quarta-feira, 30 de maio de 2018

Esboroar


Diz o povo, “A idade tudo traz”.  Mas também leva. A maioria das pessoas adquire esta certeza quando assiste ao envelhecimento natural dos pais. Que só parece natural enquanto a imagem deles não  desvirtua.  Depois dos oitenta – e o depois não tem conta certa -, os velhos vão criando distância do arquétipo e nasce nos filhos o desencontro. A natureza tem tudo programado, à medida que deteriora os pais, instala nos filhos a modalidade de amor piedoso ou, dito de outra forma, uma atenção paciente e cuidadora. É o tempo em que a relação filial se torna outra. Na forma conhecida, desaparece. O amor piedoso é muito cheio de desgosto e aceitação dolorosa. Mas de tudo se ganha hábito.
 Meu pai entrou nesse estádio sem regresso em que o mundo de interesses afunila: o aniversário pouco o interessa; já não prefere o bolo preferido; reunir a família não o alegra. A fidelidade guarda-a para o filho e as laranjeiras. O resto, esvai. Anima-o a continuidade do nome. E a terra. 
Somos sempre os mesmos. Cada vez mais os mesmos.

3 comentários:

  1. É isso, Gracinha. Não é fácil para ninguém:); os assistentes, porque são pessoas, não se limitam a assistir.

    ResponderEliminar