sábado, 21 de abril de 2018

Despojos do Dia


À noitinha, ela passa aos gritos e acorda a rua, o barulho a  ganhar volume com a proximidade dos passos errantes.  Tem mau  vinho e asneira forte num sotaque de norte furibundo que ressoa, qual lâmina, nos vagares gerundinos dos nossos ouvidos. No emparelhado das casas, nem uma alma ousa descerrar persianas. E nem vontade. Dentro, há um recolher de silêncio feito dor e pena. A rua petrifica no estupor da gritaria ébria. Não sei quem seja, vem talvez da taberna da esquina e segue a caminho de casa. Cresci no pavor enojado de bebedeiras. Assisti muito vómito de vinho, homens que me pareciam cordatos a espumar, rapazes que bebiam até cair e ficavam sem trambelho, nojice animal enrolada no chão, gente vulgar que virava monstro raivoso e corria a família a murro e cinto. E quanta pobreza desvalida bebia de véspera o almoço do dia seguinte!
O vício no feminino só me foi apresentado mais tarde, anos depois da morte delas. Mulheres que sempre me pareceram apenas estranhas e afinal eram alcoólicas. Conservavam-se num alcoolismo manso e supostamente escondido. Não gritavam, não batiam nos filhos e netos. Trabalhavam. Mas caíam com frequência. Joelhos esfolados, nariz roxo, um lanho na testa. Conheci-as na meia idade. Teriam começado como esta garota, toldadas dos pés à cabeça, vociferando rua fora todo o género de revoltas e alarvidades?!  Não. O tempo era outro. O vício é que é o mesmo.
E que agonia ouvi-la. Vê-la.

4 comentários:

  1. Boa tarde. Visitando, lendo e elogiando o seu blogue e as suas publicações, que gostei muito.
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    * Cavalo e Amazona - amizade sem tempo ( Poetizando) *
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    Votos de um domingo poético

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  2. Terá filhos? Um marido? passa por vezes acompanhada por uma voz masculina, baixa e suave que por certo quer convencê-la a chegar a casa sem escarcéu. O que a levará a ser assim?! Pode ser mal de família, conheço casos. E pode que não. Há sempre uma razão. Mesmo que não apague, ajuda a compreender.

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