domingo, 26 de janeiro de 2020

Carrossel


Terão existido desaguisados entre o casal, suspeita de criadas que liam o semblante  da “senhora” e notavam desusada brusquidão de gestos no patrão. Nesses dias, a casa como que se transformava. O ar arrefecia, e os ramos das árvores eram membros esqueléticos cheios de dedos pedintes que  projectavam alongada tristeza nas janelas. D. Ana encerrava-se na penumbra do quarto, as criadas em bicos de pés, a senhora não quer ser incomodada, ou dava longos e pensativos passeios pelo jardim, circundava a casa e cirandava por entre as laranjeiras, uma mão taciturna mergulhando no tanque de rega. Em dias mais aziagos, não raro, o morgado enchia-se do seu feitiozinho independente e salomónico e disparava sozinho para Lisboa. Voltava um ou dois dias depois, roído de saudade, um presente em cada mão. E logo a cozinheira tinha ordens de almoço melhorado e a casa se alvorotava num assomo feliz. Os dezanove anos da “senhora” chocavam a autonomia bizarra dos trinta e nove de marido, oligarca sem hábitos de companhia. D. Ana, que vivera os inteiros dezanove anos de mistura com saias de padre e obras benfazejas, imaginava todos os homens à semelhança do seu piedoso pai. Mas casara com um reizinho de província, alheio a meneios e preceitos religiosos e que a sua doçura nem sempre desarmava. Conseguira do morgado que a acompanhasse à igreja, mas aí findava a sua prática religiosa. E  não era sem zanga e ruim modo que ele via um padre sentar-se à sua mesa ou entrar-lhe escritório dentro a pedir para este e aquele pobre. A princípio rabiara, indispunha-se com D. Ana, vociferava contra a presença e os pedidos do pároco a que chamava “roubos de mão beijada”. Mas, em contrapartida, dispunha a carteira para roupas, lanches e almoços de crianças de catequese que se deslocavam a sua casa para aprenderem alguma coisa das escrituras. A tua bisa a desculpar-se, não se pode falar de religião com o estômago vazio. Ou: olha, tive de lhes comprar roupa e sapatos, chegaram enregelados, sem agasalho, descalços; mandei aparelhar a charrete e o Samuel levou-nos a comprar roupa e calçado, não te zangas, pois não? E antes de sair pedi à Arminda que acendesse a lareira grande no salão. Quando chegámos das compras fomos para lá e dei ali a catequese. Bem sei que não gostas, mas estava tanto frio... E ele sorria ao coração compassivo da mulher e inclinando-se a  beijar-lhe os cabelos, que fique escrito, a D. Ana ainda me leva à falência e doa a casa aos pobres.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Carrossel


Constou na cidade que foi celebração simples,  a tua bisa tinha perdido o pai havia pouco e não era senhora de espaventos, como depois se veio a confirmar. Após o serviço religioso, o morgado ofereceu o almoço de casamento no Casino Estoril, lugar de requinte e com cheiro de novidade. Seguiu-se um passeio de charrete ao longo da costa. E,  nessa mesma noite,  os noivos ocuparam a casa. A cumprir o desejo da tua bisa. Dizem os mais velhos - então crianças – que passava das dez quando algumas portadas de janela foram abertas no dia seguinte. E porque o morgado dera folga à criadagem, ninguém soube pormenores acerca da noiva. Dizer que a cidade ardia de curiosidade, é pouco. Uns imaginavam que o morgado embarcara de olhos fechados e cegos para braços femininos de  deslumbrante beleza; outros, inspirados na ideia de amantes pecaminosas e com o quid que meninas de virgem ignorância não dispõem, supunham uma Mara Hari que o enovelara debaixo de asa calculista e breve lhe fugiria, farta de bucolismos provincianos; outros ainda, que era muito rica e o morgado se deixara seduzir pela fortuna. Não havia dúvida, a desconhecida noiva almejara o que as conterrâneas tinham perseguido sem intento. Mas, surpresa das surpresas, pela tardinha, no jardim da cidade, passeavam-se de braço dado,  pés atardando-se em vagares de namoro ternurento. Cumprimentavam quem com eles se cruzava e seguiam caminho como se há anos o fizessem. Ora os passantes conheciam os hábitos do morgado que nunca arribara àquelas bandas, mas se empenhava agora em mostrá-las à noiva. A noiva. Que surpreendeu toda a gente, do mais humilde ao mais graduado. Não era beleza de espantar, vestia simplesmente, rosto regular e agradável, sem sombra de enfeite. E o que  então se confundiu com simpatia, era bondade irradiante. Certo, certo, é que a tua bisa não sofreu os costumados ódiozinhos femininos e, se não suscitava invejas nos homens, também não lhes foi desagradável à vista. O falatório fez-se rasteiro, e apenas os mais desbocados verbalizaram o desconcerto, é uma mulher como qualquer, é que não tira nem põe. Não era. Mas talvez nem ela ainda o soubesse. Entretanto, o morgado, todos o reconheceram, rejuvenescera, o semblante diferente. Dizia-se que estava feliz.
E quando as criadas começaram a dar notícias do chalé, como todos lhe chamavam sem que o fosse, que mais se assemelhava pela construção a um solar, gerou-se simpatia declarada. As criadas respeitavam a patroa e foram aprendendo a estimá-la que com todas tinha uma atenção e não havia rispidez ou sobranceria no trato.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Carrossel



Quando a casa ficou pronta e alvejava na sua brancura, vinha gente dos arredores passear no local para observar tamanha singularidade e assistir ao crescimento do mundo vegetal notando-lhe mudanças e contrastes, como se fora o jardim botânico da cidade. Contudo, e apesar do interesse que suscitava, a casa, bem ao fundo do jardim e debruçada sobre o laranjal  que o moinho de vento servia,  resguardava-se da bisbilhotice geral. Depois, como em todas as quintas, cresceu-lhe em roda uma altura de muro em alvenaria rematada por tijolo vermelho rendado, defensora de privacidade e impeditiva de mirones. Da casa, era visível a parte superior de janelas e portas e o telhado com o moinho assomando por detrás; do jardim, apenas as copas das árvores mais altas. Da mobília que não se fez esperar, apenas se soube que entravam e saíam camionetas de carrossaria coberta. E não tardou que o morgado a habitasse. Então, a cidade saiu do seu estupor e caiu-lhe em cima. A má língua desancou-o, e para que eram aqueles luxos, e que se fosse uma fábrica é que era, e que era um solteirão cheio de manias e luxos sem préstimo, e mais assim e mais assado.  Mas tudo mudou quando o sacristão delator disparou que o visado tinha ido consultar o padre para aprazar casamento e lançar os proclamas. Tua bisavó estava de chegada à casa que seria sua e de que só a morte a separou.
 A moradia foi edificada em comprimento, brancura de paredes interrompida por janelas de sacada e  portas altas, uma pérgula bem a meio a resguardar a porta  principal e as duas janelas adjacentes.  Pérgula e trepadeira são hoje um corpo só, trança de madeira e nós lenhosos desanimando primaveras esforçadas que insistem à custa de  breves renques de folhitas anémicas e friorentas, encostadas umas nas outras como quem se anima para combate que sabe ir perder.
O morgado, que não era morgado senão por designação comumente aceite, veio a casar  fora  da terra.  Contra a expectativa dos mais grados que já se anteviam empapoilados e ufanos em cerimónia e banquete,  soube-se que o ofício decorreu numa igreja de Lisboa e assistiram apenas dois ou três amigos  chegados de cada nubente.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Duas Faces


Fui recebido como um lorde. Apaparicado como um rei. E a menina minha prima toda agrados, simpatia e sorriso.  Uma conspiração sorridente. Findo o jantar a que não tenho memória de objecção, foi mesmo soberbo, o dono da casa propôs passarmos ambos ao escritório. E penetrámos no seu santuário. O escritório era então o mundo dos homens.  Fumámos. Conversámos sobre banalidades a que as mobílias escuras se fizeram coniventes. Entrámos a falar sobre o meu curso. Continuámos com o primo a enfatizar os seus  proventos profissionais. E, após este preâmbulo de muito minuto, o homem tomou coragem e encetou a falar-me no dote da filha e no que eu beneficiaria se entrasse num compromisso com a sua menina. Entenda o primo, dizia-me, não é casar. Não é isso. Apenas um compromisso de casamento. E esclarecendo os benefícios do dote, o primo tirava o curso no continente com o desafogo que lhe aprouvesse, gastava o dote. E lançando-me olhares significativos, solteiro, bem entendido, que eu sei bem como são os rapazes novos, também por lá passei. E depois, culminou, vinha para a ilha, montava consultório aqui e casavam. E arranjava muito mais que um dote, tinha a vida feita, digo-lhe eu. O que me diz...
E o leitor, o que diria?  Pois eu titubeei sem querer ofender o pai extremoso. Mas fui firme, eu não ia gastar um dote a terminar curso que fosse meu. Depois da confusão e estupor em que a inusitada proposta me lançou, acrescentei reticências a desculpar-me, estava de partida, não conhecia a menina senão dali, tínhamos muito pouco tempo para pensar em qualquer sentimento que fosse além de amizade.
Quando nos juntámos às senhoras no salão, e apenas para ser simpático, ainda arrisquei umas palavras junto da garota, para sabermos se queríamos um compromisso sério, teríamos de nos conhecer melhor. E logo ela num repente de desejo, ah, mas é que eu não me importo nada de viajar para o continente, quem me dera.
E pode o leitor crer que, ou o meu semblante foi transparência de água pura, ou o trio pensou melhor. Mas, até à hora de cruzar a porta de embarque, temi vê-la de mala na mão correndo ao meu encontro.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Duas Faces


Outro dos meus imbróglios amorosos é insular, reporta-se ao lugar onde meu pai conheceu e se enamorou de minha mãe, frágil princesa de uma ilha que sossobrou à força dos ares continentais. Já eu cursava medicina quando se deu o caso que vou contar. Talvez instado pela tia paterna que me criou – meus pais faltaram-me muito cedo – ou por simples curiosidade pessoal, resolvi passar férias na ilha e estreitar laços familiares com a parentela. Em boa hora o fiz que as ilhas têm beleza própria e singular. Mas, para lá do que viam os meus olhos continentais, em consciência de ilhéu evoluía aspiração muito concreta.
É sabido que, talvez por obediência à lei da atracção de opostos, mulheres das ilhas preferem homens do continente. Ser ilhéu não é o mar de facilidades que se imaginam. Ser ilhéu, parece-me que há-de ser também certa claustrofobia de tão pouca terra em enorme mar, a sensação de que os passos acabam andando em roda de si mesmos, o chão sempre curto para o que a alma anseia. De qualquer modo, seja ou não isto que pensam os ilhéus, saiba o leitor que logo houve intrigados pais que ao ver-me se informaram. E tiraram dados. E fizeram contas. Talvez eu viesse a herdar por via materna uns haveres nada desprezíveis, que afinal era filho da, herdeira de, e portanto, contas feitas, valia a pena. E afinal, médico. E afinal de boas famílias, gente conhecida e piedosa, sem nódoa que se apontasse. E afinal duas pernas e dois braços em corpo são e escorreito. Portanto, no que me pareceu pouco natural -  apenas o vira de raspão -, a dada altura surgiu convite para jantar em casa de um primo, gente conhecida na ilha e com fama de vida próspera. Chamemos-lhe o primo X. Em abono da verdade, leitor, digo-lhe que o nome de família me agradou bastante, parecia-me convincente e com certo pedigree. Terá o leitor de compreender que, nesse tempo, a minha irrisória juventude fugia de apelidos abastardados, como Fogaça ou Pires, e  de faltas de gosto assustadoras, como Narigueta ou Pé Leve. Portanto, cheio de mim, lá fui ao jantar. Ora a herdeira do primo, jovem a quem Vénus pouco favorecera, andava pela minha idade.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Duas Faces



Quando as décadas nos poisam nos ombros e a pátina do tempo se faz sentir, corpo e alma enviam sinais. Uma dor aqui ou ali, a lágrima que se solta mais facilmente, o sono que antes se condensava no período nocturno e agora parece trocar-nos as voltas, adormecemos no sofá a olhar a tv e estamos acordadíssimos a horas mortas. Mas a maior carga, caro leitor, o que mais enche e engorda, é a memória. A memória é balão insuflado pelo tempo. Lembra nítidos episódios de infância, coisas de lá muito atrás, recua-nos a tão crianças que mais parece sermos outra pessoa, no que não deixamos de ter razão, já não somos os mesmos. Ou, como dizia um filósofo da antiguidade – claramente mais antigo que nós -, somos e não somos os mesmos. Pois essa infância e juventude que nos aparecem mais nítidas que o sonho da noite anterior esquecido mal acordámos, dessa infância de há milhares e milhares de dias, ainda recordamos cores, cheiros, calores e frios; é como se certos acontecimentos de antanho sejam de ontem, embora, se o fossem, não os lembrássemos com a mesma acuidade.  Contraponto à clareza de há muitos anos, não nos recordamos onde ainda há pouco deixámos os óculos; desconhecemos o paradeiro da chave de casa e onde é que ela andará que fugiu do chaveiro; esquecemos a promessa de ligar a certa hora àquela pessoa. E é isto a vida. Perdem-se itens da memória de curto prazo, mas melhora a focagem de longo prazo. Nem tudo é mau, se bem que as nossas histórias desinteressem os mais novos e os chaguemos sempre com o mesmo, sabes onde deixei os óculos, não viste o meu chapéu,  reparaste se pus cachecol quando saí. E etc.. Imagino que, na mente deles, só por termos crescido sem a tecnologia digital, sejamos animais pré-históricos.  A memória é essa fiel depositária que não nos deixa mentir a nós mesmos - aos outros, sim, que dela só sabem o que quisermos contar – e não esquece patranhas. Está visto que, na sua fidelidade ao passado, consegue ser, por vezes, muito aborrecida. Mas também gratificante.

Ora eu que aqui estou, celibatário de uma vida  para vos servir, digo-vos que as aspirantes a noivar foram várias e os namoros inúmeros. Sem compromissos.  Dessas várias, vou contar talvez as duas mais exóticas e, pelo menos para mim, surpreendentes.   A primeira, na realidade a segunda no ciclo temporal, foi-me literalmente oferecida pelo pai em Angola, usando o mui preclaro degrau de ma estender como lavadeira. E, palavra, caiu-me tudo ao chão. Era o que menos esperava daquele soba a quem tinha curado uma doença qualquer: que a sua gratidão encarnasse numa mulher de carne e osso, que falava, movia os braços ora quietos ao longo do corpo, e as pernas de quase criança sustentadas por pés largos e descalços, uma palmilha de pele gretada e dureza natural a ampará-los na poeira, olhos baixos no ébano submisso do rosto. Assim. Coisa de, leve-a consigo, tome-a lá, é sua. Como se a garota meio quilo de farinha de mandioca ou uma das galinhas que ciscavam por ali. Não podia recusar o presente sem ofender o soba, mas uma mulher nos calcanhares não me cabia nos planos. Sem escolha, levei-a comigo e ofereci a lavadeira ao sargento a quem ela fez certamente uma barrela completa. Ou ele a ela. Nunca saberemos. Pobres. Pobres mulheres africanas. Moeda de troca pronta a todo o serviço.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Desimportâncias

(continuação)
Ora pois eu ando numa de revivalismo infantil e acordo com o pesadelo que antigamente me fazia cair da cama, para aí aos cinco ou sete anos e até talvez menos. Dirão vocês, mas afinal que pesadelo é esse. Pois não é mais nem menos do que alguém, devidamente identificado, a fazer-me cócegas. Isso mesmo. Pesadelo que tem raiz na realidade. Por essa altura, havia um fulano de mau aspecto que, mesmo na presença de meus pais, corria matreiro atrás de mim, me apanhava num ai e me fazia cócegas, sem que meu pai interviesse, já que era surdo à voz de minha mãe. Detestava-o  e sonhava muita vez com esses momentos aflitivos em que ria contra vontade e terminava num pranto. O facto estranho era que, no sonho, ele me fazia cócegas onde nunca fez, coluna acima, os dedos subindo osso a osso, parando - maldosos e em provocação dolorosamente sentida - nos interstícios das vértebras. De tanto voltar-me na cama, tentativa frustrada de fugir aos mil dedos da desgraça, caía e acordava. Pois o sonho voltou. Suponho que, porque o corpo me pesa, em vez de estar no tapete, acordo a pressionar as costas contra o colchão. Apesar da repetição, não identifico aquele parvo cujos dedos vão subindo nas minhas costas, mais nocivos que aranha peçonhenta e que, ainda por cima, me fazem rir em aflição ininterrupta. Ora bolas. Vezes e vezes a repetir o mesmo sonho sem conhecer o dono de dedos tão nocivos. Enfim. Acordo a palpar o terreno, no receio de que alguém ali ao lado, a perguntar-me se serei ainda criança ou já cresci. Uma parvoíce que a vigília concerta.  
Mas hoje, facto inédito, acordei aos pulos de contente. Foi então assim: por qualquer razão vivia eu perto de Picasso o pintor, ainda em seus princípios artísticos, de quando ele figurava as coisas tal como são e, pelos vistos, se dedicava à arte do retrato. Encontrava-me no seu atelier à procura de alguma coisa que já me escapou e com a esperança de que ele, em qualquer momento, me tivesse desenhado. Havia vários cadernos com esboços de crianças e mulheres (não me lembro de haver homens) e eu estava acompanhada de um amigo (alguém) que me ajudava a procurar. Quando já desistira e me encaminhava para a porta o alguém (acho que era masculino) chamou-me. Havia uma foto minha  num dos cadernos. Fui vê-la. Era uma foto que existe realmente, mas, ao invés da verdadeira, um dos lados tinha apanhado luz e estava a negro. contudo, eu inteira. De perfil, braços erguidos, fazendo o rabo de cavalo bem no alto da cabeça, tal como as minhas amigas mais velhas o recordam. Convém notar que é foto  de que nunca gostei, estou só, mas acho o meu perfil uma desgraça - na foto e fora dela. Muito entusiasmados, começámos a procurar qualquer coisa alusiva, uns rabiscos, o que fosse. E nada encontrámos. Porém, fechado o desalentado caderno, notámos adjacente à capa, pregado com um clip, um esboço da minha pessoa. Baseado na foto, é certo. Mas muito mais bonito. Eu, como me sonhava. Apesar de parecido comigo, muito melhor, todos os traços mais suaves. Havia nele uma doçura que nos emudeceu. Depois da estupefacção, comecei aos pulos de contente. E acordei de tanto pular. Foi isto.
Agora, se me dão licença, vou dar outro uso ao café que bebi. Trabalhar, por exemplo. Na mira de ir nadar, pois claro. Uma coisa pior para uma melhor. A alternância da vida.
Tenham um dia bom. E desculpem qualquer coisinha. Tanta conversa fiada, por exemplo.

Desimportâncias

Aviso à navegação: acabei de beber um café com leite gigante e moreníssimo enquanto lia a crónica semanal de Dulce Maria Cardoso na Visão. Começo a sentir-me levezinha, expurgada das pequenas nódoas negras de sempre, a encalhar aqui e ali com o corpo e mais a alma, e a que um café dá folga numa largura de horas. Anestesiada. Portanto.
E posto que a vida (a minha), mesmo com a nevoeiraça matinal, começa a parecer-me acima do sofrível e é sempre a subir. Apesar das angústias que me trouxe a crónica da Dulce com as queixas de coluna e experimentação de colchões, sobe-me uma felicidadezinha parola.
Por egoísmo de razões  faço meus os males - só aqueles de que tenho conhecimento - dos meus escritores preferidos. Confrangem.  Assustam a minha costela de leitora. Apontam, liminares, o barro dos meus anjos selectos. Pois, apesar dessas angústias comezinhas que qualquer café põe de lado com eficácia de colher à pesca do micro insecto aterrado no prato de sopa, não se sabe se por erro de voo ou inexperiência e que, toma, morreu de aquecimento brutal, quem me manda gostar de sopa tão quente, se a mornidão me servisse, aquela microscópica mosquinha morta, ainda espanafrava na bordinha do prato. Apesar dessas angústias, dizia eu que uma felicidadezinha e tal.
E pronto, está visto que eu se bebo um café também rrr...rrr....rrr..., desaparafuso. E é que vinha só interromper a sequência do Carrossel por ser saudável sair de vez em quando e dar umas voltas a direito, a gente sempre à roda do mesmo ainda endoidece; e isso. Ou agonia, tem tonturas, perde equilíbrio. O facto é que não o desejo aos meus poucos leitores. Portanto, vinha contar um sonho. Coisas que o inconsciente dá e baralha e alguns dizem saber interpretar. Que descreio de Freud e mais das suas teorias.  Ainda hei-de, naquela Happy Hour que alguém inventou em boa hora, comprar e ler pelo menos alguma coisa de “A Interpretação dos Sonhos”. Só para descrer com razões, a descrença de hoje é quase palpite e envergonha-me um niquito pouco, neste momento preciso, nada (um morenaço café é grande coisa).
(cont.)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Carrossel


Envelhecida, a casa senhorial que te pertence mas não visitas, é peça de alta costura e mantém a elegância da proporção, mau grado os abanões do tempo. Foi construída nos anos trinta para albergar o casamento da tua bisa. Expressamente, dizia ela com orgulho. E, rodando a aliança acrescentava, um casamento por amor. D. Ana era uma incógnita  jovem de dezasseis anos quando o morgado se enamorou. Mortos os pais e sem irmãos, o morgado, pessoa de trinta e mais, vivia entre a sua cidade e a capital onde tinha negócios. E julgava o mundo – e quem sabe, ele mesmo -  que não casaria.  Celibatário de fortuna sólida,  desempoeirado, estatura mediana e muito polido no trato, fora bastante pretendido, mas, na sua forma elegante e discreta, esquivara-se a todas as propostas. Em vista de tão infrutífera conquista e certo desinteresse pela beleza e dotes físicos das hipotéticas nubentes,  dizia-se à boca pequena que teria  algum xamêgo na capital a cegá-lo, amante certa e de casa posta, quem sabe uma corista ou cantora de S. Carlos. Etiquetado como solteirão, aquietaram-se os ímpetos casamenteiros – e interesseiros – de meninas solteiras, progenitores, padrinhos, compadres.
Foi então que, na quinta citadina com o laranjal mais viçoso das redondezas, apareceram os cavadores a escalrachar e limpar uma área bastante razoável do terreno. Nesse tempo, as quintinhas mais importantes ficavam bem perto do centro da cidade e os mirones que passavam ou vinham dar uma olhada ao avanço dos trabalhos perguntavam-se o que iria surgir dali. Ninguém sabia, o morgado desaparecera e as ordens eram dadas pelo feitor que se fechava em copas fazendo-se mais que o resto do mundo trabalhador. Quando o terreno ficou limpo e os caboucos começaram a ser abertos pelos pedreiros, a gente, na sua tacanhez e aperto, não pensou numa habitação, é uma fábrica, já viram o tamanho das salas, aquilo é o morgado que se meteu num negócio novo e ainda bem, vai  empregar os da terra. E até ao assentar do telhado, numa empreitada que deu muita canseira e ganho a homens de maior presteza, a ideia da fábrica perdurou no diz que diz.  Mas, depois da telha assente e beiral terminado, começaram a surgir mármores raros, loiças e preparos a princípio não identificados e que os mais viajados designaram como artigos de banheiro, vidros e espelhos nunca vistos, soalho de recorte e beleza que não se sabia existir. E o morgado era visto a dar ordens no que seria o jardim. Vieram flores e árvores desconhecidas de mistura com as da terra; entre elas, uma palmeira já crescidota, palmas flexíveis em parábola sinuosa, delícia de passantes sem hábitos de exotismo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Carrossel


Tua mãe naquela casa comprida  em companhia da empregada diurna. O quarto da criada, livre da função, adormecido há anos num desconcerto amontoado até ao tecto sobre a pouca mobília. E o peremptório de dona Micaela, não mexa, são “as coisas do senhor”. Que “o senhor”, se regressasse do além, tinha um fanico; do zelo extremo com os seus pertences, sobrou zero. Aquela babilónia de marcas e valores atirados a trouxe-mouxe lembra displicências de lixeira. A empregada a desculpar-se, a senhora faz questão, ninguém toca neste quarto. E acrescenta confusa, não sei bem, mas tudo me parece que lhe vem certa alegria de ver isto assim desalmado.
 O que foi novo e de estirpe é reino de ácaros e aranhas pernilongas. Passeiam-se nas abotoaduras de teu pai, desovam no incalculável de gravatas de seda, fazem teia nas armas de caça. E as infatigáveis traças abrem clareiras nas lapelas, esburacam mangas, passam a ponto de crivo golas e chapéus. Acolá, estorcegados, as raquetas  e o saco de ténis. Ali, os sapatos outrora brilhantes que encorrilharam e levantam a biqueira empoeirada; em monte, as pastas cobertas de fungos e bolores; e nos rayban entornados fora da caixa grudou uma baba de verdete e ferrugem. Os frascos de perfume evaporado misturam com as echarpes e lenços de pescoço, finíssima lã que foi suave, seda natural que esboroa. Sobre o banco singelo da cabeceira, a caixa antiga dos preservativos acompanha o cachimbo das noites longas no Clube. E os abafos de estilo inglês, orgulho de teu pai, jazem decadentes e amarrotados, pisados por pés de cadeira. Há um jeito de vingança encrespada na indisposição das coisas que se entornam e entortam umas sobre as outras, sentença severa que o tempo auxilia. A tua mãe, delicada senhora que aplicou muita vida na ilusão, apetece de quando em vez banhar-se na verdade do que sem ignorar sempre mascarou.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Carrossel


Tua mãe inábil viúva a quem a casa da avó foi caindo em cima num lento desmoronar de tudo. Ainda hoje, quando a lucidez uma trégua luminosa, a minha avó era senhora de têmpera, ninguém me tira da cabeça, foi ela que arranjou tudo para o cónego sair, nunca mais o vimos, evaporou. Depois queda meditativa e submerge no lá atrás da infância, muda-se em criança de novo. Daí a um bocadinho oiço-a cantarolar, “olha a triste viuvinha que anda na roda a chorar” e logo desata o pranto silencioso que lhe conheço; e para mim, o senhor desculpe, é feio chorar em público, mas esta cantiga provoca-me. E eu, qual senhor D. Micá, então não se lembra de mim. O corpo retrai, olhar desconfiado. E a fazer beicinho alerta em vozinha tremeliques que não consegue alturas, está aqui um homem que eu nunca vi a dizer que me conhece, ponham na rua o aldrabão. Rua, rua, rua. E, dedo de juíz em riste, vai avisando,  é muito feio mentir, pimenta na língua, pimenta na língua, e desata o riso. Esqueceu o choro e a mim, a mente a desaparafusar, rrr...rr...rrrr....
Antes, fazíamos a viagem em silêncio, tu olhando a paisagem, desconfio que sem a ver. Eu, em estrada bucólica, falsamente atento à condução. Mirava-te de soslaio e disparavas, não olhes para mim. Punha a mão sobre a tua tentando acalmar-te e a tua mão inerte sob a minha, sem dedos aflitos a gritar no silêncio, não me deixes; sem o entrelaçado demonstrativo, ninguém nos verga. Chegávamos  e suspiravas como quem vai para exame difícil. Tomava-te o braço e sentia o teu corpo resistir, pés e pernas travando à proximidade da porta.  E pensava que te entendia.
Por  vezes, D. Micá não te reconhecia, desconfiava do teu corpo jovem, doía-se do teu beijo, quem é?, inquiria a afastar o rosto;  olhava-te em atenta e perfurante demência e soltava num repente de descoberta, cónego. E tu intrigada, a aproximar sobrancelhas, duas rugas pequeninas a nascer entre elas e aliciar-me os dedos, uma comichão de desvincá-las, passá-las ao ferro da ternura. Mas tu estranhíssima na surpresa de, cónego?, nunca tal lhe ouvi, de onde retira ela estas ridicularias. Tu a desejares o sonoro de antes no abrir da porta, filha, e logo os móveis arvoravam ar mais doce, a carpete ganhava cor, um zunido de mosca cessava. Tu imaginando, chego lá e conhece-me, pergunta pelo neto, quer saber dos passeios, da vida no emprego. E D. Micaela Tovar demorava os olhos em ti; reparavas nas pérolas do colar, no traço de baton e animavas.  Mas a foice das palavras vinha cercear-te a ilusão e lançar-te ao tapete, a senhora também vive aqui?. Saías devastada. Amorfa. Deixaste de visitá-la, não aguento, é demais para mim; vai tu. E ia eu.  Vou eu. Ainda.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Carrossel


E se tu de viva voz, têm cheiro e rabo de padre, logo ela, armada de autoridade, ameaçava pimenta na língua, um raiozito contente a brincar nos olhos que te fugiam acompanhando o pescoço, muito interessados nas pregas de cortinas  confidentes do remoque, esta garota tem umas ideias tão certeiras que me baralha. E ficaria olhando pela janela  na lembrança olfactiva do cardeal x, do bispo de, do arcebispo tal, de um cónego simples perdido nos tempos da infância e sempre tão presente, a sentá-la nos joelhos, vem cá minha linda, e ela aos saltinhos, a estender os braços para a ajudar a subir. E depois ele quedo, a mirá-la com devoção, como se ela uma nossa senhora de igreja. Passava-lhe a mão nos cabelos, elogiava-lhe o vestido, beijava-lhe a face. E a avó na porta da sacristia, um polícia sem sombra de sorriso, empertigada e senhora de seus anafados, mãos cruzadas na frente, a malinha pendendo sobre o volume  da barriga. O pescoço curto ufanava-lhe entre folhinhos de ternura inútil que a voz lhe saía em aviso de arame farpado e no tom de comando  dedicado às  serviçais, tenha tento senhor cónego. E a alegria infantil estilhaçada no incómodo. O cónego, senhor de tanta palavra, embatucado e, todo delicadezas, a devolvê-la ao chão. Num passe de mágica, a mão desaparecida na batina trazia em ressurreição um resplendente caramelo vaquinha que não havia em lugar nenhum, senão naquela santa algibeira. A avó sem pedir desculpas, encrespada de súbita pressa, a puxá-la da sacristia, levando-a a reboque a todo o comprimento da igreja, os passos  martelando no lajedo. E ela desentendida da pressa, a embeber no gosto cremoso do caramelo que derretia, mistura de açúcar caramelizado  e leite gordo a lembrar-lhe os olhos do padre. Quem sabe, tua mãe procurou a vida toda esse gosto no olhar de alguém, que a gente arrasta a infância por todo o lado, a infância é a fralda velha e gasta que alguns garotos abraçam confiantes e exigem por companhia. E teu pai, bem o sabes tu, com olhos sem correspondência. Mas como é que se encontra um gosto no olhar, diz-mo se fores capaz, tu, tão longe de mim agora. Que ainda hoje não sei que foi que viste em olhos meus. Mas voltemos a tua mãe, que não se abandona assim um parentesco de avó ríspida e neta única. Já em casa, a avó lavava com sabonete a bochecha beijada e, num murmúrio que se diria lacrimoso e odiento desabafava, peste, peste, peste, enquanto uma roseta vermelha alastrava no rosto da garota, a pele abespinhada, que foi isto, até parece que me esfolam. E a garota doída e doce que tua mãe era, a perguntar ainda em peganhice de caramelo, o que é peste. A tua bisa caindo em si, um carinho na bochecha afogueada, não faças caso meu amor, a tua avó está tonta.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Carrossel


Da cidade, conhecia a nossa igreja e os crentes. Na primeira vez que entrei no lugar de culto parei emudecido, desconfiei de uma partida, afinal eu era “o novo”. Uma vez por outra, tinha acompanhado tia Emília à igreja, sabia como era. Esperava um largo, a torre sineira, portas pesadas, e, no interior, a estontear-nos na penumbra, o odor a cera agoniada que o manso bruxuleio  das velas alimentava. Estranhei a localização quando o carro parou em rua lateral, numa correnteza de habitações. Nada a distingui-la da casa de A ou B, portas e janelas idênticas. Entrámos. No que devia ser a sala, havia filas de cadeiras dispostas com um corredor a meio e viradas para um estrado sem altar, cruz ou velas e flores. Apenas forrado a alcatifa e com uma mesa onde pontuava, aberto, um livro que me pareceu espesso. Toquei no ombro de Esparguete, isto não é uma igreja. E ele assentiu convicto, é a nossa igreja. Lembrei-me da escola desarrumada. Era domingo e as carteiras empilhadas lá atrás, o padre ajudado pelos mais velhos, num vaivém constante, um roçagar de batina que nos fazia rir à socapa, rosto vermelho e brilho de suor na pele, hoje digo missa na escola. Tão bonita, a secretária da professora vestida de altar, toalha branca, duas velas acesas a ladear a cruz.  E nós todos bem na frente, observando nos movimentos do padre os mistérios da religião que desconhecíamos, mas contentes da novidade, a sentirmo-nos gente. Lá atrás, em magote, as mulheres chamadas à pressa, ainda a cobrirem a cabeça e esquecidas de desatar os aventais, restos de caldo verde e migado para os galináceos nas unhas e no redondo da pele entre o indicador e o polegar, uma negrura de lume de chão nos dedos habituados aos tições, certo cheiro a fumo e pobreza encardidos na roupa. À vista dos preparos, benziam-se às três pancadas murmurando, ora o raio do padre, não podia ter avisado mais cedo. E na homilia, uma garotinha pequena e quase bebé a escapar-se da mão da mãe e a vir cá à frente distrair-nos ainda mais do sermão. Nós em sintonia, dentes à vista e olhos gaiteiros, a vê-la rodar muito divertida em volta do padre que pregava inflamado. Cutuquei Esparguete, isto é uma escola a fazer de igreja?, e ele a olhar-me impaciente, és parvo ou quê, isto é mesmo a igreja, a escola é outra coisa. Calei-me. Eu sabia contar histórias, mas Esparguete sabia de religião. Li-o nos olhos sérios e na resposta pronta, sem uma fraqueza.
Tia Emília, como é sabido, não era mulher de igreja, ia se tinha de ir, respeitava sem alarde e não fizera questão de me ensinar. A verdade é que entrei quase virgem noutra religião, julgando ser a mesma. Comparecer na igreja era a nossa distracção de domingo, íamos à cidade. A carrinha, essa sim, assinalada a toda a volta, trazia e levava os Rapazes do Lar. Logo a seguir ao almoço de domingo, era o que todos desejávamos, ir à cidade de carro. E sonhávamos com o dia em que a Casa da Boa Semente tivesse carrinha sua, guiada por Octávio que bem a merecia. Não assisti a tal.
Entretanto, tu vivias a beijar a frieza dos anéis de prelados e assistias missas e cerimónias adultas, presididas por bispos conhecidos que te puxavam os laços da cabeça e te repelavam, doías-te deles, das suas mãos repentinas, talvez desabituadas da suavidade da ternura. E tu desagradada, cheiram a quê, os padres têm um cheiro. Tua mamã admoestava mansamente, filha, é impressão tua. E dubitativa, ou será da água benta. E tu em pensamento, a recuares involuntária à lembrança de proximidade indesejada,  têm cheiro e rabo de padre.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Cai o Pano


Os enfeites natalícios emprestam à casa um ar de festa. São as luzes, as bagas vermelhas do azevinho, os brilhos refulgentes onde a árvore pontua, as mesas que condizem em toalhas e outros adereços, o presépio se existe. Tudo para que seja uma noite acolhedora e em família. A casa fica tão linda que, trabalho feito, apetece passear de um lado a outro. Mas cada coisa tem o seu tempo. Nos Reis, o azevinho definha, perdida a luxúria verde que parecia enraizada nas folhas que nos repelem agulha a agulha;  e a sedução elegante das bagas carrega agora o vermelho entristecido de mortalha precoce. A casa virou costas ao Natal, está saudosa, quer o aconchego de objectos triviais, fartou-se de brilhos.
Então as mulheres armam-se de paciência e escadote, sobem e descem, apeiam laços, desmancham árvore e presépio, tiram luzes e brinquedos, lavam as toalhas e os panos de cozinha, engomam de novo os cortinados a uso, voltam a subir e descer, acondicionam todos os pertences de natal em caixas etiquetadas – árvore de natal, presépio, laços e fitas, panos de cozinha, etc -;  carregam-nas para o sótão, fecham num armário, põem na prateleira de cima da despensa, escondem debaixo de camas, sabe-se lá até onde vai a imaginação na falta de espaço de um T1 ou T2.
E, fora a fúria de agulha dos azevinhos moribundos, os enfeites de natal agradecem as mãos que os tocam e amorosamente os embrulham e deitam no lugar como quem ajeita a dobra de lençol ao filho. E adormecem por mais um ano. Mataram a saudade de viver.  Reviram as crianças a crescer, os avós que vão envelhecendo, os ocupados pais das crianças, sem tempo para cuidar do tempo. Ou notaram a falta de alguém. Alguém que não pertence mais a esta família, ou  alguém que,  apesar da pertença sentida, partiu definitivo. Há famílias com gente nova, bebés, namorados, amigos que são ou serão namorados; laços humanos que se desmancham e refazem. Nas caixas arrumadas passeia certa melancolia, um frio de futuro incógnito que interpela as mulheres, até quando serei eu a desembrulhá-los. Mas a essa incerteza de 358 dias, ou motivado por ela, junta-se o desejo. O desejo simples de vivê-los e saber como são.

Nota: e se não for um trabalho de mulheres...bem haja quem o fez.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

O meu Pé Esquerdo


O portátil começou o ano com o pé esquerdo. Não há o que não lhe aconteça. Tarda em abrir, o desobediente. De quando em quando tinha umas birras, amuava. E nem para a frente nem para trás. Portanto, desligava-o (ainda o desligo) daquela forma que a sua lapidar e científica consciência me faz notar  “o computador não foi correctamente encerrado”, mas eu bem gostava de saber como agir diferente quando só o botão de ligar e desligar funciona. São muito espertos os senhores computadores. Bom, o certo é que o animal parece não gostar de 2020. De todos os meus utensílios, é o que melhor zelo. Temo a sua avaria mais que uma gripe na minha pessoa (uma gripe em mim é doença grave; podem dizer que sou piegas, não me interessa nada). Não se faz. Tanto cuidado, levo-o para todo o lado português ou estrangeiro. E é assim que o ingrato me paga. Se acaso estou mais tempo sem lhe tocar, embirra e demora ainda mais tempo a pensar.  É um perigo entregarmos a bichos destes  tanta letra, frases e frases, parágrafo atrás de parágrafo. Portanto, se eu fique uns tempos sem pio, já sabem, é que pifou de vez. Cada início é uma odisseia. Ora bolas.
Continuando o rol de desgraças, coisas de vil morte em alguidar plástico, e logo sem pedigree, hoje perdi no Metro um vestido, um cinto e um conjunto de cachecol e gorro. Não sei se se chama perder a deixar esquecido ao lado do banco onde me sentei à espera do comboio. Tal qual. O gorro e o cachecol não eram novos, mas eram meus, mesmo, mesmo. A bem dizer tive muito mais pena deles. O cachecol era meu há tantos anos...já vivemos muita coisa juntos. E íntima, que ao meu pescoço já de si um bocadinho maltratado, não chega qualquer. Sinto-me culpada pois claro, abandonei-os. Oxalá quem os achou tenha uma filha a quem fiquem lindamente (eram vermelhos e o gorro tem aquele pompom fofinho que apetece); e já agora, a quem o meu vestidinho barato, sirva. Faz de conta que foi uma prenda de Natal ao acaso, tirada à sorte.  Adiante.
Pois nem vou falar de eu a correr para a porta do Metro (lembrei-me do saco) e ela a fechar-se comigo dentro. Nem de ver o meu querido saco sozinho lá fora. Nem de ir até à próxima estação, virar e voltar – feita parva, bem entendido – ao local onde, depois de uns dois Metros terem passado, é claro que não estava nadica de nada. E depois fiz o caminho como aqueles cães sovados, de rabinho entre as pernas, a moer-me (precisavas era de levar uma sova, depois das alarvidades de gastos no Natal ainda perdes o pouco que compraste – foram só dezoito euros, mas tive que me despir e vestir e repetir tudo - ó que burra, mulher mais parva não há de certeza. E mais nomes que me chamei, mas não digo que são muito feios e até acho que os não mereço, mas estava neura por perder o que já era meu. E liguei para o número que me indicou a net e a senhora, que ninguém entregou nada naquela estação, mas ligue amanhã.
E como todos os portugueses, tive sorte no meio da desgraça (oxalá o portátil se aguente que hoje embirrou por tudo quanto é sítio): os livros que troquei estavam na mochila; e a prendinha que comprei com o cheque prenda também. Quem sabe a esta hora – hoje está frio -  há uma menina de gorro e cachecol vermelho a pensar que tem um vestido novo. E eis que dei a primeira prenda de Ano Novo:)

sábado, 4 de janeiro de 2020

Lamento


2020 parece-me um bom número.  Facto alheio à sorte, boa ou má, que possa acompanhar-nos ao longo dos próximos 366 dias. Palpites  guarda-chuva, garanto, não tenho. Possuo assim uns pressentimentos, às vezes uns sonhos premonitórios e até angústias inexplicáveis que posteriormente descubro coincidentes com momentos dolorosos em pessoas queridas. O correio dos astros diverte-se a enviar-me presságios incompletos, espécie de puzzle que não sei montar, mensagens sem remetente ou endereço. Cartas na mesa, sou apanhada pela desgraça como qualquer.
Hoje, em mim, é despropósito fazer propósitos. Os fogos na Austrália fazem-nos parecer quase ignomínia ou escárnio. Tanta área ardida, fauna e flora destruídas, vidas humanas ceifadas e em perigo. E se um bater de asas de borboleta tem impacto no outro lado do planeta, o que virá ao mundo deste flagelo que grassa nos antípodas. Porque a Terra nos vem dizendo, de há muitos anos a esta parte, que está tudo ligado. Fechados na bolha de lerdo optimismo, não concebíamos um  fogo incontrolável. Temos  meios de combate modernos, aviões e helicópteros, bombeiros bem equipados, gente avisada e experiente, cientistas e produtos químicos do nosso lado. Mas assistimos sentados à devassa voragem do fogo que galga sobre a ineficácia de todas as armas. Por vezes - triste ironia -,  enquanto jantamos ou almoçamos. Fogo que não pára e antes se alimenta do que consome. A cada quilómetro a besta ganha força. Às mãos do monstro, o nosso mundo morre há semanas. Mas não de morte natural. Contudo, não nos dá susto, vivemos o dia a dia e vamos vendo a Austrália arder. O fogo tomou  o freio nos dentes. Mas é tudo longe, parece filme.
Que razão existe para não estar o mundo inteiro empenhado e a combater rijamente o estrondoso desastre. Esta calamidade é mais um aviso. E de cada vez eles são mais rigorosos e mais vida sugam. Será que, nem agora,  à vista do futuro feito presente, nos mexemos?!