sábado, 16 de novembro de 2019

Crónica de Inverno


Era uma vez eu num sábado friorento  a  fazer de sexta feira porque na sexta foi um dia que não há; portanto,  só um dia sem história, coisa quase nenhuma.  E pois, sim, hoje houve café duplo e estou pronta para o trabalho que isto de baralhar a correnteza dos dias, paga-se. Tudo se paga. E, às vezes,  como diz Frei Bento Domingues,  inferno e  céu vivem-se aqui, na terra que nos trouxe e há-de guardar, não se sabe o para quê que tanto osso descarnado e poeirento; mas pode que ao som da trombeta divina reencarnemos e sejamos, finalmente, infinitos. Pensamento tão estranho e atrofiante pelos desenvolvimentos que implica, que o melhor é ficarmos assim. Ou perdemos a esperança completa e isso é que não pode ser. A misericórdia de Deus é infinita. A Deus nada é impossível. Ponto final.  Parágrafo.
 E, por ser diletante sistémica, volto ao assunto. Quero crer que não seja bem assim de inferno e céu serem inteiros neste planeta, há gente tão infeliz e sem culpas que há-de haver qualquer coisa boa à sua espera. Julgo eu, a bater e a esfolar-me nos moinhos da injustiça. Avante. Pois.
Digo portanto que Lisboa é linda assim friorenta e transida de aragem em gume fino. Hoje há-de ser um dia de sol, onde ontem foi  manhã de inverno. Que o calendário anda como eu, baralha e dá. E ontem deu inverno. Podem dizer que era apenas saudade. Ok, aceito. Mas gostei do metro atravancado de gente engordada por cachecóis multicores, gorros e casacos. As botas apresentaram-se ao serviço em todos os possíveis modelos – e para isso não há como as mulheres e sua disparidade de gastos,  gostos e tiques. E, calculem, no meio do frio surgiu aquela menina esculpida com o cuidado que Deus põe às vezes nas mulheres, decotada, mangas de cava, uma blusinha de lã tapando a traseira dos jeans, o que era até pecado, mas enfim. Verão aceso por entre flanelas e casacões. Mochila às costas e nem um pelinho a arrepiar a naturalidade dos braços. E é isto certeza, que me ficaram a meio palmo do nariz e lhes respirei a nítida juventude. Em hora de ponta é assim mesmo, quase pele com pele.
Entro no Intercidades e parece que vou para Istambul. Sei, Lisboa não é Paris e Constantinopla não é Istambul. Tudo mudou. Mas sou assim, que fazer. O desejo de boa viagem pelo intercomunicador  cimenta certezas de viagem longínqua, Expresso do Oriente, ou outro expresso que exista e o cinema me não lembra agora. Posso ir parar à Rússia e daqui a umas horas a paisagem esfria e neva. Tudo branco, árvores ajoujadas, ramos em queixa sofrida, pernadas a esgarnar, não me aguento com o peso, socorro. E o comboio serpentina rápido e arrefece só por fora, a neve fazendo cama no tecto e  parapeitos de janela a embaciar. Acordo súbita para o aviso no intercomunicador. E no lugar de cidades estranhas, a minha cidade sem glamour. Digo, adeus até ao meu regresso, a Istambul ou S. Petersburgo. Desço ao quase silêncio do lugar e atravesso ruas que o frio  desertou, um sol adoecido e todo concentrado em ser luz. Os meus passos toc, toc, toc.
   


12 comentários:

  1. Boa tarde!
    Muito bom. Faz lembrar o dia de hoje. Um frio daqueles!! Lol .. Parabéns pelo texto.

    -
    Pensamentos que voam ...
    Beijo e um bom fim de semana!

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    1. Pois foi, ontem senti mesmo o frio. Hoje nem tive tempo para:). Só agora reparo, deve ter estado frio.:)

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  2. Ah D. Bea de La Mancha, receio bem que não haja justiça nem aqui nem depois daqui (seja lá onde for...)
    Penso que tudo termina no jardim das tabuletas, e até aí as diferenças continuam, basta olhar para as campas rasas e para os jazigos...
    Sempre foi assim, uns na vala comum, outros no Taj Mahal (ou similar).
    Sempre vai ser assim; os deuses (todos!) devem andar muito distraídos, ou indiferentes, o que vai dar ao mesmo :(

    Gostei muito da sua viagem de comboio, lembrei-me de alguns filmes passados em comboios...

    Bom fim-de-semana, bea.
    🌹

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    1. Boa noite, Maria. Que bem me sabe este bocadinho depois do dia a mourejar. É a tisana antes de adormecer:).
      Não que eu adie a justiça para outra vida, há que fazer o que aqui possa ser feito para que exista. Por outro lado, tenho mesmo de acreditar que, em algum lugar, seja feita justiça aos que foram usurpados, escamoteados, banidos pela sorte. E não sei se é a religião que me leva a pensar isto. Pode ser. Parto do princípio de que todos somos homens. E, se o merecimento existe, mora nos melhores, nos que são mais homens. Não pelos bens, não pela cultura, mas pelo carácter.

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  3. Fanatismo? Não me parece, acho que já é doença - suspeito de adicção!
    No outro dia alguém me dizia que chegava a vir aqui mais do que uma vez por dia. Ora perante isto, eu só posso dizer que venho aqui mais vezes do que corretor de bolsa observa cotações.
    O que é certo é que o caso começou a merecer a minha preocupação e meti-me a caminho do Centro de Saúde.
    Consultado o médico sobre a minha dependência desta erva, perguntou-me de que forma a consumia, se a fumava, se a inalava, ao que eu, já farto de o ver a patinar e não perceber nada de nada (devia ter ido a um especialista!) lhe respondi, em jeito de gracejo, que utilizava um difusor de aromas, para frescura da alma e dos espaços limítrofes.
    Então o sujeito, consultou o Google e disse-me que não me preocupasse que não havia perigo de dependência, pois tratava-de de uma planta com propriedades balsâmicas, anti-depressivas, sendo também recomendada para quem tem problemas urinários.
    Era demais! De cabeça arrasada, levantei-me e já me preparava para sair do gabinete, quando o ouvi rematar:
    - Mas se for em infusão retirará melhores benefícios!

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  4. :)))). Joaquim, o senhor surpreende-me sempre. Bom, digo-lhe já que não é adição. Se tenho tempo, visito os blogues de que gosto umas duas vezes por dia. E não considero serem substância aditiva:). Mas é verdade que não sou médica. "frescura da alma e dos espaços limítrofes" é impossível imagem de estalo.
    Bem queria chamar ao blogue, chá príncipe, mas não foi aceite. Que já existia e tal e tal. Experimente beber uma generosa infusão de erva príncipe retirada da planta, lavada e posta em bule; deita-lhe depois a água fervente, fecha e deixa uns cinco minutos a aromatizar (a infusão dá sinal pelo tom esverdeado). Faz bem a tudo que não esteja doente. É aromática e aquece a alma e limítrofes. Mas que não se lembre o Joaquim de substituir a infusão pela erva que aqui ofereço.
    Boa noite e bom domingo a quem passe.

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    1. Bea, e as sopas, não foi provar as sopas?
      Ouvi dizer que a de galo era a melhor de todas...
      🍜

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  5. Quais sopas?! Nunca ouvi falar de sopa de galo que não se chame canja. A canja de galinha caseira, se comida em dia frio, é sopa maravilhosa. Já o reconhecia o Jacinto do nosso Eça.

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    1. Não está no Alentejo?
      Passou uma reportagem na tv sobre uma Mostra de Sopas e a sopa de galo (mesmo de galo!) era a mais procurada e esgotava sempre.
      Também nunca ouvi falar e era para saber se era mesmo boa :))
      🐓

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  6. O Alentejo é muito grande, Maria. Vejo muito pouco a tv, mas agora que fala nisso, tenho ideia de ter ouvido falar na sopa de galo e acredito que seja boa. Infelizmente nã na provei:)

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    1. Eu sei que é grande, bea, e eu conheço-o razoavelmente bem :) e acredite que a pergunta tinha fundamento.
      Sorry se fui indiscreta.
      🐝

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  7. O que na nossa vida é real ou o que é aparente nem nós próprias sabemos mas imaginamos... imaginamos.... Abençoada capacidade de imaginar!

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