terça-feira, 14 de agosto de 2018

Fracturas


Viajar é moda e uso comum. Moda, sim. A eclosão de companhias aéreas low cost e a modalidade de alojamento oferecida pelo airbnb propiciam um aumento exponencial  de viajantes. O que era restrito passou a domínio do vulgo. E basta olhar Lisboa para percebermos a transumância, a toda  a hora gente puxando malas cidade fora. Pela manhã,  as filas para  autocarros sectorizados, como os que passam por Belém, fazem subir o mau humor dos autóctones que , comuns e com atraso, seguem para o emprego. Não se entende a razão de o município continuar a sujeitar os residentes  a tal estertor. Acresce que  o turista que ruma a Belém não é sazonal, mas de ano inteiro, facto que mói a paciência de qualquer português que não se encontre em gozo de férias. Quem sabe se instituir um autocarro exclusivo dos turistas não resolvia o problema, pelo menos em hora de ponta.
Oh, mas eu vinha era falar de Veneza. De Veneza, cidade de canais e palácios que um dia se perde por completo se as hordas turísticas continuam a pisá-la num frenesim. Eu sei, também já por lá andei em passeio, contribuí para o afundanço com os meus passos e mais os sacos, as mochilas e a catrefada de artefactos que um turista de poucos meios sempre carrega (os de muitos meios vão de mãos a abanar, não sei porquê, mas desconfio de alguém por eles muitíssimo carregado). Mas nem sei se quero voltar. Quer dizer, a minha vontade era mesmo morar lá por uns tempos (não sempre que ruas de água, ainda que originais, dão pouco jeito). Pelo que leio, Veneza piora e afunda dia a dia, na proporção directa do aumento dos visitantes. E não há qualquer prazer na multidão, verdadeiro  impecilho da arte contemplativa.
No silêncio da noite,Veneza íntima,  janelas abertas e flores transpirando pelas sacadas, um riso ou outro que flutua fugido das varandas. Veneza caseira, linda demais. Veneza palpitando nas suas pontes bucólicas e nocturnas, um ou outro transeunte que não perturba a velatura de sombras irreais, o espelho quieto da água fulgindo aqui e ali. E em cada penumbra de sottoportego, um quê de abrigo e mistério langoroso, talvez um par de encontro à parede, perdido em si, extra mundo. Ou um carteirista hábil em desautorizar turistas desprevenidos.
Perder S. Marcus é hediondo crime. Perder aquela vista de gondolas e ilhas é sacrilégio puro. Deixar afundar a Ponte dos Suspiros e a pobreza lancetada do bairro judeu é heresia contra todos os deuses, existentes e por existir. Haja quem salve Veneza da curiosidade dos homens e do modismo.

2 comentários:

  1. Bem pertinente a sua partilha!
    Não conheço Veneza e gostava!!!
    bj

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  2. Um dia, a Graça vai a Veneza e extasia na praça de S. Marcus entre as 19 e as 21, quando a maralha já recolheu. E junto às gondolas adormecidas, mesmo na beirinha da água, assiste ao sol pôr, as ilhas a escurecerem devagar.

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