terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Dia Três


Há uma face do Natal que abomino: fazer contas, espartilhar, destinar. Somo prendas diminuindo reservas, alargo a margem e os presentes, volto a somar e subtrair. E repito, repito, repito. Invariável, concluo que alguns presentes terão de esperar pelo próximo mês. Guardo a lista que encompridou a olhos vistos e descanso, o pior está feito. Mereço prémio: a partir de agora decreto feriado, fora com decisões de Natal, não me existe o tricot à beira dos finalmente, as caixas de bombons que esperam embrulho, as prendas que aguardam cartões ainda em projecto fugitivo.  
É paz beatífica fazer o que se gosta. Ler. Escrever. Olhar o azevinho cheio de bagas. Sentir o sol adoecendo pela tarde que se recolhe em humidade. Anoitece. Em passinho de bailarina, um véu de névoa abraça as coisas. Aos poucos, o mundo silencia. Penso em quem não tem casa, nos fugitivos, refugiados, sem abrigo. E o Natal, que afinal não me abandonou, pergunta, o que fazemos por eles.

6 comentários:

  1. Olá, Bea!
    Já vivi a época natalícia desmesuradamente.
    Depois, perdi os meus pais e quase desisti da celebração.
    Anos passados, duas netinhas vieram resgatar a festa e o brilho da bolas na árvore de natal, das prendas, do convívio à volta da mesa.
    Gosto de presentear a família e os amigos. Lamentavelmente, também a minha lista "encompridou", mas não deixo de a elaborar todos os anos.
    Pensar em quem não tem casa onde festejar o Natal me dói no coração.
    Beijo e BOM NATAL... se não voltarmos a "falar".
    (Belo texto este e o anterior, melhor dizendo, os anteriores.)

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    1. Boa noite, Teresa
      :) as histórias pessoais são múltiplas e diversas. Fui habituada a gostar do Natal. Mas em minha casa não havia ceia de natal, um enfeite, uma fita ou bola, nunca houve árvore ou presépio; havia fritos de abóbora de que pouco gostávamos e almoço melhorado. E uns presentes no sapatinho: um ou dois adereços que nos faziam falta, um par de meias, uma camisola interior; e, coisa do outro mundo, uma sombrinha de chocolate regina. Ou um gatinho de chocolate. No dia de Natal, encantava-nos o presépio da igreja e beijávamos o joelhito do Menino no final da missa. E isto era uma alegria para nós.
      Cedo me calhou talhar o Natal da casa. Foi só pegar no sentimento e ir acrescentando. E acho que pegou de estaca:).
      Claro que voltamos a "falar", a net é o meu lugar de conversa:). Ainda faltam muito para o dia 25.
      Tenho certeza que vai ter um bom natal, com muita paz e amor no coração.
      Um abraço

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  2. Atualmente o NATAL não me stressa porque eu não deixo mas já fiquei desmesuradamente cansada noutros natais com tanto consumismo!!!
    Por aqui acabaram_se as prendas!
    Agora são momentos de convívio apenas com gente que amo e muito!
    Bj

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    1. Bom, eu fico por vezes desmesuradamente cansada. Mas nada tem a ver com consumismo. É mesmo trabalho que precisa ser feito:). Nas famílias onde os homens são a dobrar, sobra demais para as mulheres:).

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  3. A minha lista tem vindo a encurtar de comum acordo com amigos e familiares.

    Mais um belo texto que gostei imenso de ler.

    :)

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  4. Pois os meus amigos que não metam o bedelho; encurtem as listas deles se quiserem que nas minhas mando eu:)

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