sábado, 29 de dezembro de 2018

Dia Vinte e Sete


A normalidade é grande coisa. Acordar e sentir o corpo vivo e a querer mexer-se, é bem maior. Tomar o pequeno almoço e sentar-se uma pessoa a escrever, por exemplo. Ou perder-se em leituras enquanto espera que nasçam as horas de toda a gente. O regresso aos hábitos tem a sua sedução, traz o tempo livre que,  pouco ou muito, é livre e tão e pessoal que ninguém o disputa (seria alheio desperdício do querer). Quanto se corre para ganhá-lo! Convenhamos, tudo na vida é produto de esforço e, quem sabe, mais nos vale por isso mesmo.
Por mim, anima-me a possibilidade de criar o alimento diário. Como jardineiro que planta e espera colher, assim eu. Desde o despertar que escavo, adubo, ancinho e planto; vou regando ao correr das horas e se almejo tempo só meu, exulto. Então, desce sobre mim não o espírito santo, mas alguma aprazível beatitude – talvez a origem do meu nome pequeno – que mais parece transcendência religiosa, instauração de tempo diferente e originário dentro do quotidiano.
Sem um pé fora de portas e até sem quase me mexer, salva-me a perseverança nesses relâmpagos.

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