sábado, 18 de agosto de 2018

Linhas Divergentes


Na minha terra, mulheres e homens correm e  fazem bicicleta no ginásio, não andam pelas ruas a suar, cabelo ao vento. A minha terra é uma terra igual às outras; se viajo pelas vizinhanças também não os vejo correr ou pedalar estrada fora. Em boa verdade, nas estradas e ruas  reinam os veículos automóveis; das pessoas avistamos cabeças no interior, todas a olhar em frente, sejam ou não condutores; os passeios estão vazios de gente. A bem dizer, nas casas também não há ninguém, os jardins que se vêem são bonitos mas não há vivalma; à medida que as habitações proliferam os muros alteiam e, nas mais caras, os portões automatizam. Por outro lado, as garagens fogem para a cave e têm porta interior de acesso. Tudo muito confortável, sim senhor. Mas encontrar as pessoas torna-se cada vez mais difícil. Vivemos em ruas de casas aparentemente desertas.
Antigamente, defendia-se a casa com um cão, agora defendemo-nos dos outros com muros e inventámos corredores móveis e de vidro fumado para que ninguém nos encontre. Parece. No entanto, falamos sem cessar ao telemóvel e enviamos sms à velocidade da luz, pomos likes em tudo que mexe, bisbilhotamos bem mais na vida dos outros - que querem a toda a força ser bisbilhotados - que as nossas avós entretidas pelas tardes na porta de casa, bichanando pequenas maldades desta e do outro que passava. Ah, dirão vocês, não é a mesma coisa. Pois não. As nossas avós tinham o calor e o frio na porta de casa, tinham-se umas às outras, tinham os cheiros da rua e das pessoas e as palavras eram só mais um elemento e nem sequer o principal. O que as nossas avós queriam era estar um bocadinho juntas, a conversa era o correlato da companhia. O mundo das nossas avós não se defendia de ser humano, aceitava-se. O que verdadeiramente me pergunto, aquilo que chega a preocupar-me, é pensar que andamos nesta vida a meter os pés pelas mãos. Hoje, desdizemo-nos a construir-nos palavrosamente ideais; tiramos fotos exaustivas que retocamos até à perfeição e expomos ao mundo; damos conta dos nossos passos a quem nada se importa com eles e que é praticamente toda a gente. Com isto, que nos tira tempo, vamos perdendo o hábito de abraçar e do sorriso contemplativo que se demora nos olhos de alguém, o doce hábito da atenção aos outros e de que retiramos tanto bem.
Mas que raio de confusão é esta que nos faz pensar que somos o nosso vestido?!

5 comentários:

  1. É uma nova forma de viva. Ninguém vai voltar atrás e viver os momentos do “antigamente” mesmo que sejam dos de há 10 anos que parecem mesmo do “antigamente”. É uma realidade e se não quisermos ficar atrás temos que acompanhar a evolução dos tempos. Tenho amigas que preferem enviar texts do que telefonar. Tenho uma amiga que detesta texts. Esta tem menos contacto com as amigas e queixa-se. Diz que vai aprender a enviar mensagens de texto daqui em diante! Nem sempre me apetece telefonar. Há circunstâncias em que é mais fácil e prática enviar uma mensagem pelo telefone.
    Mas isso não impede que as pessoas continuem a encontrar-se e a passar tempo juntas.

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  2. Um belo texto que ajuda a refletir sobre a realidade da nossa sociedade!!!
    Bj

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    1. Não é um belo texto,mas um pouco da minha estupefacção sobre o monstro que alimentamos e nos vai mudando, Graça. Mas, como diz a Catarina, é o progresso pá. E há sempre tempo para encontrar e passar tempo com as pessoas. Mas, digo eu, não sei se as vemos.

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  3. Um belo texto que ajuda a refletir sobre a realidade da nossa sociedade!!!
    Bj

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