terça-feira, 23 de abril de 2019

Olá Tolentino:)



Tens razão, não terminei a nossa última conversa. Nada tenho a meu favor excepto que a vida  às vezes me emudece e a minha Páscoa é dada a movimentações trabalhosas. Faltou tempo e, sobretudo,  ânimo. E portanto, já sabes, não renasci nem coisa nenhuma. Ressurreições, zero. Para que saibas, ontem até me atrasei para a “lição” semanal que desta vez coube  ao padre Adelino Ascenso (que nome, santo deus). Pior que isso, estava num cansaço tão extremo que fui adormecendo aos bocadinhos e pouco me lembro do que disse o especialista em Shusako Endo sobre o livro, “O Silêncio”que, aliás, também não li. Mais nítido que as palavras, a sobrepôr-se majestoso, esteve o sofrido esforço de manter olhos abertos enquanto, para minha desdita, não parava de bocejar. Tudo causa minha, o Ascenso não teve parte, garanto: é inocente. Digamos que do texto lido me ficaram uma ou duas ideias; as restantes não me entraram. Escorregaram-me canseira abaixo. E, desculpa, mas nem te consigo dizer se Adelino Ascenso me agradou. Deixo-o no limbo da minha ignorância sonâmbula.
Digo-te que tentei ver por duas ou três vezes o filme “O Silêncio” e desisti. Não volto a tentar. Disse o emérito sábio que o livro é bastante melhor e mais reflexivo. Duvido que o queira ler alguma vez. Parece-me que quem gostou do filme há-de gostar ainda mais do livro. Mas só me parece. Diz-me tu se é assim.
Não te esqueças de vir encerrar as lições. Prometeste. Podes vir fora de horas, a gente compreende e vai ouvir-te na mesma. Mas não te esqueças de vir, ok? E começa, se faz favor, a preparar a mala.

domingo, 21 de abril de 2019

A Morte de Um Anjo


         Morrem cedo os que Deus ama. Foi assim com a minha menina. Mais uma. E que estranho vê-los ir antes de mim, assistir. É contra natura, força-nos a carne e o espírito. Fui sua professora teria uns quinze, dezasseis anos. Alegre, espaçosa, vivas e atentas azeitonas pretas a iluminar o rosto. Mais tarde, encontrei-a nos escuteiros, tomou conta dos meus filhos enquanto lobitos, adequada a mais não poder. Tinham nela uma mãe jovem, nada austera, sorriso à flor da pele, uma aura receptiva pelo corpo todo. Assim os conquistava. Jamais lhe escutei bisbilhotice viperina, palavra menos cordata sobre alguém. Era de actos, pouco palavrosa.  E sabia ouvir. Subiu-lhe a vantagem do corpo um único amor. Aziago e secreto amor de um lado só, desditoso amor que não parou a olhá-la e lhe ignorou a alma. Que, breve, se desagradou do corpo. Mas a biologia cumpre-se sem complacências. O escândalo da gravidez, o anonimato de amor unilateral trazido à luz, a vergonha do abandono masculino a impar de negação reiterada e difamação (um homem no seu melhor). A dor humilhada. A ausência de palavras a dar-lhe brilho e conferir tamanho.
O tempo passou, o filho nasceu e veio a batalha judicial pelo nome do pai, processo longo, penoso, que venceu. Encontrava-a ainda por vezes e, por entre os pequenos lobitos, cantava a flor da fragância com o mesmo empenho, agitando o lenço em remoinho. Continuava sem distância, sorriso gaiato e olhos de azeitona preta. Uma lição.   
         O nosso último encontro foi na panificadora, ambas por um pão. Achei-a magra e talvez o moreno baço me tenha alertado. Perguntei se estava tudo bem, que me parecia magra e era tempo de parar com a dieta (sujeitara-se a uma dieta com acompanhamento médico durante anos e ficara muito bem). Ela riu e disse-me apenas que a dieta já fora, tinha tido uns problemitas mas já estava tudo bem. E eu sem imaginar a gravidade, você é uma mulher forte e bem disposta, tem uma vontade que leva tudo à frente. Já era assim nos seus tempos de estudante, lembra-se. E acrescentei a pegar no meu pão,  vai ficar tudo bem, pois. Bom Dia. E ela, é assim que tem que ser. E não mais nos vimos.
         Ontem, manhãzinha, minha irmã ao telefone, olha, não te disse ontem para não te tirar o sono, mas morreu a Maria (chamemos-lhe assim). E eu sobressaltada, a julgar que era engano, numa interrogação dolorosa, quem, e minha irmã a confirmar.
E afinal, Maria, não dizias por que faltavas ao emprego, adoecias de repente e voltavas passados uns dias. E o cancro levou-te no ápice de uma sexta feira santa, na extraordinária hora da morte de Cristo.
E que tenhas tudo. Tudo do que tanto te faltou nesta vida efémera que amaste empenhadamente. Por mim, digo, obrigada pelo tempo ao nosso lado, pela tua alegria e perseverança sem quebra. Um dia, não sei quando, havemos de falar sobre isso.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Olá Tolentino:)


Desculpa o meu atraso, mas há dias em que as urgências da vida prática protelam a escrita. E depois o tempo livre enrodilha-se-me no cansaço e – vê tu o que é uma mulher de nariz virado à terra – apetecem-me filmes, histórias fictícias de bem e de mal ou apenas de assim, imagens em catadupa que me descansem corpo e mente, um porque pára e a outra porque abranda no embalo da narração. E foi apenas isto, continuo a gostar que me contem histórias. Quem sabe todos continuamos a desejar que nos contem histórias. Não te parece motivo?  Mas é.
Pois....deve ter sido por já estar muita gente de férias, mas a tua igreja clara não encheu para ouvir falar de Simone Weil pela boca de Fernanda Henriques, muito in no novo visual –  óculos actualizados e radical mudança capilar. E muito perderam. Não porque a emérita professora tenha feito prolongada explicação da obra em apreço “A gravidade e a graça”. Mas por motivos relacionados com este. Em primeiro lugar, a conferencista – mania de anunciarem os títulos como quem nos predispõe à notícia; estilo, cuidado com o que pensam, nada de duvidar que ele(a) é mesmo sábio(a) a valer -, Dona Henriques confessou aquilo que eu mesma senti: a estranheza; é um livro sem ponta por onde se pegue, uma série de fragmentos que importam e revelam uma pessoa reflexiva. Esta manta de retalhos nem sequer foi administrada pela autora que morreu jovem – 34 anos - e deixou cadernos de anotações diversas e em amálgama. Alguém que lhe era próximo organizou o livro numa sequência que nunca saberemos se seria a sua (um bocadinho platónico-socrático, não te parece). E tudo isto disse a professora, desabafo que só lhe ficou bem. Mais acrescentou que a vida de Simone Weil coaduna com a obra: é dispersa e exigente, coerente, apaixonada, nada linear. E que, estou a citar, “O livro é inapresentável”. Deixa-me abrir uma espécie de parentesis, dizer-te que foi gratificante ouvi-la reafirmar o que senti quando tentei lê-lo (mea culpa,  não terminei). Portanto, volto a citar, o que ouvimos foi “um percurso de leitura”. Olha, não te vou falar sobre o livro – os incontáveis fragmentos que o compõem – mas sobre a jovem Simone. Solitária de enorme erudição, contraria o costumeiro intelectual. Porque fez acompanhar as actividades do espírito com as do corpo. Diz Fernanda Henriques que morreu de tuberculose mas, está a emérita convencida que quis morrer. Deixou simplesmente de se alimentar. E aqui discordo. Digo-te que apesar dos motivos apresentados – a garota sacrificava-se desde jovem, fazia jejuns e isso -, conheço essa ausência de apetite da tuberculose, não é uma questão de querer deixar de comer, é que, além da perda de apetite, torna-se impossível engolir a bola alimentar por mais mastigada que esteja. Não te sei explicar, mas é assim; a vontade de viver ausenta-se, o mínimo som é ruído e incomoda, mas falta força para o contrariar, é tudo longe e despegado; um turpôr avassalante desprende-nos do mundo que passa a desinteresse. E, além do mais, em 1943 não havia “cura” para a tuberculose.
Estou a tornar-me dramática, já apaguei dois parágrafos. E portanto vou à refrega das sextas e continuamos mais tarde, se não te importas. Quem sabe regresso mais alinhada e menos emotiva.
Fica bem. E cuida-te. Podes estar longe, nos antípodas –  estás sempre nos antípodas, habitas a transcendência -, preocupa-me na mesma o teu bem estar. Mas acredito na poesia e no teu coração de ser feliz aos bocadinhos.
(cont.)


quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Mundo aqui à Mão


As viagens de Metro instruem. Não de sabedoria livresca ou sequer quotidiana. O Metro é montra aberta ao olhar e tem manequins vivos,  sentem, choram, riem, amuam. Mas olhar os outros é prazer que saiu de moda, parvoíce de gente antiga. A maioria dos utentes segue virado para si: cusca o que diz que diz em qualquer rede social, isola-se num jogo digital que não tira nem põe; ouve ou lê as notícias que aparecem ao minuto e se tornaram indispensáveis não se sabe bem a que parte do viver, mas há quem precise de ruído; vê um filme em écran minúsculo sem que se atinja a razão de não poder esperar por melhor logística corporal e tecnológica. Ouvem-se conversas intermináveis com o anonimato; discussões acesas como se em presença e no recato de sua casa; coisas do arco da velha que não lembrariam ao diabo, mas são assunto. O pudor é cada vez menos visível.
E eis senão quando, estava eu a sentar-me para esperar o Metro que, ainda bem não, dá em atrasar, pois não é que veio sentar-se a meu lado um senhor entre os cinquenta e os sessenta, abre o saco, tira uns óculinhos que coloca com cuidado e zás, saca de um livro. Isso mesmo, um livro. E, incrível mas verdadeiro, pôs-se a ler. Fartei-me de olhar para a sua atenção. Alourado, alguma falta de cabelo, barba do dia já a crescer (foi à tardinha). E a ler. Um homem, a ler no metro, algo que não era o jornal. Um verdadeiro acontecimento. Pensei para mim que tinha pinta de estrangeiro, mas por mais que tentasse não alcancei o título do livro. Mas não é que no dia seguinte, também à tarde, dei com um espécime masculino, de certeza português, talvez trinta anos, moreno de olhos doces, gel no cabelo, alto, magro, mochila de trabalho às costas e um calhamaço na mão? Era um senhor livro. E vinha a ler de pé. Mais tarde, sentou-se e continuou a função. Saí e ficou lendo. 
Estes dois homens fizeram grande bem à minha fraca opinião sobre a leitura do género masculino – peço desculpa ao género. É que anda muito arruinada. Pode que a maioria dos homens leia livros às escondidas porque até julgo que se sentem diminuídos se os apanharem desprevenidos a ler. Será essa a convicção de alguns leitores recatados. Na sua óptica – e até na de meu pai -, um homem ser apanhado a ler um romance é sinal que a testosterona não tem a percentagem devida. Ora, ler romances é coisa de mulheres. E na verdade, elas não lerão muito, mas as que lêem não se reservam. Elas precisam desse mundo de palavras e são rainhas no mundo do irreal. Os preconceitos são forte retardador.

domingo, 14 de abril de 2019

Peso Pluma


Mudas manhãs de domingo.  Caminhos desertos de passos e rodas. Nenhuma voz. Talvez um poeta estremunhado olhando a névoa, ou pio perdido de ave atónita. No ar, o desconcerto devoto do vapor de água a beijar as coisas, rasto de água que as percorre e adesiva em gotículas finas. E elas palpitando seiva na sua inércia, gotas pestanudas pelo caule, uma vontade de riso que vem da raiz e sobe  à humidade das folhas. De súbito, o cuco estremece as horas. E logo rufos de asa, um entusiasmo de  penas que atravessa nuvens em suave canto. Porfiam  pela manhã que tarda, ainda enleada no abraço de gotas, presa na cortina de silêncio que as aves entreabrem.
Quem bem olhe há-de notar, as coisas não estão em si. No recato de névoa, dissiparam. Pairam no abraço de nuvem natural, quem sabe se no frémito amoroso desmaiam e suspendem. Mas o mavioso de pássaros clama por penetrâncias de sol e as gotas desligam-se de mansinho, somem. E o mundo, como se conhece, vai acordando.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

miudezas


Sou mulher à antiga. Antiga de pensamento e acção, não de figura, que não destoo. Postas as coisas assim, jogo aberrante entre o que pareço e o que sou, muito ano medeia entre as duas de mim. Creio até que habituei os outros a este anacronismo das ideias nem sempre conveniente. Fui ensinada e estou absolutamente convencida que ninguém existe para si, e embora a felicidade seja, em determinada idade,  aspiração natural, é coisa pouca para quem é homem e vive muito ano. Não que saiba para que nasci ou tenha ideia do que seja essa beatitude feliz. E lá vem o enredo. Porque hoje as pessoas existem para si e querem à viva força ser felizes; cada um parece saber concreta e factualmente para que nasceu e a mais simples conversa emerge prenhe de objectivos e infla de relações causais. No meio de tanto expert, ataranto desfasada. E no entanto, vejamos, até meu pai dá por este retardamento. Quando vou a sua casa, como as boas empregadas de limpeza de outros tempos, ajoelho a lavar o chão. Estico braços e mãos de escova em punho, para cá, para lá, para cá, pra lá. Ali. Olhos perto da sujidade, arrastando-nos (eu e o balde a fumegar). Da última vez, acercou-se do contingente branqueador e avançou o de hábito, deixa isso, lava com a esfregona. E eu, posta assim naquele espectáculo de devolver o chão a si mesmo, coisa por demais importante, já se vê, aceno-lhe displicente com a mão, estilo, desampare-me a loja e deixe-me trabalhar à vontade que as pilhas não duram sempre. E ele, usa a esfregona filha, e a pôr-me debaixo dos olhos e ao alcance da mão, um pano do chão por estrear, que terá comprado para meu uso. Ah, ah, ah....pois é.
E hoje o braço direito mais meu que o esquerdo. Desde a raiz do ombro, estou aqui, estou aqui, como se eu não soubesse onde mora. E é claro que bem queria nadar com elegância de movimentos, ser peixinho em aquário. Ser o que nunca serei, que as barbatanas me nasceram tardias. Mas algum peixe chega aos calcanhares do meu prazer?!


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Como a Seiva que Corre


Passar assim, devagar, olhos vogando pela esperança dos campos pontilhados e multicores. Notar a ternura clara da folha nova no montado. Reter a cabeleira espessa e ainda penteada dos sobreiros que se anunciam a dois tons, folhedo  que murmura tentens, pernitas ainda enroladas e em arco.  As folhas de muito ano num incentivo, estiquem-se, virem-se para o sol, não custa nada; vá, dêem só um jeitinho que a gente apara qualquer golpe de vento, descansem que não caem. E elas pequenas, o verde principiante num arrepio ténue, e se nos partimos a desdobrar. A impaciência das mais velhas apostrofando num agastamento, esquecidas de si bebés, mimadas! Desenrolem, caramba. Pensam que o sol espera por vós, está bem, está. Tratem mas é de crescer enquanto ele amorna que daqui a nada vira braseiro e torra-vos a delicadeza. E as meninas singelas, todas fragilidade de ós e ás miudinhos e de escândalo a despontar, puxando pela seiva envergonhada enquanto tartamudeavam a lição, virar para o sol, ui que me encandeia, esta luz cega-me as nervuras, ó mana passe-me aí os óculos escuros, se faz favor.  As folhas-mãe fazendo colchão, sorrisos à boca pequena, que fiteiras, as garotas; e tão lindas, mas é preciso puxar-lhes as orelhas ou não se aguentam ao verão.
Quem passa ignora estes concílios a céu aberto. Passa  a mirar a claridade verdosa e pujante das árvores e reflecte, que aura de santidade têm os sobreiros na primavera...

Estrelas


Gosto

- de ir à Fnac e ter poder de compra. Mirar livros lendo nomes de autores e títulos, estudar as promoções, colher um aqui e logo o deixar, prazer de levar dois pelo preço de um. E regressar a casa na satisfação de um saquinho pequeno cheio de minutos de evasão. 

- de experimentar peças de vestuário e deambular por certas lojas com vagar que ninguém repara;  não serão preferência,  mas permitem a aquisição de uma ou outra peça de roupa. Devolvem a vaidade necessária e situam a realidade individual. 

- de observar as pessoas no Metro, um mar de opacidade fechada em tons cinza, cortado aqui e ali por barcos ancorados e alegres:  cuidados de pai com o filho de colo; a exuberância feliz da garota toda garras e gangas, insubordinação de joelhos nos fiapos das calças; o rapaz do acordeon que usa um cãozinho amoroso e a quem não resisto, ilusão de Montmartre no halo de ternura animal, patinhas finas empoleiradas no leque da caixa de música. 

- dos indícios de futuro que a juventude mostra de quando em quando: saber que Martim Sousa Tavares criou a Orquestra do Futuro e que não é carro que queira guiar, é boa nova. Por ser de música que se trata e haver nos portugueses um défice assaz extenso; por apoiar as zonas interiores sempre tão sozinhas; por ser projecto que reúne dois países e muita boa vontade. E que haja continuação e se expanda, como deseja o jovem maestro. 

- da secreta certeza que me existe sem razão.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Olá Tolentino:)


Tenho a dizer-te que armei em preguiçosa e não fiz o TPC,  “Ulisses" não ficou nem a meio. Carlos João é um sábio e terá sido por isso que me enfastiou um bocadinho na juventude. Mas a velhice traz algumas – poucas – coisas boas e passei a ouvi-lo de gosto.
Convém precaver-te: em termos de informação fidedigna, não ligues muito ao que escrevo. Sei que os oradores colocam a sua prelecção no site da capela, mas cinjo-me às pessoalíssimas impressões. Nem espreito o que a sabedoria deu à pena. Portanto...vamos a factos. Que é como quem diz, impressões. A grande certeza é que a obra dá conta do que se passa num único dia, um dia fundamental que o próprio Joyce viveu e que transporta para a vida de Dédalus um dos três personagens do livro (eu até sei a razão desse dia ser tão fulcral, mas não me apetece contar). Outra certeza é que o livro não deve – acrescento que não pode – ser lido como um romance. “Ulisses” é uma epopeia onde Joyce tenta, através de todos os recursos linguísticos e usando os mais diversos estilos de escrita, dar conta da corrente de consciência, desses flashes que surgem e se misturam uns nos outros. Portanto, “Ulisses” é um livro redentor,  forma nova de escrita. Não descreve a aparência de realidade como fazem outros escritores, pretende chegar à realidade ela mesma. Parece – e talvez seja – literatura com pendor filosófico. A ideia de que Joyce tenta entender a relação entre os sentidos e a realidade tem cheiro de filosofia, sim. Mas, o que me pergunto é se essa tentativa de surpreender os flashes da consciência não está também ela erguida sobre a “enganadora” percepção. Se essa tentativa de ver com olhos fechados atentando apenas aos sons, ”fecha os olhos e vê”, não se filia ainda nos mesmos elementos. Bom. O que me fez sentido foi haver uma escrita que pretende surpreender a realidade, a amálgama do que acontece no interior do pensamento. Por ser verdade que muito nos acontece e se pensa em simultâneo e que raro é o pensamento que se cinge a um único assunto. 
Digo-te que ouvia Carlos João falando do livro e me lembrava dos romances de Lobo Antunes. Não que sejam a mesma coisa. Mas é que encontro em Lobo Antunes essa tentativa da simultaneidade de pensamentos vários, esse delírio que é a mente humana enquanto é. Dirás tu que não tem nada a ver. É a tua opinião.
E Carlos João trouxe o seu lado de esteta e mostrou pinturas, fotos de filme, retratos, trechos de Virginia Woolf e até a Mrs Dalloway, obra que parece seguir a linha de Joyce.
Não te ensinei nada? Paciência. Mas vais gostar disto. Joyce parece que leva o tempo a perguntar ao longo do livro “qual é aquela palavra que todos os homens conhecem”. E sabes o que responde, olha, diz que é o amor. Lembrou-me aquele aluno de Matilde Rosa Araújo, sete anos verdes, “o amor tem de haver”.

PS: os teus paroquianos dizem que têm saudades tuas - disseram claramente dito - e até contaram uma historinha que te inclui. Ao micro. E o anjo parece calmíssimo. Tão lindo.


sábado, 6 de abril de 2019

Mudanças de Mau Cair


O meu amor pela escrita de Lobo Antunes é irrevogável. Enreda-me. Espevita-me. Sofro de privação se o livro novo demora. E agora? Bem sei que o senhor é livre; que é velho; que está surdo e sobreviveu a três cancros; que não é eterno. Sei tudo isso. Mas que querem, falta-me na revista Visão. É que me FALTA. E, portanto, eu que não ligo pêva a notícias e sou a pessoa mais desinformada do mundo dito civilizado, para quem os mexericos são insectos indesejáveis. Que também não vou para nova e a maior parte do tempo quero é que o mundo vá dar uma curva e não me chateie. Eu, assinante da revista por mor de uma crónica, vou, como diz meu pai, desriscar-me.  
É verdade que comprei livros e já li as crónicas de Agualusa e Dulce Maria Cardoso, senhora toda finesse e feminilidade que ouvi numa conferência. Mas é que não é a mesma coisa e nem sequer parecido. Falta-me a loucura de Lobo Antunes; o humor subtil que aqui aponta o kitch de cada um e ali se enche de ternura; falta-me o povo que sou e ele diz tão bem; falta-me o néctar das suas metáforas que não assistem nem existem em mais ninguém; as suas repetições, pedrinhas postas a bordejar buracos grandes, avisos de “cuidado, areias movediças”; faltam-me as meias frases de confidência intercalada, “antes de o livro terminar”,  cuspo nos dedos ao voltar da página; falta-me tudo que é ele só.  A alma múltipla que vai deixando a fosforecer prosa afora.
Se tivera o seu endereço, escrevia-lhe a agradecer o tanto que deu e dará aos seus leitores.  Sei bem que está consciente do seu valor, que há até quem o garanta vaidoso e amigo de desconchavos verbais. Desimportâncias.  Há que reconhecer em vida o trabalho e a obra de quem é grande. António Lobo Antunes é Grande. Ponto final.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Colo


Tenho,  a espaços, a veleidade de ser Deus. Um Deus de coisas pequenas que, por exemplo, desfastia a adiantar os dias da semana. Acontece-me. Portanto, esta semana, a quinta-feira escafedeu. Ficam duas sextas seguidinhas. Porque sim. Às vezes, sem razão - que razão pode haver, nenhuma -, as habituais plumas ganham densidade, empapam. Mas , à sexta, não há peso que me apoquente as clavículas; ossinhos mais delicados, bonitos mesmo, as clavículas, até apetece fazer-lhes uma vénia, cumprimentar, bom dia, meninas clavículas. Qualquer dia tomo balanço, faço de Deus irrisório e mudo o calendário: decreto, para mim mesma, semanas de feira única, a sexta. Descansem, mudaria apenas a ordem do meu mundo. O prazer que me dá escrever isto, mesmo sabendo que não posso efectivar tal desejo. Bem gostaria de escrever, não devo. Mas não, é pura incompatibilidade. E agora, não sei porquê, lembrei-me das mães que já não carregam os filhos no colo porque têm cadeirinhas ergonómicas e todas salamaleques. E há um bem nas cadeiras porque são isto e aquilo; porque respeitam a coluna em formação da criança; atentam na postura do bebé; facilitam o transporte; transferem-se para o automóvel e detêm segurança máxima. Ora, tudo que é segurança máxima, prende. A segurança é o coração de um a bater de encontro ao corpo do outro; é o calor que se desprende e penetra; é estar rente ao cheiro da pele,  sentir o aconchego dos braços, a ternura das mãos, a alegria e a tristeza do sorriso enquanto se caminha ou se outra coisa qualquer. E ser vizinho de um rosto. Isto, qualquer bebé agradece a vida inteira. Agradece ele e todos os que o rodeiam e com ele privam.
E pronto. Já está.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Olá Tolentino:)


Há semanas que, ininterrupta, te escrevo. Portanto é chegada a hora  de despir a cerimónia. Pois podes descansar que esta semana o ramo estava farto e concentrado em João Pedro Serra que esteve à conversa consigo mesmo sobre  “A Metamorfose” de Kafka. A pensar alto, como bem apontou a professora Luísa Ribeiro Ferreira. Parece que um bocadinho contrariado, o senhor afirma-se solar  e o mundo kafkiano é escuridão de trovoada. Digo-te que fiquei contente, afinal não sou apenas eu a sentir-me incomodada com a leitura de Kafka, aquele fechamento real e figurado do texto, a sua lógica de tecitura hermética e sem uma malha lassa desfigura-me as meninges. Podes crer. Referiu-se o Pedro que é João, ao sentimento de estranheza e à resistência do leitor em geral. E hélas, rejubilei mais que num mistério gozozo (que, desculpa lá o mau jeito, não me dá gozo nenhum; tu como fazes para gostar de rezar um terço, hem). E depois, olha, meteu-se pelo carreiro da metamorfose literária e seus significados e por ali andou um nadinha. Que pode ser redutora quando reduz o homem à sua condição animal; ou espécie de segundo nascimento, como se supõe que a educação funcione e me é particularmente caro. Mas o que me trouxe de novo esta elocução foi a importância da porta. A porta que separa sem separar os dois mundos: o interior do quarto onde ocorre a metamorfose e o resto da casa onde está a família. Aviso à navegação e para quem não leu a obra: é um livro pequeno mas acaba mal. Quer dizer, a circunstância condiciona o desfecho. É a história do jovem Gregor que se sacrifica para sustentar a família, pais e irmã, e se vê de súbito a mudar para insecto. Isso mesmo, um insecto consciente. Não foi o jantar que lhe assentou mal, nem se besuntou com creme mágico que uma bruxa deixou na mesinha de cabeceira. Não há explicação. Mas acontece, é efectivo, o rapaz assiste à sua transformação em insecto. Aos poucos. Com tempo para pensar e criar expectativas sobre atitudes familiares. É claro que uma pessoa começa também a desconfiar de antenas e carapaças a despontar em qualquer lado e enquanto lê vai dando uma olhada aos braços e às pernas ainda assim não nos enganem. E o pior, o que mais dói ao personagem e ao leitor, é que Gregor, que continua a preocupar-se com a família, descobre umas verdades incómodas e termina sozinhito, abandonado à sua condição de animal estranho. Os familiares sentem incómodo, nojo, e acabam por abandoná-lo à morte inevitável que a todos alivia. O enredo termina com a empregada a varrê-lo.
Achei muito curioso que o professor Serra tenha explanado as influências do livro, se tenha demorado nas interpretações que existem da obra, tenha feito paciente resenha da mesma. A título pessoal ficou apenas a ideia da fluidez da metamorfose que nunca está completamente de um lado ou do outro da porta, tal como Gregor não é completamente animal ou humano. E remeteu para a questão: o que é o homem.
Digo-te, Tolentino, saímos magoados daquele livro. Magoados com o homem. Que é como quem diz, connosco. Portanto, fica assim, que a missiva já vai longa.
Tem cuidado contigo. E até para a semana.