sábado, 15 de dezembro de 2018

Dia Catorze


A crónica de Lobo Antunes na Visão desta semana conta a exteriorização do desgosto do pai na morte do avô. Aborda a linguagem do pudor quando o pesar sufoca. Desde a morte ao final das cerimónias fúnebres, usou óculos escuros. Em casa e na rua. E, depois de tudo terminado, Bach na versão para órgão, abanou, durante horas, as paredes de casa. Pensei em ti. Que terás feito nos teus desgostos maiores. O pai de Lobo Antunes foi de uma elegância fidalga, coisa de linhagem integral. Bom.
Antigamente, o desgosto popular existia sem óculos escuros e ninguém os lembraria se os tivera. O povo era atropelado pela morte, ficava um farrapo indigno, amálgama informe. Dignidade afirmava-a no parecer, fazer da fraqueza força e continuar caminho. Gente vulgar adapta-se sem lutos caros e não consulta especialistas do desgosto. Uma vez disseste que o pé te puxa para o chinelo; julgo eu que  o chinelo na altura não gostou muito. Serás no desgosto assim a modos que popular. Ou haverá em ti essa subtil aura de ser outra coisa, uma diferença que releva tanto da educação e do meio, como de ti no mais nu que de ti existe.
A minha tragédia escreveu-se em vários actos e pouco lembro as horas fúnebres. Tenho ideia do pensamento a querer adaptar-se e do corpo um autómato obediente. Mal tudo terminou, eu e minha irmã seguimos à pressa para a escola, gastos que estavam  os dois dias de faltas. Luto carregado. No resto, a vida normal.
Ontem recebi dos meus irmãos uma prendinha tão doce que não resisto a mostrá-la. Diziam eles entre si (conversas de whatsApp), que o Natal é uma data especial, a “kind of magic” que lhes vem da infância e fui eu que plantei. É bem capaz de ser a minha melhor prenda de Natal:)

2 comentários:

  1. Os bons momentos que são proporcionados a alguém são as melhores prendas. A dar ou a receber.

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  2. quando, como no caso, saem espontâneos, são flechas directas:).

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