sexta-feira, 19 de julho de 2019

Babel


Palavras não eram ditas, já a roulote abria uma porta e surgia um casal e dois pimpolhos. Entraram mercearia dentro, os adultos à frente as crianças atrás e linguajaram qualquer coisa em língua de trapos que detonou no corpo de João pequeno. O rapazito endireitou, esbugalhou-se aos estrangeiros parados a meio da loja e sussurrou numa indecisão que lhe espaçava as palavras, faz favor de dizer, uma mão deslembrada a puxar o lápis da orelha e na outra o saco de alfarroba de boca aberta, pedaços do fruto a solar o chão. Na taberna, a vassoura parou  de supetão e o fascínio de risca ao lado ficou-se a admirar e medir a altura dos estrangeiros calculando de cabeça a diferença que faziam de si. Tia Helena, mãos habituadas a procurar crianças nas entranhas das vizinhas,  encandeou o escândalo nos calções largos da mulher, passou em raspão envergonhado no à vontade das pernas brancas e nuas e foi descendo tornozelos afora até à largueza dos dedos às espreitadelas nas tiras das sandálias. Depois do exame a tiazinha encolheu-se no lugar, o suspeitoso corpo a três quartos, uma mão como morta sobre o balcão e a outra torcendo o alfinete de ama que lhe segurava o descosido do avental. Apenas se ouvia o tinir dos copos distraídos que ti Estrudes lavava na cozinha. Foi então que o homem avançou um passo, pôs a mão sobre o balcão e disse qualquer coisa estranha, qualquer coisa que, para quem ouviu, soou a coisa nenhuma. 
Entretanto, lembrado da função, João pequeno regressou do estupor. Fez sinal a tia Helena, atirou o saco de alfarroba para a tulha e voltou ao lugar. Empossado pelo balcão ,encarou o homem, faz favor de dizer, é que não percebi. E já Mário se acercava, vassoura na mão, o que é que que ele quer. Espectadora embasbacada, Tia Helena deu de ombros e arremelgou os olhos e João pequeno completou com palavras, é que não percebemos nada do que ele diz, patrão. Olhe que sempre é verdade, lá na estranja falam de outra maneira; não se percebe uma nica. E depois para o homem que entretanto aguardava, o senhor quer o quê.  E ele de novo a arengar naquela língua de trapos. Então Mário tomou inciativas de patrão e trovejou lá para dentro, ó Estrudes anda cá tu a ver se percebes esta gente, senão nunca mais é sábado


10 comentários:

  1. Eheh!
    Imagino quantas vezes não terá acontecido!
    Bj e adorei ler!!!

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  2. Continuação destes retratos-maravilha do nosso país do século passado. Quem não se lembra das roulottes e ‘pão-de-forma’ com que os estrangeiros chegavam a Portugal, sonhando conhecer a terra, as gentes e a si próprios?

    PS: Com o permisso da Bea para utilizar este seu espaço, eu que não tenho espaço, vou-vos contar a prenda linda que recebi hoje em dia de aniversário.
    Com mil razões para me perdoarem, a prenda veio-me na concessão de um sonho. E o sonho foi este:

    Com a Teresa vi-me a percorrer a sua Dusseldorf, a visitar museus e lojas de cerveja, a acompanhá-la na apresentação do seu novo livro policial negro e finalmente a entrar em São Carlos para assistirmos à récita de “A Paixão do Jovem Werther” e acabarmos a noite num ‘rooftop’ com vista para a cidade, a brindarmos com um cálice de vinho do Porto ao início de uma bela amizade.

    Com a CC vi-me sentado numa esplanada da cidade azul, com vista desafogada para o rio, a falar-me do povo Almar, da tribo que cuidava que os rios chegassem sempre ao mar, e dos tempos do ardósia cujo conteúdo me fascina talvez por tudo ser maravilhoso entre brumas. Depois, chegado o crepúsculo, num terraço qualquer entre a serra e o mar, acabámos brindando com um cálice de vinho do Porto ao início de uma bela amizade.

    Com a Nina vi-me a tomarmos chá no Velasquez (ou seria no Majestic?), a guiar-me pelos jardins de Serralves e a dançarmos um bolero, um tango e uma valsa (ou seria um pasodoble?) com uma elegância irrepreensível. Depois, acabámos nas caves em Gaia a brindar com um cálice de vinho do Porto ao início de uma bela amizade.

    E finalmente (but not the least) com a Bea vi-me a percorrer a planície alentejana, a falar-me do húmus com que são feitos os lugares, as coisas e os homens e na profundidade do seu olhar sem fim, senti a sua poesia sempre presente quando a sua atenção repousa sobre a condição humana. E pelo caminho, juntou-se a nós Pessoa, Vergílio e Tolentino. No monte Monsaraz, mirando o espelho d'água do Alqueva, brindámos com um cálice de vinho do Porto ao início de uma bela amizade.

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    1. As coisas que a gente inventa, Joaquim:).
      O importante é que tenha tido um dia bom.

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    2. Muitos parabéns, Joaquim e muito obrigada por me ter deixado participar nesse sonho. Os locais escolhidos dizem-me muito, mas, de momento sugiro uma esplanada na Foz, junto ao mar, por onde me desloco diariamente. Quanto à dança, parece-me muito bem , seja qual for a música. O final de festa na Ribeitra de Gaia seria a cereja no topo do bolo.
      Seja feliz, Joaquim.

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  3. O título dos dois últimos textos não poderia ter sido mais bem escolhido. Babel, de facto! Num país - dizem - dotado para as línguas. No caso a situação de "Babel" ultrapassa a a do idioma. São seres de planetas diferentes magnificamente descritos por si, Gostei imenso, Bea. Aguardo a conclusão.

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  4. Posso eu também abusar do seu espaço, bea⁉

    Em primeiro lugar quero abraçar o Joaquim Ramos pela passagem de mais um aniversário natalício. Muitas felicidades e muitos anos de vida 🍀

    Düsseldorf, Lisboa e Porto num só dia⁉
    Como eu gostava de conhecer o Teatro Nacional de São Carlos.
    Os policiais nórdicos é que dão dinheiro. Os meus policiais só davam prejuízo. A minha história negra e de cordel era baseada no famoso WERTHER, como o Joaquim muito bem compreendeu.

    Continuando a abusar este espaço, envio um beijinho para ambos 💙

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  5. Bom, Teresa, eu só cheguei agora e gostei de ler:)
    Boa noite

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  6. Parabéns Joaquim, desculpe o atraso, mas deixei para trás a cidade azul e agora, em tempo de férias, venho menos. Fico espantada por localizar tão bem as pessoas pois eu quase nunca as consigo localizar a partir dos blogues ou então baralho-as com alguma facilidade. Dois dos blogues que refere nem conhecia e agora vou espreitá-los, a blogosfera tem destas coisas boas.
    Um abraço para si e outro para a Bea.
    ~CC~

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