quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Eu vim de longe...de muito longe...

Lisboa acorda para um sol enrugado, velho de haver frio e ser inverno. Nas ruas e avenidas, alguns automóveis avançam sem pressa e os autocarros passeiam a meio gás  e despedem, sem dó, golfadas de gente amorfa. Gente trabalhadora que começa cedo, que desce e boceja metro fora;  autómatos estudantis encapuçados,  mala ao ombro, desabitados de ideias e sonhos,  o enigma dos olhos sem vislumbre de intenção.
Não há ainda a pressa das manhãs. Faltam as senhoras perfumadas e vivazes que pisam em pontas, tic, tic, tic; as jovens álacres que brilham num mar de cabelo sedoso e unha longa, botas a alcançar a coxa bem desenhada; os eficientes executores de ordens, alinhados em fato e gravata, óculos a compor o semblante; as enxurradas de teens tagarelas e desportivas. Este roldão de vivacidade chega mais tarde, em hora de ponta.
Entre as sete e as oito, o metro é sofrido e macambúzio: traz gente da Damaia, de Alfornelos e outros longes. Vêm do outro lado do rio, de Torres ou Santarém, do comboio ou autocarro que os vomita na estação de Restauradores ou em qualquer fim de linha.  Gente que se levanta às cinco, deita à mochila a sandes do pequeno almoço embrulhada em papel de alumínio, e sai estremunhada para a noite de um autocarro ou comboio salpicado de parceiros conhecidos. Gente que pouco se cruza com o lisboeta citadino e os seus cheiros a banho fresco e ar condicionado. Que come a sandes no metro, depois de a desembrulhar em cuidados, ainda assim não caia o recheio que mãos femininas – quase todas femininas, sim – ali acamaram com amor e desejo instante de presença, nos vincos do alumínio restos de agonia macerada. Fecham os olhos por minutos e, contando as estações de cabeça, antecipam cada etapa e estremeção da carruagem. Viajam meditabundos e sem chama, estranhos até de si, despreocupados da vizinhança. Mas  o corpo levanta-se e sai na estação certa.

Talvez a viagem seja um hiato e, entre a alternância de papeis, haja um eu que descontrai, é repouso de actor  no camarim.

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