quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Intermitências da Luz


Primeiro aprontou-se e preparou tudo, uma prendinha, o cabelo lavado, a doce expectativa de um bem querer. Depois, ignorante de casmurrices digitais, perdeu-se no emaranhado de ruas e enviou sms. Experimentou mais umas voltas, contornou rotundas, rodou ruas até final. Nada. Ligou. E a voz, bengala de cego a guiar-lhe as rodas. Esquerda, esquerda, direita. E logo ao portão a voz se encheu de gente, carne, pele, ossos e o mais que se não vê mas colhe num abraço. Entraram e o olhar franzido do cão a avaliar a visita, alarme discreto de patas dianteiras, a traseira em repouso. Ao fechar da porta, reentrou na casota friorenta,  uma pata sobre a outra, focinho no topo: pose de pensador, não fora os olhos fechados.
E elas dobrando corredores, durezas que amaciam ao cheiro de frutos maduros, talvez um champô, uma colónia, um sei lá quê que apetece e será apenas viço de juventude. Depois uma infusão de ervas, bolos, fatias de ovo em sua moleza leitosa, compotas em ponto de pérola, lágrimas que cristalizam doçura e sempre a esperam. E conversa. Conta. Como véu que tudo cobre, os projectos para dar fim ao desemprego, a vontade de independência, a forma admirável como se vai desprendendo do que a perturba. Usa sorriso mais confiante, a mesma pele de pêssego, a insegurança com menos lastro. 
Anoiteceu. Sai embrulhada de escuro, dois dedos de compota num saco de plástico. A rapidez na inversão de marcha, um adeus que promete e desaparece. E o cão, de súbito acordado para a função,  ladrando ao calcanhar dos pneus.
Mais tarde, já ela em casa, um alerta, “o seu sms entrou agora”.
“Da próxima vez...se houver próxima vez....”, tão bonitinha esta canção.


5 comentários:

  1. O que segue e o que fica, tal como na música. E eu sei de cor tantas letras.
    Boa noite, bea.

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  2. Num mundo de sms(s) ... a vida continua e eu gostei de ler ... Bj

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  3. a vida continua sempre Gracinha; connosco ou sem nós, marcha imperturbável

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  4. E ando eu há dias à procura num cartão de memória do SAPATO da Joana Vasconcelos !...( que fotografei em Tróia, no Hotel Design ! ).
    Precisava do teu endereço postal com urgência, BEA...
    Um beijo amigo.

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