domingo, 13 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


Foi esta amálgama que me acudiu quando a encontrei na farmácia, prostrada pela gripe e recusando auxílio. A essa altura, já ele passava sozinho; ela, em eclipse. E quem o conhecia melhor que eu
- Gasta os dias a beber encostado ao balcão do café e ela a tomar conta do negócio.  Também dá pena, o homem. Ninguém o convence da separação, vive com ela na boca,  a minha mulher isto, a minha mulher aquilo. A minha mulher.
O que as palavras nos importam. Tanto. Com elas arranjamos realidade  a contento, do possessivo à substância da posse, “a minha mulher”.  O álcool ilude e dá colo a outras fantasias,  ajuda a segurá-las.
Pouco depois, o acidente de viação leva-lhe o automóvel e, autómato escanzelado, desloca-se a pé,  olhos fitos na ressurreição do álcool. O  desejo severo da bebida marca-lhe a pressa dos pés. Boca seca, sentidos em gume, apontados e exclusivos. Que nenhum amor pode mais que vício com raiz.
– A casa não a casa, mas um deserto gelado, sem o lastro de cozinha activa.  O incómodo do teu cheiro que encaracola pelas frestas se entreabro gaveta que foi tua. Os móveis irritadiços, uma catrefa de ângulos agudos que me raspam na pele, plantação de nódoas negras que só na manhã seguinte nascem pelas esquinas do corpo. A mobília a olhar-me fechada em rancor, sem um rangido de aprovação.  
E ela com os filhos. Num espaço que não lhe pertence, caixas sobre caixas. E a escrita do negócio, facturas, encomendas, dívidas por saldar, meses que vencem numa piscadela de olho. E a faculdade e o aluguer do quarto. E.

6 comentários:

  1. A casa não é casa, embora que casa continue a ser, mas não é um lar verdadeiro. Um lar doce lar como uma casa deve ser.

    Um "grito" que está a tomar forma de romance. Ficção e realidade, não é verdade.

    Concordo que a bea tem um estilo próprio, no entanto, lembra-me uma escritora portuguesa. Não somente o estilo, até mais o tema social e crítico.

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    1. Sabe, Teresa, o único propósito que guiou a minha vida foi esse, que a casa onde habitasse fosse agradável, um abrigo seguro, espécie de ninho onde se pode voltar sem susto. A gente não sabe o que consegue quando são os outros a dar resposta. Sabe apenas o que tenta.

      Não vai ser um romance, mas uma das minhas histórias curtas.
      E quem lhe lembro, se mal pergunte:).

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  2. Confesso que gasto algum tempo a preparar-lhe as respostas. Corto, emendo, acrescento e penso, pois pouco me sai ao correr da pena. Contudo faço-o com prazer e por dever, ou melhor, por dívida de gratidão, que não obstante, nunca ficará saldada.
    Sei que ser lido é a única recompensa que quem escreve tem, mas quem lê tem o caminho aberto para além do tempo e do espaço, e os braços abertos a abraçar o mundo. Por aqui já vê que o meu saldo é bem maior.
    Da escriba não sei nada, só sei o que se vai desvendando e eu vou colhendo, pétala a pétala e guardando na minha caixinha de tesouros. E já é muito.
    Bem-haja.

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    1. Sabe que escreveu uma coisa que eu mesma sinto tanta vez ao andar de janela em janela pela blogosfera? Há por aqui gente que escreve tão bem que até assusta. Que também desconheço e me faz bem ler. E creio, sinceramente, que nunca serei capaz de lhes pagar os bons momentos que deixam a quem passe na sua janela.
      Ná...não há cá dívidas de gratidão e nem deveres (isso é coisa de escola e o que aqui fazemos é de apetite, nada de obrigação); até porque escrevo por gosto, porque me apetece, quando me dá na bolha e se acaso posso. Mas venha sempre:)

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  3. Um tema que pensamos ser possível resolver mas não!...a realidade é dura e crua!!! Bj

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  4. Gracinha, não sejamos tão negativas, há situações destas que são ultrapassadas com esse tal amor ou por via dele. Há outras em que o caminho difere, dá mais voltas, entram novas pessoas ao barulho... mas a existência de um vício por adição, qualquer que ele seja, desestabiliza o mundo em que ocorre.
    Boa noite:)

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