quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A Suculenta na Janela

Chegaste de vaso na mão e, num meio sorriso de menino, disseste em tom desculposo, “está a morrer, vê se podes fazer alguma coisa por ela.”. E pousaste sobre a bancada uma suculenta  a abarrotar de criação. Entregue a encomenda, foste à tua vida. Descansaste. Doravante, era comigo. Vida ou morte. Observei o vaso minúsculo sem um espaço livre, uma micro selva de folhas carnudas e aguçadas que despontavam em todas as direcções. Pensei que havia erro no teu vaticínio, a planta transpirava de rebentos novos. Erro meu. Via o chapéu, mas não os pés. E são os pés que andam.
À tardinha, fui investigá-la melhor. Mal tentei desvasá-la, esfrangalhou-se-me mãos fora, num pedido de socorro tão instante que me deixou sem jeito, os rebentos escapando sob a incredulidade dos meus dedos incapazes, a isolarem uns dos outros no pavimento solado. Tão verde e a morrer. Tinhas razão, morria de tanto procriar. Morria de tanto alimentar o sonho de vida. Não o seu, sufocado no centro do vaso, em tamanho de desistir. Alimentava o sonho de vida dos seus rebentos. Mãe vegetal e esquecida, estiolando em cedência de alimento e espaço de raíz. Repartia-se inteira e completa. Desapareceria se tal lhe fosse possível. Quando lhe tomei o corpo exangue e desagarrado de terra, entendi o despojamento.
Enquanto procedia à operação de resgate e salvamento, vasinhos em fila indiana, lembrei minha mãe, “não se mudam flores em Janeiro”. Mas não havia outra solução. Envasados à unidade. À mãe, para não restar solidão, deixei dois filhos por perto e alarguei espaço e terra.

É possível que ao plantá-los lhes tenha aberto a sepultura. Só Deus sabe. Rezo ao deus natural das plantas, que zela por água e alimento, que desvia moscas e piolho nocivo, que as faz crescer e lhes dá folhas e flores. E espero neste esforço comum de todos. Quem sabe se não contrario a maldição de Janeiro e daqui a uns tempos te devolvo a suculenta e seus rebentos...

2 comentários:

  1. Asa plantas exigem carinho e dedicação. E mesmo assim nem toda a gente tem sorte em elas crescerem e se fazerem lindas como a natureza
    .
    Tema: * O Silêncio da Luzência em noite escura *
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    Continuação de um Ano Feliz
    Bom dia

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  2. Obrigada pela visita e como algo simples conduziu a um texto escrito repleto de criatividade!!!
    gosto ...
    O filho está recuperando bem!
    A novidade de hoje é aqui:
    https://mgpl1957.blogspot.pt/2018/01/pensamentos-luz-das-velas.html
    bj

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