segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O Coração do Coração


Um dos meus gostos menos secretos é a leitura de António Lobo Antunes. Aturo-lhe tudo: as vaidades palermas, os propositados  ditos a armar ao desconchavo, o mau ambiente com Saramago, certo jeito de autismo que lhe existe e faz parte, as quintinhas de Benfica, a saúde dos ares de Nelas, a família que ele não diz mas é muito cheia de tiques, aquela mãe esplêndida e sucessiva que ensinou seis filhos a ler aos quatro anos, a voz sensual de pai distante, os cancros que não o derrotaram, o arreigado amor pelos irmãos. E etc. E não é isto difícil, boa parte do que o caracteriza agrada-me, sobretudo por ser apenas leitora  (afigura-se-me criatura de trato difícil). Mas o que amo de paixão é a sua loucura por escrito. E, fã severa, aprecio sobretudo os romances. Afirma que as crónicas são outra coisa. São mesmo. Imagino sempre que as escreve para se distrair, embora vá dizendo que são as moedinhas que dá às filhas. Ele  mesmo, no que tem de físico e situado, plasma-se nas crónicas. Crónicas são um trivial. Os romances são outra coisa. Tratam a dor do mundo, revelam aquela grande compreensão sobre o íntimo de cada personagem que nos permite a nós privar com assassinos, drogados, violadores, mulheres estranhas, sequestradores e o mais que se lembra, sem que nos provoquem asco, sentindo até empatia e compaixão nascidas dessa compreensão expressa, desse sentir que, julgo eu, afirma sempre o mesmo: que todos somos, em alguns aspectos, dignos de afecto; há uma pessoa no fundo de cada monstro, ninguém nasce deformado nos interiores e ainda que nascesse, seria um monstro humano.  

Diz o escritor que a sua mão escreve sozinha. Digo eu que a mente, quando lhe desengalga, vai por ali fora. E à tal mão que afirma mecânica só lhe resta escrever.

         Pardon, já escrevi trezentas palavras e ainda não entrei no assunto. É que intentava palrar sobre a homenagem feita aos 40 anos das duas primeiras obras, “Memória de elefante” e “Os cus de Judas”. Que foi linda e de qualidade.  E houve nela o Lobo Antunes das crónicas: um avô a contar histórias de família e suas. Como António bem disse acerca da sua estranheza para com o espelho, “sou um miúdo cujo envelope se gastou”.

E o mais que haja, só amanhã.


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Carrossel


Tia Emília foi velada em casa, sem cheiro de velas, presença de santos ou orações de padre. A vizinhança e a prima.  Poupado a pormenores de exéquias, apenas fui levado a despedir-me. Tudo em casa que fora minha me surgiu estranho. Cadeiras e bancos tinham sido arrastados para a sala esvaziada do seu natural e encontravam-se perfilados contra as quatro paredes de mistura com assentos desirmanados e artesanais, pertences desta e daquela vizinha. A meio, sobre uma cama feita com os moxos em que nos sentávamos à lareira, uma comprida caixa de madeira com duas portinhas a descair, toda forrada a cetins de alvura e brilho convidativos. Mais próximo, entrevi as rendas da almofada e tia Emília dentro da caixa. Muito bem posta e penteada. Era como se dormisse mas toda bem vestida, a cabeça a repousar sobre aquela brancura rendada. A palidez impressionava, um tom amarelado por toda a pele, pescoço, mãos, rosto.  Tanta vez a fora espreitar tomada pelo mistério do sono, ressonando cadenciada e agora nem um som além das fungadelas das mulheres num pico de comoção. Não entendi a razão, mas pareciam desconhecer que a minha tia Emília já não morava ali. Lamentavam-me. E eu sabia que a velhota partira levando com ela a nossa casa. Só para me certificar, avancei a mão e aflorei o rosto com os dedos. Não estava ali de certeza. A minha tia Emília falava, ria e não parava quieta, havia um calor na sua presença que toda a gente notava.  Aquela dentro da caixa estava fria e dura como pedra. Retirei a mão numa pressa e saí a correr, as fungadelas mais acesas, os lenços de assoar em serviço e por certo que em tom condoído, coitadinho.
Depois, quando o lugar se despovoou para o funeral e restavam apenas velhos trôpegos  e crianças, juntámo-nos em bando triste e debandámos a barreira vazia; o pinhal quieto, uma pinha ou outra a arreganhar, e nós sem trepar, adivinhando os pássaros pelo canto; o convite das árvores do caminho desejando as nossas pernas a subi-las para depois nos lançarmos de árvore em árvore como macacos; uma carroça ou outra que passava e acompanhávamos numa corrida até à curva; o automóvel que nos desviava do alcatrão e admirávamos em uníssono.
Fazia calor e a aragem trazia-nos o cheiro misturado a mato, eucalipto e pinheiro. Que entrava em nós como um bálsamo. Sem palavra, todos o sabíamos, cumpríamos um ritual de separação, cortávamos com a infância. Ou talvez fosse cerimónia pessoal que eles acompanhavam. O certo é que nenhum perguntou, o que fazemos à tarde; ninguém sugeriu, e se formos espreitar as cegonhas ao moinho de vento; não houve voz a inquirir, a que horas nos juntamos na barreira.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Carrossel


No regresso, avançávamos silenciosos, fechados em opacidade  contrafeita, pés a arrastarem.  Perto do local de partida e adivinhando propósitos, os meus guardiões atalharam-me o passo, não vás para lá, a mãe disse para não te deixarmos ir que os mortos não servem de companhia. A ausência de tia Emília. O para sempre da morte. Tão débeis os nossos “para sempre” vitais, tão pequenos todos. Mas não este. O para sempre da morte é o único que dura e se mantém, mau grado toda e qualquer circunstância. Tanto queríamos ser eternos e só nos eternizamos no não ser. Ironias e ideias que então não me ocorriam; de dentro dos meus dez anos feitos mergulhava na falta e no seu irremediável mas sem lhes atingir  dimensão. O nunca mais da morte, fui aprendendo depois, insinua-se pela vida como lâmina de faca. Mas naquele momento, ante a concretude de certezas tão desarmantes, os olhos marejavam. Logo o mais novo me aliciou a pretender distrair-me, olha, fiz um carrinho. Anda vê-lo.  Se quiseres, podes baptizá-lo. Segui-o até casa a fungar, a cadelita a ensarilhar-se nas nossas pernas. Mas, quando me passou o brinquedo para a mão, sem que eu percebesse porquê, que até me parecia que me ia aguentar a seco, desatou-se o único pranto da minha vida.
  Sentei-me num caixote, pus a cabeça entre os braços apoiados em mesa de faz de conta e deitei fora todas as lágrimas, expandi o desgosto, a cara a molhar o revestimento plástico. Naquela hora de eclipse, era eu e o desgosto soluçado em alta voz. À medida que o choro se prolongava ia enrouquecendo e, quando estava reduzido a espaçados frémitos soluçantes, sem que desse conta, o cansaço e o alívio levaram-me de vencida. Adormeci.
 Acordei à voz da prima farfalhuda, não sei que faça com o gaiato, ele não é da família e não o quero lá em casa. Sem bulir, ouvi a mãe dos meus amigos falando tão baixo que apenas entendia o sussurro. E ouvi espantado, não, não, a casa desmancha-se que não pago nem um mês de renda; e a ele ponho-o com dono. E depois, como quem matuta no assunto, tornou, há casas que recebem esta gente sem ninguém. Não me responsabilizo por ele. E depois é rapaz,  nem pensar nisso.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Carrossel


O que tinha por certo era a incapacidade de viver sozinho. Porém, depois que me despachei e me sentaram a mastigar um pão e beber uma caneca de café, achei a vida melhor, que na noite anterior nem jantara. Ao longo do dia as crianças pertenciam ao mundo da rua e não aqueciam lugar em casa. Portanto, ainda a mastigar, fomos postos fora, enxotados do mundo caseiro que entrevíamos na doença e à hora das refeições.  Saí ladeado por dois garotos da família e meus companheiros nas diurnas incursões da liberdade. Mal pusemos pé fora da porta, logo nos rodeou a curiosidade acesa de colegas de jogos e brincadeiras que nos aguardavam em magote suspenso. Formaram círculo compungido, a voz num baixo de seriedade por receio e respeito à morte. Queriam saber tudo: como a encontrara, como tinha os olhos e as mãos, se estava ferida, se espumava, se eu sentira medo, se a palpara e estava fria, se. Ali, a meio da rua e à claridade matinal, a morte de tia Emília foi severa e quase morbidamente escrutinada. Por momentos senti-me importante, a contar factos que me pareciam história de livro, coisa que não se passara comigo mas de que eu era o narrador. Entretanto, os dois que me ladeavam iam entremeando a elevar-se do anonimato, ele dormiu na nossa casa e demos-lhe o café e tudo. Dúvidas satisfeitas, olhámo-nos sem saber por onde continuar, a tristeza a aperrear-nos, incómoda. E veio a sugestão salvadora, se fôssemos a casa do Márinho ver os coelhos que nasceram esta noite. Fomos.  Ao pegar nos animais que nesse dia todos me passavam para as mãos, toma lá o peso dele, olha este tão engraçado, sentia-lhes o coração assustado, os movimentos do corpo pequeno e quente, e, involuntariamente, contrapunha essa vivacidade à quietude de tia Emília. Era como palpar a diferença entre vida e morte.  Mas, por outro lado, desejava iludir-me, prolongar indefinidamente  a visita à coelheira. Ali, éramos os mesmos, tecíamos os comentários de sempre, brincávamos uns com os outros, ocupavam-nos as mesmas funções. Ficando por lá, havia a hipótese de a vida igual a antes. Era um pensamento pateta, mas acudiu-me. Ao longo dos anos essa tendência para a pausa no meio dos atropelos trazia-me a lembrança daquele montinho de crianças a braços com a ideia da morte e a noção clara de me distraírem dela. A vida afastou-me deles, deu as suas voltas. Encontrei outros amigos e colegas de caminho, e sempre insisti na repetição do mesmo sentimento, experimentando guarida e o prazer da companhia e desejando sem palavras o que o apóstolo exprimiu na transfiguração de Cristo “Mestre, é bom estarmos aqui, façamos aqui três tendas”.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Carrossel


Sentimentos e emoções opostos são unicidade que dualiza na vida dos homens. Tia Emília estendeu a mão e ganhou-me para a vida, mas foi também com ela que experimentei a perda. Estamos destinados a perder tudo ou, como gostamos de pensar, a despojar-nos de mundo.  A verdade é que perdemos, é a vida quem tira, subtrai, rouba.  Vivemos a aprender, de perda em perda. E mais se aprende com o sofrimento do que com as alegrias, mas há aprendizagens desnecessárias por exorbitantes e demasiado intrusivas. Pode a má sorte marcar-nos para elas. Ou não é mal universal e o que  há é gente incapaz de finais felizes, que não segura a sua gota de água, escorre antes de ser usada; gente que perde os sapatos no caminho e faz muita vida descalça. Tem mais história, essa gente a que pertenço. Que em todos os caminhos há troços simples, planos, lisos; e troços que se enchem de apertadas curvas e contracurvas; caminhos existem que bifurcam e metem uns nos outros e os nós de junção e separação pedem maior cuidado, atenção extra. Decerto me faltou essa atenção cuidadosa e extraviei. Tia Emília, quando se desorientava e não acertava com o lugar pretendido, dizia ter almariado; talvez eu tenha almariado na vida. Mas não no troço que nos juntou. Vivíamos em linha recta, eu, na certeza de que ela era eterna. Na época em que preparava as festas de casamento, atordoava-me a sua ausência. E apesar de ter por certo o regresso,  já esses três dias eram os maiores do ano.
Mal acordei no dia seguinte, os factos impuseram-se. Fixos. Definitivos. Encontrava-me deitado no chão de uma casa com cheiros desconhecidos e nada da mesa quinane com o pequeno almoço. Não havia água aquecida para abluções matinais, nem peças de roupa lavada a olharem-me da cadeira. Não havia cadeira. Enovelado na lã de ovelha de um colchão velho, lembrei o dia anterior e a ideia feriu-me de tão nua, estava sozinho. Sozinho a vestir,  calçar, lavar. Sozinho era termo de que eu nem atingia o tamanho, ultrapassava a minha debilitada compreensão e avivava  tristeza e desconcerto.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Falta de Sentido


Gosto de receber em casa, mas o correr dos anos aumentou a lavoura prévia. Estou mais lenta; o vento descompõe em minutos os brunidos de  rua; as horas na cozinha triplicam. Ele são bolos, saladas, entradas, acompanhamentos, temperos de carne e peixe. E mais a verificação de vinhos, pão, fruta... as visitas almoçam e perdem direito a sair sem jantar. Outra exigência de mim para comigo é a execução atempada das refeições. Recuso pressas e frenesim de nervos que aumentam na proporção de horas em fuga esgalgada. Estas conquistas  arranco-as às madrugadas e a um já célebre  café. Sem tempo e cafeína vão-se-me boas maneiras e acepipes. Se alguém pensa em visitas súbitas, desista. De duas uma: ou entra de faxina, ou corre sério risco da simplicidade alimentar de uma  açorda ou migas de azeite; que o pão, já se sabe, é essência alentejana. Falam das carnes de porco, mas é tudo história. Pão é o que sempre houve e há-de haver em qualquer montesinho de cacaracá. E entende-se porquê.
Mas, quando a casa silencia, fica-me um vazio  cansado, coisa que se não preenche de enfiada nem se pode saltar. Vivido a seco e sem abébias de cafeína, chega a durar dias. Restolho onde nada medra, não há a teimosia verde de uma erva simples. Então, ressaltam-me os oceanos profanados, os peixes em extinção, os equilíbrios marítimos destruídos; as terras cansadas de produções intensivas e não adequadas que as exaurem; a rebelião natural dos elementos que se repete cada vez com mais frequência e destrói sem apelo. Vamos ainda a tempo, dizem os cientistas. Clamam a necessidade de mudanças drásticas para salvarmos o planeta que é dizer, salvarmo-nos a todos. Não sei ainda bem o que adiantou a João Baptista pregar no deserto, sempre me pareceu desperdício de tempo. Pode ser que me engane, que seja do tal vazio a perturbar-me as meninges, mas soa-me idêntica a voz científica, andam a pregar no deserto. Insurgências feitas de palavras, cingidas a esse reduto, esterilizam e são zero. Pois. Há os movimentos juvenis. Há Gretta. E a esperança está no futuro. Malogradamente, a esperança tem que estar no presente e não depende já da natureza. Depende de nós que somos a raiz do mal; o poder de emendar está do lado dos homens. E o homem que existe, digo eu, não leva a sério a ameaça, não está para isso de inverter a marcha acelerada para o abismo.  Não quer mudar. De que serve o conhecimento...

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Inúmera Necessidade


Dias a começar com um café. Lá fora, o silêncio pousado sobre o mundo. Noto as casas adormecidas na penumbra e parecem-me mais próximas, talvez se aconcheguem para dormir. Quem dentro delas vigia como eu, quem dorme pesadamente, quem dormita e, nos intervalos do sono, se apraz em silêncio saboreando hora a hora as pequenas gotas do descanso. Quem sonha e se debate em pesadelos que manietam braços e pernas, corpos desamparados a despenhar de alturas inconcebíveis,  mortes anunciadas e temíveis de que se acorda transido. Quem sonha e cria, quem tem alma jovem e inventa vida e vive nela o que a realidade subtrai. O movimento dá mão à luz e, lá fora, a escuridão é imenso novelo. 
Acordar.  Encarar de frente horas e horas de atenção  a pormenores que precisam de lugar. Arrumar é atribuir lugar ao que o não tem ou está fora de ordem. Limpeza. Antes da canícula, no exterior; depois, no interior. Limpeza. Metódica. Morosa. Num desenho animado bastaria uma cena e a jarra de flores murchas revivia, os papéis caminhavam sozinhos para o cesto, aranhas recolhiam as teias, o lixo ia despejar-se a si mesmo no contentor, o pó desaparecia de jacto e o chão rebrilhava enquanto inúmeras florinhas evolavam cantando hinos de aroma floral. No desenho animado a parafernália de detergentes e lixívias não entra, foi dispensada de serviço.
Ora acontece que um café reanima sem milagre. Portanto,  temos de considerar o esforço de corpo e mente presos à função. Quantas horas são necessárias para reaver a casa como ta ensinei a conceber. Não o sei, é sempre variável. Sei que a noite se achega ao cansaço que viajou desde antes da luz, estendeu-se de uma noite a outra noite. Mas tu entras. Aproximas-te naturalmente, olá, mãe, tudo bem.  Meu filho querido. E é isto. Um bem maior.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Carrossel


Nus e brincalhões, a comparação no tamanho do sexo sempre presente. Olhares intrigados de um ou outro, vaidade de campeão nos mais velhos, ares protectores e sabedoria fingida numa promessa, quando cresceres mais vais ver, ainda me passas. E o apelo da água. As conversas adultas em fundo de aviso, diz que há ali um pego debaixo do choupo, ninguém vai para lá. Espadanávamos na correnteza, contentes e sozinhos, olha lá onde cheguei; fazíamos competições assistidas e muito comentadas, cada nadador com seus adeptos; e ensinávamos uns aos outros a boiar, dar braçadas, experimentar bruços ou costas. Depois, por orientação solar, secávamos beatíficos e exaustos, deitados pelas margens. E surgiam as histórias onde o imaginário dava mão à realidade, cada um querendo atrair mais atenção que o vizinho. Mas o regresso. O caminho de volta tão dissemelhante. Moroso. Difícil de pernas e ânimo. E todos cientes, a pontualidade era a última alínea do segredo. O cansaço ia silenciando os mais novos, fazia-os atrasar o passo e, por mais instados, não raro tínhamos de transportá-los às cavalitas. Chegávamos ao Bairro da Venezuela de mãos nos bolsos ou de mão dada aos mais novos prontamente tresladados para o chão antes da barreira, uns assobiavam, outros entretinham-se a pontapear algum pedrisco solto no caminho.  A bem da nação todos fingíamos. Tínhamos ido aos ninhos. E se a franja ainda húmida, é do suor, subir aos pinheiros custa.
E eu que entrava em casa com pena  de não poder contar o júbilo da água, tão calado e contente como certo de castigo e proíbição se a verdade viesse à tona. Eu que tinha hábito a mostrar-me, já cá estou, cheguei. E a cabeça de tia Emília assomando na porta da cozinha, vai-te lavar que estás um porquinho. Ou a voz pausada com ligeiro toque militar, anda cá, quero ver o lindo estado em que vens. Mas hoje, que é sempre hoje na minha lembrança e como já disse, fazer o quê, estou a entrar em casa. Satisfeito, cansado, na certeza de gestos e actos sempre os mesmos. A casa igual, de porta sempre aberta. E tudo tão quieto e sem resposta que saio a espreitar a rua, o quintal, a estrada, o quintal da vizinhança.  E volto a entrar. Alteio a voz, quem sabe está no quarto e não ouviu, tia Emília, tia Emília.  Passo a cozinha. A velha está  ainda sentada à mesa quinane, os óculos da costura escorregaram-lhe para o chão, o cesto das linhas virado, agulhas e alfinetes sem destino, as linhas às cores rodaram até ao obstáculo mais próximo e estão paradas num pé de cadeira ou de mesa, enfiadas debaixo da cama. Apanho-lhe os óculos na estranheza de tia Emília neste sossego e tudo desarrumado. Acerco-me de óculos na mão, chamo ao ouvido, tia Emília, esperando o seu sobressalto. E ela de cabeça pendida ao peito, tão sem acordo como os pássaros. A esfriar e endurecer como eles. Devo ter dado alarme que se encheu a casa de gente sentada nas nossas cadeiras, sobre as nossas camas, à soleira da nossa porta. Era Verão. Tinha vindo de nadar. Mas sentei-me ao canto da lareira vazia e por ali fiquei. Veio a prima farfalhuda e não me fez caso, as vizinhas que também me esqueceram e ouvi sem ouvir senhores e senhoras que não me importaram e do meu buraco eram apenas pernas e fins de calças e saias a mover-se. Não comi nem bebi. Não sei se pensei. A morte súbita de tia Emília esvaiu-me. Foi quando a última vizinha fechava a porta que – conta ela – me viu no canto mais escuro da chaminé. Não falava, não gemia, e parecia nada entender. Levou-me ao colo para sua casa, fez-me cama no chão da cozinha e deitou-me. Conta que só quando ensejou despir-me reparou que segurava ainda os óculos da costura.


quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Carrossel


Não sabemos todas as razões de lembrar ou esquecer. Acodem-me estes  fragmentos em nebulosa, lembranças de entreter que são apenas rebordo de dias felizes e sem história. Pespegam-se na memória  como vincos que o tempo se esqueceu de passar a ferro. Quanto deixei cair dessas horas que levaram consigo lugares, gente, acontecimentos. Em tempo mais negro, alenta-me a almofada de dias e meses esquecidos, essa bolsa de pequenos nadas que é limbo e amparo.
 Porém, há horas tão vívidas que tenho de olhar-me por inteiro, passar a mão por rosto e cabelos, medir o tamanho de pernas e braços, para saber que cresci e passaram anos.  Que não sou já aquele que renascia com o verão, a palpar-se na ligeireza da roupa e vivendo a largura de liberdade que o tempo e as férias permitiam. Nas longas tardes de Julho, sem palavra ou ordem de adulto, íamos nadar à ribeira. A ribeira tinha os seus rituais. O primeiro era não aceitar raparigas no grupo e nem sonhar em contar-lhes ou logo delambiam a novidade; e as mães, ou mesmo o cinto dos pais, moíam de porrada. Os iniciados no segredo, mãos sobrepostas em pirâmide e cenho franzido de veemência, juravam as conveniências do silêncio. E depois de combinação prévia e secreta  - sempre após o almoço -, um a um, íamos sumindo, o bairro a sossegar por fases. Que as raparigas, só por elas e pelos catraios de berço e a engatinhar, excepção feita a uma birra ou outra, pouco se ouviam. Usávamos juntar-nos atrás da parede de barro, uma montanha clara e dura, depósito de um catterpilar na abertura de ruas no bairro e onde, verão afora, escorregávamos a puir e rasgar fundilhos novos e velhos, sempre assombrados por lamparinas bem assentes. O monte de barro desmedia à curva, separando a zona ocupada pelo Bairro da Venezuela da terra de ninguém que lhe verdejava por detrás. Na revessa, isolávamos de olhares alcoviteiros. Composto o ramo, embrenhávamos na floresta densa e altíssima que lhe ficava nas costas e era apenas um pinhal desasado e cheio de tojo onde arranhávamos as pernas. Na mira do recreio aquático, corríamos em alegria uns três quilómetros, saltando matos, pisando cogumelos, tropeçando nos vasos de resina caídos, rindo do som abafado e polvoroso das bufas de lobo rebentadas e que nos sujavam as pernas. E nas margens da ribeira o segundo preceito: roupas guardadas em lugar seco ou éramos descobertos.


terça-feira, 10 de setembro de 2019

O Tempo que Vai


Setembro. Setembro que chegou em calor de lume lembrando torrinas negadas por Agosto. Mas em Agosto houve o luar. As férias de quem. O subsídio de quase todos. As pequenas loucuras e passeios, gelados, tempo de dias grandes correndo a fio nas esplanadas, roupas leves, o corpo ousando a liberdade que é sempre maior e mais linda no feminino, um ror de pernas, decotes que se prolongam em Vê e até onde, o movimento um pincel delineando curvas evidências. E o sol. Nos cabelos, na pele, o enigma do rosto sob um chapéu, boca no beijo da luz.  
Em Agosto houve os frutos da natureza. Maduros, sumarentos, chamariz de olfacto e mãos. A doçura que escorre por entre os dedos, melões, pêssegos, sangue de ameixas pegajosas, um resto de saudade no coração vermelho dos morangos que se despedem. E a carne vegetal das cerejas, firmeza macia que se deseja e os dentes mordem em festa. Ou os figos, impossível doçura. Os figos que escorrem mel e são labareda, quentes como um trópico.
Em Agosto há as malvas olorosas, as rosas insistentes, cravos e cravinas de cheiro quente e íntimo, os malmequeres diáfanos e adstringentes. Em Agosto os jardins cheiram à vida adulta vegetal e ao mistério da criação. O verão exacerba odores. Tudo cheira. Matinais, os jardins convidam e perfumam. Mas nas horas de canícula os cheiros entontecem, respira-se a saturação clorofílica a exalar, o viço que se desprende. As plantas suam perfume. De noite, a mistura de odores é ainda mais insurgente, razão por que os jardins são murados e fechados a cadeado. Assim se protegem os homens do perfumado mistério nocturno, dos suspiros e desmaios longos das flores, do cheiro a respiração vegetal.  
Não sabemos por que grato acaso tanto nos inquieta e exalta a prodigalidade de cheiros vegetais. Mas inquieta. Exalta. E também acalma. Copiamos de plantas cheirosas o que podemos, quanto podemos. Contudo, o laboratório não  chega ao rasto sublime da cravina humilde, da modesta violeta, da quotidiana malva de cheiro, da madeira e casca de algumas árvores e arbustos.
Mas é Setembro. Os odores encurtam e surgem leves indícios de certo colírio natural, amarelecem e caem as primeiras folhas. À tontura do frenesim odorífico sucede a acalmia. A  natureza dispõe-se ao repouso. Devagar. Em beleza.


sábado, 7 de setembro de 2019

Carrossel


Na infância feliz há uma certeza de eternidade e a morte é  insignificância destinada a gente ignota. Morreu fulano. Morreu sicrano. Morreu. E eu pensava nos pássaros mortos que não conseguia ressuscitar por mais que fizesse, nos gatitos que morriam ao nascer, as gatas mães a abandoná-los mal o cheiro da morte os bafejava. Eu cheio de pena da mexida dos pobrezinhos, as patitas ainda a procurar pêlo, todos boca e olhos cegos buscando têtas que se negavam indiferentes. Eu com vontade de sovar as gatas malvadas que desmediam em ternura e guarida a filhos viçosos. A injustiça que é existir e ser gato. Em mim, o mundo injusto da morte não abarcava ainda os humanos, que a ceifeira só nos existe quando macula o horizonte afectivo.
No meu bairro, ruas de terra batida e poeirenta, empoçadas a cada inverno,  a vida ia passando de manso e  sempre comigo ao colo. Tia Emília bulia por tudo e, rodeada e miséria, a nossa casa era, ainda assim, a mais farta. Tínhamos mobília, mesas e cadeiras, pés e pernas em curva de agrado.  Nas demais casas, os caixotes de fruta aconchegados uns nos outros serviam de mesa e, solitários, arremedavam bancos baixos que nas horas vagas viravam saco multifunções, escadote, berço dos que nasciam, carro sem rodas que se puxava a atilho e força de braços infantis, saco de roupa, e mais um  infindo etecetera. Maravilhava-se a juventude da Maria do Víctor com os nossos pertences, a mão festejando a madeira do tampo, ou pousada num arroubo de gosto sobre o burilado artístico de uma cadeira, um tudo nada de inveja vaidosa a ecoar sob a sentença certificada, são Quinane. Eu ouvia isto e o termo Quinane entravava na minha pobreza vocabular arredado de compreensão.   Supunha que a nossa mesa e cadeiras tinham vindo directas e sem delongas das províncias ultramarinas, lugares com gente de nome esquisito como Gungunhana, quem teria baptizado o Gungunhana, pensava eu cheio de pena. Portanto, Quinane soava a Angola, chegava-me prenhe da quentura dos trópicos, dos cheiros de mato e do terror a panteras espreitadeiras, um olho de farol maldoso a fazer-se presente, ferocidade amarela que atravessava as folhas da selva.  A minha selva cingia-se a um ror de folhas e folhas sobrepostas e incisivas, uma vitalidade libertina e em crescendo que quebrava a luz e  esverdeava os poucos raios de claridade. Para além de albergar todo o género de perigos animais.  Na selva andava tudo à solta, cobras, lagartos, leões e as panteras aceradas. Às girafas riscadinhas retirava-as do quadro, a sua cabeça de periscópio a estragar-me a esquadria da imagem; além disso eram herbívoras e eu cultivava a teoria dos animais selvagens e carnívoros que esfacelavam tudo a eito com dentuça terrífica. Só mais tarde, quando a vida me clareou as ideias a injecções de realidade excessiva, vim a entender que quinane era a versão popular e portuguesa de um estilo de mobiliário inglês. Lá na outra vida, queen Anne há-de ter sorrido. De mim. Do aportuguesamento. Queen Anne, milady...


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Os Santos Mistérios


Foi hoje mesmo. Não ontem ou no mês passado quando  me misturei em visitas de família e amigos. Foi hoje. O tête à tête necessário, coisa de estarmos as duas sem palavras, numa calma de várias horas.  Por vezes a minha alegria começa no caminho descansado e longo que percorro até ela. Nesses dias tenho olhos de poesia e levo versos presos nas pestanas. Hoje, não. Hoje seguia recalcitrante, atada a moíções eternas e nem guardei memória do caminho. Contudo, fui descongestionando, guiar em silêncio é acto que me desliga. Mas vê-la assim guardada pela serra, um imenso lago rútilo até ao horizonte, no dia claro e de luz aberta, deu-me alma nova. Bem sei que o dia não foi feito para mim. Mas vamos fingir, vamos fingir que sim. Preciso pensá-lo. Anima-me essa intenção da natureza. Compensa-me. 
E portanto fiquei o dia todo a compensar-me. E quando me compenso tudo vira extraordinário: o conciliábulo só nosso e que acontece no meio da gente; a maciez da areia a saudar os pés; a frescura que me recebe e se renova em cada vez; a leveza transmitida por água e sol e um cansaço bom que me entorpece; o imenso prazer de ter corpo e haver água viva onde mergulhá-lo (pode ser da impulsão, sim, “qualquer corpo mergulhado num líquido sofre da parte deste...”).
E com licença que vou dormir. Adormecer. Curtir o cansaço marítimo. 
Foi um prazer.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Parentesis Recto


Visito-a de quando em vez. E sorriem os olhos azuis na moldura enbranquecida, voz nostálgica. Fala-me dos tempos de namoro por carta, do ultramar, do casamento e da filha única e desvelada. Não se acanha e adjectiva familiares próximos  pronunciada e rotundamente. São os melhores, os mais honestos, inteligentes e bonitos; habilidosos como só eles, facto, aliás,  reconhecido por todos. Conta as façanhas de mortos e vivos que lhe permanecem indistintos e salta de uns a outros sem mais paragem que o acto de respirar. Obriga-me a certa ginástica mental.
E com passo lesto se vão minutos e horas. Apresto-me a sair antes que enfileire em nova história da sua  gente. Delicada, traz-me à porta. É então que se lembra. O neto escreveu um livro e uma editora vai publicar. Conheço o rapaz, é vivo e mexe-se por tudo: parece que pôs na net a obra e o pedido a editora interessada. Ladino como um garoto. Merece a atenção, ou a editora não lhe pegava, que não é edição de autor. Fez-me ler o prefácio do editor. Satisfez-me. Dei os parabéns. Prometi estar na sessão de homenagem ao lançamento prometida pela autarquia, falei sobre o orgulho de ter um neto escritor. E ela, olho azul muito aberto, como quem, dentro da circunstância, acha natural, “é para isso, tem mesmo o curso”.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Olá Tolentino


Desculpa, Tolentino.  Eu sei que prometi escrever. Que, enfiado nessa babel livresca, não me lerias na mesma. “Os arquivos secretos do Vaticano”. Não te soa a Agatha Christie? Soa, soa. É nome com fumo de mistério. Mas ouvi-te - e também te vi -  afirmar que essa biblioteca de que tomas conta, com quilómetros de corredores e muitos mais de estantes, nos pertence. Vincaste que é de todos nós, própria nossa, pertence ao número incalculável de cristãos que há pelo mundo. Afirmação tão bonita e que encontro tão pouco verdadeira. Não duvido nem por um segundo que a trates e consideres como tal, coube-te guardar o tesouro do mundo católico. Poeta! Poeta que tu és até ao âmago.
E agora vais ser cardeal. Na Madeira já te sonham papa. Ora, não sou madeirense e disse o mesmo; é que te julgo pessoa capaz. Como é ser cardeal, Tolentino? O que será que muda na vida que é mesmo tua, na poesia, nas crónicas que continuas a escrever, dentro de ti e do tempo que existe para a tua interioridade. Olhei-te com muita atenção, sabes. Pareceste aceitar com alegria e desprendimento, estilo, ok, venha de lá mais essa comenda que eu sou outra coisa, mas faço por honrá-la. E eu que tanto te gosto só quero que sejas feliz. Estás a caminho de ser feliz Tolentino? Estás. Tu estás sempre a caminho de ser feliz. E que Deus Nosso Senhor te guie a vida cardinalícia.
Tinha mais umas tristezas comezinhas para contar, mas hoje é dia alegre e teu.  Parabéns. Podes crer que acredito em ti. Poeta!
PS: a data marcada para a tua ordenação é de arromba, já viste? Procura lá bem nos arquivos menos secretos e vê se houve porventura cardeal português mais ligado à nossa história recente. Viva A República!