sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

À Sexta

Às sextas  gosto de leituras fáceis, bem dispostas, meio arrelampadas. Eduardo Lourenço que se lixe e mais o Pessoa e mais outros que tais que às vezes me apetecem. Às sextas estaria desasada se não fora a intervenção milagrosa e explosiva de um café com leite de minha lavra, um triplex da cafeína aceitável, esculpido em delta platina e que me sabe extraordinariamente bem, me faz bastante mal e me dá velocidade de comboio elécrico (salvo seja)  por comparação com o inteirinho da semana em deslocações de carvão e fumaça. Fica-me mal dizer isto, mas às sextas, volto a frisar, não estou em mim (mas também não estou em mais ninguém), desabito-me, chego a parecer quem já fui. Dedico-me afectuosamente aos afazeres domésticos que nos outros dias destrato, nado com o afã de quem faz um salvamento - ou mesmo uns dois ou três de atacado -, sou aberta e bem disposta para mundo e redondezas. Não estou no em mim do presente. Por qualquer razão que vive na cafeína, esqueço-me de ser o eu hodierno e viro-me decidida para quem fui. Custa-me reconhecer isto, mas às sextas, a droga dá-me embalagem. Não há que ver ou acrescentar, um café com leite especial chuta para canto o eu que sou e vai buscar aquelazinha que nos retratos me sorri (muito sem idade, ela). E depois apetece-me o nonsense, querem o quê (não querem; neste espaço, o querer é meu).
Mas há noites de sorte. Por vezes, a Visão (revista) faz-me a vontade. Põe-me na frente dos olhos uma crónica bem disposta e melhor urdida, de Ricardo Araújo Pereira. A Boca do Inferno cai-me quase sempre como água fresca em boca sedenta, um céu em ponto pequeno. Fico mais consolada que o bebé a quem mudam a fralda. É um gosto, aquele rapaz.  O meu gosto, quero dizer.
Mas esta semana não havia uma crónica bem humorada. Não. Esta semana, listei um par de crónicas. Pois é, o Miguel supreendeu-me. Sempre pensei que Miguel Araújo é outro rapaz que escreve bem, mas quer ter mais graça do que a que tem. Mas não desisti (e nem ele), continuei a ler o que escrevia. Não abandonei o osso. Oh, enchia-o de críticas e reticências, preferia ali um escritor (ainda prefiro), apostrofava a revista, maldizia terem despedido os escribas residentes, sei lá. Um ror de coisas, as queixas também são como as cerejas. E não é que esta semana o garoto acertou no totoloto do bom humor?! “Velho para ser novo e novo para ser velho” é o que quer ser. E toda  gente sabe, conseguida esta identidade, o resto sãom peanuts. Pode  ser laxismo meu e nivelação por baixo?! Não me parece, nestas coisas de escrever sou esquisitinha e bato sem reserva, salvo se a amostra é má demais. E não, a cafeína não tem a ver, que a velocidade de carvão já me regressou.

Portanto, enquanto vou descansar da fumarada e travar a fundo, vão ler os dois artigos. Confiram. Valem. 
E a sexta já foi.

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