sexta-feira, 27 de abril de 2018

Peso-pluma


Há dias assim, tudo neles conflui em inesperado despropósito. Ou talvez apenas a rotina das pequenas coisas  enleie nas horas a aprisioná-las,  perturbando o correr da meada. O certo é que fui nadar com atraso e tão cansada como sempre, depois de uma manhã previsível. E, hélas, a água em irresistível convite, esperando de mim o que sabe desde a fundura azul de pedrinhas minúsculas e iguais, baralhos e baralhos de micro cartas pespegadas umas ao lado das outras.  E eu a flutuar sobre. Em remanso espadanado.
Já em casa, ainda cogitei para os meus botões, “hoje não vou, fica para a semana”. Mas há coisas que a ninguém aproveita adiar. Fui. Não cirandei um centímetro, bem conhecia a aspereza por cumprir. E o tempo voraz que nela se consumia. Chamei meu pai para me assistir de perto. Ele gosta de falar e eu, enquanto as mãos esmiúçam, distraio  do travo da vida. Ali, sou metódica de fio a pavio. A tarde descai e o dia, quase lamentoso, muda de cor.  As horas galgam. No écran, o sms, chego às vinte. E eu a dar-me pressa, “valha-me Deus, ainda faltam umas coisas”. Por felicidade, coisas mais leves. Não troco a roupa e enfio tudo no saco a trouxe-mouxe. Despeço-me. Meu pai nota-me a pressa, “deixa que eu abro-te o portão e depois fecho-o”. Entro no carro e ele desce à frente, as pernas numa pressa trôpega que me comove. Abre a cancela e fica a ver-me desaparecer na boca da noite.
É assim meu pai, sobram dedos para contar-lhe os gestos de ternura. E guardo-os como são, raros.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Tudo e Nada


Não é de sempre, mas acontece com frequência  ser surpreendida por essa confortável  sensação de sorte que é estar viva e ser pessoa.  Sabendo eu que em nada contribuí para o fundamental e existo por golpe de acaso ou força divina. Sou grata aos pormenores que atravessam os dias, o calor do sol, o gume frio dos janeiros, as flores que irrompem em tufos a ladear o alcatrão, tal qual o imaginário caminho de rainhas, mas sem palácio em fundo. A beleza das estações oferece-se a quem passa, infindo encanto que cabe no raio de visão. E passamos sem atender a dádiva, na pressa do longínquo anguloso e gulosamente desejado. Moirejamos por coisas – e pessoas – que não se entregam como as ervas dos caminhos, não aquecem nem transfiguram com a terna constância dos raios solares, e pouco nos surpreendem. Seguimos. Desatentos da oferta, obscurecidos e violentados pelo afã da troca. Lá. Sempre mais longe. Mas o caminho de rainhas continua no lugar, dia e noite.  Nada quer. Nada pede. Está.

sábado, 21 de abril de 2018

Despojos do Dia


À noitinha, ela passa aos gritos e acorda a rua, o barulho a  ganhar volume com a proximidade dos passos errantes.  Tem mau  vinho e asneira forte num sotaque de norte furibundo que ressoa, qual lâmina, nos vagares gerundinos dos nossos ouvidos. No emparelhado das casas, nem uma alma ousa descerrar persianas. E nem vontade. Dentro, há um recolher de silêncio feito dor e pena. A rua petrifica no estupor da gritaria ébria. Não sei quem seja, vem talvez da taberna da esquina e segue a caminho de casa. Cresci no pavor enojado de bebedeiras. Assisti muito vómito de vinho, homens que me pareciam cordatos a espumar, rapazes que bebiam até cair e ficavam sem trambelho, nojice animal enrolada no chão, gente vulgar que virava monstro raivoso e corria a família a murro e cinto. E quanta pobreza desvalida bebia de véspera o almoço do dia seguinte!
O vício no feminino só me foi apresentado mais tarde, anos depois da morte delas. Mulheres que sempre me pareceram apenas estranhas e afinal eram alcoólicas. Conservavam-se num alcoolismo manso e supostamente escondido. Não gritavam, não batiam nos filhos e netos. Trabalhavam. Mas caíam com frequência. Joelhos esfolados, nariz roxo, um lanho na testa. Conheci-as na meia idade. Teriam começado como esta garota, toldadas dos pés à cabeça, vociferando rua fora todo o género de revoltas e alarvidades?!  Não. O tempo era outro. O vício é que é o mesmo.
E que agonia ouvi-la. Vê-la.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

À Sexta, Pequenos Nadas


Sexta feira é o dia X. Começa bem, mesmo se durmo mal. Ou sobretudo. Porque tomo um café com leite. O café com leite bem moreno é a minha bebida de acordar. E só me acontece às sextas. Porque me faz mal a tudo excepto à força de viver. Podem contrapôr que a força de viver vale mais. E nego, ora essa. Sabem lá o trabalho que me dão as minhas maleitas todas a ir a pior manhã adiante e depois pela tarde. Ah, pois é, eu é que sei quanto me custa a força de viver. Mas pronto, é uma dia por semana. E juro, enquanto bebo o tal café com leite, nada me atinge. É assim como estar numa nuvem ao solinho e sem precisar de chapéu. Um céu aberto.
Agora vem a força de viver. Sim, porque eu a viver com muita força, denodo. Como ela extravasa, ponho-a a uso no trabalho braçal. Isso. E se pensam que é mal empregue, também se enganam. Porque a limpeza das sextas tem um senão, prolonga em demasia. Devia ser coisa rápida, mas não é nem pode ser. Aplicando a força de viver, demora e dói menos. Sendo sincera, sem ela não sei se conseguia ânimo. Vantagens, portanto. Pela hora de almoço, empreendo em ir nadar (como se não esteja já cansada). Almoço num parentesis que ainda assim me atrasa, e chego en retard , feita penetra, as pistas ocupadas. Não hoje. Éramos só nós, eu e ela, a água quente.  Doce conluiu. Estou capaz de dizer que a água estava contente do meu contentamento. Bom, acho que ver-se livre de separadores também ajudou. Nadar em água quente despe-me o cansaço, lembra-me quem fui em tempos e, recuando mais e mais, deixa-me no útero materno de onde não devia ter saído; escusam de me chamar nomes, porque era impossível ficar lá ad eternum, a natureza tem suas leis.
Na hora seguinte, a piscina fecha para limpeza. Os funcionários não sabem, mas aspiram os meus cansaços, as penas, os lamentos, as dores que ali vou deixando às braçadas e só pesam. Remói-me o trabalho que dou, mas alivia-me saber que, quem venha a seguir, não se conspurca. Aquilo é matéria lesiva, pior que radioactividade.
Saio bonançosa e acontecem-me coisas boas. Encontro quem não via quase há trinta anos. Deixo-a embrulhada em conforto, um toque de alegria e orgulho na voz, “conheceu-me e ainda se lembra do meu nome, nunca pensei, estou diferente e era tão tímida...”. Olhei-a a sorrir e pensei, não sabe, não adivinha a linha afectiva que todos guarda.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Bocados de Assim


A Primavera. O ar tépido. As flores e o verde a rebentarem dos interstícios da terra. E no meio de tanta pujança destemperada, em vez de me sentar a ler, ou a fazer nada, só um solinho simpático a correr-me o corpo,  pois, dizia eu, em vez disso, bate-me a pancada da limpeza em casa alheia (ainda se fosse na minha, vá que não vá). Mulher a dias e sem hora, coisa que há pouco. Estou em crer que sou só eu, que elas contam o tempo ao segundo e fazem muito bem.
Pronto. Mas lá fui, óculos escuros para disfarçar e estive vai não vai para enfiar o boné amarelo que me retira do anonimato. Mas, quem sabe, o velhote  não me identificasse e se deitasse a  enxotar-me para aí à machadada ou assim, que depois que vendeu – ou terá dado – a caçadeira, tem-na debaixo da cama; e nunca fiando, os velhos têm ideias que só a eles lembram. Portanto, abdiquei  do meu ar exótico.
Em boa verdade, não valia a pena tanto cuidar que ele estava dormindo frente à TV, tão surdo como a porta de entrada que quase deitei abaixo. E nada. Entretanto, busquei a chave que nunca usara. Não conjugava. Chamei as vizinhas à pedra por mor de poder entrar e extravasar a secção de limpeza que me inferniza às vezes os interiores. E pusémo-nos as três aos gritos e palmadões na infeliz porta. Deve ter sido barulheira digna de registo,  que veio abrir estremunhado. Satisfeitas do dever cumprido, cada uma voltou à sua vida e eu entrei com o que imagino ser o ar das equipas de desinfestação. O velhote ainda pôs o aparelho auditivo a tentar ouvir-me. Depois pensou melhor e refugiou-se na cozinha todo satisfeito de mim -  há nele um prazer em me saber a trabalhar a seu favor que parece dar-lhe saúde e boa disposição; é fenómeno que nem sei explicar e será melhor que não investigue. Enquanto ele dedicava à sopa da semana os cuidados de mulher que borda matiz em bastidor, eu espanafrava a um lado e a outro. Quando lhe contei da chave, ele correndo dedos pelo cordão que lhe faz companhia, é minha é, ora esta, atão a chave é daonde?! E passou o resto da tarde a arengar para o ramo dos agriões, ora esta, a chave tem de ser de algum sítio, e eu a pensar que era desta porta. Eu de rompante, está um rato na ratoeira e já está a pelar. E ele desimportado do cadáver em putrefacção, num contentamento da sua façanha, boa, sempre caiu. Enquanto catava folhas aos agriões, lá fui deitar o pobre ao lixo.
 Noitinha. Pela casa, um agradável cheiro a sopa. Deixo-o tão contente com a obra como se fora difícil arte de pedreiro. Os objectivos são cada vez mais curtos. Mas existem e trazem-no satisfeito. Que glória é ser autónomo!

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Vizinhos


Receei que ressonassem demais, se erguessem antes do sol a esmãozinhar pelo quarto. Sei lá que tropelias nocturnas imaginei nos pobres velhotes. Mas tudo que aconteceu foi haver um largo intervalo de silêncio circundante. Mal anoitecia, logo uma quietude de nada a mexer, só o fundo de trânsito na rua. Gosto de pensar que saíam a chegar a si casacos e cachecóis, passinhos trôpegos na frieza da noite. Que se sentavam num café próximo a celebrar morenaços cafés com leite e iam à sessão das nove no cinema mais próximo. Ou, mal cruzavam a porta, desapareciam misteriosamente e, durante duas horas, evolavam-se para outra dimensão.
 É raro que a realidade valide o sonho.  Neste caso, não havia coincidência: os meus vizinhos não punham um pé na rua. Desciam para jantar e ver televisão e só depois reviviam no quarto ao lado. Ouvia a voz da mulher a perguntar e um sussurro mais grave sem interrogação na ponta. Depois as vozes iam espaçando, os pontos de interrogação falhavam aqui uma frase e ali outra, o tom decrescia, o comprimento das mensagens minguava. Até ao silêncio. Dormiam, talvez.
Não eram bonitos, os meus dois vizinhos. Olhei-lhes a foto e vi-os em presença. Rosto sem riso. Armadura de séria polidez. Há gente a que os anos lavam as saliências. Não resta uma aspereza, um montículo, um prurido que seja. Quiçá a idade lhes tenha polido a garridice. E os deixe  tão lisos e anódinos que não se dá por eles. Nada lhes ressalta, brilha, clama. Habituados ao de sempre, tudo estranham. Certa manhã, o elevador trazia um ocupante. Camisa e casaco, cabelo ainda no uso de pente. Viu-me frente à porta, baralhou-se, os olhos num susto, “donde estoy?”.
E é isto.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Vizinhos


Bateu-me no rosto mal a porta abriu e entrei no quarto aquecido. Um odor forte a mofo, decomposição disfarçada a poder de desinfectante. Logo confirmado, sim, temos os mais velhos. Portanto, os mais velhos. Os velhíssimos. Os que não queremos por perto, cheiram a bafio específico, não ouvem, “baralham-se das ideias” alijados de beleza que os salve,  física e mental.  Os velhos meus vizinhos. Na porta de cada um, a foto. Não uma foto juvenil e estuante; nem sequer de calma madureza; a foto de sem cabelo, pele enrugada, a boca uma fenda que mirrou por ausência de riso, olhos fixos, falhos de expectativa. Talvez a fotografia ajude à identidade, relembre cada um de si mesmo.
Nos dias seguintes, encontrei-os em carreirinho para o pequeno almoço. Velhinhas mirradas e trajadas de preto, olhar de pássaro, aduncas como corvos; velhos cinzentos, camisa e casaco, passo titubeante, completamente outros do que foram. Em terra de gente palradora, pouco conversavam. Teriam fome e a nada atendiam, fixos na satisfação da necessidade. Ou morre assunto a quem tem noventa anos e aguarda a primeira refeição do dia. Alguns respondiam à minha saudação e, sem um virar de pescoço, acompanhavam-me no breve do ângulo de visão, como quem mira filme que desinteressa. No elevador, prolongava-os e remanescia o cheiro ácido de urina a casar com o hálito de jejum envelhecido.
E no entanto cruzei uma velhinha de lindos caracóis brancos  e andarilho. Seguia para o pequeno almoço, sorriso rasgado em baton vermelho sangue. Não era jeitosa nem magra, não  vestia roupa elegante ou moderna. Mas passeava um ar de asseio composto que se  bastava no sorriso de encher mundos. E a alegria dos olhos a condizer. Na sua porta há-de haver uma fotografia diversa, um friso de caracóis brancos a emoldurar a boca vermelha em sorriso integral.