sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Desimportâncias

(continuação)
Ora pois eu ando numa de revivalismo infantil e acordo com o pesadelo que antigamente me fazia cair da cama, para aí aos cinco ou sete anos e até talvez menos. Dirão vocês, mas afinal que pesadelo é esse. Pois não é mais nem menos do que alguém, devidamente identificado, a fazer-me cócegas. Isso mesmo. Pesadelo que tem raiz na realidade. Por essa altura, havia um fulano de mau aspecto que, mesmo na presença de meus pais, corria matreiro atrás de mim, me apanhava num ai e me fazia cócegas, sem que meu pai interviesse, já que era surdo à voz de minha mãe. Detestava-o  e sonhava muita vez com esses momentos aflitivos em que ria contra vontade e terminava num pranto. O facto estranho era que, no sonho, ele me fazia cócegas onde nunca fez, coluna acima, os dedos subindo osso a osso, parando - maldosos e em provocação dolorosamente sentida - nos interstícios das vértebras. De tanto voltar-me na cama, tentativa frustrada de fugir aos mil dedos da desgraça, caía e acordava. Pois o sonho voltou. Suponho que, porque o corpo me pesa, em vez de estar no tapete, acordo a pressionar as costas contra o colchão. Apesar da repetição, não identifico aquele parvo cujos dedos vão subindo nas minhas costas, mais nocivos que aranha peçonhenta e que, ainda por cima, me fazem rir em aflição ininterrupta. Ora bolas. Vezes e vezes a repetir o mesmo sonho sem conhecer o dono de dedos tão nocivos. Enfim. Acordo a palpar o terreno, no receio de que alguém ali ao lado, a perguntar-me se serei ainda criança ou já cresci. Uma parvoíce que a vigília concerta.  
Mas hoje, facto inédito, acordei aos pulos de contente. Foi então assim: por qualquer razão vivia eu perto de Picasso o pintor, ainda em seus princípios artísticos, de quando ele figurava as coisas tal como são e, pelos vistos, se dedicava à arte do retrato. Encontrava-me no seu atelier à procura de alguma coisa que já me escapou e com a esperança de que ele, em qualquer momento, me tivesse desenhado. Havia vários cadernos com esboços de crianças e mulheres (não me lembro de haver homens) e eu estava acompanhada de um amigo (alguém) que me ajudava a procurar. Quando já desistira e me encaminhava para a porta o alguém (acho que era masculino) chamou-me. Havia uma foto minha  num dos cadernos. Fui vê-la. Era uma foto que existe realmente, mas, ao invés da verdadeira, um dos lados tinha apanhado luz e estava a negro. contudo, eu inteira. De perfil, braços erguidos, fazendo o rabo de cavalo bem no alto da cabeça, tal como as minhas amigas mais velhas o recordam. Convém notar que é foto  de que nunca gostei, estou só, mas acho o meu perfil uma desgraça - na foto e fora dela. Muito entusiasmados, começámos a procurar qualquer coisa alusiva, uns rabiscos, o que fosse. E nada encontrámos. Porém, fechado o desalentado caderno, notámos adjacente à capa, pregado com um clip, um esboço da minha pessoa. Baseado na foto, é certo. Mas muito mais bonito. Eu, como me sonhava. Apesar de parecido comigo, muito melhor, todos os traços mais suaves. Havia nele uma doçura que nos emudeceu. Depois da estupefacção, comecei aos pulos de contente. E acordei de tanto pular. Foi isto.
Agora, se me dão licença, vou dar outro uso ao café que bebi. Trabalhar, por exemplo. Na mira de ir nadar, pois claro. Uma coisa pior para uma melhor. A alternância da vida.
Tenham um dia bom. E desculpem qualquer coisinha. Tanta conversa fiada, por exemplo.

18 comentários:

  1. Bea, diz quem sabe que os sonhos são tudo menos conversa fiada. Vislumbro aí um mecanismo típico da lei das compensações, isto é, passar de uma situação repulsiva para outra altamente gratificante.
    Ser pintada por Picasso? Oh! Delírio dos delírios.
    Merecido, diga-se, depois da lembrança viscosa de episódio a esquecer.
    Bom dia, querida Bea.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já viu a Nina coisa mais graciosa? Viva a lei das compensações, ainda que ela me deva uma data de noites com a arte do Picasso (ou de outro, não me importo, pode até ser menos conhecido, sabendo desenhar...) E é que eu estava mesmo como gostaria de ser:), era um retrato não angular, feito a carvão numa folha não muito branca que até parecia papel almaço:). Como é que ele conseguiu é que não sei.
      Bom fim de semana, Nina

      Eliminar
  2. O subconsciente (também) tem razões que a razão desconhece.
    E agora o meu...

    Transposta a entrada, por debaixo do grande esquadro e compasso, o guarda do templo, cumprindo o ritual, entregou-me o avental e encaminhou-me ao meu lugar.
    Depois do diácono apresentar os novos aprendizes, o orador iniciou os trabalhos.
    Já ia a sessão a meio quando o venerável mestre me deu a palavra, levantei-me e disse:
    "Somos como sabeis uma organização discreta e de princípios fraternais, filosóficos e filantrópicos destinada ao aperfeiçoamento do caráter, por meio do desenvolvimento moral e espiritual encontrados nas Sagradas Escrituras - e, não esqueceis, sempre ao serviço da comunidade.
    No século XXI não podemos continuar a ignorar o papel decisivo da mulher e a sua crescente influência na sociedade.
    A mulher é um ser de excelência e quando grávida, sagrada. Perguntar-me-eis porque a olho como símbolo tangível e sagrado; respondo-vos porque é detentora de uma natureza singular, mesmo privilegiada, a quem foi concedido o dom maravilhoso de procriar, a que o próprio Deus tivera de recorrer para encarnar o Filho.
    É pois chegado o momento de o feminino passar a ser admitido na nossa ordem e deixar de funcionar isolado sob a égide desta".
    Não obstante a solenidade do momento, os protestos e as vaias fizeram-se ouvir.
    Estava instalada a confusão na grande loja. Era impensável uma desobediência deste quilate.
    Entretanto, os veneráveis irmãos enredaram-se numa tal meada de raciocínios e deduções, que eu pude, a coberto da fumarada dialética, esgueirar-me sem castigo, pela porta espelhada dos fundos.

    oãçcif :SP

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, Joaquim, quem sabe a sua ficção tem a ver com o imbróglio em que o papa Francisco anda metido querendo ordenar padres casados. E o antecessor, que se esgueirou e agora, pouco leal, anda a perseguir-lhe as ideias com o livro onde as condena apoiado por mais não sei quantos padres retrógrados e parvos de todo. Bolas que a igreja é uma máquina com rodas quadradas. Mesmo.
      O seu caso é a favor do feminino. Mas com franqueza, só porque somos ou podemos ser mães?! Ora bolas. Então...pensava eu que era por sermos pessoas tão válidas como os homens, salvaguardadas as respectivas diferenças anatómicas e de carácter em cujo a educação fez o seu trabalho. E portanto, espero eu que reformule o seu sonho, consciente ou inconsciente. Ou mesmo sub. As mulheres agradecem. Àmen.
      E fora disso, tenha um bom fim de semana

      Eliminar
  3. Mais um bom texto. Mande sempre! Lool
    -
    Cansada de estar cansada...
    Beijo e um bom fim de semana!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Beba um café forte, Cidália. E descanse:).
      Bom fim de semana.

      Eliminar
  4. Um pesadelo mais que um sonho, mirabolante. Em pequena, um susto, e agora, procurando os traços avulso (a "Mulher que Chora"?). Boa fluência que em mim influencia (saem ^^^^). Sonhava, muito pequena, que havia umas paredes altas e claras que se aproximavam até quase me sentir esmagada entre elas. Já não sonho; mas elas existem. Abç

    ResponderEliminar
  5. bettips, não entendi o significado do que colocou dentro de parêntesis :).
    Boa tarde, desejo-lhe um bom fim de semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A #unknown# sou eu Bettips, não sei porque sai assim, mistérios dos sonhos idealizados.

      Eliminar
  6. Para além de os sonhar, de sonhos nada sei.
    Penso que muitas vezes sonhamos com os nossos medos, a mim acontece-me. Geralmente lembro-me do que sonhei ao acordar, mas depois esqueço tudo, a não ser que seja algo preocupante.
    Por isso, gosto mais de sonhar acordada, pois assim escolho o que quero sonhar ;)))

    Bons sonhos, bea!

    Sonhos cor de 🌹 ou de outra cor que lhe agrade mais :)

    ResponderEliminar
  7. Maria, já basta sonhá-los:). São sonhos. E pronto.
    Também me acontece, lembro-me ao acordar e depois esvaem como nuvem em dia de verão.
    Sonhar acordada. Acho que, se assim o posso chamar, o que escrevo é o meu sonho acordada. E como quase todos os dias escrevo, está visto que sonho muito.
    Boa noite, Maria. E que o fim de semana lhe sorria e a surpreenda agradavelmente.
    Um beijo

    ResponderEliminar
  8. Na maior parte das vezes não me lembro do que sonhei, mas também tenho alguns sonhos recorrentes. Desses costumo lembrar-me. Por sinal há bastante tempo que não os sonho. Um deles inclui o mar a entrar terra adentro. Esse de ser desenhada por Picasso parece-me um sonho bom. :)

    ResponderEliminar
  9. Foi um sonho extraordinário de bom:), mas completamente incompreensível. Não me lembro sequer de ambicionar ser retratada por alguém. Tanto gosto de praia e não sonho com ela e nem com o mar. Coisas.

    ResponderEliminar
  10. Gostei de ler este texto e ainda bem que há alternâncias nem que seja nos sonhos.
    Um abraço e bom fim-de-semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    Livros-Autografados

    ResponderEliminar
  11. Muito interessante teu texto e tua escrita. Estou a pensar...

    ResponderEliminar
  12. Pense sempre Erika, não desista. Pensar faz bem a tudo que é humano:).
    Um bom domingo par si.

    ResponderEliminar