segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o Meu Padrinho de Empréstimo

Lembro-me de si desde um casaco azul e uma bicicleta de pedais na descida dos eucaliptos. Era um casaco de dralon, mescla de fios entre o azul e o negro, alguns ligeiramente brilhantes. Nesse tempo de mangas de camisa e calça de cotim, parecia um príncipe. É verdade, padrinho, e a camisa branca a espreitar por dentro do casaco, aumentava a minha admiração. Olho com atenção e nada restou das pestanas arqueadas e das centelhas brincalhonas a esverdear  pela íris, encantos que migraram para filhos e netos. No lugar da destreza antiga, uma cadeira de rodas a amparar o corpo magro. E na voz uma mistela de sons desarticulados, a gente a aproximar-se num esforço inglório de compreensão, apenas para o ver contente de  “ ainda consigo falar com eles”, participo.
Não sei que fez a vida ao rapaz do casaco azul. Agora há o incompreensível de um babete sobre a camisa que já não é branca e há a baba que corre; há os pulsos finos meio mortos e as mãos trementes; há os pés que temos de ajeitar-lhe no estrado. Devagar. Cuidadosamente. E há a minha madrinha a dar-lhe bocadinhos de torta. Parte a fatia pedacinho a pedacinho e alimenta-o na boca, qual mãe desvelada. Observo este exercício de ternura manual, todo entretecido de dedos cuidadores. E oiço-o dizer baixinho “saudade da nossa casinha”. Mas logo depois me olha e a voz se perde; é a tradutora que revela, “estamos mais velhos”. E estamos, padrinho, estamos os dois mais velhos. Que as nossas mães escolheram o mesmo dia e mês para nascermos.
No fim da visita, está de mão dada com a minha madrinha. Mudo e triste. Como se só a mão ali esteja ainda presa à terra, o resto do corpo ausente. Ao meu beijo, murmura sem tradução, “cumprimentos a teu pai”. Tenho vontade de o abraçar. Era sempre assim que nos despedíamos em vossa casa quando eu aparecia inesperada, um doce de braçado. Minha madrinha fervia um chá de ervas que aquecia e aromatizava a casa, punha a toalha na mesa e chamava-o para dar-lhe tempo a empurrar o andarilho e chegar no momento de servir.
Não sei pensar-nos agora. Portanto, é provável que opte pelo passado. A morte é sempre triste, padrinho. E muito solitária.


2 comentários:

  1. Não sabia que a bea tinha um blogue. Foi ao querer recuperar o seu comentário e a minha resposta que cheguei até aqui.

    A morte é triste e solitária, porém temos que a aceitar, embora custe muito.

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