terça-feira, 30 de julho de 2019

Fundo de Mar numa Nuvem


Há pequenos brilhos na blogosfera, podem ser pedrinhas sem valor que emitem luz, opalas rigorosas ou safiras disfarçadas. É claro que falo de quem conheço deste meio e em palavras que confio. Refiro, portanto, relações mais ou menos longas. 
Aprecio e recomendo A página negra de Manuel da Fonseca que sucede ao blogue mais ou menos colectivo, Escrever é triste. É uma página sábia e crítica, matreira, cinéfila e com aroma de alma silvestre e um bocadinho brincalhona que por vezes também nos dá música. Gosta de falar sobre livros e entende-se porquê, mas julgo que seja sobretudo porque é um bom leitor. Deve ser ainda outras coisas, mas estas bastam para acicatar curiosidades. O Manuel não se importa que comentemos e até nos responde de vez em quando. Percebe-se que é pessoa educada e ocupada e que  Antónia ocupa o seu altar privativo. Há lados dele que são muito públicos e não faz falta lembrar. Para mim, é bloguer de qualidade. Voto nele sempre que precise e mesmo que não. E recomendo.
Sem desprimor para ninguém, há outro blogue que considero. Sei do autor (pode ser uma autora) apenas o nickname, xilre. De postagens regulares, tem alguns personagens cativos e dos quais sou íntima: uma brasileira que tira cafés e o lugar onde os tira e que xilre frequenta; um reformado erudito, Eustáquio de Andrada e sua mais que tudo Orchidée, cujo escreve a xilre missivas hilariantes e todas muito nove horas, sempre preocupado com a saúde e bem estar do amigo (a); um pássaro no beiral que ora lhe tira o sono por cantar cedíssimo, ora porque desaparece e o apoquenta a falta de gorjeio matinal. E há mais artigos avulsos; também nos dá música e, por vezes, ataca-o (a) uma veia romântica que muito prezo e me comove. Xilre é original e usa de economia  na escrita. Saliento as publicações do dia vinte e nove de Julho.
Recomendo pois estas duas pequenas maravilhas lançadas à praia. Serão conchas ou búzios, restos de fundo de mar e coral que valem a pena neste mundo que nem de papel é. Será de nuvem. Ou coisa assim.


domingo, 28 de julho de 2019


Não sei vê-la com olhos conhecidos. Para o conseguir tenho de obliterar quem é e quem sou, mirá-la como desconhecida. Então, noto-lhe a cabeça alva, uma chusma de cabelos brancos em ondas suaves, olhos que se afundam em rugas, as mãos que aos poucos tomam jeito de garra deformada. E a fazer cama, a mansidão que se desprende da voz suave e dos gestos que arredondam sem ângulos. E ainda eu não sendo eu, afirmo, é uma velhinha simpática. Mas acontece que eu sou eu a maior parte do tempo e, portanto, ela não é apenas a velhinha simpática que impressiona a retina da outra de mim. Ela é a mulher sem idade que tem voz muito semelhante à de minha mãe; que vi casar jovem e cheia de ilusões; analfabeta que se lamenta, os filhos queriam ensinar-me e eu nunca dei jeito, não tinha tempo; de quem o marido dizia, sou mais novo, tomo conta dela quando for velha, mas partiu antes, ela a cuidá-lo durante anos; aguentou a vizinhança de sogra malévola que nunca a quis e tudo suportou a sós consigo, driblando boladas assassinas da bruxa má. Hoje tem o amor de filhos e netos e continua-se em pequenos gestos e favores. As pernas negam-se ao caminho e encurtam-lhe as voltas. Mas trata da casa e dos animais domésticos, atravessa a rua e bebe o seu cafezinho diário. E promete a si mesma, se eu voltar alguma vez a esta vida, vou para a escola, aprendo a ler.

sábado, 27 de julho de 2019

Morte Dupla


O que me acordou foi a dor; forte, forte, um aperto em rajada. Quis gritar, gritei por dentro de mim, a força das mãos a ajudar.  Gritei com o sangue a explodir-me na cabeça, morro, morro. E ninguém ouviu. A boca contigo às voltas, a boca desacompanhada da mente a querer desenhar-te, a boca que não sabe mandar em si e ainda à cata da ternura antiga. Mas a língua sem tacto; os lábios incapazes de união ou aperto; os dentes, para que me servem os dentes se o maxilar não obedece. E portanto, a palavra filho ficou cá dentro em clausura, desejo que me doía atazanado de gritos.  Não me saíu nada, nem um som. Filho, foi só um lamento por e para dentro de mim. Como o sangue. E depois já não havia os teus passos na escada, já nem havia escada e nem tu existias, nem sequer o meu grito interior. Havia eu a cair sem peso, a aterrar no piso talvez de algodão; não nas lajes da cozinha ou no ladrilhado corredor. Antes de esvanecer ouvi-me chamar, sei que chamei para dentro, mãe. E para quê, quem é que aos noventa tem mãe. Mas disse, mãe; como antes disse, filho. Caía e a vida que ia perdendo atravessava-me à desfilada, impunha-se exacta e sem falhas, varava-me de passado: que nunca houve mais alguém. E nela me vi Job, mais sem valor que mendigo, o inteiro de viver gasto em ti e contigo. Tão longa vida para tão curto amor. Agora, tudo é sem remédio, passado apenas. Marido, irmãos, família e conhecidos escorregaram-me sempre; ou escorracei-os. Gente que me cruzou e nem olhei; que me necessitou e ignorei; que me estendeu a mão, ajudou a levantar e logo esqueci; gente que, antes,  me parecia demais por tu seres tudo.
E fiquei assim ardendo por dentro, mergulhada no ensarilhado mar da impossibilidade. Dias e noites de morte imóvel e lenta, apertando mãos que me estendiam e não eram tuas. Via-te amiúde perto da cama e vinha-me a vontade de, filho. Mas o sangue derramado era barreira voraz. Não me beijaste nunca. Porquê? Assusta-te a morte.  Ou deixaste de me encontrar nela. Cumpres, distante, um ritual de visita e limito-me a apertar mãos estranhas. Preso na garganta, entalado na respiração penosa, o teu nome enrola-se-me na boca, é seixo para que não tenho forças. E quedo imóvel. Poder eu! E logo, meu filho. E de certeza a morte mais fácil.
Parto assim triste. Não houve beijo, toque de mão, lampejo de olhos. Inglória certeza, passar pelo mundo de raspão e saber que foste o tudo de mim.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Anima Mundi


No meio dos incêndios e das labaredas, para lá do desalento dos que viram a vida arder e não têm rumo, do fumo e das árvores carbonizadas e cadavéricas, do espavorido animal sobrante,  estás tu. Chegaste. Verde e imponderável ressurgimento a mudar-nos o quotidiano, enchendo os dias de novidade. Marcas almoços, jantares, encontros de praia; ocupas-nos o controlado tempo, transbordas. E não admites desistência. É o teu ímpeto de união avassalante, a tua trompeta de toque único, reunir, reunir, reunir. Nesta hora desorientada e sem lugar, horizonte nebuloso em que tudo queima e sofre, tu, inconsciente do necessário  e oportuno de ti, és refrigério de apetite, espaço livre, amurada com vista para o infinito.
Olho-te e ressalta-me a criança que sentava no colo, garoto ladino e inventivo que me ensinou a maternidade. Vejo os pequenos nadas de infância, a forma quase impúdica de usar os calções de banho, os olhos de pássaro atento e destemido, a rapidez a entrar na água, o gesto de cachorrinho que  sacode o pêlo molhado. As peculiaridades que nos existem!  Quem gosta denota a posse de gestos e expressões que no próprio são insuspeitos nadas. Tudo junto, o que é bem e o que não, faz o gosto e molda a imagem de univocidade do outro. Não morro de amores pela corrente grossa que usas no pescoço, mas, na tua ausência, adoça-me o olhar ver artigo semelhante e – se acaso a notem - devem motares e demais utilizadores  ajuizar sobre a minha ternura obtusa. Deixá-lo, vê-la é lembrar-te por inteiro; que, em cada momento, o objecto amado condensa a vida toda, é ele integral. E é assim, devotamente, que te gosto. Não apenas na tua mundaneidade actual, que pouco sei dos teus pormenores, das pequenas coisas mutáveis em que tanta gente se concentra. Mas sei dos teus cabelos que encanecem nas têmporas seguindo a linha dos meus, das rugas que te sulcam prematuras; e sei que, cabelo escorrido de mar, as semelhanças se acentuam entre nós. E isso, como compreenderás, alegra e entristece.
E os dias que temos juntos serão sempre curtos. Por serem poucos e porque os divides por tanta gente. Porém, convence-te, mal raias, logo a família resplendece. Que bonito!

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Solilóquio


Não se ama de paixão desvairada o lugar a que se pertence, mas cada um, salvo se degenera da condição, ama naturalmente as raízes e talvez com  amor resistente. O cordão umbilical que a natureza planta em cada homem permite gostar de lugares inóspitos, voltar a eles com saudade, desejar morrer por dentro do seu ar. É com este espírito que regressa o imigrante pontual, cumprindo a tradição de país pobre. Vem por saudade de família e lugares, antevendo  mealheiro para a velhice no seu sítio, aldeia, vila ou cidade. A maioria tem certo prurido em legar os ossos ao país que lhes sugou suor e anos de vida, que os humilhou até quando e se não era esse o propósito imediato, elevando-os à categoria de cicadãos de segunda. E o preço da casa arrebicada e estrangeira que erguem na terra sabe-lhes o corpo  de cor.
Pergunto-me o que pensam eles do pobre país que arde em várias frentes  aos primeiros calores, das árvores que não podem mover-se e incineram em vida e à vista de todos; dos animais espavoridos que fogem na frente do fogo ou perecem se não têm no corpo o benefício veloz da lebre e o faro de cão perdigueiro a detectar chamas; das gentes que vivem em aldeias antes idílicas, ar puro, a vida regulada, e agora atarantam no receio de perder tudo que é seu. Não. Nem imigrantes nem nós sabemos avaliar a perda de tudo, o recomeço de quem já só anseia estar até ao fim junto do que lhe pertence de direito. É desespero que não nos bateu.
Depois há o imenso esforço dos bombeiros que, dia e noite, combatem uma força maior que eles e a domam pela persistência quando o monstro vai saciando. Dizimou vidas humanas, e um sem número de animais e vegetais. E há as acusações na TV contra esta gente que tudo arrisca. Mas quantas vezes acusar é o caminho da desculpa que não há, e apontar outrém é desvio de atenção. E eu que não sei causas mas vou vendo consequências, reparo no dislate, enquanto o governo arvora benefícios e possibilidades futuras, obra feita e contas certas, assisto e sou talvez cúmplice deste flagelo, é um país que se consome e  a contragosto se vai sumindo.
Quão longe estamos da justiça entre os homens.

domingo, 21 de julho de 2019

Babel



O rapazito ia apontando os artigos nas prateleiras, subia e descia o escadote, mostrava a mercadoria mais fina, guardada para consumo da professora, do José da Eira que tinha prédios na vila ou de algum passante abonado. Nada. A dada altura, a estrangeira de perna ao léu quis ajudar e, com o indicador, desenhou na própria mão uma bola. E logo João saltou de contente, é queijo, querem queijo. Mas, em vista do queijo, negaram a mãos ambas. Se calha é melancia ou melão. E também não. Cebolas, foram excluídas. Laranjas, também não eram. Nem repolho. Nem abóbora. Nem azeitonas. Nem.
À beira da desistência, desânimo de uns olhos a outros, o senhor saltou a cantar, có có ró có, braços em asa de galinha, acima-abaixo, acima-abaixo. E João pequeno num grito bandeirante, ovos, eles querem ovos. Saltou a buscá-los ao galinheiro e, mal mostrou dois ainda quentes e com restos de ninho, os olhos deles numa alegria; mãos, bocas, o corpo inteiro a dizer que sim.
Ti Estrudes não esteve com meias medidas, traz-lhos todos; as galinhas logo põem outros. E os estranjas, de contentes e orgulhosos que estavam pela própria inteligência, compraram o que não precisavam, manteiga, sal, batatas, pão. 
Partiram com uma história esquecida na primeira curva ou antes do regresso ao país que, ainda hoje, ninguém sabe qual seja. Mas em João pequeno ela vive e revive, acrescentada de valor e esperteza sua, própria, mesma. Contada, é sem idade e impera. Sobrevive à mercearia, à taberna e aos intervenientes; e talvez eu a escreva para que outro João pequeno a aprenda e transmita, livrando-a da morte certa do esquecimento. 




sábado, 20 de julho de 2019

Babel


Ti Estrudes virou-se à loja, entreviu duas pessoas altas que nem torres, desatou o avental numa pressa e veio vindo corredor fora, o escorrido das mãos pinga aqui pinga ali, peito avantajado a subir e descer, a arfante fotografia esmaltada do marido sobre a vasta prateleira. Ufana da sua importância.
Mas quando o estrangeiro falou, também ela nada entendeu. A essa altura, os dois bêbados já tinham desagarrado do chão da taberna e, no exterior, arrelampavam daquela casa com rodas plantada na rua da taberna. De olhos avinhados e incrédulos, contemplavam a maravilha num abismo  de silêncio, a espessura do vinho a fazê-los perros e desequilibrados, mas ainda assim mirando-a de todos os cantos.
Na loja, ti Estrudes expedita avançou para o empregado, olha lá, tu, traz aí coisas das prateleiras que alguma há-de ser. E o Mário já a agarrar a vassoura e rumar à taberna agora deserta e de melhor varrimento, bem pensado, bem pensado. Tia Helena suspirava para dentro, ai que nunca mais tenho o avio pronto. E logo se dispôs a uma ajuda à comadre Estrudes, que o parto fora fácil mas o filho, o Bentinho, trazia o cordão enrolado e vinha roxo que nem vómito, uma data de porradas a preceito e o garoto nem um vagido. E fora ela a fazê-lo chorar, ganhando por seus préstimos afilhado e comadre. Acicatada de curiosidade e entreajuda a vizinha parteira tomou-se também de ares e aventou, traz o açúcar, rapaz, quem sabe se acertas. Mas eles que não e voltavam a uns sons esquisitos que não se pareciam a nada conhecido. Dizia a Estrudes olhando os catraios emudecidos, se for leite, os garotos ainda são pequenos, vais ver que é leite. Mas eles olharam o pacote e também não. Ora esta, o que será. Ó João, vê lá se vieram por um pão. Mostrou-se o pão, mas eles negaram.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Babel


Palavras não eram ditas, já a roulote abria uma porta e surgia um casal e dois pimpolhos. Entraram mercearia dentro, os adultos à frente as crianças atrás e linguajaram qualquer coisa em língua de trapos que detonou no corpo de João pequeno. O rapazito endireitou, esbugalhou-se aos estrangeiros parados a meio da loja e sussurrou numa indecisão que lhe espaçava as palavras, faz favor de dizer, uma mão deslembrada a puxar o lápis da orelha e na outra o saco de alfarroba de boca aberta, pedaços do fruto a solar o chão. Na taberna, a vassoura parou  de supetão e o fascínio de risca ao lado ficou-se a admirar e medir a altura dos estrangeiros calculando de cabeça a diferença que faziam de si. Tia Helena, mãos habituadas a procurar crianças nas entranhas das vizinhas,  encandeou o escândalo nos calções largos da mulher, passou em raspão envergonhado no à vontade das pernas brancas e nuas e foi descendo tornozelos afora até à largueza dos dedos às espreitadelas nas tiras das sandálias. Depois do exame a tiazinha encolheu-se no lugar, o suspeitoso corpo a três quartos, uma mão como morta sobre o balcão e a outra torcendo o alfinete de ama que lhe segurava o descosido do avental. Apenas se ouvia o tinir dos copos distraídos que ti Estrudes lavava na cozinha. Foi então que o homem avançou um passo, pôs a mão sobre o balcão e disse qualquer coisa estranha, qualquer coisa que, para quem ouviu, soou a coisa nenhuma. 
Entretanto, lembrado da função, João pequeno regressou do estupor. Fez sinal a tia Helena, atirou o saco de alfarroba para a tulha e voltou ao lugar. Empossado pelo balcão ,encarou o homem, faz favor de dizer, é que não percebi. E já Mário se acercava, vassoura na mão, o que é que que ele quer. Espectadora embasbacada, Tia Helena deu de ombros e arremelgou os olhos e João pequeno completou com palavras, é que não percebemos nada do que ele diz, patrão. Olhe que sempre é verdade, lá na estranja falam de outra maneira; não se percebe uma nica. E depois para o homem que entretanto aguardava, o senhor quer o quê.  E ele de novo a arengar naquela língua de trapos. Então Mário tomou inciativas de patrão e trovejou lá para dentro, ó Estrudes anda cá tu a ver se percebes esta gente, senão nunca mais é sábado


quinta-feira, 18 de julho de 2019

Babel


Era ainda manhã, talvez entre as onze e as doze de um dia solarengo e morno. Hora morta na mercearia da ti Estrudes. Quem entrasse via-a ao fundo, imersa na cozinha, avental de laço, lavando os copos sujos da noite anterior. De quando em vez, virava-se a vigiar o fogão de lenha onde apuravam petiscos que viriam à taberna em  pires fumegante.  Senhor Mário, olhos injectados da noitada de bêbados, risca imaculada no cabelo de brilhantina, varria as cascas de amendoim atiradas para debaixo  do jogo do chinquilho, uma raivinha a avançar no cabo da vassoura, estes labregos fazem de propósito, atiram tudo para debaixo do chinquilho, que cambada. Exasperado pela falta de descanso, desditava a puxar a teimosia de uma casca renitente, é gente que não dá mão.  Cotovelos apoiados no balcão, dois homens macambúzios e fora de órbita remoíam para o fundo do copo  a nega ao trabalho. Pareciam fixos no chão. Mas, mal a vassoura abelhuda se aproximou, com licença gente, levantaram ora um pé, ora o outro, como enormes galinhas emburradas. Viradas ao sol, avultavam em taberna e mercearia as manchas amarelas das portas abertas e nelas se passeavam amolentadas poalhas minúsculas. Ao balcão da mercearia, João pequeno, lápis atrás da orelha, dizia na sua frescura agarotada enquanto dobrava os cantos a um cartuchinho de quarto de açúcar, que o seguro morreu de velho, e que mais quer, tia Helena. E ao seu toque certeiro o cartucho deslizou até à zona da mercadoria já aviada. E tia Helena a ajeitar o inconsciente fio de ouro sobre a blusa, contando faltas, ora dá-me daí a ração do burro e mergulhou um braço no cesto do avio a pescar lá do fundo o saco de pano enquanto João se aprestava à tulha da alfarroba, mão estendida para o saco. E foi por esta altura que a roulote parou na rua da loja e entupiu as poalhas que brilhavam até meio da mercearia. João pequeno, corpo mergulhado até meio que a tulha precisava reabastecida, interrompeu-se de mão na alfarroba, inquieto do inesperado eclipse e tia Helena virou-se num repente penumbroso um mar de estacas na voz, esta agora...

terça-feira, 16 de julho de 2019

Realidade às Pregas


Disse num meio sorriso forçado
- Tu não gostas de juntar as amigas.
- Pois não.- respondi - Ela é uma amiga diferente e devemo-nos um tempo a duas.
Depois, neste meu ser que se justifica como se a toda a hora seja apanhado em falta, acrescentei
- Conheço-a desde  criança e vivemos muita coisa juntas.
E despedi-me. Hora de ponta. Mas aquela incompreensão. Talvez eu devesse ter sido crua
- Não és minha amiga.
Não, isso também não. Mas lançar-me ali nos graus da amizade...como é que se diz que há amizades que são pura sintonia, coisa de sentir igual e gostar do mesmo, e que este sentir igual e gostar do mesmo nos descansa e não foi descoberta de dois dias, ou mesmo dois anos. Que a amizade que me levou a outro lugar é toda outra e muita, um dia ao pé da noite.
Não se diz. É coisa de sentimento e intuição.


segunda-feira, 15 de julho de 2019

Até ao Fim


Percorro um circuito de blogues que só acrescento ou minguo por razões maiores. Leio-os mais ou menos diária, quase sempre deixando rasto. Não sei se sou amiga dos bloguers, mas suponho bem que não interferem no meu conceito de amizade. Se um deles desiste da blogosfera, aguardo uns dias, por vezes semanas, e deleto-o. Mas também existem os que não me aturam as bocas, aqueles para quem sou indigesta, os que são muito para o meu pouco, ou que, simplesmente, querem a casa arrumada a seu exclusivo gosto e sem palavras minhas de permeio.  Esses, não sei como, proíbem-me a entrada e dedicam-se aos seus convidados, apresentam-se em circuito fechado; uma espécie de maçonaria bloguística e misteriosa. E, por mais que os goste ou tenha gostado, vou desgostando e deleto-os sem mas nem mas. Desaparecem.
A blogosfera é um dos mundos camaleónicos à disposição, verdade flutuante e palavrosa, muito cheia de qualificativos. Por todo o lado proliferam coisas lindas e sublimes que são apenas normalidade; adorações que a gente olha e se dedicam a coisa vulgar; beleza poética que é um sem valor. E, no meio desta amálgama, acontece poesia e substância; desabafos que são essência humana na sua recôndita pureza; crítica política e social com pés e cabeça, argumentos bem esgalhados; peças raras que se mostram e divulgam; gente que sabe da poda e se dá ao trabalho de dizer e mostrar como e o que pensa. Podemos pensar desigual, ser opostos, desdizer, acrescentar. O que não podemos é desmerecer do trabalho que têm na mostra. Digam-me que é um ego que procura satisfação. E depois, e se assim for,  por acaso diminui a qualidade? Há alguém que faça obra, seja isso o que seja, sem procurar satisfação e reconhecimento? É que desconheço essa qualidade de gente.
Portanto, num momento em que pouco se lê por ser actividade lenta, haver quem escreva – outra actividade que não corre a maratona - sem o óbice de provento, é meritório. Que nos enfeitem as horas sem que nos conheçam não me parece apenas afirmação do ego. E, sendo, que saiba a gente retirar a parte conveniente.
A todos eles: Bem Hajam

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Um Certo Aroma


Descobri William Faulkner há poucos anos.  Tudo começou com um livro adquirido talvez em saldo ou segunda mão, não tenho memória. E encontrei na escrita de “Os ratoneiros”, reminiscência poderosa, o que procuro em quase todas as obras, a boa arte de contar uma história. Uma história à antiga, plena de apartes e recortes, realidade que se vai estendendo na nossa frente à medida que vamos lendo. É um escritor soberbo. Na altura da descoberta, pensei que voltara a encontrar autor de apetite. Ironia do destino, começara a existir-me no último livro. Impressionou-me o realismo das cenas, situações tão reais que não nos (me) ocorre serem ficção e tendemos a pensá-lo autobiográfico. Que dom tem a mente de um grande escritor para assim descrever, até ao ínfimo pormenor, ambientes que não existem, pessoas fictícias vivendo situações que, ainda que possam existir, ali são esmiuçadas como se estejam à nossa frente. E tudo isto usando termos e imagens de fino recorte, coisa de quem mexe nas palavras com sabedoria. Amo de paixão este fulgor, é coisa que me está ou entra na massa do sangue. Portanto, já não sei porquê, comprei mais um livro. Na Feira.  Seria livro do dia, estaria com desconto assaz tentador, qualquer coisa assim. A minha intuição livresca saltou do último para um dos primeiros livros de Faulkner, "Sartoris". Uma festa do espírito. Abençoado homem!
Ora! Não vou contar o enredo; não faço resumos; desvio-me de copiar excertos. Leiam. Que os vossos excertos são outros e o meu Faulkner não pertence a mais ninguém. Cada um tem de fazer seus escritor e  escrito. Faulkner agradece.
E Bom Dia:)

domingo, 7 de julho de 2019

Instante


Era uma manhã volátil, ora sombra ora sol. E nós duas em ocasião rara, eu a mirar ruas e árvores do lugar do pendura que pouco ocupo, no  exercício de olhar a paisagem como se a não conheça. Conversa pausada, assuntos de tudo e nada, eu por dentro das costuras de mim, bolas, isto é mesmo feio, não é preconceito. E a brisa que sim, brandamente; folhas resmalhantes a anuir, murmúrio de corpo infantil movendo-se ensonado em colchão de palhas. O dia plantado no tempo, cheguei. E o ritmo dos homens ainda absorto, o ar estreito de vozes e um vagar automóvel a ronronar. Portas semi abertas, compras que são desejo, tarefas em projecto, os bons dias de hábito ao vizinho que se assoma. Na corda da roupa, uma alegria sacudida, peças ufanas evaporando  a madrugada, já quase secámos. E nós duas paradas no semáforo. Crianças que os pais levam manhãzinha para os OTL e atravessam agora para a piscina, chapéus na cabeça, mochilinha às costas. Mãos dadas, caminham ordeiros, respeitando a formatura. Aqui e ali um adulto zelador. O meu pensamento lagarta na roupa que seca, junto à mulher que, sentada em banquinho rasteiro, muda os chinelos dentro de casa, talvez pensando que se não vê da rua. Ainda assim os noto,  são garotos muito pequenos. E antes que o pensamento me evolua, um grito uníssono, uma exclamação de alegria colectiva virada a nós, portentosa e surpreendida, Mariaaaaa.....Parados em monte, mesmo na nossa frente, enchem a passadeira e entopem os que atrás aguardam. Separa-nos o vidro do carro. Ela avança até ao vidro também acenando e rindo, a voz embargada, “são os meus alunos. São os meninos do meu jardim”. E eles como quem vê o deus desejado, sorrisos de orelha a orelha, acenando a mãos ambas, esquecidos da mão na mão, do semáforo, da fila de carros, imersos na ternura apalermada de quem gosta, a atenção inteira colada na figura dela. E ela rindo e acenando adeuses e beijos, toda deles, voz de comoção doce. E depois a retomar-se, mãos  pedindo que avancem, vão, vão, atravessem, adeus, adeus. E muitos beijinhos soprados nas mãos.
E a vida parou também a ver:).

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Alíneas


A gente pensa na sintonia da amizade e, procurando, encontra motivos. Embora um élan inexplicável una as grandes amizades, muito se pode explicar: causas físicas e até químicas; pensamentos similares ou que se completam; empáticas proximidades e vizinhanças; desejos e aspirações que coadunam; gostos musicais; princípios de vida e valores; leituras. E sei lá que mais.
Na adolescência, as amizades padecem de exagero, a vida sem amigos é inadmissível. Há verdadeiras paixões, ciumeiras e projecções nem sempre saudáveis. Ajudam a crescer. A crescer de muita e variada forma.
A adultícia amadurece as amizades, afirmação de que os tempos modernos me fazem duvidar. Depender de likes e ter centenas – dezenas que sejam – de “amigos” é uma bofetada na amizade como a conheço, ofende-a. Mas pronto, basta admitir que a amizade digital é outra coisa. Existe, mas não ganha a amigos que nos acompanham realmente e em presença. Que nos gostam com gestos e olhos, palavras e carinho, ajudas nisto e naquilo, conselhos que não pedimos mas eles sabem necessários. E, mais importante que tudo, o à vontade que sentimos na sua companhia faz-nos bem a tudo. Descansa-nos o seu olhar, comove-nos a voz que usam para dizer o nosso nome; deleita-nos o cuidado que têm connosco como se fôramos as crianças que, por qualquer dom indefinido, eles vêem.
Pergunto-me o que acontece à amizade quando envelhecemos. Onde pára. Os velhos não se acompanham senão a jogar à sueca ou à bisca e ao dominó. Os velhos que vivem nos lares e se rodeiam uns dos outros não são amigos.   Quezilentos e ciumeiros, delatam-se, roubam-se, não se ajudam e antes se denunciam. Cada um no seu mundo de solidão, braços estendidos a impedir entradas. Talvez a perda de realidade – um lar é mistificação -  roube o desejo de novas relações, a capacidade de ainda procurar sintonias afectivas. Ou será apenas o peso dos anos a desligar-nos do mundo, involução natural, o pensamento a atapetar de desinteresse propedêutico.
Ignoro a resposta. De onde estou, me parece até contra natura alguém esquecer amizades de uma vida. E se, como  na canção de Brel, partiram antes,  o que fará  enraizar o desinteresse pelos outros que ainda duram. Quando esteja na idade, saberei. E talvez nessa altura já não me lembre a pergunta.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A Minha Rua


À medida que os anos correm damos por nós a questionar valores assentes, princípios da existência. Vislumbramos sentidos ocultos onde, possivelmente, não há sentido nenhum e avaliamos ao milímetro o peso da máxima socrática, nada sabemos. A vida não nos ilumina de sabedoria, limita-se – e nem isto é universal - a esclarecer a própria ignorância. Portanto, não morremos sábios. Alguns levam consigo esse saber de sonho desfeito que é ignorância de papel passado. Que a outros, os achaques sobreocupam-nos e aniquilam; não sobra tempo para inquietações e filosofias.
A minha rua, minha de quase trinta anos, começou por ser uma rua bebé respigando auspícios. Conheci-a sem luz, em piso de terra. A breve trecho, chegou o asfalto e a iluminação. Encheu-se de moradias e, logo, logo, de crianças.  Então, na tardinha alentejana, a vozearia do futebol ouvia-se até ser escuro e a adiantada lua dar voz de paragem. A toda a hora revivia.  Garotos de bicicleta; duas meninas de mão dada e fugindo do cão que ladra preso à corrente; o rapazinho solitário, mochila nas costas, indo e vindo da escola que é logo ali; as mães que a espreitavam ainda assim o filho ou a filha; os pais que chegavam a hora certa, dia de trabalho cumprido. E as flores e arbustos que no princípio eram assomo de verde medroso e que espreitávamos a debruçar-nos sobre os muros baixos, rindo de contentes, a impar na vaidade da cor, espigados e satisfeitos da altura acima da parede branca, como quem afirma a endireitar o corpo, já sou grande.
Hoje, a minha rua desamparou. Restam um ou dois casais de meia idade a quem netos e filhos pouco visitam, a vida a exigir deles o que antes pediu a pais e avós; morreram locatários, alguns sem ruído ou rasto; a garota de mais inquieta beleza finou-se no asfalto e devastou três vidas por junto. Houve divórcios e abandonos súbitos, desamores e ódios, lágrimas e gritos que meteram polícia, vícios que deram em morte e mortes que ainda andam por aí, que também devagar nos matamos. Em algumas o letreiro, Vende-se, é sublinhado desastre. Na manhã dos meus passos, olho cada uma como foi, a gente que ali fez ninho ainda adormecida. Que, firmando a vista, reconheço, a minha rua desdentou. Aqui uma morte, ali a ida para o lar, além um emigrante que tarda em regressar, mais atrás um divórcio. E, à medida que os jovens se afastam das minhas bandas, surgem cães e  gatos, pobres substitutos da riqueza que se foi.
Mas, quem sabe, as casas vazias se enchem de novos  casais e em breve no ar  viajam vozes de infância nas invectivas dos jogos de futebol e na contagem até vinte das escondidas. Que ainda os cedros guardam nichos de corpos pequenos. Para quê, não o sabemos.


terça-feira, 2 de julho de 2019

Surpresa: Assis Pacheco


O verão atípico que vivemos e outras desimportâncias, levaram-me a dedicar tempo diário à leitura. Mais tempo.  Termino livros iniciados há séculos, leio romances que me aprazem e outros à experimenta, e até por aqui vou escrevendo mais. Dou-me ao trabalho de pesquisar, na floresta da estante, livros que se esconderam de mim e ofertas que outrora desdenhei. Depois recolho-os por junto, quedo-me uns segundos  a olhar aquele montinho de entretém e ponho mãos à obra. Vou lendo.
Nesta tarefa de pente fino, terminei hoje um livro que merece referência. É pequeno, de artigos dispersos, escorreitos e bem humorados – boa leitura de férias. Recomendo estas crónicas que, há mais de quarenta anos, foram para o ar nas manhãs de domingo da RDP, lidas pelo autor, Fernando Assis Pacheco. A obra dispõe bem e interessa o leitor: em cada texto está um pouco de quem escreve. Não apenas por ser Assis Pacheco a escrevê-lo no seu estilo próprio, mas porque, com frequência, (para não dizer sempre), conta sobre si, desvenda-se ao leitor e logo este – que neste caso sou eu – se sente irmanado nas vicissitudes do escriba e pouco se lembra de terem aquelas palavras quarenta anos. A edição das crónicas lidas ao micro constitui justa homenagem ao talento do jornalista, escritor, poeta, tradutor. E etc. Que foi muita coisa, este Fernando. E do que li, além de talento que não regateio, ficou a imagem de pessoa íntegra, bondosa e bem humorada.
Sou grata a quem de direito: ao jornalista que as imaginou e escreveu; a quem reuniu e publicou as folhas batidas à máquina e não tituladas; e a quem teve o bom gosto de me oferecer, “Tenho cinco minutos para contar uma história”. É um prazer ter Assis Pacheco por perto.



segunda-feira, 1 de julho de 2019

Encontro com Emma Reys


Há três editoras que me fazem o gosto na feira do livro: Quetzal, Alfaguara  e Relógio d’Água. O impulso veio dos nomes – a primeira tem nome de pássaro que perdida a liberdade, morre; as outras têm nomes de água, uma caindo em torrente e a outra gota a gota. E só depois olhei e estudei os livros. Que me agradaram. Acresce que a Alfaguara tem uma benesse extra, as vendedoras são também leitoras acirradas e recomendam os livros tão empolgadamente que nos apetece desbundar nas compras. Tenho uma fé nas meninas da Alfaguara. Este ano calhou-me ser atendida por um jovem; e perdi, o sexo masculino é muito menos interessante nas vendas, quer é despachar. Ainda assim, ouvi uma das garotas a lamentar a falta de tempo por querer comprar à filha um livro de que não retive o nome porque fiquei refém  da sua ternura sonhadora e expectante, eficiência de mãos a enfiar dois Houellebecqs no saco de papel, estou desejando ver o que ela diz quando o ler. E compensou a objectiva destreza do meu atendedor selecto já virado a outra gente.
E portanto estava eu olhando os livros da Quetzal sem intentar compra quando senti que um deles me olhava fixamente. Aproximei-me. Li o título. Folheei. Li um pouquinho. Escrita agradável e fácil de ler. Perguntei o preço. Comprei. Chama-se “O Livro de Emma Reys” e é um conjunto de cartas onde a mesma, que foi pintora colombiana de vida bem aventurosa, conta a sua infância sob a forma de cartas escritas a um amigo. As cartas não são forjadas, o amigo existiu e recebeu-as mesmo. Suponho no entanto que sempre houve o propósito de as publicar em livro (a publicação efectivou-se após a morte de Emma e todo o dinheiro reverte para um colégio como aquele que frequentou, de gente pobre). Acresce que a senhora não falava sobre a infância e ninguém lha conhecia. Mas as ditas cartas são de uma agradabilidade à leitura que as depenei em poucas horas. E se primeiro quis ler, depois fiquei com pena de já ter lido.
O que mais me agradou foi a forma como descreve a sua história. Entendo-a na perfeição. Parece, por aquilo que lemos, que Emma seria uma pessoa muito infeliz. Mas, não sendo feliz, tinha pouco tempo para pensar nesses pruridos de felicidade. E tal. Dá-se a coincidência de Emma ter sido educada num convento por freiras da mesma congregação religiosa em que estudei entre os onze e os vinte anos. Fui aluna externa, interna, e transitei desde o colégio fino ao mais pobre. Inclusivamente, o colégio dos pobres era mesmo um convento. E tinha as exactas e mesmas regras: de levantar, rezar, salas de trabalho e ocupação, serviços, igreja, formatura, bibes e fardas, datas de festas, camaratas só abertas para dormir.... Mas os tempos eram outros. As meninas de mente capaz estudavam fora e todas passeavam aos domingos à tarde com a irmã responsável.   Além disso, veraneavam na praia de Mira e havia excursões em cada período lectivo. Benesses que Emma e as colegas não tiveram, estavam no convento como freiras de clausura. Mas o melhor é ler o livro. Como aperitivo, transcrevo as palavras de um crítico de arte sobre Emma “A lenda de Emma forjou-se a partir da sua própria vida e apesar da sua obra” (Luis Caballero).
Portanto, quem gosta de ler cartas...ao prazer!