quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Um Deus Benevolente


Paro no super para levar o pão de D. Elvira e, quem sabe, converso com alguém, dou uso à voz que tanto me custou aprender. Que na companhia de seguros é tudo profissão e cada um em sua secretária, eu numa e um garoto novíssimo na outra. Dois planetas, cada um em sua órbita, pois claro. E nem sei que assunto podemos ter em comum, ele nos tempos mortos vidrado no telemóvel e em chats de conversa e redes sociais e eu a olhar para as moscas que nem sequer aqui entram, graças a Deus é um bom gabinete, todo climatizado para impressionar a clientela. E “graças a Deus” é forma de dizer, que foi a mira do lucro que nos deu conforto e modernice. Mas olha, foi bom o senhor Almiro reformar-se e daqui a pouco já conto.
Vou levar umas peças de fruta e talvez uma alface e um frango assado e, no imediato, descanso de refeições. Voltando ao assunto - isto enquanto escolho umas pêras do oeste para embebedar lá em casa -, a verdade é que só me senti sozinha depois da inesperada carta do Nuno. Um envelope gordo, transporte de três fotos: ele e a mota nova, muito mais bonita e potente que a anterior; ele  e uma miúda de olhos claros num abraço, a meio de um jardim ou coisa que o valha; e os dois sentados na claridade alegre de uma sala, no verso as únicas palavras da carta, “a nossa casa”.  Sem remetente. Quando agradeci por sms verifiquei que, “não entregue”. Investiguei. O número não existia. duvidosa de mim, repeti a operação vezes sem conta, de dia, de noite, à tardinha, ao amanhecer. E sempre o mesmo recado estapafúrdio, o número para o qual ligou não existe. E eu surda e cega, a apurar o aparelho auditivo o telemóvel em alta voz, mas não existe como, no mês passado existia, existiu sempre, desde que me lembro de telemóveis que existe. Mas depois caí em mim, engoli o desgosto afrontoso e emudeci com mais pontaria. E tu, perdeste a língua, que cara é essa, parece que todos te devem e ninguém te paga. Mas para quê dizer-te se tu logo, estamos tão bem as duas sozinhas, Deus sabe sempre o que faz. E é talvez verdade, estávamos bem as duas, tu na lida da casa e eu a ganhar dinheiro. Deus sabe o que faz, olaré. E havia as missas de domingo e os dias santos de guarda, coisa que me lembrava logo a GNR mais suas polainas prepotentes; e o senhor padre a conversar tomando-nos as mãos como se nos sentíssemos os amigos que nunca fomos, eu a escondê-las nos bolsos para que os olhos dele à procura no fundo dos braços e só a dobra do bolso, toma que já almoçaste. E os vizinhos que vinham por conselhos e pedidos de recados que a cidade não é logo ali, menina isto, menina aquilo; e o meu rosto no espelho, tão sério como o da garota, palavra que tão desinteressante como o dela mesmo não a conhecendo ainda, e talvez nem tivesse nascido, mas já os meus olhos afeiçoavam idêntica reticência; e o que é que se passa com as noites que de repente deram em crescer e não param de durar. E enquanto tudo isto, tu a minguares dentro de mim, a ficares mais pequena, a seres toda inteirinha dentro de uma caixa de fósforos. Por mais que te estique de cabeça, ficaste mãe de pouco lugar. Inútil dizer-to. Sofrias.  E logo te farias desentendida, qual caixa de fósforos qual carapuça. E terminavas, estamos tão bem assim. 
Desculpa, mas são quase as nove e meia, tenho o trabalho em espera. É só guardar as mercearias e já me vou à função.

Um Deus Benevolente


A garota sacode-me o braço, devia tê-la deixado na escola, lá atrás. Calma miúda, ponho-te à porta na mesma, é só o tempo de fazer a rotunda, que as rotundas permitem o que a vida não tem.  Com sorte, ainda não estás atrasada. Que cabeça a minha, desculpa. Dar guarida a recordações resulta mal ao volante. Olha-me duvidosa e sem palavra, quem sabe a dizer para si, a mulher é maluca, quase todos os dias se engana. E claro que não é verdade, onde já se viu enganar-me todos os dias, acontece uma vez por outra.
A escola ressuscita a cada manhã, retoma a algazarra e os garotos da véspera apeados de noites curtas para o sono e já espreitando telemóveis, os fones em ebulição. Junto ao portão, a azáfama. Automóveis que aliviam e seguem, um corrupio de mães levadas na pressa de empregos impacientes, enquanto os rebentos se fazem ao edifício teclando ou, mais raro, na conversa. Pronto, podes descer. A garota põe os pés fora do carro em jeito de quem procura terreno firme, dá-me um obrigado sumido antes de lançar o corpo à aventura e a porta bate sem firmeza. Abro-a de novo para emendar o fecho e fico uns segundos a vê-la arrastar-se sem vontade, contrariando a retranca dos pés, vira-nos ao contrário não queremos ir. Podia ser minha neta. Ou filha tardia, surpresa de amores serôdios e livres de cuidados e fraldas a quem a natureza pregou a partida.  Mas é que eu e tu tínhamos um laço que se mudou em impeditiva corda de marinhar. Apregoavas a quem te quisesse ouvir, nunca namorou, muito boa filha, não me deu nem assim de problemas, e espetavas o teu orgulho na unha do mindinho. E é verdade que não te dei problemas. Quem sabe se o Nuno tivesse voltado de Paris. Mas o Nuno não voltou. Primeiro recebia e enviava sms diários. Depois,  em dia e hora incógnitas, dois ou três por semana; contava e perguntava cada vez menos, a desfazer-se em desculpas, agora não posso que tenho uma aula, um exame, vou estudar para a biblioteca, uma pesquisa importante. Agora não posso. Mau grado o excesso de impossibilidades e o alerta que continham, vivia para o écran. Mas os sms a rarear. Uma semana. E outra depois. As horas sem destino que existem em quinze dias, a gente é que não pensa nelas que, pensando, logo se nota o exagero. E nisto passaram seis meses; nisto é como quem diz, levaram-me anos de vida e ganhei os primeiros cabelos brancos. Seis meses iguais a todos os outros, mas tão diferentes. E um dia tu, vês, vês, tão teu amigo e sabes o que ouvi? Arranjou uma francesa e vai ficar por lá. Se calhar casa e tudo – e em voz de escândalo, puxando do teu sôfrego  ângulo de lâmina -. Vê lá tu bem que nem se deu ao trabalho de te contar. E depois saíste a resmungar, “homens”...E “homens” porquê se meu pai te adorava e vivia em dependência da tua figura pela casa. Depois dele, nós duas sempre, que os únicos com quem falavas era o vizinho Barbaças que Deus lá tem, uma santa alma, e mais o senhor Padre Barros que toda a gente assegura ser Deus em figura de gente. Onde foste buscar tanto rancor é que não sei.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Tolentino

Podes não o saber, mas visto que emigraste para terras do senhor Papa Francisco que é também nelas um emigrante, sinto-me obrigada a dar-te novas do Curso de Filosofia e Literatura que prossegue na igreja que foi tua. Não sei se estarás numa sabática de missas e outras obrigações devotas no que à Capela do Rato diz respeito, ou se o nó se desfez de todo e não regressas. Não interessa. Foste o mentor, portanto...
Não li “As vozes dos animais” de Coetzee. Mas gostei na mesma da exposição. Nela, o livro aparece interessante. Mas há pessoas assim, fazem bonito e simples o que é complexo e nem por isso atractivo. E verifica-se neste orador. O tema estava preparado até ao pormenor do essencial a transmitir e os itens surgiram naturais e nem pareciam severamente escalonados como decerto foram.  Escutá-lo foi prazer comum de todos.
Coetzee é um provocador. Logo no início, toma balanço e lança a bola de fogo a ver em quem acerta, querendo acertar em todos os homens. Afirma pela boca de uma conferencista  que os homens, todos os homens vivos e que constituem a espécie humana, perpetram hoje, diariamente, crimes tão hediondos como os do terceiro reich. Esta é forte, não digas que não. Bom, vou-me abster de  questionar senão a conversa degenera e  torna-se infindável. E antes que surja o pensamento, “nós???! Não, isto é ficção pura” - é mesmo ficção e dá pelo nome de “As vozes dos animais” -, é bom lembrar que os ditos comportamentos à terceiro reich nos pertencem sim senhor, mas em relação aos animais. Ora bem, parece não fazer diferença, mas faz. Tu desculpa meter o bedelho depois de prometer que não. Mas a crueldade com que tratamos os outros animais – eu disse os outros, sim – só nos avilta. Quem sabe um dia nos chegam seres de outro planeta e nos engolem com a mesma supremacia, como se nós outros-outros e não um eu-outro. É em nome desta diferença – entre nós e eles - que os excluímos e menorizamos, banalizando todo o mal que lhes fazemos com a desculpa de que “não são dos nossos” e estão noutra ordem (repara na semelhança com o pensamento dos alemães acerca dos judeus). Portanto, os nossos atropelos para com eles não contam. O tribalismo do, “ah, mas é que não são humanos”, é uma força de bloqueio  assustadora. Porque, na realidade, desde sempre têm algo em comum connosco: a animalidade. O animal esgota-se no corpo e nas sensações, não tem um imaginário racional e emotivo que lhe permita evadir-se, nem que seja por momentos, da condição em que vive. Se o prendem em cativeiro severo e se vê privado de toda a liberdade e limitado às funções mais básicas, é um animal triste. Como é possível manter assim vacas, porcos, galinhas...
Mas olha lá Tolentino, a nossa dentição não é omnívora? Ou já fomos apenas herbívoros? A solução para sermos quem queremos e devemos ser passa por sermos todos vegetarianos? Ou basta-nos ter uma ética mais abrangente e extensiva aos animais – com as devidas ressalvas, claro. É que conheço gente que vive de matar, depenar e arranjar para consumo em grandes centros, frangos de aviário. Todos os dias, todos os dias, todos os dias. Oito horas em cada dia. A máquina mata e depena. E não calculas o mau estar que me provoca saber destes animais que engordam à força toda para morrer e na sua curta vida mal podem mover-se. Morrem sem uma pata na terra, não sentiram a alegria de esgaravatar prazenteiramente. E isto – e muito mais -, Tolentino, dê por onde der, está errado e é selvático.
PS: desculpa a lonjura e o arrazoado. E porta-te, olha a função.  

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Um Deus Benevolente


Eu no meu emprego belíssimo, e belíssimo de certeza que por lá estou há décadas. Pois eu dias inteiros à secretária, atolada em acidentes e queixas. Chegava a casa ao entardecer que no inverno noite escura, fartinha de gente que empreendia em ter razão e crescia uma para a outra, versões opostas da mesma coisa e eu no meio daquele estrafego desentendido, mas ainda a  fabricar atenção para a tua conversa sobre tricas de vizinhança que não me interessavam um tusto. E enquanto nesta pasmaceira, a roda viva do Nuno, a estudar, namorar, ir a festas, visitar-me, correr de mota. Eu na rotina de levantar, ir para o emprego e fazer viagem inversa na hora de almoço; à tarde, voltar a penates depois de uma ou outra compra a teu pedido. Eu sem nada de interesse para contar e a enviar sms  zeros à esquerda da vírgula, que eu de certeza um zero à esquerda da vida, assolapada pela tua solicitude pegajosa, emaranhada em zelosos  debruns maternos, se não falas é porque não queres, aprendeste, e olha que não és menos que ninguém. Eu a receber sms que ressumavam de vivacidade complexa, novidades ora exultantes ora tristes, por vezes uma indecisão que pedia conselho. O Nuno a recomendar leituras sem efectivação, tu a respingar, compras um livro por mês  e é um pau, que não tens de teu senão o emprego e eu não vivo sempre. E não te poupavas ao agouro, gosto muito dele, mas é um doidivanas; liberdade, liberdade, qualquer dia engravida por lá uma colega e, vais ver, acaba-se a boa vai ela. E em remate judicioso, os pais é que são os culpados. 
O Nuno a explanar saídas nocturnas e eu calando a TV sempre ligada e as novelas caindo umas sobre as outras. E se eu mudava de canal logo tu, então, como se impossível que eu um gosto diferente, eu sem direito a diferendo. Mas para quê tanto problema nas novelas, se os que temos na vida chegam e sobram. O Nuno contava da aparelhagem no quarto e de adormecer ao som da música e eu calava os teus joelhos no tapete depois de ais e uis de dobradiça perra, o beijo na medalhinha de Santa Zita padroeira das criadas de servir, e em voz alta - rezavas por ti e por mim -  a oração que teu pai ensinou, “Nesta cama me deitei, quatro anjinhos nela achei, dois aos pés dois à cabeceira, Nossa Senhora na dianteira. E Nossa Senhora me disse, que dormisse e acordasse, e que medo não tomasse, nem de noite nem de dia, Padre Nosso Avé Maria”. Depois, o rumor sempre igual do colchão a receber-te, a tua volta na cama a encontrar posição que isto já se sabe, o corpo na velhice ganha leis e limitações. E sempre o último aviso, fecha mas é a luz, olha o que te espera amanhã.
E certo dia o Nuno com dois capacetes na porta do emprego, levo-te a casa. Levo-te a casa era a nossa senha de ir ver o mar. Depois da alegria da trepidação, de as minhas mãos não no cinto das calças mas a abraçá-lo pelas costas, colada a ele sem querer saber de paisagem. Depois disso e da velocidade, descíamos contentes até à praia. Sentávamo-nos lado a lado e ficávamos de novo garotos e parceiros, talvez que as ondas um sussurro, não posso garantir. Para nós dois, aparelhos no bolso, havia apenas o absoluto silêncio da surdez e o movimento do mar, uma espécie de respiração da água a dilatar e encolher no ritmo curvo das ondas. E o Nuno  a voltar-se para mim, vou estudar em Paris. É um ano, passa depressa. Eu a ler-lhe nos lábios cada palavra, os gestos antigos de volta, não acredito. Ele também a recuperar  gestos, é verdade, fui convidado e aceitei. E a mão a correr-me o cabelo e depois a encher-se de precisão, é só um ano.
A garota sacode-me o braço, devia tê-la deixado lá atrás na escola. Calma miúda, deixo-te à porta na mesma, é só o tempo de fazer a rotunda e voltar atrás, ainda não estás atrasada na vida. 

sábado, 26 de janeiro de 2019

Um Deus Benevolente


Paro na casa amarela e já a garota está ao portão, rosto sério, mochila às costas. Dou-lhe boleia diária. Senta-se a meu lado encafifada, pernas juntas e reticentes, rosto virado à janela. Encolhe-se de cada vez que pergunto e responde telegráfica, a mochila cosida às costas. Vai-se a ver e é como as asas dos anjos, nasceu ali, tem pegas de carne a ligá-la ao corpo. Eu e o Nuno também de mochila, parceiros na sala de D. Francisca. Junto de outros meninos sem aparelho no ouvido, a brincar com eles, a falar, a zangarmo-nos num rebuliço de gestos. Atenta aos pedidos do ensino especial, D. Francisca atalhava afogueada, “parem lá com isso; se querem discutir, têm de falar”. E o Nuno apontando o aparelho, “não oiço, não tem pilha”. D. Francisca a espadanar numa onda de calores, um lustro de suor que alagava,  gotículas gordas em ameaça de escorrimento e umas falripas desarrumadas da laca a morrer nas rugas da testa, estamos amparadas. Depois, num frenesim que nos tolhia de espanto, enfiava um leque desvairado no decote da blusa de inverno, “não tens agora pilha”. E, sobrevoando as tremuras sacudidas do leque nas intimidades da blusa, o aviso,  “tu és muito esperto, Nuno”.
Passo na curva apertada onde minha mãe punha flores lacrimosas, coroas de plástico, corações de arame e esponja florida. A garota dá-me o soslaio sério de quem sabe  do assunto. Mas ignora os olhos de meu pai que não sei porque não se foram com as flores, mas não foram. Não há calor que os desfigure, vento que os leve, tempestade que os arraste. Os olhos de meu pai cheios da ternura que usava comigo, filha. Assim, sem mais nada, filha. E, filha, sai-lhe numa espécie de felpa que aconchega mas não basta, que fico sempre com os pés de fora. E depois nós duas por anos e anos. Tu, sentadinha no banco do pendura. A garota a quem nasceu uma mochila nas costas vai sempre no teu colo, quem sabe é por isso que se senta no incómodo de tão à pontinha. É uma pobre menina pobre, escanzelada e amarelenta de pele, talvez com lombrigas minúsculas a sorverem-lhe o pouco alimento, ou ténias compridas a engordar nas entranhas.
E tu armada em D. Francisca, fala, não percebo nada de tanto sinal. E tanto que me esforcei para falar contigo. Treinava conversas inteiras no gravador  da escola. Muita vez, muita vez, muita vez. Até que o Nuno ou a professora, Chega!, e tiravam-me o aparelho. Mudei de escolas, fui andando. Tu a meu lado sempre. A professora do ensino especial a receber-nos em casa, paga à hora. Não para me ensinar a falar, não para explicar as matérias. Para me explicar as palavras que são tantas. Há um nunca acabar de palavras.  A professora punha ordem na casa das palavras, varria, limpava, arejava; e depois entregava-me a chave.
Terminei o secundário. Será que esta garota termina o secundário ou vai acabar antes de tempo a fazer a caixa no supermercado, a coser na máquina da fábrica das luvas, a encher salsichas noutra maquinaria fabril. Deixemo-la ser criança, tem ainda tempo.  Do outro lado do rio, o Nuno crescia nas matemáticas e nas namoradas, era o rapaz magnífico que por vezes surpreendia à minha espera na porta da escola ou de casa. Não perdera o ar de infância que a revolta do cabelo louro acentuava, nem a doçura do olhar. Prescindiu da professora, tornou-se leitor voraz e comprou a mota. Aos primeiros telemóveis, convenceu-me, compra um, podemos enviar mensagens, basta escrever. E voltámos a ser unha e carne. Ele na faculdade e eu já na companhia de seguros. Tu para mim, um bom emprego, estás a ver. E um bom emprego realmente.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Um Deus Benevolente


Entro no carro e D. Elvira vem correndo e gesticulando. Passa-me o saco do pão pelo vidro entreaberto e fica a acenar-me. D. Elvira vive a duzentos metros e é ser de previsão. Entendemo-nos quase sem conversa e entrelaçamos pequenos favores. Neste caminho que eu amo, conheço de cor todas as lombas, infiltração de raízes varicosas, velhice de alcatrão que é problema de pele das estradas. Encantam-me as diferenças mínimas no verde das árvores que o bordejam, a passividade das folhas, os efeitos da luz e da chuva sobre a paisagem, a progressão da natureza no virar das estações: o esboço de primavera mal os troncos começam a inchar de rebentos e folha nova; e, antes que caia a primeira folha, o anúncio de outono em mostra de matizes. Calcorreio esta estrada sem nome há um ror de anos. Desde servir-me para brincar às casinhas, até ao enlevo de hoje, muito nos aconteceu. Mas tudo começou na decisão de meus pais: vamos mudar-nos para o campo.
No campo, contava as horas pelos sons que ultrapassavam a minha barreira.  Às dez e trinta o recreio cheio de vozes, e às quinze a saída da escola; depois das dezoito, sirenes maternas selavam o dia e tocavam a recolher. Foi o tempo da zoologia, travei amizade com cães, gatos, aves de capoeira e  uma variedade de insectos e bichos da terra. E tudo isto foi anterior à Escola de Ensino  Especial, lugar de amizades fundas. Aconteceu antes de aprender a linguagem gestual que nos abriu portas de silêncio tão cheio de tudo que era difícil às professoras  manter-nos atentos e sem sinais de mensagem. Tínhamos descoberto a comunicação. 
Tanto gesto e não entendias nenhum. O Nuno, sim. O Nuno vinha da mão na minha garganta a sentir o som, vinha do contentamento de sermos iguais e de eu a treinar a respiração de consoantes e vogais no externo dele, os meus dedos pequenos a subirem até ao pescoço para sentir a vibração. O Nuno que aprendia tudo rápido e espreitava com interesse cirúrgico a boca aberta da professora, a fim de me ensinar como exactidão o lugar da língua em cada som. O Nuno que me fazia treinar uma vez e outra, em atenta e terna compreensão dos olhos azuis. O Nuno e as pequenas vitórias na articulação dos fonemas, facto para nós extraordinário. Eu e ele a trincar a meias um rebuçado se aprendíamos a fonia de palavras novas.
Automatismo que o corpo não perde, abrando à nossa árvore. Não minha e tua, minha e do Nuno. Milagroso e envelhecido, mas de pé, o nosso cavalo. Subíamos com ampla dificuldade para a sela e cavalgávamos sem sair do lugar. Ocupados com a terapia da fala, ainda não líamos. Para nós não havia Cisco Kid, crianças perdidas na floresta, casinhas de chocolate. Havia nós dois montados num sobreiro com tronco de cavalo, pernas e peúgas a repelar na cortiça, os sapatos lá em baixo a descansar; e a vertigem dos pés longe do chão. A ilusão do tempo parado.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Tolentino


Quanta coisa acontece fora do ninho. Quase tudo, que não fomos feitos para ele, ainda que o precisemos. E portanto, olha, lembrei-me de te escrever a contar sobre as tuas ovelhas especiais que encontrei de novo. Lá estão.  Parecem-me só um ano mais velhas. Se queres que te diga, dei por gente – que não é toda a gente, nota - atenta ao alvo, acenos vagos de cabeça e emissão de concordâncias discretas, “isso mesmo”, “tal qual”. Habitam a firmeza de um círculo indestrutível que as reúne ao orador e só a eles a verdade transparece. Embebem. Simbioses directas e sem curvas, que assentem sem mas e não mudam uma vírgula no discurso do outro. Bebem de fonte humana como se divina fosse.
         É lugar frio mas bonito, a tua igreja. E hás-de concordar que o tecto é uma maravilha. Mas olha que as cadeiras continuam desumanas. Mais de duzentas pessoas talvez sedentas, curiosas, ou apenas a cumprir ritual, afinal é o quarto ano consecutivo. E não é para engraxar, Tolentino. É que fazes falta desde a selecção das obras. Confesso-te que, este ano, encontro algumas demasiado pias e exemplares. Tu, que no ano passado escolheste “A paixão segundo G H” de D. Clarice Lispector para falares de um trio: Cristo, amor, e homens. E eu quem nem gostara do livro, vi-o da tua perspectiva. Mas alto lá, com muita dúvida no teu ponto de vista. Tens de me explicar isso melhor, tintim por tintim. Ok, não podes. Adiamos. Espero-te na eternidade, parece-me boa altura, tu que achas?
         Até tenho vergonha de dizer isto, mas é que gostei mais do dia de hoje e da exuberância daquela garota no Metro, óculos escuros e desmedidos brincos a faíscar, oscilação dardejante que lhe escorria da orelha e acompanhava o pescoço. Era visão tão potente que obliterou a calça de ganga rasgada nos joelhos, o casaco de cabedal e até o negro das botinhas baixas cravejadas de rasos círculos prateados. E toda a gente a olhá-la por causa dos relâmpagos que trazia activos nas orelhas. Mas  ela no seu natural de dar nas vistas, nem vaidosa nem outra coisa, só uma garota bonita e matinal a abrir o dia. Bom, é verdade, tinha uma louvável ponta de excentricidade. Aposto que ias gostar de vê-la.
         E portanto, foi isto. Então e tenho de procurar um encíclica do Papa Francisco?! Ai valha-me Deus. E mais a Etty que até tenho nem sei onde – deram-ma, claro -, mas nem li... Bem te digo que me fazes falta.
PS1: o teu sucessor tem tarefa ingrata; até agora porta-se como um padre e não desmente a tradição.
PS2: dá um beijinho ao senhor Papa por mim (pode ser no anel) e porta-te bem. Sempre ao teu dispôr
            Bea

domingo, 20 de janeiro de 2019

Um Deus Benevolente


Dou duas voltas à chave, miro de soslaio as janelas e volto costas. E ela está onde deve, vestida de eterno negro polido, na elegância de cada vez mais estreita até onde os olhos podem. Foi num passeio de domingo que  a conheci. Meus pais, banho tomado e roupa do dia, falavam em surdina um com o outro e, por mais que esticasse o ouvido, nada me soava. Nesse tempo,  a surdez ainda não era problema meu, era problema deles. E no entanto, até ao primeiro emprego, minha mãe dizia em dar de ombros que queria displicente, ora, o que ela não pode é ser telefonista, e depois, há muito trabalho que não precisa de ouvidos. Por mim, sentia-me bem nesse limbo de silêncio que supunha igual para todos, via as pessoas a mexer a boca e imitava-as. Convencia-me de que tinha de o fazer, era o que observava. Do mundo auditivo ouvia vibrações e, sobretudo, ruídos fortes que furavam a deficiência e me chegavam amortecidos. Também os gritos destemperados de minha mãe a oprimir-me um braço mal eu, desagradada daquele desvario enfático, afastava o rosto do seu.
Nessa tarde, quando minha mãe veio com a capa e ma acertou no corpo enquanto meu pai trazia a motorizada até à porta, toda me sorri à perspectiva de um passeio. E cumpriu-se o habitual. Minha mãe ensanduichou-me entre os dois, cuidou de me assentar cada pé sobre um cromado, mãos apertadas no cinto de meu pai. Depois, apurou-se no assento, esticou braços até ao casaco dele e enfiou as mãos. E lá fomos. Três magos sentados em cadeia. Meu pai era escudo opaco e eu a maior entusiasta da trepidação. Além disso, cabiam-me breves soslaios à esquerda e à direita, o cabelo a rodar inteiro para o lado inverso do pescoço enquanto minha mãe aprumava a postura de invólucro.
Gostei dela desde o alerta de cheiro diferente a sobrevoar a pestilência de gasóleo, a bicicleta aos solavancos nas pedras e buracos, nós aos saltos no assento. Meu pai parou a mota e o aperto deslaçou. Descemos de frente para um campo verde com árvores de fruto. Perto de nós, um pessegueiro pendia de ramos vergados, esfalfamento de mãe com muito filho. E enquanto meus pais mediam com o olhar e depois a pé firme todas as direcções do campo, eu fiquei-me na sua beira catando pedrinhas soltas, medindo com a palma a fundura dos buracos, entretida na inveja dos lagos que o inverno ali faria,  a lamentar não os assistir e contornar a pedra fina.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


Não sei o que passeei nem por onde, excertos da conversa adesivados no écran gigante do pensamento.  A memória ensombra-lhe a casa e por isso sai manhãzinha e entra já noite.  Lá dentro, contraria o esquema, muda os circuitos, “trago qualquer coisa já feita e nem entro na cozinha”. Sozinha. Dois quartos vazios. Mas sobe a escada do sótão,  “não posso pensar em dormir cá em baixo”. Caminho antigo é terra queimada, receando o frente a frente com a crueldade dos objectos e o mundo de pantanas, “ainda não pensei em arranjar o quarto”.  Ergui os olhos em silêncio para o janelico que a abriga e veio-me à ideia a dolorosa incredulidade de César, “Também tu, Brutus”. Não lhe sei o nome, mas ousar certificá-la das palavras imperiais, dar-lhe a companhia de tanta mulher, cada uma caminhando como pode. Avisá-la do que não preciso, que bem o sente, apontar-lhe a natureza castigadora da trama social: à medida que desces no orçamento e diminuis na condição mais se te encurta o caminho e a chance; séculos de sujeição feminina a agravar a pena; e cada uma pode menos, sempre menos, até à dependência mais abjecta. A vontade de dar-te exemplos. Desta e daquela que conseguiram. Mas de que valem exemplos a meio de uma bravata de problemas de toda a ordem, de que serve apontar um caminho que não é o teu e portanto sem cópia.
A porta de entrada empenou, há flores mortas em canteiros sedentos, a um canto, o tanque da roupa descama por falta de uso. Uma nuance de verde lismoso invade o quintal onde nenhuma roupa ondeia, a corda balançando na aragem. És tu e os cães. E o silêncio a fazer muro. Tanta gente e ninguém. É assim mesmo.
Quantas vezes o desejaste, diz. Quantas vezes desejaste um casebre que fosse teu, qualquer espaço de pertença onde pudesses descansar, quantas vezes nas horas compridas das noites demoradas desanimaste no inventário familiar. Eles, como tu, são  à justa para o lugar que conseguiram. Em vidas de clausura, espaço livre é quimera. Convence-te, não cabes. 
Que te não magoe o agudo rebordo de tanta pedra solta. Porque a meia dúzia de meses vai arrastar-se por anos. Fora de ti, o homem engordou. E apesar das vigílias ao balcão, começou a cuidar-se.  E se te rodeia e voltas a recebê-lo. E se, apesar das súplicas insistentes à vista de todos, “por favor faz o que te peço, por favor!”, és impreterível, não o queres a teu lado. E se o aceitas pelo meio, podes vir, mas travei a fundo na vida marital. E se.
Eu te saúdo, Maria.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


A persistência da vida é notável. Ainda que possamos não reparar, ela avisa, emite sinais de alerta que são braços acenando em enérgica oscilação, hei, hei, hei. É preciso atentar, pelo menos algumas vezes, ou não saberemos lê-los. Que para tudo se quer treino. Uma história começa dentro de nós como qualquer doença. Invisível, vai minando sem que demos conta. E, a certo ponto, exige: escreve-me. Nesse momento, a memória puxa-a inteira. É como se tenha juntado por ti todas as contas  e te falte apenas enfiá-las para formar colar ou bracelete, que é como quem diz, história.
Talvez seja pretensão supor que memória e acaso me destinam a escrita, mas o certo é que ontem resolvi, a uma hora improvável, passear a pé. Passava junto à antiga moradia do casal e rememorava o caso quando o automóvel parou e ela saiu. Impensada, soltei um, estava mesmo a pensar em si - e a precisar o pensamento –, se estaria curada da gripe. Ao “a pensar em si” os olhos dela endureceram, mas a referência à gripe suavizou-a. Os alertas que levantamos se a vida nos maltrata. O orgulho ergue-se dos escombros e endireita-nos os ombros, olhos de desafio animoso. 
E houve riso e conversa, imprescindíveis assuntos triviais, esboços minimalistas do regresso à normalidade.  Falámos de roupa barata, de gostos e características pessoais, dos filhos e das dificuldades do mercado de trabalho. Sorridentes.
Mudou a cor do cabelo e readquiriu dinamismo, o corpo pertence-lhe de novo. Arvorou a sua prioridade, “tenho que dar ao mais novo o que dei ao mais velho: um curso”. Viera na hora de almoço para alimentar o cão. Despedimo-nos.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


Foi esta amálgama que me acudiu quando a encontrei na farmácia, prostrada pela gripe e recusando auxílio. A essa altura, já ele passava sozinho; ela, em eclipse. E quem o conhecia melhor que eu
- Gasta os dias a beber encostado ao balcão do café e ela a tomar conta do negócio.  Também dá pena, o homem. Ninguém o convence da separação, vive com ela na boca,  a minha mulher isto, a minha mulher aquilo. A minha mulher.
O que as palavras nos importam. Tanto. Com elas arranjamos realidade  a contento, do possessivo à substância da posse, “a minha mulher”.  O álcool ilude e dá colo a outras fantasias,  ajuda a segurá-las.
Pouco depois, o acidente de viação leva-lhe o automóvel e, autómato escanzelado, desloca-se a pé,  olhos fitos na ressurreição do álcool. O  desejo severo da bebida marca-lhe a pressa dos pés. Boca seca, sentidos em gume, apontados e exclusivos. Que nenhum amor pode mais que vício com raiz.
– A casa não a casa, mas um deserto gelado, sem o lastro de cozinha activa.  O incómodo do teu cheiro que encaracola pelas frestas se entreabro gaveta que foi tua. Os móveis irritadiços, uma catrefa de ângulos agudos que me raspam na pele, plantação de nódoas negras que só na manhã seguinte nascem pelas esquinas do corpo. A mobília a olhar-me fechada em rancor, sem um rangido de aprovação.  
E ela com os filhos. Num espaço que não lhe pertence, caixas sobre caixas. E a escrita do negócio, facturas, encomendas, dívidas por saldar, meses que vencem numa piscadela de olho. E a faculdade e o aluguer do quarto. E.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


O tempo dá sentido ao que fazemos. Ou o curso da vida individual segue o da História e só é entendível – pelo menos para os outros – ao retardador. Nessa medida, só meses mais tarde, quando o diz que diz da notícia foi suplantado  por folclore mais galhardo e caíu no esquecimento, notei que deixara de a encontrar. A nossa relação não ia além da cortesia no cumprimento diário, mas cruzávamo-nos de quando em quando. Perguntei a D. Juvénia, senhora simpática e discreta, caixa na  mercearia da esquina. E ela a abrir a registadora, moedas organizadas por compartimento e as minhas escorrendo-lhe por entre os dedos e a tinir sobre as outras, a senhora não sabe, separaram-se; ele está uma miséria, os médicos dão-lhe seis meses de vida e ainda assim não larga a bebida. Pescou os meus cêntimos e trouxe-os à minha mão aberta. Depois, encolheu ombros fatalistas e não acrescentou. Saí, esbugalhada das ideias. Alcoólico e em fim de vida. Mas como?! Passava diariamente para o emprego, trabalhavam juntos...conhecia-o de garoto servindo bicas no Ideal. Por vezes, equilibrando chávenas e pires, olhos em mulher de figura caprichada, “posso dizer-lhe que está muito bonita?”. E era jovem, assertivo, riso bem disposto. Calculei a causa do desencanto presenciado no super. Calculei. Que ninguém senão quem vive o pesadelo pode saber do mal que o vício provoca.
De quantos anos precisaste para chegar ao fundo. Quanto vómito tiveste que  lavar. Noite após noite, a falta de pontaria na sanita, trabalho sobrante e teu. Os filhos acordados fora de horas, contra tua vontade – não mandas, tu - levantados em peso da cama, endorminhados e medrosos, apenas porque sim. O mais velho a preencher cheques inúteis e a tiritar de medo e frio, as letras a escaparem-se da mão que custava a acordar. Está bêbado, mas vocifera ordens. E tem força e maldade que nem sabes de onde pode vir, mas está presente. E aterroriza a  oferecer pancada de mão aberta. Noites em que o traziam a casa, sujo de terra, rosto a sangrar, o ritual de lavares e despires e deitares um corpo morto, boneco desarticulado e de dizeres ininteligíveis; madrugadas em que o delírio o fazia virar tudo do avesso, que um bicho aqui, que percevejos a roerem-lhe os dedos dos pés, que as paredes caíam sobre ele, que as vozes não o deixavam dormir. E as horas longas da espera nocturna, será que consegue chegar a casa, ai se tem um acidente, queira Deus que não se mate nem desgrace alguém. As longas, longas  horas de esperar por um estranho de que o coração se desliga. Que te enoja. Abisma-te o próprio abismo.
Suor de álcool é podridão, bafo é esterco humano. A casa, empestada; o quarto, irrespirável. Mas dormias a seu lado, davas-lhe as costas contando horas até que a madrugada piedosa te fechava os olhos.  E não contas as vezes que te envergonhou e desrespeitou em público, as que em privado te possuíu contra vontade, ao rés da violência, como rameira de beira de estrada. Dominava-te, prendia-te os braços com um riso mau, viscoso e avinhado, atravessadiço. Quantos anos  te custou compreender que este homem matou o que restava do outro e não há a que te agarres. Oh, o desejo de nenhum homem por perto, como o sentiste. E a dificuldade em aceitar a morte do sonho.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


As mulheres gostam de falar e são atreitas a confidências, diz-se. Entre amigas, comungam segredos e minudências que a maioria dos homens inveja e teme por recear prejuízos ao pedestal a que se ergue ou intimidade que a delate.  Porque, é sabido, o conversedo é feminino.  Ora, se é verdade que as mulheres gostam de conversar, não o é menos que são os homens quem mais conversa, têm mais tempo livre. A meia hora das mulheres dura mais ou menos trinta minutos porque há o a seguir que tem de ser feito; a dos homens pode durar uma manhã ou uma tarde, depende de quem encontram, o a seguir pode ser noutro dia.

Para falar desta mulher tenho de sair da farmácia e  ir mais atrás. Ir ao dia em que a encontrei perdida no supermercado. Ainda que ninguém se perca num supermercado de província.

Talvez tenha sido o vagar das pernas e o corpo desligado a chamarem-me. Que logo fui atingida por redonda tristeza no olhar. Não me viu. Duvido que tenha visto alguém, parecia nem saber ao que estava. Meti por outro corredor, dei a volta. E ela parada na outra ponta, uma mão maquinal hesitando a prateleira e a descer de novo. Lembrei épocas em que legumes e géneros me passavam e concentrar-me neles me recentrava. Pensei em qualquer súbito desgosto, coisa de chofre a desnorteá-la. Dei uns passos na sua direcção, mas evoluiu sonâmbula, impressivo alien no meio do povo. O sofrimento é coisa íntima, difícil de soletrar e mais se vê do que é dito. Ainda que dizê-lo nos melhore, o merecimento de ouvi-lo não cabe a qualquer.  Recuei.  Eu era qualquer.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


Há histórias longas e de muita volta, romances  cheios de peripécias, resmas de discussões e parlapiés. E eu que gosto disso tudo, que os leio com gosto, sou muito sem assunto. Por vezes, apetece-me escrever e nem sei sobre quê. É claro que há bloguers a quem nunca o tema escasseia, em qualquer bocadinho de tempo erguem partículas de realidade que nascem e evoluem ao ritmo de leitura dos olhos. E sim senhor, como eu gostava de ser assim. Mas não me acontece.
Os meus temas sou eu, os poucos familiares que me visitam ou eu visito, uma ou outra pessoa com quem me cruzo no dia-a-dia e a memória guarda. E não aprecio desaguar nas minhas águas tristes. Basta-me a poalha de melancolia que sacudo mal e me põe de Maria arrependida de quando em vez. Pois um destes dias, estava eu na farmácia cheia de gente quando ela entrou. Diga-se em abono da verdade, é uma ela bonita, figura airosa,  sem um átomo de gordura a aparar-lhe o esqueleto. Conheço-a vai para trinta anos. Na juventude, brilhava de viço, cabelo de noite escura costas abaixo e grandes olhos negros. Naquele fim de tarde, pareceu-me febril, olhos mortiços, pálida, boca sem cor. Abordei-a. Que vinha de horas no Centro de Saúde, acabava de ser consultada e ali estava pelos medicamentos. Tinha gripe. Ofereci-me para a acompanhar,  lhe fazer um chá, qualquer coisa...virou-me aqueles olhos desmedidos, a voz a afugentar uma nuance de espanto, não é preciso, obrigada, estou habituada a tratar de mim. E acrescentou a constatação, nunca tive ajudas. A voz saiu-lhe amorfa, sem réstea de autocomiseração, como  quem põe uma nota sobre o balcão para saldar a despesa. Não insisti. Se tivesse desatado num pranto, é provável que a esquecesse em seguida. Assim, jamais a esqueço.  Gritou sem voz haver.
  
        


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Virtudes por Defeito


A minha relação com a roupa é bastante amistosa. Sobretudo nos provadores de espelho ligeiramente inclinado. A verdade é que as peças me duram décadas. Portanto, quando ao corpo apetece mudança, cedo-as em bom estado. Ora, na velhice, a efeméride corporal é do mais mutável. É que muda tudo. Os pés, as mãos, as unhas, o cabelo, os olhos e a expressão geral do rosto. E fiquemos por aqui. A mudança é de tal ordem que se não me penteasse ao espelho e porventura passasse por mim na rua, não me reconhecia. Que espiga!
Bom. Bom. Este intróito para dizer que há provadores à antiga, fiéis ao modelo. E aí é que bate o ponto. E também há a eterna mania, e se eu experimentar um M em vez do  L? Se bem calha, o M assenta melhor. E lá vamos para o provador, êmes submissos escorrendo graciosidade pelos nossos braços. Pois. Mas se juntamos os dois ingredientes – um espelho sincero e um número abaixo do nosso -, meus amigos, é desgraça traumática. Não há abébias, ao despir, logo a crueldade do espelho nos faz notar papos e peles macilentas e vem o frente a frente, que raio, isto não é só gordura. De seguida, ignorando rugas e peles que a lâmpada revela, encolhemos a barriga e apreciamos abanando a cabeça desconvencida, hummm, talvez não esteja assim tão mal. Duvidosas, enfiamos um perplexo vestido, não sei como é que pode não se notar este monte de banha aqui na cintura. Afunilamos os braços mangas fora numa réstea de esperança, deixa ver... Ó céus, ver o quê, se não consigo apertá-lo no peito. Olhamos para o espelho a certificar. Nada a fazer. Intrigadas, pensamos onde se terá perdido aquela garota exígua em que toda a pinça se afundava. O botão da cintura, novo desaire. Por mais que repuxemos, há dois lados paralelos. Na bela figura em que nos encontramos, não podemos ir ao cabide. Fingindo de galinhas carecas, espreitamos à cortina ou à porta da cabine de prova e, se a menina está por perto, pedimos o tamanho acima. Ela é uma invariável garota de lábios vermelho-sangue e veste preto em tamanho S ou XS,  números inexistentes no nosso tempo de magreza e que tanto nos faltaram. E a sua complacência sorridente e profissional, mas esta velha não se enxerga, qual M qual carapuça, se ela se meter num L já vai com sorte. E pois. É claro. Traz-nos o L. E ai de nós se não corremos o fecho ou os botões fogem da casa. Porque, na roupa barata, L é o limite de massa gorda permitido. Se não cabes, azar.
 Saímos num desconchavo, amaldiçoando o espelho e a loja criada para os magros. Olhamos a rua. Muita gente. Grande parte como nós. E mesmo mais gorda. Respiramos. Não andam nus. Portanto...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Virtudes por Defeito


Meu pai sempre afirmou  - e continua – que sou inteligente mas pouco esperta. Falando bem e depressa, diz que sou uma anjinha. E nada de alegrias que o termo significa mesmo um bocadinho lerda, qualquer um me come as papas na cabeça, deixo-me levar à certa, coisas assim. Meu pai não mente, é verdade, sou isso mesmo. Mas será que os meus despropósitos, aquelas palermices que repito ano após ano, radicam na falta de esperteza?! Quem me dera. Que até me “arreceio” ter de acrescentar mais um convulso defeito de origem. É que nunca percebi que parvoíce é esta de ir para os saldos de inverno comprar roupas de verão. Está toda a gente a experimentar casacos compridos e curtos, calças de flanela e de lã, camisolas de falsa cachemira, e eu de vestidos de alcinhas ou cavados. É matemático. Saio de casa por um casaco quentinho e chego com uma blusinha de alças ou um vestidinho fresco. À conta desta parvoíce  este inverno já comprei três vestidos. Que, é claro, não posso vestir salvo se queira adquirir uma pneumonia em modo de beleza estival.
Bom. Bom. Isto de andar aos saldos tem seus inconvenientes. Para já, os espelhos dos provadores estão um bocadinho inclinados e ficamos mais altas e mais esguias. Eu, ao espelho pergunto-me sempre para que raio hei-de emagrecer se sou magra. Mas depois, não sei porquê, só me serve o tamanho L. O que, dentro do provador, não tem mal, o L assenta bem na nossa figura magra e esbelta e nem parece grande, talvez seja engano de fábrica e devesse ser um M. Ora essa,  reconhecemos gratas à imagem, somos entradas na idade, para não dizermos velhas – que podíamos dizer, porque não nos aumenta nem tira –, mas a paisagem não é de todo má. Pois. O pior é quando chegamos a casa e verificamos que o esbelto ficou na loja, que o tamanho L tem uma cinturona e uma Lolobrigida descaída e sem cintura - ela o saberá melhor que nós se ainda for viva - não tem ponta de graça. Mas onde é que estávamos com a cabeça quando comprámos aquilo? Ora bolas.
Ahnnn....e quando os espelhos dos provadores não mentem, quando são fiéis discípulos dos nossos... Pois, mas isso só amanhã.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Concerto de Ano Novo


Ao rés dos sessenta, descobri a música clássica. Com todos os sintomas do gosto. Corro e esfalfo por ela; suspende-me ouvi-la e há momentos em que vivemos um tête-à-tête de funda intimidade; agradeço-lhe trazer-me os presentes-ausentes e levar-me pela mão a sensações díspares, da tristeza que escorre e desbunda à alegria mais cristalina.
Na juventude, o encanto musical pertence grandemente ao  corpo, exige movimento, concretizações urgentes, desembaraço cardíaco e até amoroso; apura-se o que dizia o Tê, “não se ama alguém que não ouve a mesma canção”,  embora eu duvide que se referisse apenas à música. Na idade madura, a música é bálsamo, intervalo sagrado. Lavados do quotidiano, entramos noutro reino. Lugar de descanso completo e desinteressado da circunstância. A necessidade de  movimento ficou para trás, nem saberíamos por onde nos mexer, braços, pernas e o mais, são capazes de emigrar, sei lá. É lá que moramos, nos acordes e na harmonia que paira.
Perdi a entrada da orquestra, eu que amo ver a dextra e cuidada ternura  no transporte dos instrumentos musicais. Tão às cegas como de outras vezes.  Ignorante de concertos de ano novo.  Uma maravilha. As peças eram curtas e a maioria alegre. A orquestra dirigida por Nuno Coelho, um maestro cuja grandeza não se mede a palmo, tocou Mozart, Beethoven, Schubert, os dois Strauss, Johann e Josef. Um rendilhado musical de muito apetite, isso sim. E a simplicidade de Francisco Lima Santos tangendo o violino foi momento emotivo. Lá atrás, o jardim e as árvores iluminadas, verdes de brilho cetinoso e folhudo em fundo nocturno. A meio, um enredo de claros ramos e finíssimas hastes despidas lembrava gravuras de ramificações dos vasos sanguíneos no corpo humano. Seria apenas uma árvore de folha caduca a destacar de copas frondosas. Ou o anúncio de morte vegetal. Ou eu a inventar que me sinto acompanhada. Por quem mais sabe de música que eu e por quem nunca ouviu nem vislumbrou um violino ou uma harpa e  tanto os gostaria. Quem sabe, estão ali comigo e vêem e ouvem, que o volume do que sinto não é de uma pessoa apenas. Não é. Mas isto penso eu agora. No momento não penso, nem sei quem sou, talvez folha a balançar na brisa que faz de mim o que quer.
E depois veio uma sereia mas sem cauda de peixe e portanto muito mais agradável ao olhar. E cantava como elas, encantatória. Vestia a sua pele de escamas luminosas e era sexy e de fosforecente exuberância como convém no Ano Novo, uma alcinha de nada, só um fio brilhante a rasar o redondo do ombro. E cantava. Como é que um ser que canta assim, é simultaneamente tão tudo no lugar que alguém num murmúrio de inveja embevecida, “a silhueta é perfeita”, pois não sei, os milagres acontecem. E declinava conjugações de notas difíceis e em escada com a mesma facilidade com que eu digo qualquer palermice. Uma excelente soprano, mulher linda e de calendário. Mas no dia seguinte já não cantou (olha a sorte que tive) e ninguém me tira da cabeça que não foi por via da frescura da pele de escamas sinuosas. Constipou-se é o que é.
  

sábado, 5 de janeiro de 2019

Calçada à Portuguesa


Por  vezes, a preguiça impede-me de dar um passeio a pé, coisa de meia hora, mais minuto, menos minuto. Parece fácil retirar meia hora ao meu dia e sair de casa. Mas não é, e a preguiça não é factor único. Há os dias em que as pernas e outras assintomáticas partes do corpo  se negam, ele é uma dor, um mau estar; mais os dias em que eu mesma desisto, hoje não me apetece; e aqueles em que me chega alguém de surpresa e portanto não pode ser; os outros em que tudo me existe de enfiada e com atraso, as compras e em seguida o almoço e logo depois a roupa; mais aqueloutros em que vou sair e há que rearranjar o que fica e tratar da bagagem. E no fim disto, sobram quase dias nenhuns e resolvo, de que me vale um dia ou dois no mês, se nem o hábito chego a ganhar ( os hábitos descansam-me as meninges).  
E assim me gasto, cheia de horas e minutos a tratar da vidinha, como bem diz Miss Smile. Pois, pois, mas não se imagine que não prefiro passear, é que prefiro mesmo. “Assucede” que, no meu papel de dona de casa, cabe a vidinha toda e consome a maior parte do meu tempo livre que, é claro, se muda em ocupado.
E se eu largasse tudo e fosse, por exemplo, ver umas exposições durante uns dias. Não caía a casa. É indubitável que não. Mas o desanimante trabalho que me esperava na volta era bem capaz de não me ser benefício. Cada um sabe as suas possibilidades, até onde pode e é conveniente. Afianço, o quotidiano sem sobressaltos dá grande trabalho e não se tiram férias de aplanar a vidinha. Não há domingos e dias santos – com guarda ou sem ela –, é função vitalícia, papel em contínuo de quem está até que deixe de estar (ou será mais deixar de ser).  Esses operários-calceteiros da vida, classe onde enfileira  muita mulher, gastam o mais do seu tempo a tapar buracos e abrir caminho aos passantes. É certo, os passos vão sempre a qualquer lugar e a mira não é o terreno que se pisa, mas onde se chega. E se os caminhos não fossem propícios, onde chegariam?! Será que chegavam a arriscar o pézito?
O sentido de viver pode ser nulo; a felicidade, um embolo de empurrar novatos; a glória, vão entretém da vaidade. Mas fazer o melhor que se sabe onde quer que se esteja é bem universal e desejável.  Nem sempre possível e de boa mente, que ninguém é de ferro.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Noves fora, Nada


Os tempos fazem os homens. Nascendo iguais, mas em época diversa, seríamos outros. Isto diz também a psicologia cheia de evidência, experimentação e medidas percentuais e mais números acoplados a impar de objectividade e força. Manda em cada homem a força da genética, é verdade. Mas não apenas. Pode parecer que me enredei na velha questão sobre o que mais nos determina, hereditariedade ou meio. E nem é bem isso.  É verdade que noto a existência de determinantes do meio que nos acompanham, ainda que não sejam experiências marcantes; são, sobretudo, hábitos. Podemos elidi-los, esquecê-los, viver como se nunca tenham existido. Mas em algum lugar se escondem e à mínima aberta, aí estão eles a infiltrar-se, tanto nas decisões como nos comportamentos espontâneos.
Ontem visitei meu pai que envelhece sozinho e surdo, mas com verdadeiro prazer em continuar vivo e arredio da família. Jamais se queixa sem motivo e à pergunta sobre a saúde responde invariavelmente que julga estar bem. Surdo, com enorme dificuldade em deslocar-se, munido de pacemaker e pílulas para tudo e mais alguma coisa. E agarrado à vida como lapa. A velhice destravou-o de língua e mau génio e continua o que sempre foi, difícil. Agora mais difícil: os velhos cheiram, ofegam, gritam obscenidades sem atender a delicadezas e civismo, perseveram no hábito antigo do banho semanal. Meu pai nasceu no Estado Novo, ficou órfão aos nove anos, idade em que começou a trabalhar. Em Abril de setenta e quatro tinha quarenta anos, era viúvo com quatro filhos, três ainda na infância. Não teve nem fez a vida fácil a ninguém.  
Ontem cheguei e ele impassível. Pela primeira vez, não se levantou do lugar, a manta recebida no Natal posta sobre os joelhos. Fiz o que tinha a fazer sem a perora habitual, deixa isso, está bom, eu depois sujo tudo outra vez. Entretanto, espreitei-o algumas vezes e dormia virado à TV, cabeça no peito. Quando fui despedir-me, aceitou naturalmente e nem se mexeu. Noutros tempos, observar um tal comportamento levava-o a reconhecer, agora é que é, descaiu.
E eu digo que a morte sempre nos rodeia e a determinada altura vai entrando e tomando conta devagarinho, agora uma coisa, depois outra e outra ainda. Também se parte assim, em sopro de vela. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Nevoeiro


Hoje, na ponte, os carros bem devagar, em rebanho, seguindo o rabo uns dos outros, luzes de nevoeiro ligadas. Imagino eu. Será a versão moderna de D. Sebastião o rei adolescente – teria atraso para a idade – que nos perdeu em sonhos de glória e a que a miséria inventou regresso em tempo de neblina, montado em seu cavalo branco. Pobre rei, de pobre povo.
Mas, escrevia eu sobre a rodagem na ponte, armada de cautelas, olhos em esforço e pé leve. Que no mundo de névoa parece cada um sozinho, isolado. Não se vislumbra nesga de rio. De quando em quando, um bocadinho de matrícula, FO, MP, JU, e mais uns números a deslavar, anúncios de prudência que precisa distância. Ou um foito que acelera ultrapassando pela faixa da esquerda hoje quase deserta, e, quem mais o sente que vê, murmura, é louco ou tem olhos de raio x, oxalá não se espete e nos atrase ainda mais.
Atravessam a ponte em busca do trabalho que fica sempre para lá de muito trânsito citadino; no banco de trás levam rebentos ensonados que são os primeiros despejos em escolas e colégios que madrugam. Saem enchouriçados de agasalhos, mochilas e lanches que batem uns nos outros, os mais velhos a vigiarem os mais novos.  Depois de entregues, os pais continuam caminho. Alguns procuram estacionamento grátis e longe do emprego e vão depois por autocarros, comboios, metro. Nas entradas que circundam Lisboa, há condutoras que sorvem a grandes passas o primeiro cigarro, ânsia de prazer apressado que ameniza o caminho dos nervos femininos. As penduras pintam-se ao espelho tão meticulosas e certeiras como se em recatado toucador pessoal. E há o cenho crispado dos muitos retardados pela névoa; o ar engravatado e de ligeiro fastio de senhores discretos, ao volante de carros de vidro fumado e só apercebidos em visão  frontal; a alegria escassa de um ou outro desocupado que segue de vidro aberto num veículo antigo e todo manual, os cabelos húmidos de nevoeiro e alma desnecessária; mulheres que aproveitam a fila dos sinais para sintonizar o rádio ou conferir a listas das compras; garotas airosas e recém desmamadas com um volante nas unhas de gel e rosto virgem de produtos, o cabelo caído ou apanhado com lapiseira, e que corrigem a cada paragem numa olhadela ao espelho; há um casal que discute e o carro segue aos arrancos destemidos, atirando a mulher contra o assento em cada vez. E é assim.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Propósito


Gosto de propositar. E de fazer horários. Pura mania. Que despreocupo e não cumpro nem uns nem outros. Suponho que, enquanto me dou ao trabalho de pensar no assunto, ganho a ilusão de ser a  pessoa alinhada e cumpridora do desenho. Contudo, reconheço, cumprindo seria pessoa mais feliz, há propósitos que zelam pelo que me é agradável como ler mais ou escrever mais. Mas a verdade é que rapidamente os substituo por qualquer tarefa aborrecida lavar roupa, passar a ferro, cozinhar, ir às compras, varrer ruas. Há outros que se arrastam há anos e a que não dou fim. Em cada ano os recomeço e breve os abandono. Ou seja, está sempre tudo na mesma.
Ora. Portanto. Neste ano não vou fazer propósito de arrumações que só sonho ou inicio anualmente; se já viraram rituais, é chuva no molhado. Também não me apetece pensar que devia ler mais, escrever mais, e etc. Vou ler quando possa e me apeteça e o mesmo para a escrita. E idem para passeios.
Desta vez vou propor a mim mesma aquilo que muito faço: ficar a olhar para nada sem remorso de perda de tempo. É isso, proponho-me perder tempo, a tal coisa que cada vez tenho menos. Portanto: vou dar-me ao luxo de gastá-lo também em nada. Serão pequenos bombons a semear no curso dos dias. Para variar, vai saber-me bem.
Passados uns 365 dias, estando por cá, logo se vê.