sexta-feira, 20 de abril de 2018

À Sexta, Pequenos Nadas


Sexta feira é o dia X. Começa bem, mesmo se durmo mal. Ou sobretudo. Porque tomo um café com leite. O café com leite bem moreno é a minha bebida de acordar. E só me acontece às sextas. Porque me faz mal a tudo excepto à força de viver. Podem contrapôr que a força de viver vale mais. E nego, ora essa. Sabem lá o trabalho que me dão as minhas maleitas todas a ir a pior manhã adiante e depois pela tarde. Ah, pois é, eu é que sei quanto me custa a força de viver. Mas pronto, é uma dia por semana. E juro, enquanto bebo o tal café com leite, nada me atinge. É assim como estar numa nuvem ao solinho e sem precisar de chapéu. Um céu aberto.
Agora vem a força de viver. Sim, porque eu a viver com muita força, denodo. Como ela extravasa, ponho-a a uso no trabalho braçal. Isso. E se pensam que é mal empregue, também se enganam. Porque a limpeza das sextas tem um senão, prolonga em demasia. Devia ser coisa rápida, mas não é nem pode ser. Aplicando a força de viver, demora e dói menos. Sendo sincera, sem ela não sei se conseguia ânimo. Vantagens, portanto. Pela hora de almoço, empreendo em ir nadar (como se não esteja já cansada). Almoço num parentesis que ainda assim me atrasa, e chego en retard , feita penetra, as pistas ocupadas. Não hoje. Éramos só nós, eu e ela, a água quente.  Doce conluiu. Estou capaz de dizer que a água estava contente do meu contentamento. Bom, acho que ver-se livre de separadores também ajudou. Nadar em água quente despe-me o cansaço, lembra-me quem fui em tempos e, recuando mais e mais, deixa-me no útero materno de onde não devia ter saído; escusam de me chamar nomes, porque era impossível ficar lá ad eternum, a natureza tem suas leis.
Na hora seguinte, a piscina fecha para limpeza. Os funcionários não sabem, mas aspiram os meus cansaços, as penas, os lamentos, as dores que ali vou deixando às braçadas e só pesam. Remói-me o trabalho que dou, mas alivia-me saber que, quem venha a seguir, não se conspurca. Aquilo é matéria lesiva, pior que radioactividade.
Saio bonançosa e acontecem-me coisas boas. Encontro quem não via quase há trinta anos. Deixo-a embrulhada em conforto, um toque de alegria e orgulho na voz, “conheceu-me e ainda se lembra do meu nome, nunca pensei, estou diferente e era tão tímida...”. Olhei-a a sorrir e pensei, não sabe, não adivinha a linha afectiva que todos guarda.

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