sábado, 14 de dezembro de 2019

Dia CATORZE


É Natal quando os amigos se lembram de nos visitar. Nesse dia de encontro é sempre Natal.  Ora tenho uma amiga de quem me sinto um pouco mãe (verdadinha). É uma amiga especial como especiais são todos os meus amigos, cada um na sua especificidade. Mas também porque a conheço desde os seus quinze anos e lhe acompanhei a vida. Em boa verdade, é quase sempre ela que liga e visita. Não vive por perto e nunca fui a sua casa. Mas partilhou comigo  gostos e desgostos, apresentou-me o namorado, soube do casamento. E do rebento a espigar que hoje me visita com ela.  Não tenho opinião fundamentada sobre a sua personalidade, só sei que gosto dela. Muito. Gosto quase como se fora minha filha e estou incomensuravelmente grata por não me ter esquecido; afinal, era jovem quando eu roçava a meia idade. Aturdo se adoece, fico ansiosa se um problema familiar a aflige. E escuto-a em intermináveis conversas telefónicas, o que me espanta. Detesto telefonar e receber chamadas, mas fico parvamente  a escutá-la e dizer pois, sem dar pelo tempo. Toda contente. É que gosto mesmo dela. Conta-me tudo que lhe apraz e apetece, precisa conversar. Não sobre grandes temas; não para fazer confidências peludas; não por necessidade de se internar em intimidades. Precisa falar do trivial, do emprego, das colegas, da família, dos amigos. Do que pensa e porque o pensa. E o seu modo de pensar tem voz e orgulha-me que ela seja assim, tenho um bocadinho de fé em que talvez eu tenha contribuído para a voz que tem. É isto que fazemos se nos juntamos.
E é certo que lhe preparo o ninho. Faço um doce e um bolo, um almoço que agrade ao garoto (carne, carne), uma salada mais cuidadosa e variada, apronto a fruta, ajeito as flores nas jarras, espreito as toalhas no WC, miro a sala, aqueço a casa. E hoje, porque é Natal a sério, junto  as prendas da família. No final da tarde, fazemos a troca de presentes. Depois fico a acenar e a vê-los desaparecer rumo à vida que lhes pertence.

14 comentários:

  1. Contar é uma arte. A escrita da bea está impregnada dessa arte‼

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    1. Contar e ouvir contar dá-me prazer, Teresa.
      Boa noite:)

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  2. Que bonito, bea.
    A amizade (tal como o amor) não se explica: vive-se.

    Domingo feliz.

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  3. É muito bonito que alguém nos lembre assim; que nos visite vestindo o que um dia lhe demos; que não esqueça o nosso aniversário; que andem pela casa as pequenas lembranças, que nos faça participantes naturais das alegrias e tristezas que a vida lhe traz. Enfim, que tenha connosco as ínfimas e múltiplas atenções do amor. A amizade é um amor altruísta e aberto.
    Bom Domingo, Maria:).

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  4. A natureza dotou-a de uma "qualidade" que a par da inteligência, considero das mais importantes no ser humano - a vontade. No seu caso foi generosa, deu-lhe as duas.

    Curiosidades: Clara Rocha é uma professora universitária.

    Há uns anos ofereci a minha mãe o “Gloria in Excelsis – Histórias Portuguesas de Natal” antologia organizada por Vasco Graça Moura, que reúne contos de autores portugueses sobre o Natal.
    Disse-me que o leu e gostou. Fiquei feliz, aquela alegria que transborda quando se pensa no presente certo para a pessoa certa e se acerta.

    Curiosidades: Clara Rocha é divorciada de Vasco Graça Moura.

    Ao ler com prazer a sua conta-corrente de Dezembro e reparar na sua azáfama, o seu grande afã, a sua força de vontade e todo o amor que coloca nos preparativos do Natal para bem receber familiares e amigos, não posso deixar de pensar e concordar, não obstante as convicções religiosas da Bea, com as palavras de Miguel Torga.
    Para Torga, nenhum deus é digno de louvor porque na sua condição omnisciente e sobrenatural é-lhe muito fácil ser virtuoso e actuar sobre a natureza. Mas o homem, limitado, finito, exposto à doença, à desgraça e à miséria é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza.
    E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza acontecer, malgrado todas as limitações de bicho, que, na opinião de Torga, fazem do homem único ser digno de adoração. Tenho, pois, a certeza que a sua família e amigos a adoram.

    Curiosidades: Clara Rocha é filha de Miguel Torga.

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    1. Obrigada, Joaquim. Já sabia que Clara Rocha é filha de Adolfo Rocha, o nosso Torga. E que é ou foi professora universitária. Desconhecia que tinha sido casada com Vasco Graça Moura.
      Quanto à eterna contenda de Torga com o divino, à qual nem ele, Torga, deu resposta cabal, mas por isso mesmo melhores textos e poemas nos deixou, não me pronuncio. Mas concordo que não se adore Deus pela sobrenatureza que possui. Suponho eu que é em Cristo que é Deus e se fez homem por amor, que há a mediação. Se há.
      A vida não tem lógica nenhuma, Joaquim. O senhor teceu muito bem o argumento. Mas na vida a sua conclusão não é necessária.
      Sou apenas uma peça na engrenagem. A rodar no meio de tantas. Até parar e ser substituída. Acontece a todos. Do mais alto ao mais pequeno. Na vida distinguimo-nos uns dos outros; na morte somos muito iguais: nada que preste. Após a morte, não sabemos.

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  5. Desculpe de meter ao barulho, bea, mas ao ler o que o Joaquim citou da obra de Miguel Torga (pseudónimo do escritor) não resisti. A minha ideia sobre Deus e sobre o HOMEM é exatamente a do pensamento do transmontano de grande valor intelectual.

    A bea diz que eu prefiro o inferno ao céu. Sem dúvida, é no inferno que se encontram as pessoas mais interessantes 😈 😈 😈

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    1. Não sou eu que digo, é a Teresa. Eu já tinha lido no seu blogue. Não estou a atirar o barro à parede.
      Sabe por que é que tanta gente gosta dos Diários e da escrita de Torga? Porque queríamos ser como ele. Mas não somos.

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    2. NUNCA quis ser como o transmontano rabugento‼
      Querer ser como uma outra pessoa, é coisa muitíssimo chata‼

      Eu não sou boa‼ Eu não sou má‼
      SOU COMO SOU‼

      Perdi a minha fé ao ler um livro de um autor francês, quando tinha quinze anos‼ Venho de uma família liberal católica que NUNCA aderiu aos três *fes* portugueses. Eu aderi ao FUTEBOL‼

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    3. Não seja assim, ser rijo de carácter como Torga, tem muito valor. Penso é que a maioria dos homens não o consegue em toda a amplitude. E alguém quer ser cópia de outrem?! Cópia, cópia?!
      Suponho que eu seja uma católica sem éfes:))

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  6. Também me acontece por vezes e importa os tais momentos... poucos mas bons! Bj

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  7. Coisa tão boa essas amizades. Também tenho. Três do fundo da alma e mais duas minha carne, meu coração, amores da minha vida. Amo-as cegamente, infinitamente. Sempre. E no Natal cá estão, riquezas da minha vida.

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