terça-feira, 26 de novembro de 2019

Carrossel


Pela tarde, nas horas de modorra suada,  continuava, a pedido de uns e outros, a contar as minhas andanças no bairro da Venezuela. Por essa altura já tinha desistido da verdade e enveredava temerário pelo mundo da fantasia que agradava sobejamente a todos nós. O bairro da Venezuela tornou-se um país e o pequeno pinhal que o circundava a sul e oeste, uma floresta densa onde tudo acontecia. Havia noites de luar em que os lobisomens saíam a passear nas ruas desertas do povoado e, até clarear,  se faziam donos de tudo, e livre-nos Deus de alguém ser apanhado por algum, era capaz de virar bicho ou se transformar também em lobisomem e ficar feio como a noite. Além disso, todos o sabiam, os lobisomens buscavam mulheres bonitas e, se alguma arriscasse pôr o nariz fora de portas, era arrebatada para nunca mais, tornava-se um ser da floresta. Noutros dias, os piratas davam-me conta do juízo e havia tesouros escondidos em cavernas indistintas, com chave de Ali babá para franquear a entrada a corredores das mil e uma noites e onde tudo era possível.  Enquanto inventava, suspendia a realidade. Esquecia as maçãs e a mentira corajosa de Esparguete que tanto me embevecia como moía o juízo. O meu poeta-de-lava era o campeão dos assobios, das ideias mirabolantes, dos planos sem fim à vista; não era um escalador de muros, as alturas afligiam-no, tinha tonturas, tremiam-lhe as pernas e a vista embaciava. 
Foi numa dessas horas de a minha voz a ressoar em histórias de um lugar a fingir, que a porta se abriu num repente e o Mãozinha, muito pálido, disparou, o Amora morreu. Afogou-se no tanque de rega. E houve um silêncio do tamanho do mundo. Um silêncio varado de dor espantada. Sem voz ou ruído. Ninguém se mexeu, não houve cadeiras a arrastar. Era o silêncio do nosso coração a desmanchar de tristeza e da nossa mente a assimilar o incrível. O Amora era o menino de todos. O Amora não morria, tinha só três anos.


22 comentários:

  1. Ah bea, como foi fazer uma coisa dessas?
    As crianças nunca deviam morrer; já basta a vida real.
    Bolas, e logo o Amora, de quem todos gostavam... ou não?
    😔

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    1. Todos gostavam dele sim, era uma criança feliz e curiosa.

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  2. Escreve-se/escreve tão bem neste país! Que é penoso ler/ouvir os telejornais e os jornais às cabeçadas na língua.
    Aprecio, nem sempre falo, mas interiorizo.

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    1. Tem muita razão, bettips, os telejornais são uma desgraça diária a trilhar a língua que nos une.
      Boa noite:)

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  3. Quando no sábado e pela vez primeira a minha filha me veio trazer ao lar, disse-me paizinho se precisares de alguma coisa telefona-me, caso não digas nada vêmo-nos no próximo fim de semana. Respondi-lhe não te preocupes e fiquei a vê-la afastar-se. Continua esbelta, saiu à mãe.
    E cá fiquei, sozinho com os meus pensamentos e a minha nova "família". Olhei em volta, dois novos companheiros sorriam-me, dum deles desprendia-se da boca um fio de baba, um terceiro sorria-se para dentro. E agora o que fazer? Lembrei-me do livro que às escondidas tinha metido no meio da roupa trazida e fui buscá-lo. Folheei a parte sobre a sexualidade na terceira idade, tabu ainda na sociedade portuguesa, rebolei na cadeira a rir quando li a história da senhora com a mama falsa e finalmente percebi porque é que os velhos ficam sentados à porta a olhar para o vazio durante o dia todo. Começou-me a doer a vista, fechei o livro e coloquei-o em cima da mesa. Foi quando se abeirou de mim a Dona Aurora e me perguntou se não queria tomar um cházinho e que me juntasse aos outros na sala das refeições para socializar. Ainda não tinha respondido 'mas tenho mesmo de ir' e já a volumosa senhora me estava a segurar pelo braço. Oh Dona Aurora tenha calma, olhe que deixei um livro em cima da mesa que me faz falta; não se preocupe que eu vou buscar (...) Oh senhor Joaquim então anda a ler Vergílio Ferreira, não sabe que isto não é aconselhável para as pessoas daqui? Tenho de falar com a sua filha...
    Não a incomode Dona Aurora, ela tem mais em que pensar e eu já vou no final.
    Avanço lentamente, quase perto do fim, do livro e da vida. A minha visão já não é minha, já não é nada meu, já não sinto embalagem para haver mais futuro.
    Entretanto hoje, pela primeira vez desde que aqui estou, peguei no tablet para ler o seu Carrossel que há uns dias se me escapa. E começei a pensar como gostaria de voltar a ser miúdo, correr pelos campos, subir às árvores, sentir-me livre. E clamei por justiça, que sei que a fará, ao ler do roubo da fruta. E achei piada... sinto os personagens com força, a puxarem pela história, a dizerem-lhe avança não nos deixes para aqui, quando, porventura, se senta, cansada e algum desespero lhe diz: como vou sair daqui?
    Peço desculpa, mas tenho de interromper, a Dona Aurora entrou no quarto a anunciar-me que tenho uma visitinha...
    PS: crónica antecipada de um futuro não anunciado mas cada vez mais próximo.

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    1. Obrigada por me incluir na sua história de futuro, Joaquim:). Gostei. Mas confrange-me a ideia de um lar, de deixar a casa que conheço e me conhece. Abandonar as coisas que me acompanharam uma vida. Admito não subir escadas, fazer quarto no andar térreo, transformar degraus em rampas, mas a ideia de um lugar de morrer retira-me a vontade de vida.
      É provável que sejamos velhotes ligeiramente diferentes, olharemos menos para o vazio e mais para o écran. Mas espero já estar a escrever outra história, se isso acontecer. Ou será mau sinal, pelo menos para um de nós:).
      Não desespero com a história, Joaquim. Histórias são entretém do pensamento, aperfeiçoo até parecerem reais e me agradar o que leio. No caso, sei como continuar e já alinhavei alguma coisa do términus. Entretanto, estando atenta, podem surgir episódios imprevistos e que se insinuam (como o das maçãs). E não posso esquecer que há uma interlocutora fantasma da qual sabemos, de vez em quando, alguma coisa. Terei de a repescar e ampliar-lhe a circunstância. Mas como não é para nada, não há pressa.
      E se entretanto eu mesma desapareça, que se perde?
      Boa noite.

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  4. Uma tragédia ou será mais uma das malandrices do Esparguete! :)

    Beijos. Boa noite!

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  5. É uma tragédia, Cidália.
    Boa noite:)

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  6. Oh. A coisa agora é mais dramática.

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    1. A morte é drama. Que aumenta se acontece na infância.
      Boa tarde, Luísa

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  7. Bem... tentar tentei mas tenho de ler o que está para trás para entender.
    Bea, gosto de ver este carrossel girar sem parar.
    Vou voltar.
    Beijo, boa semana.

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  8. E continuo a recordar Once upon a time in America e a morte do amigo que desencadeia a tragédia.

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    1. :). Não me lembro bem desse bocadinho do filme. Mas, agora que fala nisso, tenho ideia de um garoto morto em qualquer refrega ainda de infância. Quem sabe ficou no meu inconsciente e influenciou.

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  9. Lerei um dia tudo, preferencialmente em papel, se puder ser...mesmo que sem Leya, sem prémios, sem...
    ~CC~

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  10. Talvez, se a escreva toda, a imprima. Ou não:). Mas é verdade que estou a juntar a materia de todos os posts, coisa que faço normalmente com as histórias.
    Boa tarde, CC

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  11. Bea, estou de rastos com uma gripe. Não me apetece nada. Desculpe. Beijinhos

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    1. Ora Nina, eu é que peço desculpa. Pois se eu é que fui incomodar a sua gripe. Mas é que já me preocupava. Por incrível que pareça, fico mais descansada. Lamento a doença, mas sendo gripe, cura-se, passa e não deixa vestígio que se não restaure:).
      Melhorinhas e trate de si. Bjinho

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  12. Mais um belo capitulo, lindo de se ler!:)

    Desculpem o atraso, estou com dificuldades em aceder aos blogues incluindo o meu, desde ontem.
    .
    Afeição aos silêncios.
    Beijo e um bom fim de semana.

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  13. Boa noite, Cidália. Desejo que tenha resolvido o problema de acesso aos blogues.
    Um bom sábado para si

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