terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Percalços e Contradições da Timidez


Tudo começou aqui. Com a Nina a lembrar o que não esqueço. E depois, a meteorologia detonou-me. Sem espavento, no seu debitar quotidiano, anunciou um domingo cálido, de sol radioso. Num palpite relâmpago, o tiro partiu sob a forma de sms que, em terreno fértil, germinou. Combinámos o essencial,  espaço e tempo do encontro. Somos assim, desinteressadas de pormenores. No dia seguinte, depois de algumas peripécias irrelevantes, encontrámo-nos. Passava das doze. Três mulheres. Eu, ténis, collants e vestido largo de flanela cingido por espessura de cinto, mochila ao ombro e o estorvo de um casaco de malha no braço; elas, collants de malha, botas, kispo, vestidinhos de fazenda suave, um saquinho discreto a tiracolo. Dado o lugar para onde nos dirigíamos, ligeiramente bizarras. Mas tudo bem, íamos só ver, morder o ambiente. Entretanto, o ar resplendia e convidava. Lamentámos não levar chapéus (tanto gosto de enfiar barretes e escapou-me).
No barco, relembrando cenas de há mil anos e nós duas jovens, optámos pelo ar livre, mas não ousámos a amurada onde, completamente fora do mundo, nos pendurávamos a cantar tudo o que sabíamos, pares de golfinhos em cambalhotas felizes, seguindo-nos empolgados, quem sabe se presos da nossa flauta de Hamelin. Mentalmente arredadas do pessoal, éramos nós e o rio. Desta vez, sentadinhas e compostas, éramos nós e a nossa circunstância, a insistente força do sol insinuando dúvidas na oportunidade da indumentária; golfinhos não havia. Mas, em rigor, ainda só lamentávamos a falta de chapéu. A luminosidade franzia, e, à ninfa cuja juventude condescendia em acompanhar-nos faltavam as lentes solares, ufano objecto que a minha miopia ostentava.  Embaladas no ronronar do veículo que cortava a água como faca em manteiga, comparámos equipamento. Eu levava toalha e – descargo de consciência - tinha atirado para o fundo da mochila o displicente fato de banho da natação. As minhas amigas, pousadas no banco como deusas, ambas em traje de passeio. Enfiadas em suas botinhas e collants opacos, vestidas de invernia diáfana. Muito in. Quando o barco atracou, num rasgo de frescura, aproveitei a casa de banho, despi os collants e desfiz-me do cinto, apetecendo-me despir o vestido. Elas mantiveram a compostura.
Fazer caminho ao longo do passadiço foi vento de mudança, que é como quem diz, suportámos um calorão que fez surgir propostas. Minhas. Claro. Por essa altura, a nossa ninfa afro já lamentava o fato de banho e maldizia os dois pares de meias; a mãe pretendia sentar-se na areia e despir os collants; eu oferecia o fato de banho engaiolado à pequena deusa que caminhava donairosa. E ninguém ousaria pensar, daquele passo seguro, que também lamentosa.
Fomos andando no calor das dunas. Cheirava a terra aquecida de sol e à vegetação rasteira que sobrevive em alegria. E, à medida que eu levantava hipóteses que elas rechaçavam de voz mas iam acomodando na mente, íamo-nos afastando de lugares mais povoados. Parece que tinha dado a toda a gente um vaipe idêntico ao meu. No compasso de calor, as minhas propostas já ousavam os trajes menores, com exemplos práticos, o savoir faire e a total desvergonha que me caracteriza  em situações caricatas. Mas elas reticentes. E se. As pontas soltas de restos de pudor  boiavam no ar e amoleciam no calor, quase, quase, a desmaiarem. E eu, de cabeça, a confirmar o impossível de enfiar o fato de banho rejeitado através do recato de vestido menineiro. Mas convicta, hoje vai ser o meu primeiro dia, está feito.
(cont.)

10 comentários:

  1. Parece ser a minha terra lá do outro lado do rio, para onde se vai no catamaran verde alface:)
    ~CC~

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  2. Troia? com os indícios que deixou não chego mais longe. Conte-nos tudo. E o fato de banho? Saiu à cena? Hoje, aqui, um diazinho sem graça para estragar a festa aos foliões. Choveu toda a manhã. Que falta sinto do sol. DSol a sério. Daquele que exige praia. Bom feriado.

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  3. Tróia, sim, Nina. Prometo que amanhã, quando tenha um tempinho, me dedico a terminar a cena.
    Foi isso. Hoje chegou a chuviscar. Ainda não é tempo de sol que exija praia, Nina. Lá chegaremos:). Temos que passar pela primavera que é aquela estação alegre e amena, lembra-se? E é menos cansativa que o verão, mas já existe aquela luz clara que me encanta.
    Boa noite:)

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  4. Nina
    depois de consulta ao ter de e ter que - soou-me mal o que escrevi - corrijo: "temos de passar pela primavera". Segundo a gramática, e abreviando o que consultei, o verbo ter tomado no sentido de obrigação, desejo ou necessidade escreve-se como ter de.

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    1. Por acaso, a mim não! Soa-me lindamente independentemente do possível purismo . Eu organizaria a frase, tal como a Bea. É o uso que legitima a correção, ou acaba por legitimar. Noutra esfera, lembro que um dos meus professores na faculdade se referia ao dicionário como um cemitério de palavras. Parece-me que se o princípio se aplica ao léxico, se aplicará pacificamente à construção frásica.
      Hoje, por aqui, o solinho bom reapareceu!
      Tão agradável! Oxalá perdure.
      Um beijinho, querida Bea.

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  5. Estou curioso porque timidez é um tema que me diz muito.

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  6. a sério?! A timidez masculina parece-me reserva, um modo de ser de que nem dou conta. O conhecimento que tenho da feminina dá-me outra amplitude.
    Bom dia, Pedro.

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  7. O primeiro dia... de muitos bons momentos... Bj Bea

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  8. Verdade, Gracinha. Já continuei a escrita da famosa tarde, mas infelizmente perdi tudo:). Vou ter de escrever de novo. E já faltava tão pouco.
    Boa tarde.

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