domingo, 8 de outubro de 2017

Rascunho de Viver

Em tempos, tive o privilégio e a oportunidade de ler uma conversa entre um caderno e o seu proprietário, cujo teria uns dez anos. Uma pérola de amor ingénuo. Haja Deus, que a memória é de venetas e bastas vezes lhe dá para guardar não-prestas, na minha terra ditos “torgia”, termo que não escutei noutros lugares e a que não conheço grafia (portanto, pode estar mal escrito). No meu sítio, assim por junto e em via oral, "torgia" designa uma miscelânia de coisas sem qualquer préstimo. Ontem, folheando os meus cadernos, lembrei a pequena composição escolar. Já lhe perdi frases concretas, mas sei que transpirava a fidelidade intrínseca entre garoto e caderno. Eram parceiros numa relação feliz. O meu amor aos cadernos comunga de idênticos princípios.
É verdade que as agendas me auxiliam na economia doméstica e são o meu diário de gastos. Mas é nos cadernos que pulsa a minha vida. Folheá-los é recuar sobre os passos, saber o que fiz e com quem. Desarrumada congénita, tudo por lá se encontra na sequência da sucessão temporal. Quase aposto que a miscelânea de assuntos que detêm é também uma “torgia”. De recados a apontamentos, pedaços de cartas difíceis por pragmáticas e dirigidas a instituições diversas, listas de pessoas, projectos em várias fases de desenvolvimento, frases que li e gostei, endereços e outras formas de contacto com dia, hora... rascunho de mails em colectivo, resenhas de conferência, pensamentos pessoais, reuniões e muito trabalho profissional. Quanta gente encontrei ontem sem que ao menos uma dessas pessoas soubesse do encontro! Algumas marcaram-me para a vida, não seria a mesma sem elas. Umas por bem. Outras por mal.
Agradeço à minha desarrumação o enredo vital e manuscrito dos meus cadernos, ao ritmo de um por ano de vida. Ainda hoje me invade o doce impulso de comprá-los e tenho-os em excesso. Faz-me bem mirá-los assim quedos e próximos, em virgindade intocada. E há quem mos ofereça na certeza de agradar. Ontem, desfolhei os pretéritos. E encontrei-os a escorrer a minha vida com os outros. Na abertura do primeiro, julgava-me em despedida final. Pretendia queimá-los um a um, elevar ao nada páginas e páginas de não importância. E soube de imediato que não conseguia. O acto de preservar foi involuntário, mais parecia acto reflexo.

Portanto, hei-de juntá-los. Primeiro dou-lhes colo, mimo-os (e me) e adormeço-os como a bebés. Depois, deito-os cuidadosa e materna em berço de caixa e embalo-os para não acordarem. Um dia não muito longe, vai sobrar nos filhos a memória da mãe que tiveram. Não serei na sua memória quem me desejo, mas a lembrança do que neles se formou com o que de mim e por mim sentiram e souberam. Então, sem consulta, vão atirar tudo fora. Mas serão eles a fazê-lo. Não é a mesma coisa.

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