentamo-nos à lareira e não coalho que já os olhos se me fecham.

Dia Vinte e Cinco


Quanto esforço para me levantar! Pesa-me o mundo no corpo. E não há a abébia de um café. Hoje, é a seco e sem cachecol. Ponho os pés no tapete porque tem de ser e quero que seja, a minha visita de estimação vai sair cedo, tem mais de seiscentos quilómetros pela frente e amanhã é dia de trabalho. Desejo preparar o pequeno almoço e estar com ele até ao limite, vê-lo entrar no carro e baixar o vidro para adeuses de boca que fazem perto o que vem ainda longe. Que a alma de quem parte está  na estrada antes do tempo; ainda o corpo se senta e anda pela casa, sorri, e já ela desenrola o alcatrão, a cidade um pontinho longínquo. Ajudo com a bagagem e fico a acenar para ninguém. Bem o conheço;  em cada vez, repete o desenho: um perfil imóvel a desaparecer na proximidade da curva. Não sei que nó me aperta na despedida, mas é coisa dolorosa, de querer e não poder, espécie de inconformada submissão à realidade.
Em casa, um insanável mar de desarrumação. Para onde se olhe não há lugar vago ou com acerto. Tudo são papeis, cadeiras e mesas em cambulhada, uma cadeira mais idosa mirando travessa quase partida, se soubesse que íamos acabar assim não tinha vindo, já não tenho idade para estes folguedos; talheres inquisitivos, limpos mas desirmanados, então a caixa, que é dela, queremos hibernar; travessas em lágrimas, ansiando regressar à família, quero as minhas manas; o chão tristonho e carregado do que não lhe pertence, fitas e laços, fita cola, envelopes, uma mola de roupa pequenina com um pai natal em hélice que acena desvairado, perdi-me da prenda, e agora; O lajedo estranho de tanta contenda, mas isto é o quê. E eu, não amofinem, tudo se resolve. Sequei lágrimas de travessa e levei-as em mão à família. Requisitei ajudantes para devolver cadeiras e mesas ao sono do sótão. Emparelhei os talheres e acondicionei-os em silêncio de hibernação. Guardei papeis e sacos - há mais natal para o ano - e tive o cuidado de agarrar o pai natal pequenino a um saquito particularmente bonito. Depois de idas sucessivas aos lixos separados, o chão voltou a si mesmo.
 A lareira crepitava para almoço de sobras que ficou pronto num rufo. O mundo da cozinha ainda em polvorosa levou um toque que durou horas. Havia ainda as visitas do fim de tarde e que ficam para jantar. E portanto, um jantar para nove comensais.  Sem o benefício das sobras. Mais horas de cozinha. Talheres, pratos e copos separados, fui sentar-me na sala esperando as visitas. E foi num cansaço desabado que me encontraram cinco minutos depois.  O jantar correu bem e foi do agrado geral. Mal saíram, limpei a mesa e desisti do estado consciente.

Dia Vinte e Quatro


Em vésperas de Natal, não desarrumar a vida dos residentes mercê das visitas não pede apenas tacto, antes demanda trabalho extra. É como um desdobrar do vagar de estar, em tempo de varredura de intocável. Há que retirar as pedrinhas que acumularam libertando a roda do quotidiano e aprumar-lhe o giro manualmente. Portanto, no dia D, amanheço invulgar e cansada. Um café matinal predispõe-me à luta, encosta às redes a canseira do dia anterior e dá-me outro fôlego. E, very helpfull, barra-me o sono.
Desdobro o meu ajudante avental de Natal e, no silêncio da casa, dedicamos as últimas atenções ao mundo da lavandaria. Depois, ultimo compras de festa. Corro supermercados por mor de pormenores e noto a ausência de tanta gente costumeira. Será mais avisada que eu, não esquece ou adquiriu atempadamente os esquecidos. Ou vai consoar fora de casa. Ou apenas decidiu levantar-se mais tarde por ser Natal. Em casa, a família à mesa. Tomo o segundo pequeno almoço e faço o último doce enquanto preparo uma refeição rápida, as atenções viradas ao jantar. De tarde, arrumo os presentes por sector: sobrinhos,  irmãos, tios, casa, e ligo os brilhos da árvore de Natal. Quedo-me um pouco a olhá-la antes da confusão. Tão bonitinha e desafogada em suas luzes fixas desafiando parceiras de borbulhante inquietude. E, bem o sei, não são apenas os meus olhos que estão nelas. São também os olhos de minha mãe e meu avô que nunca enfeitaram um pinheiro, não o viram cheio de brilhos e tecnologia e se abismam na maravilha. Deixo-os entretidos – têm vagar – e rumo à cozinha. A abóbora escorre no prego, os galos estão temperados e prontos à fervura. Há o telefone que chama e o telemóvel que pede. Os manos põem a mesa pedindo isto e aquilo de que não sabem lugar ou uma opinião sobre copos. Entretanto as janelas embaciam, o fogão sua por todos os lados. Ele são os tachos dos capões, as batatas que assam e as que fritam. Minha irmã chega com a travessa de bacalhau no forno e os doces combinados. Ata o avental e dedica-se às saladas: a de fruta e as outras. Desprendo a abóbora escorrida e ela prepara a massa enquanto lhe passo os ingredientes a meias com o acerto dos lumes e a visita às panelas que apuram a carne. Meu primo anda contente de um lado a outro. A minha irmã mais nova chega com as entradas prometidas e o doce. Começamos os fritos de abóbora e aquecemos o bacalhau. Oiço a algaraviada dos primos na sala e os sobrinhos vêm até à cozinha para um beijo com aroma. Minha mãe desvanece com eles. Na sua pacatez, meu avô apenas sorri. Vindos da sala, os gritos de meu pai que se zanga com o inquilino a cinco quilómetros de distância. Os netos sorriem. Minha mãe baixa os olhos e leio-lhe na expressão, “tanto tempo e tão pouco mudou”. É Noite de consoada e os netos, deixe isso avô, venha aquecer-se à lareira.
Começa o jantar e todos estão alegres. Entre trazer pratos e retirá-los mal tenho tempo de sentar-me e provar, que só no dia seguinte as refeições me sabem a elas. O ambiente é ameno por dentro e por fora. Quanto gosto de vê-los assim juntos à conversa. Minha mãe sentou-se à lareira agora deserta, ajeita um tronco, aviva as brasas e murmura, esta lareira sim, não é fumosa como era a nossa. Sobe-me uma vontade de ir por ela, pôr-lhe um agasalho pelas costas, dar-lhe o beijo de sempre, apertá-la a mim e repetir, gosto tanto de si, mãe.  Mas não posso. Bem sinto que se despede, meu avô partiu já.  Vou até à cozinha, limpo uma loiça e enfio-a na máquina. Quando regresso o lume arde sozinho e espevitado. Todos falam alto e mastigam e bebem. Haja alegria.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Dia Vinte e Três


                                                                                                 
“Viver de amigos” foi expressão que li em algum lugar e se referia à miséria de Luís de Camões no final da vida. Portanto, queria dizer que Camões estava à mercê da caridade dos amigos, não possuía qualquer tensa que lhe providenciasse as necessidades.
Para além da injustiça que hoje me sobressai, aos treze anos apenas me ressaltou a beleza da expressão. Na minha mente fez eco aquele “viver de amigos”.  E logo lhe ampliei o sentido. Significava viver para e pelos amigos. Como se, cansado do tumulto das paixões e da multiplicidade dos riscos que antes buscara, bastasse agora a Luís de Camões descansar à sombra das amizades.
Sem o saber, estava traçando para mim mesma um caminho. Ou talvez ele tenha estado sempre lá, esperando pelos meus pés de devaneio. E não seja eu a buscá-lo. O inegável é que sempre vivi de amigos. Umas vezes no sentido literal e de cariz económico; noutras, no sentido ampliado do meu coração.
Talvez seja sob este fundo que os recebo em casa e desejo agradar e estreitar os laços que nos unem. E sobre esta verdade, recebo pontualmente e em cada Natal, uma visita que é um presente ao coração. Trocamos prendas e, sobretudo conversamos, que é como quem diz, eu oiço bem mais do que falo. Desvaneço a ouvi-la, essa é que é a verdade. Como a gente se sente bem quando pensa que há-de haver alguma coisa nossa por dentro daquele pensamento independente.
E depois chega a minha visita de longe. Cansado. Alegre com fundo triste. Mas é Natal e estamos juntos.


Dia Vinte e Dois


A primeira vez que li sobre castas indianas quedei estarrecida com a noção de impureza em que se baseiam e que não sei quem criou, mas há-de ter sido um homem;  nenhum deus, por menor que seja, conceberia tão ignóbeis diferenças entre seres humanos. Foi com sumo interesse que li sobre os  intocáveis (dalit), seres que, como o nome indica, não podiam relacionar-se com outras castas por serem indignos e tão impuros que na sua presença recuavam varrendo o chão que pisavam, apagando assim o vestígio dos passos. Hoje é diferente. A lei aboliu o sistema de castas e é respeitada nos meios citadinos. Mas a extensão da Índia prolonga a crueldade do preconceito em zonas rurais.
Pergunto-me às vezes se, na vida familiar das mulheres portuguesas,  não existirão também vestígios das absurdas regras dos intocáveis. Vejamos, se um homem sai a passeio, apenas sai. E por tal razão é, por regra, pontual, sai quando sai, chega quando chega. É fácil desprender-se daquilo a que nunca esteve profundamente ligado. Mas a mulher sai e passeia com a casa nas costas, que é como quem diz, deixa tudo em ordem para quem fica. E é bastante. Mais: quando regressa, trata, como os intocáveis, de apagar a saída. Varre os próprios passos. Põe tudo tão no lugar que parece não se ter ausentado.  
E, portanto, recuada à função e cumprido o papel de intocável, selei o dia com um arroz doce de mexida bem lenta. Sentada num banco alto junto ao fogão.  Ajuizando sobre a magnitude da vida moderna.


sábado, 22 de dezembro de 2018

Dia Vinte e Um


As sextas são dias aziagos que nem um café e uma dose de natação resolvem. Mas o serão compensou. Porque gosto de música. E porque foi, inesperadamente – nunca sei o que me espera nestas programações de Natal -,  qualquer coisa muito bem disposta. Devo dizer que não apagou sessões natalícias anteriores. E que as preferi. Porque sou tradicional. E os cantares natalícios me dispõem bem. E porque não aprecio grandemente gags e outros apaniguados do riso. Mas talvez precisasse rir. Rir dilata-nos, desentope o ânimo e cria espaço que não pensávamos ter. E portanto, liberta.
Espectáculo nada enfadonho. Movimento, habilidades e mesmo mestria foram ingredientes muito usados. E a orquestra entrou no jogo, vestiu-se de acordo com a comicidade, foi travessa e participativa que até música celta – tanto do meu gosto – dançou.
Encantou-me o pianista quando tocou Rachmaninoff. Mas, por ser espectáculo de toada bem disposta, Rachmaninoff durou pouco, limitado a introdução melancólica e linda para qualquer peça engraçada que já esqueci.
De tudo, guardei os dois intervenientes principais, um pianista e um violinista que sabiam vários ofícios e comandavam todo o espectáculo musical. Mas tenho de dizer, tive saudade de uma ou outra canção de Natal. Faltou-me o coro da Gulbenkian. Ok, foi uma variação.
Para o ano há mais. 

Dia Vinte


O espírito de Natal entrou no quotidiano. Há mais paciência nas filas para a caixa, lembramo-nos que a pessoa atrás de nós só leva duas unidades e deixamo-la passar à frente, sorrimos e desejamos Boas Festas a quem se cruza connosco. Na rua, uma primavera friorenta sentou-se e cruzou a perna, diz que fica, pelo menos, até ao nascimento do divino bebé. Os mais antigos olham árvores de natal king size, plantadas bem a meio das praças, e estranham a diacronia climática enquanto as pistas de patinagem e neve artificial enchem e proliferam. Alguns abanam descréditos com a cabeça resignada, a murmurar por entre as faltas de dentes, a vida já não é o que era. E não é mesmo.
Tudo passa como em écran, coisa exterior que não bole comigo. Mas tu chegas e penso na árvore que anualmente enfeitavas. Julgo que te não importes de continuar. Peço. Fazes cara feia. Estranho. Pergunto admirada se não gostas de a fazer; e tu que não, não gostas nem um pouco. Sorrio e penso que a fazes há mais de vinte anos, começaste comigo, terias três anitos esticados em bicos de pés para colocar uma bola ou pendurar uma maçã nos ramos mais baixos da árvore. Certa vez, interrompi a cerimónia e quando voltei tinhas colocado todos os enfeites no rés do chão do pinheiro. Depois, fui-te deixando sozinho, a vigiar-te da porta sem ser notada. Até que apenas te dizia onde estavam as caixas e tu tratavas de tudo. E afinal, não mo disseste antes, mas não gostas. E agora que sei, respondo que a faço eu. Creio até que peço desculpa por não ter notado que a fazias a contragosto. Não acrescentas e não volto a pensar no assunto. Mas de repente já estás na sala rodeado de caixas, a árvore no sítio e dentro de um vaso. Colocas as bolas, vais pelas luzes que apagam e acendem, programa-las e pões a piscar. Sem palavras, fazes o meu Natal. O que eu gosto de ti, meu raio de luar! Tanto, que tenho medo que tropeces até mesmo numa gota de água (o poeta bem o sabe).   

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Dia Dezanove


Enviámo-nos mutuamente uma prendinha.  E embalagens chegadas a destino diverso, fizeram-no quase na mesma hora. De modos que ligámos uma à outra a agradecer. Temos destas sincronias. Não é a primeira e nem será a última. Porque nas vésperas vou estar muito assoberbada, já nos festejámos e desejámos Bom Natal. Tu reúnes o teu núcleo próximo, tens uma ajuda preciosa que nem se sabe quem ajuda quem, são poucos comensais e apenas uma refeição de festa. À vista do meu abuso é um quase nada. Mas bem sabes o quanto preparo a desbunda de navidad. Este ano não contámos uma à outra os doces que tencionamos levar para a mesa, costumas encomendar o tronco de Natal e fazes toucinho do céu e mexidos. Em minha casa e a pedido não há tronco de Natal, preferem a torta de chocolate sem cobertura. Depois há os fritos de abóbora feitos imediatamente antes de servir o jantar, o arroz doce, um bolo de natal caseiro e com frutos secos em vez do bolo rei que poucos apreciam mas encomendo na mesma, os pasteis de grão e as filhós que também vêm de fora e dois doces de colher feitos na manhã de vinte e quatro. Mas os doces são mais à frente.
Hoje há o meu pai aflito com os valores elevados na análise e o seu receio da morte a trovejar contra o médico. Habita um mundo cheio de culpas e castigos que sempre sacode e nem admite haver o que apenas calha assim, tudo é má sorte, invejas ou culpa formada e sedimentada de terceiros. Mas depois abranda e faço o convite, que já sabe mas gosta de ouvir, para passar connosco a consoada. Promete não faltar. Lá fora faz-se noitinha, está húmido. Já desço a rua e ele alerta, desconfiando que me esqueço de fechar o portão.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Dia Dezoito


Há dias de chuva que pouco aproveitam. Por serem de chuva. Mas, se dias amenos e solarengos, não seriam melhores. São horas comprometidas com o  difícil e somos salvos pela efeméride temporal; como tudo que existe, passam rápido.
Salvou-se talvez a dedicação ao Natal: as cartas e cartões que enviei de uma estação de correios quase deserta, os envelopes almofadados a protegerem objectos sem valor. E tudo sob a persistência da chuva.
E portanto lá vão as minhas pobres lembranças ao encontro do destino, misturadas com algumas outras – ou dão-se menos presentes, ou os serviço dos correios está em desuso. Tudo encaminhado, há que atender à casa que grita pelos cantos, ai quem me acode, estou a ver que este ano ninguém se lembra de mim em condições de luzes e bonitezas. E ainda detalhar refeições de vinte e três, vinte e quatro e vinte cinco, datas de início das visitas. É muita coisa, mas agora vou descansar a meninges e o resto.



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Dia Dezassete


A dedicação é uma palavra antiga, algo fora de moda. Hoje, as pessoas não se dedicam, amam ou odeiam, apaixonam-se e desapaixonam-se, adoram e detestam, curtem e descurtem. E a dedicação transitou para  o mundo da domesticidade, os cães são dedicados, alguns gatos também e conheci duas lebres dedicadíssimas.  Nos tempos que correm, ser dedicado não é bem visto, fica mal, é a assumpção de uma espécie de subserviência que todos sacodem.
A dedicação humana é uma constância sugestiva e branda e acompanha os sentimentos maiores, qual fibra resistente que entrelaça para que não sossobrem à primeira ameaça de temporal. Poderíamos supô-la uma forma de tenacidade, e sê-lo ia se não falássemos de sentimentos. Talvez no mundo da ciência a dedicação se chame tenacidade. Na vida quotidiana vai mais além, é um altruísmo que não desiste. Sem ela, amor, amizade, apaixonamento, depressa esburacam e rasgam.
Dedicada ao Natal, gastei-me no alinhamento e embrulhar das prendas, na busca de endereços esquecidos, contagem de cartões, e todos os pequenos pormenores de verificação que são anteriores ao envio.  E amanhã há-de haver mais do mesmo, que a função ficou incompleta. Oxalá cheguem atempadas ao destino, que é como quem diz, antes do dia 25. E aqueçam o coração dos meus amigos.


domingo, 16 de dezembro de 2018

Dia Dezasseis


Ao longo dos anos, vamos aprendendo que a lei da vida é também a lei da morte. Lei que o Natal se apresta a lembrar. Sobram cartões de Natal. Há endereços que se riscam porque os visados moram num lugar de pedras e jarrinhas sem serviço de correios. Outros perderam-se de si e estagnam isolados num lar de idosos, o olhar baço para as visitas, quem é, não conheço; ou a mente a desculpar-se, perdida no desgosto de há trinta anos, a mente recuando ao tempo da utilidade e  ao filho que falta, tenho de ir, o meu filho tem hora certa para almoço. Mas ir onde, senhora, se as pernas não a aguentam. E há aqueles que, simplesmente, deixaram de responder, o último cartão anunciando a despedida, caligrafia hesitante e a cair de si abaixo, estou mal, custa-me escrever.  Os que a velhice fechou numa redoma, não ouvem o telefone nem a campainha da porta e desinteressam-se do mundo. Mas há também aqueles que talvez esperem os nossos desejos postos em arabescos de tinta permanente e fechados num envelope como se sejam segredos, quando são apenas votos, abraços e beijos por escrito. E contudo esse inviolável da correspondência tem qualquer coisa de intimidade. Há uma terna elegância no serviço dos correios; transporta e traz a casa recados que vêm de longe, e garante a confidencialidade de um emissor para um receptor. Que bonito haver um serviço desta natureza!
         Hoje foi o dia do primeiro embrulho de Natal e da primeira prendinha – que não abro senão na manhã de 25. No emaranhado de livros e cartões, há duas lembranças em falta e o tricot espera o remate final. Para lá disso, há futuras prendas por todo o lado, papel de embrulho, cartões, endereços, tesouras, fita cola. Deu-se a invasão da desordem de Natal. Socorro, Ó, Socorro.  


sábado, 15 de dezembro de 2018

Dia Quinze


Durante anos aguardei que o espírito do Natal entranhasse para começar a enfeitar a casa. Havia um momento em que se dava o clic e entrava no modo de Natal. Mas, a cada ano, o momento atrasava. A vizinhança repleta de pais natais trepando pelas varandas em risco de vida; azevinhos de faz de conta em eterno viço, cómodos e sem espinhos; portas de entrada coroadas e altaneiras como rainhas em trono; neve carbónica arrasando nos vidros de janela e elas toleironas, não parecemos nórdicas...e a minha casa emburrada e triste. A destoar. Este ano resolvi, não espero. E se ele não vier, e se tanto se atrasa que chega a vinte seis ou vinte e sete, o que é que eu faço, atraso o Natal um dia ou dois? Pois, não senhor.
 Coloquei alguns enfeites e não lhes noto diferenças. As coisas, digo eu, são pacíficas e não necessitam uma aura especial. Nós é que sim. Citando o meu mano caçula, o espírito de Natal é “a kind of magic” que nos abre aos outros naquela noite diferente. 
Na cidade, bares e cafés cerram portas; pelas ruas, depois das vinte, não há um rodado. As famílias juntam-se na consoada a festejar e fortalecer os laços que as unem. A saudade dos que partiram por ali se passeia apaziguada, é talvez a sua presença indelével, carinhosa, apreciando as mudanças, dando amorosa conta dos novos membros. Em cada núcleo, a luminária das crianças e jovens resplandece. E quando eu disse a um amigo, “somos velhos e as crianças na nossa família estão de resto”; ele, “qual é o mal; depois, somos  nós as crianças”.
  Este ano o saco das tintas e cartões de Natal desapareceu e não deixou rasto. A intenção também conta. Etapa vencida, estão prontos para o marco do correio que é como quem diz os envelopes de correio azul que ainda hei-de comprar.

Dia Catorze


A crónica de Lobo Antunes na Visão desta semana conta a exteriorização do desgosto do pai na morte do avô. Aborda a linguagem do pudor quando o pesar sufoca. Desde a morte ao final das cerimónias fúnebres, usou óculos escuros. Em casa e na rua. E, depois de tudo terminado, Bach na versão para órgão, abanou, durante horas, as paredes de casa. Pensei em ti. Que terás feito nos teus desgostos maiores. O pai de Lobo Antunes foi de uma elegância fidalga, coisa de linhagem integral. Bom.
Antigamente, o desgosto popular existia sem óculos escuros e ninguém os lembraria se os tivera. O povo era atropelado pela morte, ficava um farrapo indigno, amálgama informe. Dignidade afirmava-a no parecer, fazer da fraqueza força e continuar caminho. Gente vulgar adapta-se sem lutos caros e não consulta especialistas do desgosto. Uma vez disseste que o pé te puxa para o chinelo; julgo eu que  o chinelo na altura não gostou muito. Serás no desgosto assim a modos que popular. Ou haverá em ti essa subtil aura de ser outra coisa, uma diferença que releva tanto da educação e do meio, como de ti no mais nu que de ti existe.
A minha tragédia escreveu-se em vários actos e pouco lembro as horas fúnebres. Tenho ideia do pensamento a querer adaptar-se e do corpo um autómato obediente. Mal tudo terminou, eu e minha irmã seguimos à pressa para a escola, gastos que estavam  os dois dias de faltas. Luto carregado. No resto, a vida normal.
Ontem recebi dos meus irmãos uma prendinha tão doce que não resisto a mostrá-la. Diziam eles entre si (conversas de whatsApp), que o Natal é uma data especial, a “kind of magic” que lhes vem da infância e fui eu que plantei. É bem capaz de ser a minha melhor prenda de Natal:)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Dia treze



A chuva nocturna não encanta só os poetas. Depois de um dia de trabalho, a salvo da intempérie, é agradável ouvi-la. Que bom escutar-lhe os passos  sabendo que é água que cai e não molha, o som abafado das gotas em vidros e portadas sugerindo repouso e pausa. Se a noite debulha em lágrimas que escorrem pelas ruas e empoçam, quando o mundo brilha de humidade líquida, o habitat caseiro devém casulo rodeado de água; é fixa arca de Noé.
Chuva é exercício de melancolia da Natureza, mas nunca será tristeza. Água de chuva é transparente purificação do mundo, lavagem de todas as coisas e morte de seres nocivos e microscópicos; mas também alimento e reviver da germinação. E quem não gosta do cheiro da terra molhada.
Chove-me na alma quando e se tenho alegrias do coração. A par da melancólica certeza do tempo, geram-me novos apetites, revitalizam a vontade, soerguem a esperança. Dou-lhes almoço, envio jantares, busco pela casa os mimos que fui guardando, memória incerta das mãos a palpar gavetas. E quando vão à sua vida, quedo-me contente de ser útil e ter a suprema chance de ver o futuro acontecendo. E dou lugar.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Dia Doze


O dia apareceu embrulhado em nuvens, sem gota de sol. No ar quase morno da manhã,  a humidade escura que precede o espírito da chuva. Os prédios sem um aceno, quietos na fixidez cinzenta, uma mansidão expectante no recorte das árvores. Dissolvida no chão que geme água, a resistência das últimas folhas. Aqui e ali, gente esgrouviada, roubada à cama por relógios fisiológicos presos à trela. Gabardines sobre o pijama, sweats com o carapuço puxado à testa, o fumo que sobe de um lenço e rolos indiscretos, alheio ao cão que encomprida e todo se estica num parto doloroso de nado morto. Mais à frente, a montra iluminada de estabelecimento madrugador, apetece. O odor quente do café chama os passantes. Mas há a zunida dos transportes, a bica tomada à pressa, um ou dois casais que mastigam, uma garota magra que tamborila no balcão, rabo de cavalo farto e insubmisso a uma confusão de ganchos, uma data de anéis pequenos que se escapam e lhe dão graça ao rosto. Terá treze ou catorze, esta libélula sem artifício. A graça desajeitada dos membros, a palidez afilada das mãos, certo jeito de gazela assustada, destacam-na. Ainda não a veste a vaidade juvenil das formas redondas, tudo nela se prepara, nada é definitivo. Faz bem à alma vê-la assim, mochila às costas e embrulhinho a sumir no bolso do casaco, o andar desengonçado e inconsciente de si e do bem que transporta.
Logo ali, o metro é íman que engole pressas e vagares. Indiferentes ao bulício, dois homens descarregam caixas de fruta  de uma camioneta junto ao passeio e alombam com elas até ao  supermercado.

  

Dia Onze


No quadro de afazeres e compras, a minha nabice a conduzir em Lisboa força-me a consecutivas viagens de Metro. O metro é bom espelho. Ali estão os olhos postos no telemóvel e auscultadores, mundo encolhido à unidade; estão o bocejo sonolento dos estudantes e o encanto de crianças matinais; as jovens pestanudas, assustadoras, olhos cercados de patas de aranha; e as unhas oblongas das meninas cliché, tão artísticas que surpreeendem; as perucas das africanas, lisas, em caracóis largos, com madeixas, cheias de trancinhas, esticadas em carrapito, presas em airoso rabo de cavalo, caindo soltas pelos ombros. A coisa está  de tal ordem que começo a gostar da carapinha natural. Se entra grávida, mãe ou avó que acompanhe criança pequena, as pessoas de cor, automáticamente, levantam-se e cedem lugar. As pessoas de cor que têm aquele ar de trabalho pesado e difícil, não o estudante, o jogador de futebol, o praticante do desporto x ou y que segue muito fashion, saco a tiracolo.  São as mulheres a dias, as que se esfalfam o dia todo nas cozinhas dos restaurantes a lavar loiças eternas, raspar pratos, despejar caixotes; são os homens que carregam saco de almoço, homens das obras, motoristas de empresas, paus para todo o serviço.
Vi o indiano de turbante levantar-se e dar lugar a uma criança. Lá à frente, um africano que se ergueu para sentar uma velhota; e também vi os olhos indiferentes da maralha, os olhos-avestruz que não queriam olhar, os olhos enfronhados em geringonças modernaças que nada viram, nada vêem e muito perdem. E vi o velho que entrou vacilante, trôpego e sem lugar; vi-o encostar-se na parede do metro a esquadrinhar melhor amparo. Tanta gente nova sentada. Ensimesmada em si, ou apenas couraçada contra terceiros. A distância aos outros é um tal pontapé na educação que me perguntei, mas que raio andamos nós a fazer desta gente?! É que, supostamente, somos todos iguais no nascer e no morrer.


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Dia Dez


A manhã é amena e nadar apetece. De caminho, compras.  Já em casa, os preparativos: refeições de ficar e levar; ingredientes avulsos que arruma no saco sem esquecer o que vai a pedido e uma ou outra falta que a mente lhe puxa; e os mimos  de trazer por casa, prazeres caseiros tão comezinhos e necessários ao bem querer. Durante a refrega, orienta o almoço, acomoda a roupa engomada, organiza  a máquina de roupa. E enquanto a sopa coze e o grelhado fuma, quem passe vislumbra-lhe a silhueta na bancada feita poleiro, por detrás da janela da cozinha. Retira o cortinado e coloca o folho de Natal. Na copa, escadote em punho, toda a janela se enche de sinos minúsculos que, postos a repicar, fariam um chifrim dos antigos. Deixo de vê-la. Talvez almoce. Mas depressa ganha a rua. Recolhe as peças no estendal, varre as folhas do alpendre;  carrega a mangueira e posiciona o carro, é hora de limpeza. Depois abre o capot e verifica o nível do óleo. Partir: sacos e malas de cabeça erguida, em utilidade vaidosa, o abafo atirado ao banco traseiro. Reentra. Surge minutos depois. Mudou de roupa. Arranca. Ficou o cão a olhá-la em despedida e, ao rés do lava loiça, um amuo calado. Mas o  presente é caminho, fita negra que se estende em evasão.  
A sorte de sair do lugar dá a mão à má sorte de consultas médicas no horário de uma apresentação de livro que faria gosto em ver. Paciência. Quem sabe haja tempo para o concerto de entrada livre.  Vãs tentações. Primeiro a consulta atrasa e a apresentação esfuma. Depois, o atraso encomprida e nem o concerto que parecia tão à mão. Valeu que no intervalo inesperado saiu em busca de presentes. Chegou carregada de contentamento, mas três andares de contentamento e sacos plásticos pedem suor extra. Oxalá as prendadas gostem. Que vestir e despir peça atrás de peça, passá-las a pente fino até decidir, é coisa de amor paciente. Mas não garante resultados.
O jantar é tempo ameno, tão igual e costumeiro que engole distância e tempo. Lembra-se dos versinhos de Torga e duvida que a vida embeveça ou sequer  páre a ver. Mas  ela é a mãe ovelha que desvanece  no retoiçar do filhote.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Dia Nove


 Há dias que são apenas escorrências de cansaço, coisas de nada que empatam e a que não damos nome porque nome não têm. Gastam-se horas triviais e, na agastura do dia que se foi, sopra um relento de desgosto. Coisa pouca, talvez apenas o friozinho desconfortável de sabermos que não voltamos a ele. Mas a verdade é que não voltaremos a nenhum dia, a linha da vida não é circular e tudo é perda irremediável. 
Quem sabe, podemos aproveitar certo ar de Natividade dependurado no estendal, o vermelho dos laços que é ainda largura de fita, os cortinados com sinos dobrados sobre si, os folhos em verde e vermelho. E o cão à beira do varal, especado. Intrigado pelo excesso de garridice que areja e se meneia em álacre contentamento. Mas a filosofia canina faz-se de sol e preguiça e basta-lhe um troço de chão onde cruze patas e poise focinho. A imagem lembra-me o pensador de Rodin. Talvez pela diferença específica.


domingo, 9 de dezembro de 2018

Dia Oito


Em dia de Inverno sem nuvens, a gente põe roupa a secar, apanha e guarda um solinho na alma e faz o que tem a fazer.  E depois há o que não tem de fazer mas também faz, a impulso do dínamo solar. O mundo parece alegre. Quase nem nos lembramos que dantes, há muitos anos, hoje, era Dia da Mãe. Antes pensamos que  às portas do inverno, dias amenos e quase primaveris rareiam. Festejemos, pois. Iniciei a comemoração na Refer, os comboios voltaram  a ser eles.  E enquanto anoitece, há passeios pela Baixa no meio de brilhos e turistas e tanta luz de Natal encadeada. Já não há carrego de prendas, mas em todas as ruas se ouvem espanhóis, linguajar tumultuoso, decibéis acima da média. Famílias inteiras de espanhóis, três gerações; e garanto que os avós não eram os menos contentes. A proximidade geográfica não nos fez parecido o carácter. Atravancam as nossas ruas  para eles estreitas e ainda assim caminham em algaraviada paralela. Sentam-se nos nossos restaurantes e degustam os nossos petiscos bebendo do nosso néctar. É o turismo. Claro que, no Bairro Alto, também se encontram inglesinhas adolescentes;  deslocam-se em grupo e são bonitas e elegantes mesmo de ténis.
         E depois um Carlos Mendes esguio, um je ne sais quoi de dandy, talvez o casaco à beatle que lhe assenta como a qualquer Paul McCartney. Ou o chapéu. Ou o cachecol. Enfim, ouvir  e acompanhar “Amélia dos olhos doces” que tanto se cantarolou pelo país, ou “Ruas da minha cidade”, foi um gosto dos antigos.  Anos a fio as cantei com quem esteve a meu lado, foi revivalismo o que ali nos levou. Que pena não ter cantado  “nocturno”. Porque a poesia de Joaquim Pessoa lhe fica bem à voz e a mim unguenta a alma por sempre me parecer coisa próxima e bem dita. O cantor perdeu cabelo e algumas notas musicais, mas consegue ainda aqueles agudos difíceis (não são canções fáceis).
         E depois saímos Lisboa fora a rememorar. Em passinhos pequenos, de bebé, a encompridar o curto caminho de estarmos juntas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Dia Sete


Quando as manhãs se apresentam pejadas de condensação e o mundo é pintura nebulosa sei que um manto de gotículas esbate o colorido das plantas  e lhes pendura os braços no desconforto de corpo que escorre a espaços. Gotas que engordam, resvalam e se perdem  no molhado. Queda surda e inevitável. Nesses dias, penso em coisas quentes. Não em abafos ou lareiras. Nos sentimentos que nos aquecem e relacionam e na necessidade de deixarmos nos outros algum calor que permaneça. Talvez seja vaidade, desejo de permanência, qualquer interesse subjectivo e kantiano que suga todo o mérito ao que penso e faço. Talvez que um corolário da minha própria vida, coisa de razão necessária e suficiente. Os estudos e estatísticas dizem que os pobres dão mais que os ricos e mais se compadecem. Por que não?! Certo é o fincapé  sobre a insuficiência de alguns actos reduzidos à vez original. No meio da névoa além janela, a claridade mental: o que não tem repetição não chega a ser um bem, que nenhuma solidão se mitiga numa visita única ou em encontro irrepetível. É preciso repetir, re-repetir, até criarmos no outro e em nós a certeza do interesse mútuo. Há-de haver quem o diga melhor que eu, a influência do café e da barrela das sextas feiras não garante coisa nenhuma. Mas é isto. Foi a nebulosa exterior quem suspendeu o natal caseiro e me levou a repetir uma visita. Depois, alguém ligou com saudade. E fui correndo. Nova visita. Ambas tão alegres como tristes. O que a gente sofre para morrer, Senhor!
à boca da noite, quem o diria, chegou, de propósito para mim, um longo abraço de Natal:).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Dia Seis


Hoje é dia de S. Nicolau. Se as nozes dentro das meias acontecerem de véspera, como o Menino Jesus português, esta manhã muitas crianças – não sei se também adultos – tinham nozes e outros frutos dentro das meias. Compreendi talvez, hoje, a utilidade daquelas meias de Natal um bocadinho grandes de mais. Verdade, é um bocado tarde para aprendizagem tão básica. Os portugueses não estão familiarizados com este santo e nem parece que venha a ter tanta saída como o S. Valentim que há uns vinte anos ninguém sabia quem era. Quer dizer, eu sabia. Ficou-me das fotonovelas que gostavam muito da data. Lembro uma senhora de chapelinho à Jaqueline Kennedy dizendo através dos balõezinhos das palavras para o motorista Max, uma lindeza de boné, que era dia de S. Valentim. Parece claro, mas não é. Pensei que S. Valentim fosse o nome de  um lugar, a madame queria por força ir a um parque, chamar-se ésse Valentim ou outro nome, era indiferente à minha gestão da fotonovela.
E posto que é Natal: ainda não descobri os lápis, estou a ponderar usar umas aguarelas que me apareceram a pedir água. Embora não seja o meu mundo, se os vagabundos dos lápis não derem à costa, olha, lá vai um borrão em aguarela. Desventrei umas caixas com artigos de Natal e, por amor a quem mo fez, pendurei um anjo em crochet que tem tudo de  fantasma; é esquisito lendo-se o u. Também apareceu, muito bem embrulhadinho, o Menino Jesus número dois, legado que muito prezo e tem três anos em minha casa. Fiquei a olhá-lo que tempos, meio escurinho, em barro tosco. E desejo com muita força que proteja até ao fim quem o trouxe consigo a vida toda.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Dia Cinco


Hoje, cinco de Dezembro, degustei o meu primeiro e único almoço de Natal. Isso. Este ano adiantei-me ao calendário, aos enfeites e ao mais que me compete e fui almoçar fora. No ano passado, por mais isto e mais aquilo, o almoço de Natal, o único que tenho, foi sucessivamente adiado e viu a luz para aí em Fevereiro. Ora isto não se faz, em Fevereiro é o Entrudo, aquela época meio tôla de pessoas que se disfarçam não se entende bem para quê, se cada um é tanta gente todos os dias. Mas pronto, há quem goste de rir a metro e não tenho nada com isso. Repito, um almoço de Natal em Fevereiro, destoa. Viver, ensina-nos uns estratagemas; não aprendemos a não errar mas, por vezes, sabemos como evitar o erro. Portanto, este ano antecipei-me à sorte e antes que ela resolvesse contrariar-me, pimba, restaurante com elas. Ah, ah, enganei-a.
Não havia muita gente, fomos servidas digo eu que, graciosamente, o que vai sendo raro. E não foi caro. Está feito. Novo almoço em Janeiro, a comemorar o Ano Novo. A seguir talvez comemoremos sermos velhas e termos a sorte de chegar a 2019 (se chegarmos, se não...). E depois havemos de comemorar sermos pessoas tão diferentes que gostam de almoçar juntas. E ainda: todo o pretexto que nos lembre.
Ó almoço abençoado! Que vivas longamente e a uso.

Dia Quatro


Hoje foi advento, um advento que o corpo agradece. Talvez não tenha relação directa com o homónimo religioso, mas quem mandou ao Menino Jesus, o das palhinhas e do estábulo, nascer no Inverno?! É que o Inverno chega primeiro e se queremos que o Menino não resfrie, há que cuidar do ambiente que manjedoiras já nem há e os burros estão em extinção; quanto às vacas, suponho que existam nas vacarias, todas empreendedoras, máquinas ligadas às têtas, o leite correndo para um reservatório. Ora quem é que acredita que os proprietários as vão dispensar para aquecer um recém nascido, mesmo que seja só uma e por uma noite. Ná. Temos que ser nós a dar a volta, o passado já não se arranja, acabou. Portanto, há que aconchegar roupas quentes e arrumar as que no verão geravam calor insuportável e agora um friozinho nas costas, um desconforto pelo corpo se as vestimos. Que isto de vestuário tem muito que se lhe diga, são peças cheias de manias e algumas nunca estarão a contento, ora demasiado frias, ora demasiado quentes. Caixas e caixas a transbordar de abafos, e gorros, e luvas, e. Tirar e arrumar tudo, nunca se sabe o que pede o Menino na falta do bafo dos animais. Mas pode ficar descansado que é mesmo só pedir, o que é meu é dele.
E pronto. Foi.


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Dia Três


Há uma face do Natal que abomino: fazer contas, espartilhar, destinar. Somo prendas diminuindo reservas, alargo a margem e os presentes, volto a somar e subtrair. E repito, repito, repito. Invariável, concluo que alguns presentes terão de esperar pelo próximo mês. Guardo a lista que encompridou a olhos vistos e descanso, o pior está feito. Mereço prémio: a partir de agora decreto feriado, fora com decisões de Natal, não me existe o tricot à beira dos finalmente, as caixas de bombons que esperam embrulho, as prendas que aguardam cartões ainda em projecto fugitivo.  
É paz beatífica fazer o que se gosta. Ler. Escrever. Olhar o azevinho cheio de bagas. Sentir o sol adoecendo pela tarde que se recolhe em humidade. Anoitece. Em passinho de bailarina, um véu de névoa abraça as coisas. Aos poucos, o mundo silencia. Penso em quem não tem casa, nos fugitivos, refugiados, sem abrigo. E o Natal, que afinal não me abandonou, pergunta, o que fazemos por eles.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Dia Dois


Há anos que oiço a voz dos objectos. Posso  mesmo acrescentar que os julgo, nesse particular, semelhantes a nós. Confessam-me coisas, conversam entre si, monologam e atrevem-se a disputar a minha atenção. Contudo, fazem uso de suprema delicadeza e não interferem nas minhas conversas com os humanos, ainda que, por vezes, desrespeitem os meus silêncios dourados. Dou por eles a espreguiçar-se quando não devem e, sobretudo durante a noite, passam o tempo a sussurrar, raro dormem sono profundo. O que, bem vistas as coisas, incomoda.
Esta nova disposição sensível trouxe movimento à minha vida sem alteração de rotinas. Portanto: nem fiquei maluca (não mais do que já era), nem houve perturbação de hábitos. É claro que por vezes páro atenta a um pé de mesa enfadado, um toldo desprendido que pede socorro, uma janela desensofrida de solidão. Porém, dada a minha condição, suponho eu que ninguém estranha, sempre fui dada a paragens e incompreensões por demais evidentes para todos excepto me.
Menos exigentes que os humanos, aos objectos basta-lhes a nossa atenção. Não a atenção pueril, uma  atenção sensorial; ora toda a sensação exige contacto e falta de distância. Sentir é ser tocado e tocar algo ou alguém. A sensação é pois uma afectação. Sem mais enredo: estou afecta aos objectos.
Ora bem, neste momento, e mau grado a minha experiência de anos, não tenho tanta certeza sobre a boa vontade das coisas.  É que me fogem sem razão, as malandras. Escafedem-se. Dirá quem leia, e então, que tem isto a ver com o calendário de Natal. Mas é que tem sim senhor. Não sei se por birra ou embirração, pincéis, aguarelas, tubos de tinta de água, folhas de papel, emudeceram. Não há zunzum que os delate, sussurro que mos apresente, exclamação que os descubra. E agora?! Não lhes chega um ano fora dos eixos e entregues a si mesmos numa promíscua misturada. Fazem-se caros. Fica o pedido a quem dê por eles: Voltem que muito os preciso. Prometo guardá-los melhor e em caixa condigna, não me irrito com as bisnagas que secaram, não magoo o papel com a faca de cortar a carne, não ponho os pincéis no caixote do lixo só pelo estorvo de uns pelinhos fora do corpo a borrar tudo.
E por favor não me atrasem o Natal senão não ganham Menino Jesus. Tenho dito.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Dia Um


É público, gosto do Natal, da canseira que acarreta, da salsada de rituais que o acompanham. Ao invés do calvário dos últimos anos - uma espécie de cálice de fel sem fuga -, algumas prendas atemparam, nasceram para mim em Outubro e Novembro. Em boa verdade, a maioria está já em casa esperando envolvências garridas e atamentos de brilho que lhes sorriem intocados, mas presentes. Bem sei que três ou quatro  faltas em breve serão uma dúzia e que refarei contas uma vez e outra e ainda outra, até comprar tudo. Que, por via delas, vou passar horas ponderando artigos e preços. Que é doloroso ver sofrer quem gostamos, mas a fraternidade natalícia é aí mais necessária. Que, mau grado toda a programação, me canso em demasia nos dias da lufa-lufa. Mas tudo isso pertence. Diria mesmo que gosto e, enquanto possa, não pretendo deixar cair um átomo dos nossos rituais familiares (de família alargada e restrita).
Há dias calhei de ouvir na rádio alguém – uma mulher -  que lastimava este cansaço; fazia-o quase como se fora loucura, parvoeira de mulheres que se julgam imprescindíveis e tomam todo o trabalho para si quando há formas de ele se diluir e mitigar. Falou-se mesmo em famílias que optam por fazer o jantar de natal num hotel.
Sei, o Natal não se vive nas famílias do mesmo modo. Não me julgo preconceituosa em demasia, aceito quem, nessa noite, vá jantar onde seja; quem encomende o jantar completo, e há cada vez mais casas que vendem comida a peso e cedo começam a preparar ceias de Natal; quem compre todos os doces em confeitaria; quem...
Mas eu diria à senhora que não somos todos iguais. Não critico outras formas, cada um vive a quadra como pode e em alguns pormenores como quer. Na nossa família nada chega ao cansaço amoroso de ter o núcleo reunido à mesa, a degustar ementa que todos apreciam e desejam; e quase sabem de cor. Feita por nós, tempêros acertados no nevoeiro cheiroso da cozinha, os vidros das janelas a embaciar da condensação. É o amor de três mães o que se estende na toalha. E os mais jovens amam a data, revêem-se nela com gosto desde que se lembram.  Por ela, fazem trocas nos empregos miseráveis de empresas milionárias que não respeitam as pessoas e os seus direitos inalienáveis. Suponho que embeberam o espírito e, num dia não muito distante, criam eles mesmos o seu núcleo de Natal. Onde nós estaremos velando, corpo presente ou ausente.

sábado, 1 de dezembro de 2018

Ode Marítima


A insinuar-se por dentro da música, emergindo do fundo dos mares e oceanos, o unívoco chamamento das sereias, coral encantatório de seres  que se não viam mas dobravam com seu mel a vontade dos homens e o leme dos navios. As ambíguas sereias prometendo o que nunca poderiam dar e, quem o sabe, a alimentar a sua meia humanidade na breve ilusão do canto. E havia o actor que se agigantava na mudez da orquestra, “”eia, eia...” e Fernando Pessoa contente de ser dito em plenitude e entusiasmo lúdico da modernidade. Pessoa pacato e sisudo, que escrevia odes orgiásticas e tão cheias de barulho; e que, portanto, os heterónimos. Tal excesso não lhe cabia, necessitava mais gente.
E as duas harpas soando em brincadeiras e risos de água menina, amplexos de mar no casco balouçado dos navios. Abençoadas as mãos das harpistas, Penélopes do som a entrelaçar mansamente cordas e dedos, num quadro de beleza orgânica. Perfiladas atrás das cordas, espargem séculos de estética involuntária. E no nublado desenho da sua atenção, a sabedoria das mãos faz nascer rios e mares felizes.  Para nós ficou uma doçura de sentimento: o gracioso perfil, a contida delicadeza do gestos e a magia criada.
Lorenzo Viotti, o de sempre. Uma juventude de excepção que não reconheci. Pensei mesmo se seria uso dos maestros calçarem sapato de verniz brilhante. Da imagem romântica de maestro barbado e bonito resta o maestro bonito. Cortadas barba e cabelo, mantém-se esguio e empolgado. Um virtuoso original.
Já em casa, li que a concepção do espectáculo foi de Lorenzo Viotti, o actor era João Grosso e a abertura musical fez-se com, “La mer” de Débussy. Confirmado: a música deixa-se ler.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Ode Marítima


Não sabia o que era a Ode Marítima. Quer dizer, não é preciso ser um expert para saber, é um poema de Fernando Pessoa, figurado no heterónimo Álvaro de Campos. E esse foi o meu motivo para o espectáculo. Comprei bilhete e porfiei por  não saber mais. E ponto. Surpreende-me ó Ode Marítima!
E foi isso, um límpido arrebatamento. Tão arrebatado que nem sequer me lembro onde me sentei ou quem estava a meu lado (os meus arrebatamentos são isto, tiram-me de mim; esvazio, à força de me encher deles). Aconteceu como nos filmes, um tu-a-tu, uma proximidade íntima e adesiva, coisa de não saber se a minha cadeira se deslocara para o palco ou ele viera até mim. E ó  Ode Marítima, ainda bem que te escolhi.
Tudo começou com a minha entrada ao rés da hora, sem tempo para comprar aquele panfleto informativo sobre o concerto (desculpas, jamais o comprei) ou ouvir sequer um comentário. Estranho. Havia um indivíduo no palco, pacato e sentadinho. Desligado da plateia, lia um livro ou fingia lê-lo enquanto na parede do fundo, descaradamente, passava uma cara: mais de um metro que ora ria, ora ficava séria, ora nos olhava. Não que fosse feio – o exemplar masculino –, mas desconfiei. As luzes já na semi penumbra a indicar início de espectáculo. Da orquestra, nem rasto. Mau. De súbito, a cara desaparece, o fulano do palco levanta-se, vem à boca de cena e começa a declamar pedaços – graaaannndes pedaços – da Ode Marítima. E um fundo de água cantante, água correndo por dentro e por fora; posto no interior da Gulbenkian, o saltitar do Tejo em remançosos dias. E eu pasmada de maravilha. A adivinhar o actor na colocação da voz, a reparar que o rosto de metro e meio era o seu, a sentir que a voz dele não era só dele e de Pessoa, era minha, eu palpitava nas palavras, no canto da água, na suavidade ondulada e transparente da sua cadência corrente. E depois, não sei como aconteceu, mas há-de ter sido por magia que estava lá e não dei por entrarem, a orquestra já sentada fez nascer uma melodia deslumbrante, tão depressa cheia de gotas cristalinas e praias de água azul, como em  descomposta procela. E juro que ali vi o esforço dos marinheiros da vida dobrando seus cabos das tormentas, e assisti aos naufrágios, braços gritando a amplidão do medo, gente tragada pelo abismo, dobrada pelo terrífico oceano  que, cego de raiva,  alteava forças.
(cont)

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Nós e o Tempo


O Natal é assim, começa-nos na alma. Insistente e com natureza pedinte. Pede e alastra murmúrios, chaga-nos a cabeça lembrando quem nos faz bem ao coração e nos ajeita a vida. Depois, leva-nos pela mão a quem nos fez e ajudou ao que somos e planta-nos indefesos nesse lugar amado, e para muitos temível, onde as ausências incandescem. Portanto, lá veio a infância e a memória de D. Mimi.  D. Mimi que, entretanto, já mudou de lar. Na ignorância dos seus gostos e necessidades depois de um ror de tempo sem vê-la, falei com a filha, “ahnnn..., não há nada que ela não tenha, o lar é bom, tem boa alimentação”. Não insisti. Pensei antes na lição de minha mãe, “toda a gente gosta de mimos”.  Mimar é repetir sem palavras o quanto alguém nos importa, mimos são luzes súbitas sobre um nós de ocasião que não é ocasional. Perguntei onde ficava o lar e certa tarde dispus-me ao bafo quente do ar condicionado, climatazador de sangue velho  que reverbera o cheiro a urina e decomposição.
Chegada da claridade exterior, não a distingui. Apontou-ma a funcionária. Bem na minha frente, a meio da fila de velhos. Avancei. Coloquei-me face ao irreconhecível daquele corpo amolecido e meio afundado no sofá, coisa sem dono, descomandada, e  em posição tão desconfortável ao olhar como ao sofrer. Ajudei-a a poisar as pernas no chão, pus-lhe a almofada nas costas, tentei endireitá-la. Agradeceu-me e perguntou, a menina quem é. E quando disse o meu nome, ela lançou um quem estrangeiro que me mordeu de remorsos; cheguei a pensar que talvez a memória lhe tracejasse. Repeti, “eu, não se lembra de mim, provava os seus vestidos de criança”. Mimi a tactear, num contentamento de mãos que agarravam as minhas, “ah, então não lembro. É que não vejo, filha, estou quase cega com as cataratas. Estou para aqui sem préstimo nenhum, não conheço ninguém”.
E naquela sala de barulhos impróprios, foi contando o calvário de ser fardo para a única filha, de não poder ler nem ver a TV, das lágrimas, da alegria de um bisneto para que não tem olhos. Em volta, uma velha aferrolhada em zanga, boca torcida e olhos malvados, asneirando feita panela de pressão, a largar vapor de quando em vez; outra, terço ao pescoço, cantava, “ai, ai ai, eu gosto dessa mulher....”; ao lado de D. Mimi, uma velhota magrinha e alta, aperaltada em blusa de laço e mantilha, depois de me esquadrinhar de alto a baixo, encetara decisivo monólogo que queria ser conversa. Olhava-me  e falava, falava, falava. Depressa compreendi que bastava acenar semeando aqui e ali um pois intermitente. Não desejava respostas, queria contar, mostrar que existia. Tanto velho para duas únicas visitas.
E a alegria de D. Mimi ao saber da filhós e dos pasteis de grão. A sofreguidão de comê-los logo ali, migalhas por si inteira, “desde que comecei nesta vida nunca mais provei coisas destas”.  Foi decerto o deus das pequenas coisas a guiar-me o pensamento. Só pode.
No conforto de sua casa, a filha que se apresta a viagens no estrangeiro mês sim mês não, vivendo de rendas que são muitas e são boas. Aqui, a mãe cega, em longa lista de espera para a cirurgia às cataratas.
E depois a vida é que não é justa...

sábado, 24 de novembro de 2018

Nós e o Tempo


A corrida do tempo anota-se em anos, décadas de calendário, semanas medidas por sois e luas e outros espartilhos para que não há fuga. E no entanto há gente que usa a proximidade das fibras para se situar. O cotim, a alpaca, o feltro, a chita, o linho, a popeline, a pura lã. E mais. Falar de cada uma situa o momento, a classe social, a carteira gorda ou magra, a pedantice e a pelintrice que tanta vez dão o braço, a miséria engravatada e a opulência com e sem disfarce. Mesmo o carácter chega a conformar-se ao contacto das fibras.
A história que vou contar vem do tempo do nylon. O tempo em que ela fazia vestidos na Bernina. Vestidos para meninas finas. Lindos, tufados e que vendia a bom preço para as lojas. Como precisava modelos e lhe era proxima, provei alguns, os alfinetes de cabecinha em invisível martírio de agulha: ora eram as pernas, ora as costas, ora a cintura. Pespinetes, picavam pela calada. Lembro-me de ver armado sobre a Bernina, impecável no seu todo,  um vestido branco pintalgado de bolinhas vermelhas, quarto redondo rematado por folho franzido, um lábil lacinho de veludo vermelho a alinhar à esquerda. Modista jovem e de unha aguçada, preciosa ajuda no desalinhavar.  Alta, magra, qualidades que o tempo escaqueirou e não condiziam com o diminutivo a que ainda responde, Mimi.
Depois, a voragem do tempo consumiu-nos,  linhas concorrentes que irradiavam à medida dos passos. Nasceu e morreu gente. O mundo mudou. Um presidente caído de uma cadeira também ela cheia de anos, precipitou a mudança. E enquanto a modista da Bernina centriptava à beira da solidão, eu centrifugava para o mundo. E esquecia a leveza do nylon.  Talvez com remorso, que dava por mim a encontrar desculpas. Cogitava por exemplo que o interesse por um montão de pessoas simultâneas é impossível. Por vezes, recebia notícias, “quase não anda”; “pôs tudo em nome da filha”; “está muito pesada e o problema das pernas agravou”. E nem assim buli.  Lamentava-lhe a imobilidade. E voltava a esquecê-la. Ou seja, resolvi que não era comigo.
Depois, caiu em casa e por lá ficou sozinha até a filha assomar. Vizinhas ambas, porta com porta. Mas ultrapassou as doze horas sem uma mão amiga. Foi o motivo necessário: pô-la num lar.
(cont.)

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Intermitências da Luz


Primeiro aprontou-se e preparou tudo, uma prendinha, o cabelo lavado, a doce expectativa de um bem querer. Depois, ignorante de casmurrices digitais, perdeu-se no emaranhado de ruas e enviou sms. Experimentou mais umas voltas, contornou rotundas, rodou ruas até final. Nada. Ligou. E a voz, bengala de cego a guiar-lhe as rodas. Esquerda, esquerda, direita. E logo ao portão a voz se encheu de gente, carne, pele, ossos e o mais que se não vê mas colhe num abraço. Entraram e o olhar franzido do cão a avaliar a visita, alarme discreto de patas dianteiras, a traseira em repouso. Ao fechar da porta, reentrou na casota friorenta,  uma pata sobre a outra, focinho no topo: pose de pensador, não fora os olhos fechados.
E elas dobrando corredores, durezas que amaciam ao cheiro de frutos maduros, talvez um champô, uma colónia, um sei lá quê que apetece e será apenas viço de juventude. Depois uma infusão de ervas, bolos, fatias de ovo em sua moleza leitosa, compotas em ponto de pérola, lágrimas que cristalizam doçura e sempre a esperam. E conversa. Conta. Como véu que tudo cobre, os projectos para dar fim ao desemprego, a vontade de independência, a forma admirável como se vai desprendendo do que a perturba. Usa sorriso mais confiante, a mesma pele de pêssego, a insegurança com menos lastro. 
Anoiteceu. Sai embrulhada de escuro, dois dedos de compota num saco de plástico. A rapidez na inversão de marcha, um adeus que promete e desaparece. E o cão, de súbito acordado para a função,  ladrando ao calcanhar dos pneus.
Mais tarde, já ela em casa, um alerta, “o seu sms entrou agora”.
“Da próxima vez...se houver próxima vez....”, tão bonitinha esta canção.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Vida Alinhavada


Senta-se por vezes no único banco singular da entrada, pés imersos em pantufas fofas. Logo acima, a invisibilidade dos artelhos no inchaço das pernas troncudas e a estranha mistura de pequeno pé com três dedos de altura de carne luzidia, venal indiscrição da pele soprada que desborda. Usa cabelo curto se alguém lho corta, apanha-o se cresce; quando solto, inibe em timidez gordurosa de fiapos inertes, achegados à brancura entrevista e quase obscena do couro cabeludo. E quanto mais o corpo se expande, menos dá por ele, máquina pesada e lenta que não dá conta do maquinismo, relógio que trabalha sem saber de ponteiros.
Olha sem horizonte, o inadvertido maxilar em mastigação ininterrupta.  E tanto vê como mastiga. A esmo pelos bancos do pátio, sementeira de aqui e ali a aproveitar exíguas sombras, pernas gastas, bengalas, óculos, acolhimentos de manta em veias outoniças,  cadeiras de rodas. Espreitadores do calor solar, os velhos distendem frouxamente e amodorram. Ela não adormece, é a única que atravessa a meia idade o que faz mais notório o alheamento a que ganhou hábito. Isola-se para nada. Ausente de tudo, do lugar, dos outros, de si. E de repente quase grita, olha a minha tia e a minha prima. Na surpresa, recupera a antiga e viva voz. E espera, pescoço ligeiramente  avançado. Os velhos não abrem os olhos, não movem as mãos,  não avançam um joelho, foi frase lançada ao vácuo. Para lá do portão, a família ocupa-se a deixar o automóvel e nada apercebe. E quando entram a sombra de um sorriso distende a boca onde outrora houve uma dentadura branca e certa que fazia invejas no povoado. Depois, por ali ficam as três, as visitas fazendo uso de frases curtas e silêncios compridos a que ela ganhou hábito. Trazem os doces de que gosta e que come apetecida. A prima limpa-lhe a boca, sacode migalhas, ajeita-lhe a capa enquanto ela repete incessante, foi a neta que me deu, é lembrança da neta. Em determinado momento, observa o caminho para lá do portão e o olhar ganha vida, tudo me parece que aquele carro é do Luisinho, é ele que me vem visitar. E depois, hoje há ginástica, os meus filhos e a neta vêm sempre à ginástica comigo, estou aqui à espera do professor. A prima tira-lhe os óculos e apresta-se a lavar o embaciado com detergente. Achega-se uma velhota das que precisam quem as escute, é prima daquela senhora não é, pois não ligue ao que ela diz que varia muito. Os filhos é raro virem vê-la, mas que ela gosta da ginástica isso gosta. Trabalhei anos em sua casa, era boa senhora, repartia muito comigo. E enquanto a prima desencasquiava os óculos e os limpava  rematou, e agora, olhe, estamos as duas para aqui sozinhas.


sábado, 10 de novembro de 2018

O Futuro a Quem Pertence


Podem encontrar-se quase diariamente beirando a avenida. Formiguinhas vagarosas, saco na mão a caminho da piscina. Deslocam-se claudicando e a conta gotas, algumas já com bengala, sem outro ritmo que o da idade. Os anos roubaram-lhes dentes e destreza, deram à pele a cor e a textura do pergaminho, no esqueleto artroses vultosas. E no harmónio desconchavado da voz carregam a canseira de uma vida de gritos e choro, algumas gargalhadas e riso, um nunca acabar de conversas. É um caminho de anos, quem sabe se a princípio ainda buliçosas, voz activa, alteada se necessário. E nada de bengala, apenas uma dorzita aqui e ali, umas palpitações a que o médico de família, “isso não é nada”. E a morte longe.
À medida que as maleitas se inteiriçam e lhes resistem, o olhar desculpa-se e adoça. Conforma-se. Amiúda. Faz-se quase invisível. E elas vão andando com passinhos à bebé, mamãzinha dá licença, um pé depois do outro. Pertencem à paisagem. Não se pergunta a uma árvore se está bem de saúde, não se inquire se sofre de frio  quando as folhas alodaçam pelo chão. Como as árvores, vivem, mas importam a quem.
D. Adelaide foi em seu tempo mulher de peito amplo, cinta estreita e anca larga. Não era formosa, mas “possante como égua de boa raça e boa parideira”, assim o dizia o marido, fraca figura  que enterrou há um ror de anos. Encheu-a de filhos que criou a pulso, agarrando todos os cobres que a força dos braços podia comprar. E na cidade não há memória de pessoa mais honesta e alcoviteira, a língua afiada a distingui-la de qualquer. Hoje, ampara-se na bengala e emudece de cansaço em qualquer assento, olhos de flor moribunda. Retoma umas luzes de si antiga quando fala dos netos, mas logo involui, nem eles lhe seguram o interesse.  Se alguém lhe pergunta pela saúde, olha admirada. Parece-lhe questão descabida ou não terá hábito a tal atenção.  As mãos uma sobre a outra forcejam na bengala e contrai  em desalentado trejeito os lábios gretados e a esbranquiçar. Depois, dá de ombro antes do juízo final, para aqui ando, tão cansada que já nem sei o que me faz bem.


domingo, 4 de novembro de 2018

A Gata


A gata chama-se gata e o nome assenta-lhe, responde à primeira. Usa uma linguagem toda olhos e quase não mia. É mansa e doce como ela só, um felino lento e donairoso, olho azul. De quando em quando, escrevo sobre ela. Não me é particularmente ligada e, ao invés do uso de gatos anteriores, jamais se lembrou de me oferecer lagartixas e outras conquistas de predador. Mas sei que pertenço ao seu mundo, ocupo lugar. Sei-o pelos olhos: se passo pela cadeira onde dorme afundada na almofada, entreabre um olho e descansa; Espera-me sentada ao portão e logo se arreda ao ruído do motor, numa vivacidade inesperada e contente, pernas saltando elegâncias sobre as flores do jardim para se colar à porta da cozinha, os olhos um passe de entrada.
Em período de cio, o comportamento também difere do de outras gatas que tive. A verdade é que o instinto lhe aparece um tanto embaciado. Espera que os gatos venham buscá-la a casa e não poucas vezes a subtraio a pedido, abrindo a porta das traseiras à aflita urgência do seu olhar no postigo. Portanto, enquanto os machos, em volta da casa, me enlouquecem com súplicas roucas de árduo desejo, ela dorme refastelada na cadeira que é nossa – minha e dela. Suponho que os machos me detestam por lhes esconder a satisfação do desejo, tão lastimável é o seu olhar quando dou entrada à gatita que, lampeira e sem remorso, se dirige à cadeira das sestas.
Até a caça é nela sui generis: as lagartixas servem-lhe de alegre brincadeira e passeiam-se desrabadas; se acontece matar alguma sem querer, fica que tempos a tocá-la com a pata, espantada com a inércia do brinquedo e, excluído o préstimo, logo a abandona. Em compensação, e para meu desapontamento, não liga meia a osgas, animais que lhe inibem a veia brincalhona de tão parados que são. No entanto, deve gostar de pássaros pois queda tempos infindos de olho na trepadeira que regurgita trinados. Mas não os assalta. Patas firmes no solo, focinhito erguido, fica-se pela curiosidade.
A sua longevidade assusta-me. Um dia será velha, vai ter doenças e morre. Ora foi isto que os outros gatos, mais espevitados e foitos, me evitaram. Por comparação, o percurso da gata é tão diverso que chega a intrigar. Enquanto os antecessores eram azougados exploradores, ela foi caseira, dócil  e, medrosa de companhia estranha, confinou-se ao quintal. Eles exibiam uma meiguice recalcitrante, ela um gosto pela companhia humana, sem meiguice visível, nada de colos e festas demoradas. Por via disto, eles depressa morreram e ela vai durando. Hoje, atreve-se às redondezas, atravessa a estrada, vai sabe Deus onde. E deixou de temer os outros animais, já pouco a salvo de brigas com gatos invasores e dou por ela a enxofrar com alguns cães que mais se aproximam do portão, toda ffffffff....pêlo eriçado e rabo farfalhudo. E, loucura extrema, eles parecem temê-la.
Ainda que a sua condição animal seja bom antídoto, vou ter saudades da minha gata.