sábado, 30 de maio de 2020

Fazer Anos


Sempre que fazes anos há uma exultação em fundo triste, acordéon que atapeta de alegrias a desalentada plangência de violinos a vincar o fim do décor. Aquecemo-nos em gargalhadas e ditos, lembranças e memórias risíveis a que então não encontrámos graça, quotidianos nadas  que, em companhia, resplendem. Em companhia e por sofrimento. Juntamo-nos as três e a cor da vida altera, em escasso tempo vivemos rosa, azul de céu, amarelo soalheiro. A junção de forças gera uma alegria centrífuga de que os outros são satélite. O nosso riso escapa pela janela aberta, rola rua abaixo, galga para lá do portão que já não fecha, atravessa a estrada e entranha nas paredes de casas fronteiras; há um resto de nós em lugares onde só a voz chega, que nunca pisámos e nos são estranhos. Um fundo de boa disposição plana acima de conversas e barulho. Li na “Carta a um menino que não nasceu” de Oriana Fallacci, que o sofrimento propicia sinceros e alegres sorrisos. Condiz.    Lá fora, a noite preencheu os interstícios de laranjeiras insomnes que avultam hirtas e rotundas, quase barriga com barriga, e a que estragamos o sono.  Juntarmo-nos segrega uma névoa sobre o mal que nos é próximo, que está no meio de nós, mudo, sombrio, pronto a agarrar-nos. E os pequenos bichos da terra emudecem, respeitam o som que lhes não pertence e, perplexos, adiam o reinado que a noite promulgou. E é como se gargalhadas e ditos nos isolem do pior que sabemos. Mas, no burburinho feliz, cada uma   se interroga, “até quando”. E tu que nem sonhas e nem sabes, tu desanuviado nos oitenta e sete, orgulhoso, sou o mais velho da terra. E rematas triunfante, os outros já bateram a bota. Estás contente e sais a espaços do teu mundo de silêncio. Que sabes de nós?! Tu, sempre de costas para sofrimento alheio que te desarranje a vida. Tens trabalho restrito, manter-te vivo. E, contudo, laborioso. De facto, só agora fazes os anos.

39 comentários:

  1. Se me dá licença, este texto vai directamente para a galeria dos melhores. Se não me dá, também não me rala - já lá o pus.
    À medida que ia lendo, cogitava no comentário a fazer, e então era assim: o 1° parágrafo é qualquer coisa de maravilhoso. Depois ao passar ao 2° decidi mudar para os dois primeiros parágrafos são deslumbrantes. Continuando por aí fora, obrigou-me mentalmente a corrigir para os primeiros cinco parágrafos são de uma beleza indescritível. Depois de ler tudo cheguei à conclusão que está para zombar comigo e não digo mais nada, já não há parágrafos que cheguem. Caramba!


    E depois desta lindeza, a Bea dirá, lá vem o Joaquim a encher-me a casa com as suas histórias. Ainda por cima histórias de rememorações sentimentalistas.
    Olhe deu-me para isto; descobrir a causa primeira das coisas.
    Talvez por me encontrar no Setembro da vida, me tenham dito tanto estas suas palavras:
    «Trazem na figura a consciência da morte, superior razão de mais amarem os imperceptíveis da vida.»
    Dizem que o amor não se explica, sente-se. Não concordo, há sempre razão, há sempre motivo, o que as pessoas têm dificuldade é em encontrá-los.
    Sei precisamente quando e o porque começou o meu pelo seu blog.
    Estávamos em 15 de Setembro de 2018 e a partir daí não vivo sem ele.

    «Setembro  é mês de despedidas. Das férias, dos lugares de lazer, dos amores de verão, de manhãs  sem relógio e calendário. Sobretudo, Setembro dá fim a certo espírito descomprometido. É o regresso às aulas, aos horários, ao quotidiano agrilhoado. Retornam os fatos de trabalho, as fardas, o sorriso funcional.  Por inclinação da Terra, o sol faz-se cálido e os dias amarelam e encurtam. Setembro é anúncio de virar de página, um entreabrir de porta ao Outono. Coisa hesitante, nem carne nem peixe.
    Em Setembro, as praias aquietam, diminui o ruído e chega mais cedo o vôo rente  das gaivotas. A água do mar perde transparência e a refracção platinada do sol devém o impossível dos olhos. Neblinas matinais namoram a água  até que, mansamente, a força solar as empurre para os longes onde a serra é puro recorte. E ali se quedam, longínquas vigilantes da água, prontas a intervir.
    Os amantes de Setembro chegam sem ruído, gratos à benevolência dos elementos. Não há mais o calor intenso, a água de impactante frescura, a limpidez azul da atmosfera a rasar as dunas pontuadas de verde. Não há helicópteros em missões de publicidade, pregoeiros de bolas de berlim e bolacha americana, “não engorda, só alarga”, exasperações e desaguizados entre crianças e progenitores, telemóveis a fazer-se notados. o silêncio que campeia na areia rotunda o ritmo das ondas. Os amantes de Setembro vêm armados de livros e cadeiras e agradecem a doçura ondulada do marulhar. De quando em vez, olham longamente a paisagem como quem se abastece de víveres para larga viagem. Não são modernos nem chiques e fazer pendant desinteressa-lhes. Trazem na figura a consciência da morte, superior razão de mais amarem os imperceptíveis da vida. E toda a praia lhes pertence, o sol, a água e a areia, a infinita liberdade do pensamento. Hão-de perder-se no mundo. Alguns, perder-se dele. Não obstante, levam na pele e na alma este macio Setembro.»

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    1. Obrigada,Joaquim; mas não precisa tanto encómio, não envaideço com as suas palavras. Tanto riso e é uma fundura de texto. Escrevo como escrevo. Podia sempre fazer melhor. Com mais tempo e sobretudo a paciência que me falta.
      Quem escreveu a frase "trazem na figura a consciência da morte..."? não está mal de todo. O texto é seu? Parece-me ser também assim que olho o mar de Setembro, com a nostalgia da separação e a incerteza do reencontro. A abastecer-me para o inverno, um esforço por demais inglório.

      A gente tem de viver sem tanta coisa, Joaquim. E mais que sem as coisas, sem gente que parte com e sem aviso e nos falta pela vida. Um blog é isso, uma data de palavras que às vezes dizem o estado de espírito de quem escreve. Mas nem sempre. Há mesmo quem nunca se mostre, quem prefira inventar-se, criar uma personagem, circulo a que não pertenço, mas que admiro por dar trabalho.

      Por mais que se explique e apresentem motivos, o amor, como outros sentimentos, tem núcleo inexplicável. Não faço ideia do que terei escrito na data que diz, mas pode ter-lhe tocado; o que deixamos nos outros depende mais deles que de nós.
      Boa noite:)

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    2. Isso é verdade, bea, a bloga está cheia de camaleões, sempre a mudar a pele e a personalidade. Confesso que não aprecio o estilo, por muito bem que escrevam; gosto de confiar nas pessoas, de saber com o que posso contar...

      Um beijinho de parabéns ao seu pai :))
      🌻

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    3. É tudo seu senhora, apenas a transcrevi. Eu não sei escrever assim :)
      Boa noite.

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    4. Joaquim
      :). É meu, então. Já lhe corrigia umas coisas:).
      Bom Dia

      Maria
      Obrigada, Maria. Não faz muita diferença, pode crer. Sou confiante por natureza e um bocadinho preguiçosa; e os blogs são locais de escrita. Se alguém comenta ou me responde, existe; isto basta, se me agrada o que escreve. Estando a inventar-se, o trabalho não é meu. É uma companhia na mesma.
      Bom Domingo

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    5. Somos diferentes, bea. :))
      Num blog, quando me respondem, espero sinceridade, realidade e não ficção, gosto de sentir que é uma pessoa real que está a conversar comigo e não umma personagem,
      Não que queira conhecer alguém pessoalmente ou pedir-lhe o que quer que seja, mmas gosto de sentir que é real.
      E também nunca minto nos meus comentários (posso é não dizer tudo) e nunca faço rascunhos: sai como sai e pronto.
      Mas estou-me a referir aos comentários, não aos textos.

      Bom dia.
      🌻

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    6. Adenda:
      Este sacanito de corrector, que já desactivei n vezes (debalde) agora deu-lhe para duplicar consoantes...

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    7. Maria,
      Depois de noutro blog me apelidar em tom pejorativo de "grande sacana" e com menção de "(...) nunca me enganou, nunca gostei dele, agora anda comentando noutros blogs com outro nome mas é tão facilmente detectável...", verifico que o seu ódio de estimação por mim está a abrandar, contudo continua vivo e resistente a qualquer pandemia.
      Está no direito de não gostar do que comento, mas se isso a incomoda tanto, recomendo-lhe que passe ao lado, não leia. Poupa-se a si e poupa-me a mim.
      Por fim, fique claro que não me escondo sob anonimato nem supostos nomes, e para quê? Assino com o nome que me deram à sessenta anos, não uso siglas, diminutivos ou nomes universais. Querer ver o contrário parece-me pura alucinação ou síndrome da perseguição. Sou simplesmente eu, inteiro e enquanto durar.

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    8. 1- É muito feio acusar pessoas sem provas (num outro blog não é nada, ou diz-se onde foi ou fica-se calado).

      2- É muito feio vir para a sala de outra pessoa fazer birrinhas e acusações - já me fez isso uma vez e com muito mau resultado. Faça um blog, acuse-me lá e talvez eu lhe responda. Aqui no blog da Bea é que não, não me parece correcto.

      3- Não sei porque me está a fazer isto, aliás nem quero saber; se enfiou a carapuça
      com algum comentário que eu fiz (aqui ou noutro sítio) o probleme é seu. Não ligo tanto aos seus comentários como pelos vistos o senhor liga aos meus. Parece-me que está com um problema chamado "mania da perseguição".

      4- Tenho a felicidade de nunca ter odiado ninguém: amo, gosto, ou ignoro, as simple as that!

      5- já agora aquele "à sessenta anos" é com h e acento agudo.

      Peço imensa desculpa, Bea, mas era impossível não me defender.
      🌻
      Maria

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    9. desculpas aceites. Mas não impliquem, parecem dois parceiros desavindos.

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    10. Maria
      Você gosta de se intrometer, desdizer e depois fazer-se de vítima. Não há nada a fazer, é o seu feitio. Já aqui reparei e até não foi comigo. As pessoas fingem que não vêem, são bem educadas e não lhe dão troco. Mas eu sou de outra espécie. Portanto fica feito o aviso, sempre que se meter comigo, eu estrebucho.

      Bea
      Por respeito a si e ao que pede, fico-me por aqui.

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    11. E em 2 linhas o Professor Doutor Jaquim fez o meu perfil psicológico. Obrigada a VOCÊ!
      As pessoas (QUAIS???) não me dão troco porque são bem educadas. E então passaram procuração ao DR. JAQUIM para vir aqui "estrebuchar" em nome delas: Foi isso?
      Mas o senhor (não, você é mais elegante) mas você tem que me dizer quem são esses bloggers que é para eu não voltar a incomodá-los com os meus intrometidos comentários - só assim a sua missão ficará cumprida.
      Ou será que quer que eu deixe de comentar em todo o lado, mesmos naqueles em que as pessoas me respondem com simpatia, até mesmo com algum carinho?
      É que não sei mesmo o que fazer...
      Mas já sei que não há nomes para dar... há apenas uma raivinha contra mim que não compreendo (pronto, lá estou eu a armar-me em vítima).

      Quero acreditar que a Bea não é uma dessas pessoas que está farta de me aturar, teria pena se assim fosse; mas pelo sim, pelo não, e já que o incomodo tanto a si (para quem este blog parece ser a razão da sua existência), vou deixar de comentar por aqui, virei apenas ler...

      Pode abrir o 🥂🍾 e brindar.

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    12. Pois eu peço aos dois que passem sempre. Gosto de vocês:). Ah! E que não impliquem, sff.

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  2. Não me lembro de ter lido na “Carta a um menino que não nasceu” de Oriana Fallacci, que o sofrimento propicia sinceros e alegres sorrisos. Vou procurar o livro na estante.

    Festejar o aniversário nos tempos da Covid-19 causa dores de cabeça, Não é permitido juntar muita gente; a maioria da malta amiga fica melindrada por não ser convidada.

    Penso que neste texto, a bea se refere aos anos do seu pai.

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    1. É uma parte em que Oriana F. Fala da mãe e diz que só sabe rir quem sofreu e a mãe era assim, de gargalhadas. O meu exemplar nunca foi devolvido, já não o leio quase há 40 anos, não tenho presentes as palavras.
      Sim, aniversário de meu pai.Éramos só oito e todos família chegada. Meu pai ã não tem amigos vivos.

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  3. O texto é simplesmente DELICIOSO!!!
    Bom domingo 💗

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  4. Obrigada e Bom Domingo, Gracinha.

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  5. .
    Existem pessoas que têm o dom da palavra, outras o dom da escrita, e ainda outras com ambas. Não sei ( mas imagino que sim) se a bea tem o dom da palavra. Mas da escrito, minha Santa Eugénia, tem e de que maneira.
    Delicio-me com a sua escrita.

    Esse Senhor, que penso ser o seu progenitor, ter 87 anos é, sem dúvida, uma dádiva de Deus. Abençoada idade. E se ainda é laborioso, ativo, tanto melhor. Que conte pelo menos mais 10
    E pronto vou-me calar antes que me espalhe, loool

    Um domingo feliz

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    1. Obrigada, Ricardo.
      Não tenho o dom da palavra e esforço-me na escrita.
      Tem razão, meu pai é um felizardo. E não é por ele que me vem a tristeza. O nosso "até quando" tem outro destino. Bem mais funesto.
      Um bom final da domingo.

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  6. Que bom Bea já poder ir a casa do seu pai, nestes meses apanhei-lhe essa tristeza da ausência. Bom domingo!
    ~CC~

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  7. Sim, já recuperei essa parte:).Mas julgo que a tristeza do confinamento não reside apenas no circunstancial que nos está vedado, é a genérica sensação de falta de liberdade que nos amofina.
    Boa tarde, CC.

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  8. Que bom poder festejar os 87 anos do seu pai, bea. O meu já vai também nos 86. Que não lhes falte saúde e companhia da família que compense o facto dos amigos da mesma idade já não andarem por cá.
    Bom domingo.

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  9. É isso, Luísa. Tornar-lhe a vida leve o quanto podemos que viver nesta idade é doloroso por si, o corpo falha por tudo quanto é sítio..

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    1. Luísa e Bea,
      Lá venho eu intrometer-me (se calhar o jaquim tem razão...), mas não resisto a dizer-vos que a minha mãe fez 97 em 25Fev. e era muito activa até há cerca de ano e meio, gostava imenso de ler e de fazer crochet. Agora está muito frágil mas ainda está lúcida.
      Claro que às vezes a mente foge... Eu, nos meus late sixties, por vezes ainda estou pior do que ela.
      Por isso os vossos papás ainda podem viver muitos anos - esta malta antiga é rija :))

      Abracinhos para as duas!
      🌻 🌻

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    2. Tem razão Maria, podem ainda viver um tempo. Mais até que nós:). Mas precisam ser protegidos, cada vez mais protegidos. E pode crer que não é fácil proteger meu pai de si mesmo. Foi e continua sendo um "quero, posso e mando". E mesmo cometendo erros crassos, nada nele tem emenda.
      Um abraço

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  10. Os meus pais para lá caminham (83 e 84).
    Cada vez mais infantis.
    Porque estão vivos.
    Boa semana

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    1. Tão triste a infância dos velhos. Não é a mesma infância; não é o mesmo ensinar a crescer ou ensinar a morrer. Que talvez nada se ensine e sejamos apenas espectadores que também participam na peça.

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  11. Que texto maravilhoso em que nenhuma palavra é dissonante!
    Parabéns pelos 87 anos do seu pai. Apesar de tudo. Apesar de nada…
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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  12. Obrigada, Graça. Foi um dia bom, sim. E 87 é muito amor à vida de mistura com sorte. Quanto acontecimento, tristeza funda e muita luta. Mereceu a velhice descansada que tem tido.
    Óptima semana para si, Graça.

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  13. Parabéns atrasados.
    É sempre bom tê-los connosco.

    Beijocas

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  14. Obrigada, Cláudia. É sorte que muita gente na minha idade já não tem.

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  15. Bea, muitos parabéns pelos 87 aninhos do pai. Oxalá continue bem.
    Li e reli o seu texto com muito prazer. Depois - confesso - perdi-me e diverti-me com alguns inesperados comentários . Reconheço que apimentaram a publicação. Beijinhos

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  16. Ainda bem que se divertiu Nina. Não há por aí muito que nos divirta. O mundo anda todo maluco. Como se não bastasse a pandemia, os homens resolvem mostrar a sua hedionda fealdade de uma forma ou de outra.

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  17. Parabéns ao pai.
    Parabéns à filha pela lindíssima homenagem.
    Fiquem bem.

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  18. Magnífico texto que assinala um aniversário do pai mas sobretudo a alegria dos reencontros que esse aniversário propicia. Parabéns!

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    1. Obrigada, prosa. Assinala tanta coisa...há alegrias em fundo triste e que talvez salientem mais por essa mesma razão.

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  19. Bea, já li tantos textos teus mas este, deliciosamente bem escrito, tocou o meu coração de filha órfã de pai e de mãe.
    É a vida a passar...
    Hoje deixo 2 beijos: um para ti, outro para o aniversariante.
    (A serenidade da tua escrita contrasta com o agitação dos comentários. Coisas da pandemia!)

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  20. Obrigada, Teresa:). Na nossa idade a vida aceita-se como aparece quando dela pouco ou nada podemos mudar. E há nela sentenças irreversíveis, que não entendemos mas com que temos de viver.

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