domingo, 15 de dezembro de 2019

Dia QUINZE


Abençoada com a Oratória de Natal, estou um bocadinho  ternurenta. Culpa da música.  Comove-me o maestro Michel Corboz tão trôpego e apoiado à bengala. Rege sentado e sempre a escorregar da cadeira e a empurrar-se para trás. A vida é injusta. Mesmo. Cinquenta anos na Orquestra da Fundação Calouste Gulbenkian. Quando, debilitado e magro, se virou para o público, comecei a ver tudo fosco. Mas a ternura com que cumprimentou os violinos, a doçura dos olhos pousados nas sopranos – fico sempre o mais próxima do palco que consigo, estas coisas pequenas, lá atrás, mal se apercebem. O modo como estendeu os braços a quem não conseguiu abraçar, a palma da mão aberta apontando o coro. E o sorriso de Coro e Orquestra inteira, o ar de gostamos de ti, estás no nosso coração, que havia em toda a sala, no palco e fora dele. É um velhinho que tem a música na alma. Mas estes concertos de Natal são também a sua despedida. Pois se o maestro já nem consegue entrar e sair as três vezes da praxe para agradecer.  Não voltarei a ver Michel Corboz. Talvez regresse à Suiça e viva o final da sua partitura num daqueles chalés das tabletes de chocolate. Ou será quase português e demora-se por cá.  Mas, quem só o conhece da função, não torna a vê-lo. Foi uma despedida. Com música, mas uma despedida. Michel Corboz evaporou.
Ana Quintans é a minha excepção no bel canto; tem a voz que tolero ouvir e a que admiro o timbre. A soprano é uma figurinha adorável. Elegância a  lembrar Audrey Hepburn e voz de ave canora, límpida, um cristal. Mas hoje, dia de música tão alegre e jubilosa, saí em melancolia.
Oh, e aquela garotinha, Mariana de seu nome, três a quatro anos, que os pais teimaram levar à Oratória? Pois a pobre não parava quieta e pouco se calava. Não se calcula a alegria dela quando começaram as ovações. Os pais eram jovens e letrados, mas faltava ali algum bom senso.

10 comentários:

  1. A literacia não é sinónimo de sensatez.
    Quantas vezes é o oposto.
    Boa semana

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  2. A vontade de "cultura" antes do tempo!
    ...
    Não é parecido nem semelhante mas recordo que uma vez em Serralves vi uma verdadeira "obra_prima"... um aluno meu (João Maria) sentado no chão com sua mãe ao lado e um bebé de colo! A mãe explicava aos filhos o sentido de um quadro que numa das paredes passava invisível ao olhar de muito visitante!
    Enquanto viver... aquele momento será um presente ao meu olhar!!!
    Bj Bea

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    1. Bonito! Mas pode crer que não foi o caso. Que ali também se explicou, mas profissões e importâncias familiares:)). Gente fina que gosta de se mostrar.

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  3. Quem era o compositor da Oratória de NATAl?!

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    1. Era o mesmo que parece ter inspirado o maestro a ser quem foi, J. S. Bach.

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  4. A Bea já alguma vez assistiu a uma récita em São Carlos?
    Na primeira vez, já adulto e bem adulto, que lá entrei, fui induzido por momentos de prazer e vibração de tal ordem que me fizeram eleger a partir daí a ópera como o melhor dos espectáculos. É um preenchimento dos sentidos. A simbiose música, canto, teatro, guarda-roupa complementam-se maravilhosamente com a ajuda das legendas para melhor se perceber o libreto.
    Sei que as vozes "esganiçadas" lhe ferem um pouco os ouvidos, e quiçá acontece consigo em relação ao bel canto o que de outra forma acontece comigo com o jazz; não me entra.
    Mas vale a pena experimentar.

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  5. Não, não vale. O que menos gostei na Oratória de Natal foi das sopranos e do barítono. Os coros tiram-me do sério e a música instrumental também. Mas já tenho a minha conta de agudos e graves em tom elevado. Ópera e vinho tinto nunca entrarão nos meus gostos. Em mim, são unhas a arranhar uma parede.

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  6. Também eu tentei ir a essa oratória mas já não havia bilhetes! Disseram-me que esgotaram numa hora. Como é que conseguiste?! Temos que falar sobre isso. Abraço!

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  7. Compro todos os bilhetes em Agosto ou mesmo Julho. É o que faz a maioria das pessoas por isso depois não encontras bilhetes disponíveis. Este ano comprei em Agosto e já não consegui o concerto de Páscoa nem Maria João Pires:).

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